Minha amizade com Firenze permaneceu desconhecida para as pessoas até muito depois da minha saída de Hogwarts, incluindo Harry, Rony e mesmo Gina. Firenze sabia o quanto era difícil para mim admitir meu interesse pela Magia Antiga, e não estava interessado em fazer com que eu reconhecesse isso publicamente, era o tipo de coisa mundana que ele desprezava. Eu continuava estudando Astrologia em segredo, e ouvia atentamente quando os garotos falavam das previsões dos centauros sobre a guerra que viria.
Também segui rigorosamente os encantamentos que Firenze me passou. Na Lua Cheia de Sagitário fiz o ritual com as ervas e feitiços indicados. Não fui à floresta, pois seria perigoso, mas fiquei na Torre de Astronomia, que estava totalmente banhada pela luz da Lua naquela noite. No dia seguinte, despejei as cinzas resultantes do ritual no pequeno córrego atrás da cabana de Hagrid.
Depois desse dia, comecei a me sentir muito melhor do ponto de vista afetivo. Já fazia algum tempo que eu não me encontrava com Malfoy, exceto nas aulas, de forma distante. Isso não estava me incomodando, muito pelo contrário. Sentia que ajudava no meu processo de cura interna, de cicatrização. Meu coração estava mais calmo.
De Hogwarts, porém, não se poderia dizer o mesmo. A Armada foi descoberta, e Dumbledore teve que sair da escola, não sem antes admitir toda a culpa sobre a conspiração - que nunca ficou comprovada, para desespero de Umbridge. Ela assumiu interinamente o cargo de diretora.
Na saída da aula de herbologia, Ernesto Macmillan parou Harry para saber detalhes da história do desaparecimento de Dumbledore da sua própria sala, que já era de conhecimento da escola toda, apesar da censura. Contou que soube que Umbridge teve um ataque quando não conseguiu entrar na sala de Dumbledore por desconhecer a senha. Rimos, e ele nos ofereceu uns doces. Li no saquinho que eram da Dedosdemel, e estremeci levemente. Respondi que ela provavelmente ficou se imaginando sentada na mesa de Dumbledore, e completei dizendo que ela era uma velha burra, presunçosa e ávida de poder.
Ouvi a voz de Malfoy me repreendendo e dizendo que iria tirar pontos da Grifinória. Acompanhado de Crabbe e Goyle, contou que agora integravam um grupo de alunos chamado Brigada Inquisitorial, que foram escolhidos a dedo pela nova diretora e que poderiam descontar pontos dos outros alunos. Sem se intimidar, descontou pontos de todos nós, e teve especial prazer em dizer que ia descontar mais dez pontos de mim por eu ser uma sangue ruim, pelo que tive que segurar Rony.
Malfoy não se dirigia diretamente a mim desde o dia da ronda no corredor, e por mais que ele tivesse me tratado da forma rude de sempre, não me senti abalada. Observei sua forma de me atacar, e achei que ele parecia interpretar um papel no qual ele mesmo não acreditava. O ritual de Firenze me fez bem de verdade.
Pela primeira vez, tive a intuição de que o fato de eu ser uma sangue ruim poderia incomodar Malfoy não só pelos seus preconceitos, mas porque, de alguma forma, ele se sentia atraído por mim. Lembrei da noite da quadrilha no baile de inverno, dos olhares intensos que trocamos sem palavras no corredor, no trem e no dia da ronda.
Tive a intuição clara de que ele devia se sentir atraído por mim também, e não compreendia por que isso acontecia, nem o que significava essa atração, assim como eu. Isso devia incomodá-lo profundamente, e a forma com que ele conseguia lidar com esse sentimento era me machucando, para me neutralizar de alguma forma.
Fiquei espantada com esses pensamentos - nunca havia raciocinado com tanta clareza sobre o assunto e visto nossa relação de uma perspectiva tão abrangente e nítida. Sentia que alguma coisa em mim havia mudado. Era como se eu pudesse pensar de forma objetiva sobre o Synchro, o que eu não havia conseguido até ali, por mais que tentasse.
Essa tranquilidade foi muito bem vinda - afinal, os exames estavam se aproximando. Eu os esperava como se fosse reencontrar minha natureza mais íntima e meu papel mais confortável: Hermione, aluna de Hogwarts.
Elaborei uma rotina de revisão sistemática de conteúdos não apenas para mim, mas para Harry e Rony também. Estudava de manhã até a noite, e não foram poucas as vezes em que levantei no meio da noite para fazer anotações de tópicos para revisar no dia seguinte (já deixava um pergaminho e pena preparados na mesinha de cabeceira).
Quando olho para trás, penso que deveria receber uma nota a mais por tudo o que tive que enfrentar simultaneamente aos exames. Enquanto estudantes normais se preocupavam apenas com o conteúdo a memorizar, eu me preocupava também em tricotar para os elfos, em conscientizar Harry sobre a necessidade de voltar a praticar oclumência, em segurar Rony para que não batesse nos alunos da Sonserina e com as insinuações de Malfoy de que passar nos exames dependia do bom relacionamento com os examinadores. Como se não bastasse, Hagrid nos incumbiu de visitar Grope, o irmão gigante que ele escondeu na floresta.
Com a aproximação dos exames, meu humor piorou. Percebi que Harry e Rony ficavam até com um certo medo de mim e cuidavam para não me dizer nada desagradável - o que era difícil, reconheço, pois eu implicava com tudo. Ainda bem que Malfoy me deu uma trégua, pois eu seria capaz de perder a cabeça com as suas provocações e transformá-lo em uma doninha, como no terceiro ano.
Harry continuava a ter as visões de Voldemort com cada vez mais frequência. Essa ligação acabou sendo a brecha pela qual ele foi enganado e atraído ao Ministério, acreditando que Sirius estava em perigo. Ele estava transtornado pela perspectiva de Sirius ter sido capturado, e não conseguia ponderar meus argumentos de que seria bastante improvável que Voldemort e Sirius estivessem no Ministério, como ele acreditava.
Mas eu e Rony precisávamos ajudá-lo, já que não tínhamos nenhum adulto com quem contar. A professora McGonagall estava internada, recuperando-se das azarações que recebeu no dia em que Hagrid foi perseguido por Umbridge, e ele também sumiu. Não se tinha notícias de Dumbledore desde seu desaparecimento, para completar.
A única saída era usar a rede de Flu da lareira da sala de Umbridge para tentar verificar se Sirius estava em casa, e Gina e Luna nos ajudaram com um plano para isso. Harry conseguiu conversar com Monstro e confirmou suas suspeitas, e agora ele estava decidido a ir salvar Sirius no Ministério.
A decoração da sala de Umbridge era um caso à parte, numa proporção inversa entre a perversidade da inquisidora e a meiguice dos detalhes decorativos. Eu devia ter desconfiado de algo quando observei a tampa da meleira, decorada com abelhinhas de prata.
Umbridge irrompeu na sala acompanhada de Malfoy e outros alunos da tal Brigada Inquisitorial. Ela agarrou Harry pelos cabelos, e Malfoy o desarmou. Rony, Gina, Luna e Neville foram trazidos também, todos contidos por alunos corpulentos como Crabbe, Goyle e Emilia Bulstrode, que segurou meus braços por trás, numa contorção dolorosa.
Umbridge chamou Snape para aplicar o soro da verdade em Harry, mas ele não tinha mais - ela havia acabado com todo o estoque utilizando-o nos interrogatórios dos alunos. Snape não fez nada para nos ajudar na hora, mas era perspicaz o bastante para entender a mensagem que Harry tentou passar a ele na frente de Umbridge, e poderia avisar a Ordem da Fênix. Umbridge estava descompensada, e revelando seu verdadeiro caráter, anunciou que ia extrair a confissão de Harry utilizando a maldição Cruciatus.
No desespero, inventei a história da arma secreta de Dumbledore, dizendo que estava escondida na Floresta Proibida. Eu só consegui pensar nos centauros e na sua postura de não atacar os filhotes, imaginando que eles poupariam Harry e a mim. Mas isso era bastante arriscado, pois eles estavam furiosos com os humanos de Hogwarts devido ao episódio com Firenze. Era importante que ela fosse sozinha, pois assim teríamos mais chance de tentar escapar.
Involuntariamente ou não, Draco acabou ajudando com a sua expressão de interesse na tal arma secreta, o que deixou Umbridge desconfiada e a fez decidir ir apenas comigo e Harry até a floresta. Ele parecia desapontado quando ela recusou sua companhia.
Fiquei andando meio sem rumo pela floresta guiando nosso pequeno grupo, pois imaginei que logo seríamos encontrados pelos centauros. Quando vieram, Umbridge agiu exatamente da forma que esperava dela e foi mais detestável do que nunca, chamando-os de mestiços. Eles a levaram, e não foi fácil convencê-los que apenas queríamos sua ajuda.
Os centauros têm uma forma própria de avaliar as relações com os humanos. Mesmo aterrorizada, não conseguia parar de pensar que eles tinham suas razões fundamentadas pela sua tradição, e minha admiração por Firenze contribuiu para que eu os enxergasse assim.
Por mais um golpe de sorte, fomos salvos por Grope e encontrados pelo pequeno grupo de amigos que deixamos na sala de Umbridge. Eles conseguiram escapar com feitiços e azarações bem aplicados em Malfoy e companhia, graças ao treinamento na Armada de Dumbledore.
Voamos nos testrálios até Londres - passei muito medo nas experiências dessa noite, e confesso que essa foi uma das piores, com a sensação do contato do animal contradizendo sua invisibilidade.
O que se segue é triste de relatar. Era uma armadilha, e fomos emboscados pelos Comensais da Morte. O objeto dos sonhos de Harry era uma profecia em uma esfera de vidro, que envolvia Harry e Voldemort, e apenas eles poderiam retirá-la, por isso o bruxo o induziu a vir ao Ministério. A visão de Sirius sendo torturado e que fez Harry vir tentar salvá-lo era uma ilusão, uma isca para atraí-lo.
O verdadeiro Sirius, acompanhado por Tonks, Lupin, Moody e Kingsley, apareceu para nos ajudar. Soubemos depois que foi Snape quem avisou a Ordem, preocupado com a demora de Harry em retornar da floresta. Muitos ficaram feridos, inclusive eu, mas o mais terrível saldo do enfrentamento foi a morte de Sirius, abatido pela maldição da morte lançada por sua prima Bellatrix.
Dumbledore e Voldemort surgiram e lutaram de forma épica, com Voldemort tentando matar Harry e Dumbledore defendendo-o. Para nosso alívio, Dumbledore venceu o confronto e Harry foi salvo. O resultado foi a destruição quase completa do salão do Ministério pela luta, que foi presenciada no final pelos funcionários e pelo próprio ministro Fudge. A menos que o Ministério quisesse negar o que todos estavam vendo, não havia o que fazer senão aceitar que Voldemort voltou, e que Dumbledore e Harry estavam certos desde o início.
Passei alguns dias na ala hospitalar me recuperando do feitiço que o Comensal da Morte Dolohov disparou contra mim durante a luta. Apesar de ter que tomar dez tipos de poções diariamente, me recuperei completamente. Para meu alívio, nenhum dos meus amigos teve ferimentos sérios.
Umbridge estava em um leito na enfermaria conosco, e parecia bem abalada, sem dizer coisa com coisa. Soubemos depois que Dumbledore a salvou dos centauros sem ajuda de ninguém, mas nem ele muito menos ela contaram como isso aconteceu.
Segundo Gina, Trelawney iria retomar o cargo de professora de Adivinhação e o dividiria com Firenze dali para frente. Rony tentou caçoar de Adivinhação, e num impulso respondi que havíamos acabado de ter a prova que existiam profecias verdadeiras, e que ele não deveria dizer isso.
Dumbledore reassumiu seu cargo, e a escola voltou à normalidade possível: a professora McGonagall voltou do hospital, e Hagrid reapareceu, satisfeito com a melhora do comportamento de Grope - pelo menos, ele não estava apanhando tanto do irmão gigantesco. Logo iríamos para casa, e lá receberíamos os resultados dos NOMs - sabia que havia ido muito bem, mas mesmo assim estava ansiosa para ver minhas notas.
Fui até a sala de Firenze para me despedir. Queria agradecer, pois estava me sentindo bem melhor depois que fiz o ritual que ele recomendou. Conversamos um pouco sobre os últimos acontecimentos. A guerra ainda não havia começado, mas ambos sabíamos que o movimento desencadeado não poderia ser interrompido. Era uma questão de tempo.
- Professor… eu queria fazer uma pergunta… na verdade, queria compartilhar o que eu andei refletindo sobre o Fatum e a possibilidade de escolha, como o senhor havia dito na última vez que conversamos.
Ele assentiu silenciosamente, e eu continuei:
- A ligação entre Harry e Aquele Que Não Deve ser Nomeado… V-Voldemort.
Firenze não manifestou nenhuma reação ao me ouvir pronunciar o nome.
- Eu sei que não é um Synchro. O Synchro é uma marca de nascença que se atualiza no tempo, e as coincidências significativas são seus sinais, para que prestemos atenção e façamos o que deve ser feito. Tem a ver com o autoconhecimento, a transformação pessoal através do relacionamento… sei que não é só isso, estou tentando resumir.
Ele não parecia impaciente ao me ouvir.
- Já a relação entre Harry e Voldemort é muito forte, mas não se manifesta por coincidências significativas, é como se ambos fossem parte de uma mesma pessoa.
- A relação entre eles não é um Synchro, como a sua. Ela foi provocada por Voldemort quando atacou Harry ainda bebê. A marca foi criada, é simbolizada na testa dele pela cicatriz. Eles estão ligados, têm um destino comum que deverá ser enfrentado.
- Fiquei pensando sobre as escolhas… Harry não quis fechar a mente para Voldemort. Ele seria capaz, mas escolheu não fazer. Por mais que a ligação entre os dois seja poderosa, ele poderia ter se resguardado, e talvez… talvez Sirius ainda estivesse vivo.
- Você está certa em pensar que Harry poderia ter feito outra escolha. Os astros não determinam qual é a escolha que alguém deve fazer, mas mostram as forças em jogo no momento. Não se esqueça, Hermione, que Harry não tomou uma decisão isolada, ele reagiu ao que estava ao seu alcance. A cada escolha feita, uma série de eventos vai se desdobrar de forma única. Não há sentido em se lamentar por futuros que nunca irão existir, pois a escolha que possibilitaria isso não foi feita.
- E Voldemort… ele está ligado a Harry, mas depois de tudo que aconteceu, a profecia foi perdida. Não seria melhor se ele mesmo tivesse ido buscá-la no Ministério? Ele tem poder suficiente para entrar lá. Mas ele preferiu usar Harry, como se fosse um fantoche.
- Voldemort não está livre dos resultados das próprias escolhas. E a escolha que fez trará consequências para ele também.
- Pelo menos, agora todos acreditam que ele voltou - observei.
- Pode-se fazer uma escolha com um objetivo, mas ela sempre irá desencadear coisas imprevistas. É por isso que o futuro é difícil de prever. O principal é entender as tendências do céu, e viver de forma coerente com elas.
- Sim… eu consigo entender melhor, agora. Ah… eu posso fazer mais uma pergunta? Sobre o dia em que o conheci.
Mais uma vez, Firenze não disse nada.
- Eu vi uma mulher naquele dia. Ela usava um colar com uma abelha, que é a forma que o Synchro sinaliza para mim. Quem era ela?
- Você viu Deméter. Ela preside o seu Synchro. Ela é seu guia para se conduzir nesse relacionamento. Sua mensagem principal é que você observe sempre o ciclo de morte e renascimento.
Me despedi de Firenze, com a gratidão de quem é curada. Ele sempre ocuparia um lugar de mestre para mim, desde o nosso primeiro encontro em Hogwarts. Eu me sentia tranquila, e era como se meus olhos estivessem abertos pela primeira vez, como uma criança que percebe que os sinais num livro são letras que formam palavras, e seu significado agora está acessível a ela.
Para meu par, no entanto, a sensação era quase oposta, e seu mundo de certezas havia começado a desabar. A prisão do pai de Draco foi um divisor de águas em sua vida. Lúcio Malfoy teve papel ativo no ataque ao Ministério e agora estava em Azkaban. Draco culpava Harry por isso, e eu, por ser amiga dele e estar envolvida no episódio, também me tornei sua inimiga.
Era o caminho que ele conseguia enxergar, e as escolhas que ele fez decorreram disso. A proximidade de sua família ao Lorde das Trevas ia cobrar um preço alto de Draco, e ele não estava preparado para pagar.
