O novo ano letivo começou da forma mais reconfortante possível naqueles tempos difíceis: fui para a Toca, onde reencontrei Harry, Rony e Gina, as pessoas com que eu mais gostava de estar. Fleur Delacour estava hospedada por lá também, agora que ia se casar com Gui (Gina e sua mãe a apelidaram de Fleuma, maldosamente). Rony continuava a olhá-la com aquele ar abobalhado e de boca aberta, como se surpreendesse uma ninfa nua caminhando na floresta distraidamente (o que era muito irritante).

Mas, apesar disso, eu estava feliz por reencontrar meus amigos. Harry ainda estava entristecido por Sirius, mas aos poucos começava a se recuperar, assim como seu corpo esquálido, que lentamente respondia às deliciosas comidas que a Sra. Weasley preparava com carinho maternal.

Harry nos contou sobre a profecia, e foi como se confirmasse algo que intuitivamente já sabia, pelas tendências que havia observado nos astros e nas runas. Pelo menos, quando ele contou senti que a história toda fazia muito sentido. Ele era o Escolhido e, quando chegasse a hora, deveria matar Voldemort. Apenas eu e Rony sabíamos disso.

Nem pensei muito no olho roxo que ganhei quase no mesmo instante em que Harry nos contou, graças a um telescópio travesso de Fred e Jorge. A marca roxa ficou bem marcada, e nem a Sra. Weasley conseguiu removê-la. Estranha sincronicidade, pensei. Observar os astros não deve ser feito sem a consciência dos riscos implicados.

Outra notícia de Harry que me deixou ansiosa foi saber que era provável que nossos resultados dos NOMs chegassem nesse mesmo dia. Como não poderia ser diferente, comecei a aguardar aflita, andando de um lado para o outro, sem ter compaixão pelos amigos que me suportavam, oscilando entre irritados e conformados - "Hermione sendo Hermione", diziam.

Quando as corujas chegaram, eu mal podia respirar. Não dei muita atenção aos nove "Ótimos", e fiquei triste com o "Excede Expectativas" em Defesa Contra as Artes das Trevas. Eu sei que parece ridículo, mas fiquei desapontada. Talvez ficasse decepcionada mesmo se recebesse dez "Ótimos", pois tudo que eu havia feito aquém das minhas expectativas nos exames continuava vindo à minha mente, por mais que eu não quisesse. Algumas aulas de oclumência não seria má ideia, pensei, se existisse um tipo de oclumência contra excesso de autocrítica.

Passamos duas semanas nos divertindo na medida do possível. Como estava em minoria absoluta, fui obrigada a jogar quadribol, fazendo dupla com Harry contra Rony e Gina. Devo confessar que foi divertido, mas continuava a não entender o que meus amigos viam nesse jogo.

Apesar da demora, meu olho roxo já estava quase normal, e apenas um leve esverdeado aparecia onde antes estava o hematoma. Nossas listas de material chegaram, e Harry foi nomeado capitão do time de quadribol, o que teve o efeito de uma poção curativa em seu processo de luto, infundindo nele um novo ânimo.

Com todas as medidas de segurança reforçadas pela presença protetora de Hagrid, fomos ao Beco Diagonal com o Sr. e a Sra. Weasley para comprar nosso material. Além de atualizarmos o estoque de uniformes, eu queria um vestido novo de festa. Não era apenas por vaidade - eu não conseguia mais usar o anterior, nem mesmo depois de tê-lo modificado por magia, pois ele me trazia lembranças do Baile de Inverno.

Sem contar o fato de que eu havia crescido, apesar de Rony não parecer reparar. Estava um pouco mais alta, minhas pernas estavam mais longas em relação ao corpo, a cintura mais demarcada e os seios mais delineados - comprar algumas lingeries mais "adultas", por assim dizer, não seria má ideia.

Hagrid ficou esperando Harry, Rony e eu na porta da loja de Madame Malkin. Não pude deixar de reparar em uma mesa coberta com uma toalha adamascada arrumada com capricho, logo no centro da saleta de entrada da loja. Algumas jóias e bijuterias refinadas estavam arrumadas em caixas expositoras em meio a arranjos de flores, sob delicada iluminação.

Um busto recoberto de veludo negro exibia um colar delicado, com uma corrente cuja trama era incomum, ostentando um pingente muito bem trabalhado no formato realista de uma abelha, com pedras preciosas amarelas e pretas formando as listras, e um suave brilho furta-cor nas asinhas de cristal lapidado. Dava a impressão de que a abelha poderia voar a qualquer momento dali, se não estivesse presa pela corrente.

A voz de Draco ecoou pela loja. Estava discutindo com alguém, aparentemente com Madame Malkin. Ele apareceu de trás de uma arara e ficou se olhando no espelho. Eu perdi o fôlego - ele estava magnífico, ainda que um pouco magro. Estava um pouquinho mais alto, e eu tentava descobrir o que havia feito com os cabelos, cortados de uma forma que destacava seu rosto perfeitamente, como um quadro que finalmente foi emoldurado da maneira certa.

Ele vestia um sobretudo totalmente negro, com uma gola abotoada até o pescoço e que se abria de forma levemente até os pés, num tecido aveludado cuja textura era uma provocação ao toque.

Foi pelo reflexo que ele nos viu, ainda parados na saleta de entrada da loja. Por alguns segundos, seus olhos se encontraram com os meus, e senti que ele se arrependeu de ter demorado todo esse tempo me olhando.

Uma mulher muito parecida com ele estava agora ao seu lado e nos encarava também. Reconheci sua mãe. Draco a procurou com os olhos, como se quisesse se assegurar que ela não tivesse notado a forma como ele me olhou. Demonstrando preocupação em garantir a ela sua lealdade, fez um comentário grosseiro, me chamando de sangue ruim.

Madame Malkin pareceu chocada e preocupada que começássemos a puxar as varinhas. Eu estava muito calma quando pedi que meus amigos não fizessem nada, calma como eu nunca havia me sentido antes em situações parecidas.

Quando ele comentou sobre meu olho roxo, percebi que ele havia se traído. O olho estava quase curado e a sombra era leve, mas ainda assim ele reparou. "Você está prestando mais atenção em mim do que deveria, Malfoy", pensei.

Quando a mãe dele se aproximou e começou a discutir com Harry, pude observá-la melhor. Era uma reunião insólita, eu e ela na mesma sala, como água e óleo. Com seu porte nobre e ar arrogante, vestida com roupas caras e usando joias discretas e clássicas (que deveriam valer mais do que meus pais ganhavam como dentistas em um ano), ela contrastava de maneira gritante com os meus jeans e cabelos compridos displicentemente arranjados em uma trança solta nas costas, natural para quem não havia saído de casa com a intenção de encontrar um amante ou alguém que desejasse impressionar.

Eu olhava para ela da mesma forma calma e intensa que olhava para Draco. Ele encarava Harry com o rosto contraído, mas a mim ele parecia estar com medo, embora eu não tivesse nada além de uma intuição para apoiar essa impressão. A corrente de emoções circulando ali capturava minha atenção mais do que as palavras, mas reagi instantaneamente quando Harry levantou a varinha e puxei seu braço para baixo.

Madame Malkin tentou continuar o ajuste que estava fazendo na roupa de Draco, mas ele desistiu de ficar ali, arrancando o casaco e atirando-o no chão de forma teatral. Sua mãe o apoiou, sustentando o meu olhar de maneira direta e ostensiva, e ambos saíram da loja sem olhar para trás.

Com uma calma que eu desconhecia, continuei a fazer as compras. Lembrei do ritual de Firenze que eu havia feito, e pensei que seus efeitos eram quase milagrosos. Não perdi a consciência de mim mesma, e apesar de continuar a me sentir da mesma forma em relação a Draco, era como se pudesse nos observar de fora, conseguindo assim ser mais prudente e me preservar.

Essa calma me fez perceber que Draco estava ansioso, talvez pela presença da mãe e a preocupação com seu pai, que continuava preso em Azkaban. Ele não foi muito eficiente em passar a imagem zombeteira habitual, e o sorrisinho cínico empalideceu, sendo substituído por um esgar forçado. Confesso que isso me deixou preocupada, abalando um pouco a segurança que senti ao enfrentá-lo.

Quando visitamos a loja de Fred e George, segurei a caixinha do feitiço de devaneio sem conseguir evitar a ideia de que adoraria usar um desses para fugir de determinados pensamentos insistentes. Logo em seguida corei, ao pensar que eu não precisava de ajuda para ficar perdida em fantasias quando pensava em Draco Malfoy.

Pelo menos, consegui o antídoto para eliminar de vez o olho roxo com Fred - por "coincidência", somente após que Draco pudesse tê-lo notado. Revirei os olhos às brincadeiras de Fred e Jorge sobre a poção do amor, não sem antes pensar que as soluções para os desafios afetivos bem que poderiam ser assim tão simples.

Ao lado da poção do amor, na prateleira de produtos Bruxa Maravilha, notei uma espécie de batom com um desenho de abelha na tampa. Antes que pudesse perguntar para que servia, vi através da vitrine Malfoy andando apressado pela rua, sem a mãe por perto. Harry e Rony o viram também.

Harry nos chamou para entrar sob a capa da invisibilidade, pois queria segui-lo. Hesitei, mas acabei entrando, pois imaginei que a mãe de Draco não iria permitir que ele andasse por aí sozinho. Ele deveria estar se escondendo dela. Sendo assim, para onde ele estava indo? Vimos quando entrou na Travessa do Tranco. Estava difícil manter a capa sobre nós três enquanto andávamos depressa, afinal, nenhum de nós era mais criança.

Seguimos Draco até a entrada da Borgin & Burkes, uma espécie de antiquário. Graças às Orelhas Extensíveis que Rony trazia consigo conseguimos ouvir a conversa. Malfoy queria que o Sr. Borgin consertasse algo para ele, ou melhor, que o ensinasse a consertar algo que não poderia trazer à loja.

Não conseguimos ver o que ele estava fazendo, mas pareceu mostrar algo silenciosamente para o Sr. Borgin, o que teve o efeito de assustá-lo, pelo que pudemos observar. Também pediu que o Sr. Borgin reservasse algo para ele, algo que ele não iria levar agora. O comerciante ficou paralisado olhando Malfoy sair da loja, após ameaçá-lo caso contasse o que ele veio fazer ali a alguém, inclusive a sua mãe.

Aqueles pedaços de informação, aliados ao comportamento estranho de Draco, me deixaram angustiada. Sem pensar duas vezes, saí debaixo da capa e entrei na loja. Perguntei o preço de um colar, mas ficou óbvio para o Sr. Borgin que, pelo jeito que eu estava vestida, dificilmente poderia comprar sequer o objeto mais barato da sua loja.

Não sei onde arranjei o sangue frio para inventar a mentira de que estava preocupada em não dar um presente para Draco Malfoy que ele já tivesse reservado. Era uma desculpa tão inverossímil que o homem me expulsou da loja, batendo a porta com força atrás de mim. Não descobri nada, e ainda tive que aguentar Rony fazendo pouco da minha tentativa.

Tínhamos uma última semana de férias. Harry só pensava em descobrir o que Malfoy estava fazendo na loja, e eu também, só que não podia deixar que ele percebesse isso. Harry teve a intuição de que Draco havia se tornado um Comensal da Morte. Eu gelei ao ouvir isso, mas afastei a ideia da forma mais racional possível. Harry interpretou as atitudes de Malfoy como se tivesse a Marca Negra no braço, e parecia tão embriagado com essa ideia que era difícil concordar com ele - um processo, aliás, que já vi acontecer outras vezes.

Eu ainda não havia aprendido a respeitar a intuição de Harry que, de maneira coerente com o grande bruxo que ele sempre foi, era poderosa, ainda que se manifestasse em afirmações muitas vezes irracionais - mas, afinal, é assim que costumam ser as intuições. Em parte por achar difícil, em parte por me recusar a acreditar, não concordei com a hipótese de Harry, no que fui acompanhada por Rony.

Gina estava alegre com o mini-pufe que havia ganhado da mãe. Ficamos brincando com ele e conversando animadas enquanto arrumávamos nossos malões. Ela estava feliz, porque voltar a Hogwarts significava rever Dino Thomas, com quem estava namorando. Gina vivia as relações afetivas de uma forma muito mais descontraída do que eu, e por isso eu a invejava em segredo. Ela parecia não notar, embora gostasse de me provocar, pois me achava muito recatada.

- E o Vítor, como vocês estão? Achei que você estava chateada por não poder se encontrar com ele, com essa confusão toda.

- Nós "estamos" amigos, Gina, e assim vamos ficar.

- Ah, que desperdício, Mione!...

- Eu não tenho cabeça pra isso, com tudo que está acontecendo… Eu não sei como você consegue ser assim, tão tranquila!...

- Eu já falei, você se preocupa demais!... E namorar ia te fazer bem, você ia se divertir. Vamos ver se o tonto do meu irmão acorda pra isso em Hogwarts, quando ele estiver longe da influência da Fleuma.

- Eu acho que isso nunca vai acontecer, Gin. Às vezes acho que eu e o Rony devemos ficar só como amigos, mesmo.

- Bom, ele não é o único garoto interessante em Hogwarts, certo? Pelo menos, eu consigo pensar em uma lista enorme de garotos mais interessantes que ele - Gina disse, rindo solto.

- Alguns mais espertos, com certeza - respondi, concordando.

- Falando em garotos, eu vi o Malfoy saindo da loja de Madame Malkin com a mãe quando estava chegando com mamãe e papai. Ele estava furioso, quase passou por cima de nós. Não sei o que ele fez nas férias, mas estava mais gato do que nunca! Você não reparou?

Eu já estava começando a ficar com raiva da Gina se comportando como mais uma sócia do fã-clube de Malfoy.

- Ele é um cretino, Gina! A coisa que eu reparei nele é sua forma "gentil" de me chamar de sangue ruim toda vez que a gente se encontra! - Bufei.

- Você não acha isso estranho? Quer dizer… Não sei, parece que ele se incomoda com você. Sabe quando um garoto gosta da gente e fica maltratando, fingindo que não gosta?

Maldita intuição da Gina. Eu estava começando a ficar com medo dela.

- Eu não acho, não. Eu tenho certeza que ele me despreza e… olha, esse assunto me deixa nervosa! Não gosto de ser chamada de sangue ruim, principalmente agora, com o retorno de Você-Sabe-Quem… vamos falar de outra coisa, por Merlin!...

Minha cara de sofrimento e a desculpa cuidadosamente articulada convenceram Gina, e passamos a conversar sobre o casamento de Gui e Fleur, para meu imenso alívio.