Corri para o dormitório pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, e fazendo um esforço enorme para conseguir organizar meus pensamentos e o que deveria fazer primeiro.

Sabia que Dumbledore não estava no castelo, pois havia saído com Harry. Se houvesse alguém que pudesse ajudar Draco, essa pessoa era Dumbledore, e não tinha dúvida que deveria levar a questão para ele.

Mas precisava fazer alguma coisa rápido, e pensei em Snape. Lembrei do Voto Perpétuo, e que ele se comprometeu a ajudar Draco. Mas será que ele era de confiança? Será que a promessa não era ajudar Draco na sua missão, aquela que o estava mortificando, fosse ela qual fosse?

Ao atravessar o retrato da mulher gorda, entrei na Sala Comunal e vi Rony, Gina, Neville e Luna conversando agitados. Todos pararam e olharam para mim ao mesmo tempo.

- Hermione! Onde você estava? Eu acordei e não te vi - disse Rony, aliviado com a minha chegada.

Gelei ao ver o Mapa que havia largado sobre o sofá nas mãos de Rony. Será que ele havia me visto… com Draco? Tentei me acalmar, pensando que, se ele tivesse visto, não estaria tão calmo. Meu raciocínio ainda não estava em sua velocidade normal, e não sabia que desculpa poderia dar.

- Eu fui até o banheiro dos monitores, só pra andar um pouco, desanuviar a cabeça - respondi, um pouco envergonhada da desculpa ridícula.

- Você encontrou com a Tonks? - Gina perguntou. Ela parecia estranhar alguma coisa, mas não disse nada.

- Com a Tonks? Não, por quê?

- Dumbledore pediu para os professores patrulharem os corredores enquanto ele estivesse ausente da escola, e Tonks veio ajudar, encontramos com ela. Remo e Gui também estão vindo, acho que eles estão com receio de alguma coisa. Por isso estamos aqui, pensamos que a Armada poderia ajudar. O Rony contou que Harry pediu pra vocês ficarem de olho em Snape e Malfoy.

- Nós ficamos, mas eles não…

- Ele sumiu, Hermione. O Malfoy foi pra Sala Precisa - Rony disse, me mostrando o mapa. O ponto de Draco havia desaparecido.

- Não é possível, ele estava no dormitório da Sonserina - respondi, puxando o mapa para ver, sem acreditar.

- O Harry está certo, ele está aprontando alguma - Rony concluiu.

- Vamos pra lá, podemos tentar impedir - Gina se ofereceu, e Neville disse que iria junto com eles.

- O Snape continua na sala dele, Hermione - Rony disse. Eu vou pra Sala Precisa e você vai vigiar o Snape, pode ser?

- Eu vou com você, Hermione - Luna se ofereceu.

Nos separamos em dois grupos. Tomei a direção da sala de Snape com Luna, caminhando ao lado dela como um autômato. Eu queria invadir as masmorras, entrar no quarto de Draco e olhá-lo dormindo na sua cama para ter certeza que ele estava lá. Ao mesmo tempo, me restava um pouco de bom senso para saber que isso seria uma loucura, e pior, serviria apenas para constatar que ele havia sumido.

Pensei em falar com Snape, e não tinha ideia como faria ou se deveria fazer isso. E havia Luna, na frente de quem eu não queria falar sobre Draco. O dilema me paralisou, precisava conseguir pensar no que fazer. Luna começou a mexer numa bolsinha pendurada em seu pescoço e tirou um pequeno ramo de folhas, que me ofereceu.

- Tome. São folhas de bluematófila. Para o seu pescoço… vai ajudar.

Fiquei olhando para ela sem saber o que responder.

- Esfrega nas mãos desse jeito, tá vendo? E coloca as mãos no pescoço, assim… isso mesmo…

Eu imitava o que Luna fazia sem pensar, como uma criança que finalmente percebe que não adianta se debater contra o que a mãe está pedindo. Ela me guiava com doçura, e não perguntou nenhuma vez por que eu estava chorando.

Não sei se foi seu cuidado, não sei se foram as folhas, mas me senti aliviada. Ao mesmo tempo, sentia que a minha razão me abandonou - nenhuma ideia se formava para me ajudar, e a única coisa real naquele momento era o toque carinhoso das mãos de Luna e o perfume da bluematófila, um cheiro intenso de seiva doce e mato queimado.

Não tenho certeza de quanto tempo ficamos ali. Fomos surpreendidas pelos gritos do professor Flitwick, avisando que havia Comensais da Morte no castelo. Ele entrou na sala de Snape, pedindo ajuda. Snape saiu logo em seguida, correndo, mas parou quando nos viu. Disse que o professor Flitwick havia desmaiado e precisávamos cuidar dele. Entramos na sala correndo e o encontramos inconsciente no chão.

Naquele momento, não podíamos imaginar que ele estivesse estupefato por Snape. Só cheguei a essa conclusão depois, quando reconstituímos os fatos e entendemos o que havia acontecido.

Comensais da Morte haviam entrado no castelo com a ajuda de Draco. Não havia dúvidas quanto a isso, Harry assistiu tudo. Matar Dumbledore era a hedionda tarefa que Voldemort havia imposto a Draco e que o estava consumindo. Ele não foi capaz de levá-la até o fim, mas Snape, sim. Dumbledore estava morto, por mais que nenhum de nós conseguisse acreditar.

Harry e Dumbledore pousaram na Torre de Astronomia pouco tempo depois que eu e Draco saímos, numa sincronia perfeita, como se todos os eventos daquela noite estivessem obedecendo a uma programação pré-determinada com exatidão.

O meu sonho com Draco, em que ele se jogava da Torre, misturava sua angústia devastadora, com a qual eu estava sintonizada de alguma forma, com uma terrível premonição. Só que foi Dumbledore quem caiu da Torre.

De alguma maneira, eu sentia que Dumbledore havia poupado Draco da sua missão impiedosa, e sussurrei um agradecimento ao pensar no amado diretor, que ajudou Draco mesmo antes que eu tivesse conseguido falar com ele. Não fui capaz de fazer nada, e isso aumentava ainda mais a minha dor.

Todos estávamos impactados com a morte de Dumbledore, e eu, em segredo, lidava com mais uma camada oculta de sofrimento por causa de Draco e de tudo o que havia acontecido entre nós.

Quando Harry foi contando os detalhes do que viu, fiquei estarrecida ao saber que Draco copiou minha ideia do feitiço das moedas para se comunicar com Rosmerta, a quem colocou sob a maldição Imperius, e usou a informação que ouviu de mim para envenenar o hidromel que quase matou Rony, quando comentei que Filch não seria capaz de reconhecer poções. Me senti usada por ele.

Ao mesmo tempo, ele nunca me pareceu tão sincero e vulnerável quanto no nosso encontro na Torre de Astronomia. Tentava imaginar onde ele estaria agora: longe de Hogwarts, junto a Voldemort.

Não sabia o que pensar, e tinha a sensação de sofrer de uma espécie de compulsão, como um vício, ao procurar sempre uma desculpa para as suas ações perversas. Será que me enganei tanto assim?

No dia seguinte, Harry se aproximou em silêncio e sentou-se perto de mim, na beira do lago. Ele estava exaurido por tudo o que tinha acontecido, e aguardava o enterro de Dumbledore sem saber muito bem o que esperar.

Queria poupá-lo, mas precisava fazer uma pergunta cuja resposta era, talvez, a explicação fundamental para definir quem eu fui, quem eu era agora e quem eu queria ser dali para frente.

- Harry, eu não queria mais falar desse assunto, mas posso fazer uma pergunta? Prometo que é uma só.

Harry me olhou um pouco desanimado. Talvez achasse que eu fosse começar a falar do livro do Príncipe ou algo parecido. Mesmo assim, consentiu em silêncio.

- Você acha que… Você acha que Draco teria tido coragem de ir até o fim?

- Eu acho que não, Hermione. Ele estava com medo, com a voz tremendo. Ele ia baixar a varinha.

- Quando eu penso nele… não acho que ele teria sido capaz.

- Ele sempre foi covarde. Ele admira as Artes das Trevas, mas na hora da verdade ele não paga o preço.

- Ele deve ter sido chantageado por Voldemort...

- Isso não faz dele um santo, Hermione. Ele quase matou Rony e Katie.

Fiquei calada. Harry estava certo, e por mais compreensiva que eu fosse, isso não deixaria de ser verdadeiro.

O enterro de Dumbledore foi uma cerimônia bela e comovente. Os centauros o homenagearam lançando flechas para o céu, e pensei que agora Firenze poderia encontrar um clima mais favorável para retornar à floresta.

Hagrid entrou carregando o corpo de Dumbledore envolvido por uma manta. Imaginei que aquele corpo não era do diretor, e sim de Draco.

Um soluço arrebentou meu peito, e Rony me amparou com seu braço, acariciando meus cabelos. Recostei minha cabeça em seu ombro, pensando que ali eu encontraria paz. Tão diferente daqueles outros braços, em que há poucas horas atrás eu acreditei ter realizado um sonho, que me foi arrancado com a crueldade que só as guerras possuem.

Não era o corpo de Draco que descia ao túmulo. Era o cadáver de um sonho que acalentei em segredo desde que ingressei em Hogwarts. Este sonho foi interrompido de forma irreversível, como a morte precoce de algo que mal havia desabrochado.

Descanse em paz, meu amor.