O namoro de Rony foi um período difícil para mim. Primeiro, porque ele não agiu da forma como eu esperava, ele deveria namorar comigo e não com Lilá. Depois, porque isso quebrou o equilíbrio da nossa amizade com Harry, que agora tinha que se dividir entre duas pessoas que não se falavam, mais uma vez.

Nossa amizade passava pelo teste do primeiro namoro de um de nós - pelo menos, a tentativa de Harry com Cho ou meu lance com Krum não nos afastaram da mesma forma, e isso era a comprovação empírica de que nada mais seria como antes, como nos tempos em que nós três nos bastávamos contra o mundo.

Mas o que me machucava mesmo era que o resgate afetivo que planejei não deu certo. Ainda continuava refém dos meus sentimentos por Draco e mais sozinha do que nunca. Precisava que alguém me ajudasse, me salvasse desse turbilhão, e havia depositado em Rony a minha esperança, que foi miseravelmente frustrada.

Mais uma vez, me sentia desequilibrada e fragilizada. Não suportava as brincadeiras de Rony. Teve um dia que cheguei a sair chorando da sala de aula. Detestava vê-lo com Lilá, com sua voz melosa chamando-o de Uon-uon, era intragável. Precisava procurar Firenze e pedir ajuda, talvez um novo encantamento de ervas, mesmo que estivesse envergonhada por isso, imaginava que Firenze ia me achar fraca. Mas nunca consegui encontrá-lo na escola, parecia que tudo agia contra mim.

Também não encontrava muito Draco, exceto na aula de Poções, a que ele faltou uma ou duas vezes. Nunca o via no refeitório, e mesmo os rumores sobre a sua vida afetiva haviam cessado. Ninguém comentava mais as conquistas de Draco Malfoy, nem mesmo Gina. Ao observá-lo nas aulas, achei que ele parecia doente. Estava mais magro e mais triste, e a ausência daquele sorriso irônico era como um sintoma de algo grave.

Não sabia o que pensar, e o que poderia estar acontecendo com ele. É provável que estivesse relacionado à prisão do seu pai. Até a hipótese de que ele fosse um Comensal da Morte, por mais absurda que fosse, considerei. Mas, se fosse assim, ele não deveria estar se exibindo, como lhe era característico? Voldemort estava ganhando terreno, e isso seria motivo para ele contar vantagens. Mas, ao contrário, ele parecia mais mortificado a cada dia.

A festa de Natal do professor Slughorn estava se aproximando. Era mais um lembrete dos meus planos fracassados, uma vez que pretendia ir com Rony. Não queria ir sozinha, seria muita humilhação, e senti falta das vomitilhas ou qualquer produto dos gêmeos que pudesse me adoecer o suficiente para ter uma boa desculpa para não ir.

McLaggen veio me perguntar alguma coisa bem na hora em que estava pensando nisso. Já havia reparado que ele ficava me rondando, talvez estivesse mesmo interessado em mim. Estava tão desesperada que o convidei para ir comigo à festa do clube do Slugue, num impulso.

Ele ficou me olhando entre surpreso e espantado, talvez imaginando como havia conseguido isso tão facilmente. Aceitou e se despediu de mim com um beijo no rosto mais demorado do que o normal, piscando para mim com um ar convencido, ao que respondi com um sorriso amarelo.

Agora era tarde para me arrepender, e resolvi ganhar alguma coisa com isso, fazendo com que Rony ficasse sabendo. Ele não fez nada, parecia não ter se importado, diferente de Lilá e Parvati, que ficaram me enchendo de perguntas idiotas. Me senti merecedora do desprezo de Rony por ter sido tão impulsiva e tola.

No dia da festa, coloquei meu vestido novo, que havia comprado naquele dia em que encontramos Draco na loja de Madame Malkin. Isso marcou o vestido como se fosse um buraco feito pela ponta quente de uma varinha: a lembrança daquele dia surgia imediatamente quando o olhava.

Será que não tenho direito a ter um vestido de festa que não esteja associado a Draco Malfoy, perguntei-me, com tristeza. Esse humor combinava com minhas expectativas para a festa. O melhor que poderia acontecer era que a festa fosse curta e que McLaggen não tentasse me beijar nem nada do gênero.

Mas não havia sido eu que ganhara um frasco de Felix Felicis, e a sorte definitivamente não estava do meu lado. McLaggen parecia não ter paciência para esperar a festa acabar e não perdia a oportunidade de me segurar pela cintura ou tentar me beijar.

Estava fugindo dele quando bati de costas no professor Thomas Carlyle, convidado ilustre da festa, que conversava com outros dois bruxos igualmente idosos e respeitáveis, todos com ar espantado ao me assistirem tentar me equilibrar e amparar o professor Carlyle ao mesmo tempo.

Pedi milhares de desculpas, ao que o professor reagiu bem humorado. Foi quando notei o alfinete que prendia a sua gravata, em forma de uma abelha no estilo grego, o símbolo de Deméter.

Não tive tempo de pensar. O barulho de vozes já havia feito o ruído da festa diminuir e as pessoas se voltavam para a entrada, onde Filch trazia Draco pela gola do paletó e o denunciava ao professor Slughorn por estar andando pelo corredor.

Malfoy se desvencilhou de forma rude, confessando que estava querendo penetrar na festa. O professor Slughorn, que estava muito bem humorado, o acolheu e disse que não havia problema, que ele poderia ficar. Mas isso não pareceu ter animado Draco, que continuou de cara fechada.

Fiquei observando Draco, que não havia notado a minha presença, e por um instante pensei que dançaria novamente com ele, como no Baile de Inverno. Mas o professor Snape foi mais rápido e saiu com Draco da festa, puxando-o pelo braço, visivelmente contrariado.

Estava distraída olhando a cena, e fui despertada por McLaggen enlaçando a minha cintura por trás. Dei um pulo e por pouco ele não experimentou meu afamado tapa na cara. Disse-lhe uma ou outra coisa grosseira que não diria em estado normal, e saí da festa antes que me arrependesse ainda mais por ter vindo. Pelo menos, eu iria passar o Natal com meus pais e ficaria livre de McLaggen, Rony, Draco e de tudo. Estava precisando de uma pausa.

Acordei ouvindo o zumbido das abelhas. No início era fraco, mas era insistente. Precisava descobrir de onde vinha. Era noite, e comecei a procurar pelo castelo, andando pelos corredores. À medida que subia as escadas, o som ficava mais alto e mais nítido, e quando cheguei perto da Torre de Astronomia soube que havia encontrado, pois vi as abelhas indo para lá. A Lua estava clara e banhava todo o ambiente. As abelhas voavam por todo o lado, em um zumbido ensurdecedor.

Caminhei em direção à janela. Draco estava parado do lado de fora, se segurando levemente no parapeito e olhando o vazio. Gelei e fui me aproximando com cuidado, tentando não assustá-lo. Chamei seu nome quase num sussurro, e ele me olhou por alguns segundos, aquele olhar sério que eu conhecia. Continuei a me aproximar, decidida, mas ele se soltou, sempre me olhando, e se lançou da torre no vazio.

Acordei num pulo, sentada na cama. Devo ter gritado, pois meus pais entraram assustados no quarto, perguntando se eu estava bem. Tentei tranquilizá-los, dizendo que foi um pesadelo, mas não parava de tremer. Tinha certeza que Draco não havia feito isso, não era uma visão ou algo assim, e se tivesse acontecido uma coisa dessas eu já teria recebido a notícia. Mas era tão assustador que não conseguia controlar a reação de pânico.

A sorte foi que minha mãe havia guardado o restante da poção de própolis regenerativa universal que eu havia tomado durante a crise que tive no segundo ano. A poção e o descanso em casa me fizeram tão bem que tranquilizei meus pais o suficiente para que permitissem que eu retornasse a Hogwarts, pois andavam preocupados com as notícias que chegavam a eles no mundo dos trouxas, mesmo que superficiais.

Logo que encontrei Harry, ele contou sobre a conversa entre Snape e Draco que escutou no dia da festa de Slughorn, em que Snape mencionou que havia feito um Voto Perpétuo para ajudar Malfoy.

Depois do sonho, estava muito preocupada com Draco e fui mais receptiva às teorias de Harry, mas tive que ponderar com ele que o professor Snape poderia ter oferecido ajuda a Draco apenas para descobrir o que ele estava fazendo. Harry, mesmo contrariado, teve que admitir essa possibilidade, embora não se convencesse.

Harry me perguntou se já tinha ouvido falar de Lobo Greyback, e lembrei a ele que Draco usou esse nome para ameaçar o Sr. Borgin no dia em que o observamos na loja. As suspeitas de Harry sobre o comportamento de Malfoy só aumentavam, e tive que admitir que algo ruim estava acontecendo com Draco. Eu precisava descobrir o que era.

Tudo foi interrompido com a notícia do envenenamento de Rony, no episódio com os bombons cheios de poção do amor e do hidromel envenenado que involuntariamente o professor Slughorn lhe ofereceu.

Aceitei que, se Harry não tivesse lido sobre o bezoar naquele maldito livro de poções do Príncipe Mestiço e não tivesse agido rápido, poderíamos ter perdido Rony. Apesar de que, verdade seja dita, o professor Snape havia falado sobre bezoar no primeiro ano, mas acho que dificilmente alguém além de mim lembraria do conteúdo de uma aula de cinco anos atrás.

A ideia de perder Rony era terrível, e me dei conta de como as nossas diferenças eram bobagens diante disso. Pensava nisso enquanto o observava repousando na enfermaria, com Harry, Gina e os gêmeos fazendo hipóteses para entender os motivos do que aconteceu.

Ponderei que era possível que houvesse alguma relação entre os ataques do colar e do hidromel, pois ambos teriam sido fatais mas não chegaram ao objetivo, o diretor Dumbledore. Pareciam ter sido feitos por alguém inábil ou pior, em desespero, e uma sombra baixou em meus olhos e meu coração.

A conversa continuou, mas eu mal conseguia prestar atenção, absorta nos meus pensamentos, temendo que Draco pudesse estar por trás disso. Foi quando Rony, ainda dormindo, murmurou o meu nome. Fiquei emocionada, e tive certeza que havia um laço profundo entre nós, que Lilá ou mesmo Draco não poderiam desmanchar.

Quando Rony saiu da enfermaria, voltei a tratá-lo normalmente, embora saísse de perto toda vez que ele estava com Lilá. Observei que ele começou a ficar cansado dela. Já não parecia tão animado com o namoro como no começo, e isso, é claro, me incentivou a continuar falando com ele.

Harry continuava a investigar Draco, e colocou Monstro e Dobby para segui-lo. Ainda que procurasse não encorajar demais suas suspeitas, ficava torcendo para que eles descobrissem alguma coisa.

Já em relação à tarefa que Dumbledore o havia incumbido, de obter a lembrança do professor Slughorn, Harry não estava tendo sucesso, e continuava a buscar respostas naquele livro odioso, o que me deixava profundamente contrariada.

Eu sabia que Harry não conseguiria enquanto não se dedicasse totalmente à missão dada por Dumbledore. Ele estava se esforçando, mas desperdiçava suas energias tentando descobrir o que Malfoy estava fazendo, embora eu não pudesse culpá-lo por isso.

Por sorte, Monstro e Dobby trouxeram novidades. Disseram que Draco não estava fazendo nada contra as regras, apesar de evitar ser visto. E que visitava sempre o sétimo andar, geralmente acompanhados de alunas mais jovens, que ficavam vigiando enquanto ele entrava na Sala Precisa.

Harry queria saber se Dobby poderia descobrir o que Draco fazia na sala, mas lembrei a ele que isso não seria possível, pois não sabíamos para o que ele precisava da sala.

Harry ficou animado com o progresso das suas investigações, mas uma coisa me intrigava, que eram as estudantes vigiando. Como era possível guardar um segredo compartilhado com tanta gente?

Harry matou a charada quando disse que ele deveria estar usando Poção Polissuco, surrupiada da sala de Poções. Aquela garotinha que eu ajudei com a balança quebrada devia ser Crabbe ou Goyle em seu turno de vigilância. Harry achava que Draco os convenceu a vigiar mostrando sua Marca Negra, o que rechacei, um pouco por descrença, um tanto por negação.

Não conseguia imaginar Draco com a marca. Já era difícil pensar que ele estava colaborando com Voldemort de alguma forma escusa, como Harry tinha cada vez mais certeza. De qualquer forma, a prioridade de Harry era atender à tarefa dada por Dumbledore, ainda que eu também estivesse curiosa para descobrir o que Draco andava tramando.

Mas a sorte de Harry iria mudar - mesmo que ele quisesse poupar a Felix Felices, eu e Rony o convencemos a utilizá-la para tentar obter a memória do professor Slughorn. E foi surpreendente a forma como ele conseguiu isso, indo à cabana de Hagrid e encontrando por acaso o professor Slughorn no caminho.

E até deu sorte para mim e para Rony, pois quando fomos acompanhar Harry até a saída da Sala Comunal, coberto sob a Capa da Invisibilidade, Lilá nos viu e pensou que estávamos sozinhos, o que precipitou o término do namoro que Rony tanto desejava - e confesso que eu também.

Isso melhorou um pouco meu humor, assim como o interesse que Harry estava manifestando por Gina, e que havia notado, mesmo que ele não me contasse. Torcia para que a minha amiga tivesse mais sorte do que eu.

A preocupação com Draco continuava. Eu não tinha ideia do que ele poderia estar fazendo e a lembrança do sonho continuava me atormentando. Pelo visto, os problemas só iriam aumentar.