No dia seguinte, meu humor estava sombrio. Agradeci aos céus por não ter aula com os garotos pela manhã, e principalmente por não ter nenhuma aula com a Sonserina. Corri para a biblioteca, alegando que precisava de absoluta concentração para fazer uma tradução de runas antigas. Harry e Rony tinham tantas tarefas atrasadas para fazer que nem perguntaram muito.

Eu me sentia naquele ponto além do sofrimento, quando alguém constata que nem vale a pena chorar. Esse ano tinha começado estranho e triste, e eu não estava aguentando mais carregar esse sentimento opressor sozinha. Eu poderia tricotar quilômetros de lã e não me sentiria melhor.

O ambiente em Hogwarts não ajudava. Umbridge fez sua primeira vítima entre os professores, e demitiu Trelawney do cargo de professora de Adivinhação. Foi um episódio constrangedor e humilhante. A professora chorava ao lado de suas malas, jogadas no chão do pátio, sob os olhares assustados dos alunos, o que parecia não afetar Umbridge, que respondia com seu melhor sorriso hipócrita.

Dumbledore teve que intervir para que a professora Trelawney continuasse no castelo, caso contrário ela não teria para onde ir. Foi um episódio degradante, e mesmo não gostando dela, senti pena. Naquele momento, eu não poderia imaginar os efeitos que a demissão da professora Trelawney teriam em minha vida.

O novo professor indicado para o cargo por Dumbledore desagradou Umbridge e empolgou os alunos na mesma medida. Parvati estava animadíssima, e pensei comigo: bruxo morto, bruxo posto. Para seu horror, disse a ela que não gostava muito de cavalos. Ela e Lilá suspiravam apaixonadas pelo novo professor, que diziam ser lindo.

Para não ser injusta com elas, contaram que se preocuparam em fazer uma visita à Trelawney, que estava inconsolável. De qualquer forma, essa história ainda não ia acabar bem, pois Umbridge não engoliria passivamente a indicação de Dumbledore, e ela estava com um centauro atravessado na garganta.

Harry e Rony ficaram bem impressionados com a primeira aula do professor Firenze. Ele era, sem dúvida, muito diferente da charlatona da Trelawney, e pelo que pude perceber tinha uma abordagem mais filosófica da Magia Antiga. Os centauros eram reconhecidos mestres na leitura dos astros. Confesso que fiquei curiosa para conhecê-lo, mas não admiti. Não queria dar o braço a torcer, muito menos que os garotos suspeitassem que eu me interessava mais por Magia Antiga do que deixava transparecer.

Minha oportunidade chegou graças às tarefas da monitoria. Robins estava fora por alguns dias para visitar a avó doente, e Fawley me encarregou de procurar o professor Firenze para dar a ele as boas vindas em nome da equipe de monitoria, uma vez que estava na enfermaria por ter sofrido um acidente no treino de quadribol e só poderia encontrar o professor pessoalmente em alguns dias, quando tivesse alta. Ele pediu para que eu verificasse se o professor precisava de algo que pudéssemos ajudar, e que manifestasse a ele as boas vindas em nome dos monitores.

O fato de Fawley ter me escolhido para essa missão diplomática de boas vindas, apesar de eu ser uma jovem monitora do quinto ano, não era casual. Eu costumava me destacar na monitoria assim como nas aulas, e pensava que, no futuro, teria boas chances de ser indicada para monitora-chefe no sétimo ano. Se eu soubesse como seria o meu sétimo ano, e que ser ou não monitora-chefe seria a minha última preocupação, ficaria bastante espantada.

Ao entrar na sala onze me detive, fascinada. Os garotos contaram que ela havia sido encantada para parecer uma floresta, mas eu não imaginava um trabalho tão minucioso. Não conseguia precisar bem qual seria a hora naquela floresta, se um amanhecer ou entardecer. Uma névoa envolvia o ambiente, mas diferentemente da sala sufocante da professora Trelawney, era uma fumaça suave, com cheiro de grama recém cortada, que era um dos cheiros que eu mais gostava.

A floresta parecia viva através de movimentos sutis, quase imperceptíveis. Seus ruídos se faziam presentes de forma suave, e ao fundo se ouvia um som contínuo e grave, como um mantra. O céu estava escuro o suficiente para que se percebesse as estrelas brilhando suavemente, entre as quais se destacava Marte, que reconheci pela cor e posição naquela época do ano. A impressão que eu tive, ao entrar lá, é que o tempo estava suspenso.

Fui me aproximando do centro da sala lentamente. Foi quando notei uma mulher de costas para mim, que parecia observar a floresta, absorta. Ela possuía um porte nobre e elegante. Estava com uma veste cor de areia, um tipo de túnica grega. A pele morena, mediterrânea, combinava com os cabelos escuros e volumosos, dispostos em um penteado elaborado, que conferia a ela ainda mais imponência. Ela virou o rosto lentamente para trás, na minha direção. Eu havia parado onde estava no momento em que notei sua presença na sala. Admirei seu belo perfil grego, os olhos dourados e escuros, a boca bem desenhada e quase da cor da sua pele, que já mostrava alguns sinais do tempo. Isso, no entanto, a deixava ainda mais bela.

- Desculpe, senhora… eu não pretendia interromper, vim procurar o professor Firenze.

A forma com que ela olhava transmitia um sentimento de autoconfiança, como se ela já tivesse visto a morte de perto e superado. Ao mesmo tempo, possuía um ar maternal, e por mais que sua presença fosse impressionante, eu não estava com medo. Sua figura era tão marcante que mesmo hoje, passados muitos anos, basta que eu feche os olhos para que todos os detalhes dela voltem tão nitidamente como naquele momento, e sinto minha pele arrepiar como naquele dia.

Ela continuou se virando em minha direção, vagarosamente, sem dizer nada nem sair do lugar. Estava com os braços cruzados na frente do corpo, o braço direito apoiando-se levemente na frente da cintura, como se acariciasse discretamente a si própria, e a mão esquerda postada no colo, próxima ao pescoço, brincando com seu colar magnífico de forma distraída, um trabalho em um metal dourado escuro, num acabamento rústico.

Na mesma sequência do movimento que havia feito ao se virar para mim, ela lentamente começou a baixar a mão que cobria o medalhão central do seu colar, que ostentava uma abelha dourada magnífica, polida de forma a se destacar do conjunto de colares e da própria mulher, em um mudo diálogo com o brilho dourado dos seus olhos.

Me senti privada de todos os sentidos, como se finalmente tivesse me dissolvido e misturado à névoa na sala. Não conseguia falar ou fazer nada, e ao mesmo tempo sentia meu coração disparar, naquela ansiedade que precedia a aparição de Draco.

- Não se preocupe, ele não virá.

Meu susto foi tamanho que me desequilibrei ao virar na direção da voz masculina e grave que atravessou a sala, como se alguém puxasse com força o fio que me ligava à terra.

- Desculpe… eu…

Procurei a mulher com os olhos, mas ela não estava mais lá.

- Eu… professor… me desculpe… quem não virá?

- O par do seu Synchro.

Eu me desequilibrei novamente ao dar um passo atrás, como se houvesse sido empurrada pelo impacto daquela palavra tão familiar, mas que eu nunca havia ouvido em voz alta. A enorme figura deu um passo à frente, oferecendo a mão como apoio, que segurei automaticamente. Retomei meu equilíbrio de forma precária, e perguntei:

- Quem? Como…

Ele continuou me olhando sem falar nada. Eu sabia que era impossível negar ou fingir qualquer coisa diante dele.

- Como você… o senhor… como sabe…

- Os sinais estão claros em você, para quem sabe lê-los.

Cobri a boca com as mãos, enquanto meus olhos foram se enchendo d'água de forma incontrolável. A última coisa que eu queria no mundo era chorar na frente de um professor que eu encontrava pela primeira vez, mas eu não conseguia me conter, e as lágrimas escorriam sobre as minhas mãos, como se transbordassem de uma represa cheia demais. Eu estava sofrendo há tanto tempo, tão sozinha. De repente, eu podia compartilhar esse segredo com alguém, e a sensação de alívio era indescritível.

Ele me olhava com calma, um olhar capaz de compreender o que eu sentia e me tranquilizar, como uma mãe que acolhe o filho após um pesadelo. Sua figura era impressionante: os cabelos claros e compridos, os olhos muito azuis, o corpo bronzeado em que músculos humanos e equinos se harmonizavam perfeitamente. Era mais do que lindo, era um semideus, uma aparição.

- Você sofre porque tenta compreender pela mente, e o Synchro não pode ser compreendido pela mente. Você é inteligente e corajosa, mas inteligência não é sabedoria.

- Eu tenho medo… - Falei, fechando os olhos e deixando as lágrimas escorrerem, sem tentar esconder.

- O que você teme é uma ilusão, e enquanto não se libertar disso continuará sofrendo. Essa libertação não depende apenas da sua vontade, não se pode acelerar o tempo das estações. O renascimento segue a morte, e o ciclo se repete. É preciso se entregar ao ritmo da vida.

- Como eu vou viver? Eu não posso, é impossível… pra ele e pra mim.

- Você acredita que só pode viver o Synchro através da relação com ele, o que mostra que ainda não entendeu. Você já está vivendo, e não é capaz de enxergar.

Tentando me recompor e juntando um pouco de fôlego, perguntei:

- Eu… É isso o destino, o Fatum? Somos meros fantoches, sem escolha?

- Como você vai viver o Synchro não está determinado. Sempre existe uma escolha. Mas você está marcada pelo Synchro, e isso não pode ser mudado.

- E ele? O… meu par. Ele também não tem escolha?

- Você sabe a resposta para essa pergunta, mas parece ter medo dela. Isso não vai ajudar em nada. É uma pergunta da menina que você ainda é.

Eu me senti uma garotinha, de fato. Mas ter encontrado um interlocutor tão qualificado me fez perder a timidez, e eu queria aproveitar a oportunidade para entender.

- Eu sei que você vai me achar atrevida e covarde, mas a única pergunta que eu realmente queria fazer é como eu tiro isso de mim…

- Essa é a pergunta mais sábia que você fez até agora, porque ela vem direto do seu coração. É possível remover uma erva de uma poção pronta, ou o aprendizado do alfabeto de um escritor? O que está na constituição de algo não pode ser removido, pois não pode nem mesmo ser tomado de forma separada.

- Eu imagino que sim…

- A mensagem dos astros não é determinista, e o caminho que você vai escolher é aquele que seu coração é capaz de reconhecer. Não queira viver uma vida que não é sua. Respeite os mistérios do ciclo de morte e renascimento.

Fiquei em silêncio, tentando digerir suas palavras. Ele continuou:

- É possível você se sentir melhor, eu posso ajudar. Não posso fazer o ritual completo que você precisa porque não posso mais entrar na floresta. Quando for possível, se você ainda quiser, eu poderei fazer. Mas por ora eu posso te mostrar o que fazer, que ervas usar, em que fase lunar. Vai aliviar a dor.

- Professor, eu não consigo expressar em palavras como estou agradecida… Eu não estou na sua aula, sabe…

- Você não precisa estar na aula. Pode vir quando quiser para conversarmos.

Notas:

A maravilhosa mulher na foto é a diva Maria Callas, cantora lírica grega, com o figurino do filme Medéia (1969).