A recepção aos alunos em Hogwarts foi onde tive o primeiro contato com Dolores Umbridge, funcionária graduada do Ministério da Magia e nossa nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ela era capaz de inspirar uma antipatia imediata, e se eu tivesse que resumir em uma palavra minha primeira impressão, diria: falsidade.
Ela fez um rápido pronunciamento (sem ser convidada por Dumbledore) em que criticou supostas práticas progressistas, defendendo sua proibição. Entendi que foi uma defesa de algum tipo de censura, o que significava que o Ministério estava intervindo em Hogwarts.
Isso ficou ainda mais evidente na primeira aula com ela, em que esclareceu que o Ministério exigia apenas que fôssemos aprovados nos exames demonstrando conhecimento teóricos, sem necessidade de praticar feitiços de defesa. Era a coisa mais absurda que eu já tinha visto, e Harry ficou tão revoltado que respondeu e recebeu uma detenção logo na primeira aula.
Essa detenção nos deu uma primeira amostra do que Umbridge era capaz, e a que tipo de método recorria para atingir seus objetivos, pois foi onde torturou Harry com um castigo físico. Por mais que eu e Rony insistíssemos, ele se recusou a contar para Dumbledore, que quase não víamos mais na escola.
A situação não estava nada boa, e só piorou quando Umbridge foi nomeada Alta Inquisidora de Hogwarts. Ela agora assistia as aulas de outros professores e os avaliava, criando um clima de desconfiança. Apoiada pelo Ministério, sua influência na escola só crescia, e suas ações eram arbitrárias e marcadas por punições excessivas.
Eu já havia lido todo o livro de referência indicado por Umbridge e o achava ultrapassado em muitos aspectos, mas o pior era não podermos praticar feitiços, pois tínhamos que aprender a nos defender. Consegui convencer Harry disso, e daí nasceu a Armada de Dumbledore, um grupo de alunos que se encontrava secretamente para treinar feitiços defensivos sob a orientação de Harry, que era a pessoa mais indicada para isso na ausência de um professor.
A novidade boa na escola é que Hagrid havia voltado de sua missão junto aos gigantes (não tão bem sucedida assim). Hagrid logo entrou na lista de professores colocados em observação por Umbridge. A forma como ela o ridicularizou durante a observação da sua aula e as risadas de Draco e da vaca da Pansy Parkinson me deixaram revoltada.
Eu jamais admitiria que não achava Hagrid um bom professor, pois ele era uma das pessoas que eu mais gostava na escola. Suas aulas eram uma mistura de doce e amargo, e confesso que o fato de serem compartilhadas com Sonserina influenciava um pouco minha avaliação.
Harry estava sentindo sua cicatriz doer com mais frequência - eu suplicava para ele resistir e interromper essa ligação involuntária com a mente de Voldemort, mas ele não me ouvia. No fundo, eu o compreendia, pois sabia o que era insistir em sentimentos contrários a toda racionalidade.
Apesar da minha preocupação, foi graças a essas visões que Harry viu o ataque de Voldemort ao Sr. Weasley, e pode alertar a tempo de salvá-lo. Dumbledore determinou que ele tivesse aulas de oclumência com o professor Snape, mas Harry não gostou nada do arranjo. Ele não confiava em Snape.
Outra boa ideia que tivemos foi Harry dar uma entrevista ao Pasquim, contando sua versão sobre o retorno de Voldemort. Obviamente, Umbridge proibiu a leitura da entrevista, publicando um decreto que ameaçava de expulsão quem o fizesse. O resultado prático disso foi que todos leram o artigo. Aos poucos, estávamos reagindo, mesmo que com pequenas conquistas, e isso era fundamental para manter alto o moral da tropa.
Por sua vez, Draco Malfoy se comportava da forma odiosa de sempre, como uma criança que ignorasse ter crescido uns bons centímetros e continuasse a fazer birra. Agia de forma displicente em relação à situação que estávamos atravessando. Tudo para ele parecia se resumir à conquista de um jogo: seu pai era um Comensal da Morte, ele era monitor e havia caído nas graças de Umbridge, o que poderia ser melhor do que isso? A campanha que animou contra Rony no jogo de quadribol foi desrespeitosa e cruel, e a surra que levou de Harry e Jorge (e que resultou na proibição dos dois voltarem a jogar) não contribuiu em nada para sua moderação. Foi mais um episódio lamentável.
Mas havia mais um fator. A sua fama de sedutor e recordista em relacionamentos casuais só crescia, pelo menos é o que eu conseguia deduzir pelas conversas que ouvia, às quais estava mais atenta, como se estivesse levantando observáveis para comprovar uma hipótese experimental. Isso deveria chatear bastante Pansy Parkinson, o que era um consolo meio tosco.
Nada que um pouco de Poção da Paz não pudesse ajudar - eu mesma recorria a ela de vez em quando, desde que aprendera a fazê-la na aula de Snape. Certamente, era uma poção popular em anos de exames, ainda que não fosse fácil de preparar.
Também investia na saída habitual de me ocupar. Se, para os outros alunos, ter que estudar para os NOMs já era uma tarefa muito superior às suas forças, para mim era insuficiente. Eu precisava ocupar minhas horas livres para não ficar pensando no que eu não queria pensar.
Havia as atividades da Armada de Dumbledore, que eu ajudava a coordenar e a marcar os encontros. Todo o treino que fazíamos me dava uma sensação de potência, de estar reagindo, e isso fazia bem não só para mim, mas para todo o grupo. Continuava a tricotar gorros e luvas para os elfos, pois não poderia abandonar o projeto de conscientização, ainda que eu fosse ridicularizada por isso, como uma espécie de Luna Lovegood dos excluídos.
Também me correspondia com Vítor, o que me preenchia de alguma forma, pois as nossas cartas animavam nossa amizade em construção - apesar de que, vez ou outra, ele insinuava algo mais romântico, o que eu continuava a repelir com delicadeza.
Rony parecia bem contrariado cada vez que o assunto era Vítor - será que ele, finalmente, estava se interessando por mim? Como seria tudo mais fácil se eu namorasse com Rony, era algo que se encaixava muito melhor no meu planejamento de vida.
E havia, é claro, as atividades como monitora. Umbridge não interferia diretamente nisso, pois quando ela queria "disciplinar" alguém não precisava dos monitores e agia por conta própria. Como era esperado, Draco Malfoy continuava abusando de suas vantagens como monitor, ainda mais agora, que era um dos favoritos de Umbridge. Fawley e Robbins ficavam incomodados com isso, mas procuravam nos orientar para mantermos o foco nas nossas tarefas, como a organização dos eventos e a supervisão do deslocamento dos alunos menores em algumas situações, bem como a ronda pelo castelo.
Os monitores se revezavam na ronda do castelo de acordo com um cronograma montado pelos monitores-chefes. Nossa tarefa era circular pelas áreas comuns e de acesso aos dormitórios das casas das nove às dez horas da noite, logo após o encerramento do horário de atividades dos alunos. Não era uma tarefa muito exigente, uma vez que todos estavam com cada vez mais medo das punições de Umbridge, e fazia tempo que não encontrávamos um aluno circulando fora do horário sem um motivo relevante.
Naquela noite, estava quase chegando ao fim da ronda com Rony. Caminhávamos em silêncio, cada um imerso em seus próprios pensamentos e desejando que a tarefa acabasse logo, quando ouvi um ruído meio abafado, e chamei a atenção de Rony. Parecia um farfalhar, alguém se movimentando meio apressado e uns sussurros, não dava para perceber bem. Paramos e eu perguntei:
- Quem está aí?
Após um silêncio, eu continuei:
- Pode sair, nós estamos ouvindo você.
Andressa Stone, aluna do quinto ano da Lufa-lufa, saiu de um corredor que levava à escada lateral, meio escuro. Ela nos olhava mortificada, respirando ansiosa, e vinha ajeitando as roupas, que estavam desarrumadas, como se ela tivesse vestido a primeira coisa que encontrou para atender a porta. Sobre uma saia de lã pregueada, usava um moletom com a imagem de umas abelhinhas infantis voando em torno de uma colméia, que ela espanava de forma um pouco desastrada, como se quisesse apagar os vestígios do que quer que estivesse fazendo.
- Andressa? O que você está fazendo aqui? Já são 21h45.
- Eu… vocês não imaginam, eu me perdi… estava tentando devolver um livro, achei que não ia conseguir pegar a biblioteca aberta, eu acho que peguei o caminho errado.
- Pegou mesmo, a biblioteca fica dois andares mais pra baixo - Rony disse.
- Que tolice a minha… são os NOMs, não estou conseguindo pensar direito…
Eu e Rony nos olhamos. Com certeza, era uma desculpa muito mal dada, e nem eu nem ele acreditamos.
- Você sabe que não é permitido circular após as 21h, não sabe? Ainda mais tão longe do seu dormitório.
Andressa ajeitava o cabelo desarrumado e continuava a respirar de forma ofegante, procurando as palavras. Parecia que ela já havia gastado todo o vocabulário disponível.
- Sim, eu sei… é que… eu tentei voltar, nem sei direito em que parte do castelo estou…
Rony me olhou como se estivesse me pedindo para pegar leve com ela. Eu concordei silenciosamente - afinal, que mal ela poderia estar fazendo? Nem eu, muito menos Rony, estávamos com cabeça para perder tempo com aquilo. Contrariando meus princípios, disse:
- Tudo bem. Mas não faça mais isso, pode ser perigoso circular nos corredores sozinha. Você sabe, com tudo o que anda acontecendo…
Ela me olhou com o rosto iluminado, como se eu fosse uma fada boa ou algo assim. Rony emendou rapidamente, antes que eu mudasse de ideia:
- Eu te acompanho até a entrada principal - e volto pra te encontrar, Hermione.
- Não precisa - respondi. - Pode descer com ela, eu termino a ronda sozinha, só falta esse corredor mesmo, e te encontro lá na entrada.
- Tudo bem, até.
Rony partiu com a aliviada Andressa, que parecia se controlar para não sair correndo. Fiquei olhando os dois sumirem no corredor.
- Muito generoso da sua parte, Granger.
Eu literalmente pulei de susto, o coração na boca. Virei rápido na direção dele, que tentava sem muito sucesso sustentar o sorrisinho cínico, estava quase rindo. Devia estar se divertindo muito em ter me assustado.
- Malfoy! O que você está fazendo aqui?
- Eu não devo satisfações a você, Granger. Sou monitor, posso circular à vontade.
- Você sabe que não, hoje nem é o dia da sua ronda.
- Eu tinha uma tarefa inadiável, sabe como é, muitas responsabilidades - respondeu, agora sim, com o sorriso cínico perfeitamente ajustado.
De repente, me dei conta do que estava acontecendo.
- Você estava com a Andressa! Você… Malfoy, você sabe que não é permitido!
- O que você é, Granger, uma monja ou algo assim? Os sangue ruins não transam? Não precisa ficar com ciúmes - disse, quase rindo.
Eu estava tão furiosa que devia estar da cor do meu cachecol da Grifinória. Ele teve a coragem de vir se amassar com uma garota bem na minha ronda com o Rony! Se fosse qualquer outro, eu o arrastaria até a sala da professora McGonagall, mas como eu iria provar? Eu estava sozinha e seria a minha palavra contra a dele, que me olhava com a convicção de que poderia inventar qualquer história, pois seria acobertado por Umbridge.
- Você se acha muito esperto, não é, Malfoy?
Ele começou a se aproximar de mim. Eu ofegava de raiva, e instintivamente procurei a varinha. Ele chegou mais perto.
- Vai me estuporar, Granger? Pensei que você conhecia os regulamentos… Alunos não devem usar feitiços uns contra os outros, ainda mais os monitores.
Ele estava cada vez mais perto. Eu olhava com ódio, mas começava a sentir os efeitos da proximidade dele. Sua energia, seu sorriso cínico e as notas de cedro, sândalo e musgo estavam nublando minha percepção, e eu já não conseguia pensar em nada para dizer, nem como reagir.
- Sabe que, pra uma sangue ruim, você é bem gostosa?
E sussurrou no meu ouvido, agora perto demais:
- Se você quiser, eu te mostro o que estava fazendo com ela…
Eu pulei para trás, como alguém que escapa do encanto de um círculo mágico, e empunhei a varinha, que ficou a centímetros do rosto dele. Ele recuou instintivamente, e obtive o efeito imediato de desmanchar aquele sorrisinho, substituído pelo risco fino nos lábios. Ele me olhou sério, e pela primeira vez na noite, reencontrei aquele olhar que trocara com ele algumas vezes e que havia me abalado tanto.
Mas continuei firme, o gesto preciso na empunhadura da varinha. Por mais arrogante que ele fosse, sabia que estava em desvantagem, e a minha expressão enlouquecida deve tê-lo deixado com receio - será que havia provocado Granger além do limite, como naquele dia do tapa? A diferença é que agora eu estava armada. Será que ele ia arriscar? Eu seria punida, mas ele também ia se dar mal, e a minha postura indicava que eu estava disposta a tudo. Não quis esperar a resposta:
- Cai fora, Malfoy.
Ele começou a se afastar lentamente, de costas, sem despregar aquele olhar de mim. Depois se virou e entrou na passagem escura por onde veio, descendo as escadas. Eu tremia dos pés à cabeça. Não podia deixar Rony me ver desse jeito. Entrei no banheiro e joguei água no rosto, tentando respirar mais devagar e me acalmar.
- Você demorou, já ia atrás de você - Rony falou, ao me ver.
- Eu dei uma última checada na escada, para ver se estava tudo bem mesmo. Vamos? Eu estou muito cansada, não vejo a hora de dormir.
Voltamos para o alojamento da Grifinória, Rony quase correndo para me acompanhar, mesmo que as pernas dele fossem muito maiores que as minhas. Ele já me conhecia o suficiente para saber que havia momentos em que era melhor permanecer calado, e este era com certeza um deles.
Nos despedimos na Sala Comunal e subi ao dormitório. Vesti o pijama de qualquer jeito e entrei debaixo das cobertas. Lancei um feitiço silenciador sob o dossel da cama - não queria que ninguém me ouvisse chorar.
