Sei que é difícil entender racionalmente minha relação com Draco. Eu mesma nunca consegui compreender, apenas reagi aos meus sentimentos. Sempre temi as acusações de ser uma traidora por me sentir assim.
Era o que pensava: que esses sentimentos me tornavam uma traidora de Harry, de Rony, dos Weasley, da Ordem, de Dumbledore e de tudo pelo que estávamos lutando.
Muitas vezes, fui intolerante com Harry e Rony, apontando o dedo acusador, mas meus amigos podem estar certos de que o julgamento mais rígido foi o que fiz comigo mesma. O que sentia estava além da minha capacidade de compreensão.
Eu buscava entender meus sentimentos tentando compreender a dor de Draco. Uma criança amada pela família, com certeza, mesmo que numa forma doentia de amor, vindo de uma infância em que foi tratado com frieza intercalada com indulgência excessiva, ensinado a ser preconceituoso e a desprezar aqueles não tão favorecidos como ele. Tudo isso me ajudou a entender quem era Draco Malfoy.
E agora, depois de tudo que aconteceu, ele experimentava um tipo de abuso ainda não conhecido e que viria a estraçalhar a redoma em que estava até então, passando a viver como um Comensal da Morte e partilhar o círculo íntimo de Voldemort.
Uma coisa é desejar a morte de alguém, de uma forma fantasiosa e infantil. Outra, é ver sua professora ser lentamente esmagada por uma cobra na sua frente, ouvindo o barulho dos ossos quebrando e o sufocamento, tendo como companhia o terror de que o mesmo iria acontecer com seus pais.
Draco teve que aprender a sobreviver, uma habilidade que um garoto privilegiado como ele desconhecia. A cada dia precisava fazer algo pior para não morrer, para merecer cada hora de vida, enquanto era usado de maneiras que nunca imaginou existir, para as coisas mais sórdidas. Uma vida de mimos e caprichos atendidos não o preparou para isso, diferente de Harry, que foi criado num ambiente de privações que o fortaleceu.
Eu não estou tentando justificar o que Draco fez. Mas eu sinto como ele se sente, eu o compreendo e aceito, e, por mais que vocês não entendam, eu o perdoo.
É assim que me sinto hoje, mas não era assim que me sentia naquele verão desolador em que Dumbledore morreu. Naquele momento, havia acabado de enterrar Draco simbolicamente, e vivia em segredo um luto angustiante, tentando não submergir na tristeza. Mas tinha uma tarefa importante pela frente: ajudar Harry a vencer Voldemort, e isso me fazia continuar a viver.
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A decisão de acompanhar Harry na busca e destruição das Horcruxes sempre foi maior do que Rony e eu. Era como se estivéssemos caminhando nessa direção desde o momento em que nos conhecemos, e não fizesse sentido tomar outro rumo.
Harry relutava, mas nossa decisão o transcendia também - não havia como nos impedir de estar junto com ele. Era uma missão para nós três.
O casamento de Gui e Fleur foi uma despedida de uma vida normal e conhecida. Depois dele, embarcaríamos em uma viagem sem rumo certo.
Harry manteve a promessa feita a Dumbledore de não contar a ninguém sobre as Horcruxes, nem mesmo para Gina. Os únicos que sabiam éramos eu e Rony, e partiríamos em breve com ele.
Todos pareciam aceitar essa limitação e respeitar nossa decisão de viajar, mas com a Sra. Weasley foi um pouco mais difícil. Ela tentava nos manter ocupados, achando que assim não teríamos tempo de planejar nossa partida.
Ela não contava com a minha capacidade de planejamento, que estava melhor do que nunca, ainda mais depois que decidi que essa missão seria o objetivo da minha vida dali para frente.
Já havia organizado toda a bagagem necessária para a viagem numa pequena bolsa encantada com um Feitiço Indetectável de Extensão. Poderíamos partir a qualquer momento.
Levei todos os livros que imaginava serem úteis, inclusive os que falavam sobre Horcruxes e que estavam no gabinete de Dumbledore, além de roupas, poções, remédios, uma barraca e outros equipamentos que pudessem ser necessários.
Também havia enviado meus pais para a Austrália, onde estariam mais seguros, com a memória alterada por um feitiço. Foi uma das coisas mais difíceis que tive que fazer: apagar minha lembrança da mente deles, mas sabia que era necessário para a sua proteção. Eu estava pronta para partir.
A visita do Ministro da Magia bem no momento dos preparativos finais do casamento espantou a todos, e mais ainda Harry, Rony e eu. Ele veio nos entregar os objetos deixados em testamento por Dumbledore para nós, após terem sido dissecados pelo Ministério.
Dumbledore me deixou um velho exemplar de Os contos de Beedle, o Bardo, escrito em runas antigas. Fiquei emocionada com o presente, e não imaginava como Dumbledore poderia saber que aprender runas havia se tornado importante para mim. Por mais surpreendente que fosse, desconhecia os contos - logo eu, que devorei boa parte da biblioteca de Hogwarts. Eram contos infantis, e o exemplar antigo parecia ter sido muito utilizado, talvez até pela mãe de Dumbledore quando ele era criança, o que me enterneceu.
Rony recebeu um desiluminador, e Harry, o primeiro pomo dourado que apanhou. Dumbledore também deixou a espada de Gryffindor para Harry, mas ela estava desaparecida. Os objetos deviam ter algum tipo de mensagem para nós, embora negássemos essa possibilidade ao Ministro, e precisávamos descobrir o que era.
Eu e Gina nos arrumamos para o casamento juntas em seu quarto pequeno, mas aconchegante e bem ajeitado. Suas maquiagens, bijuterias e poções de beleza estavam dispostas sobre o tampo da penteadeira, na frente da qual nos sentamos, dividindo o banco, para nos aprontarmos.
Ela estava linda com o vestido dourado que usaria como dama de honra (junto com Gabrielle, irmã de Fleur). Estava usando um vestido de festa que ela me emprestou e que personalizei com alguns feitiços. O resultado ficou ótimo, o vermelho carmim caía tão bem em mim quanto em Gina. Havia ainda a extraordinária vantagem do vestido não trazer nenhuma lembrança que quisesse evitar.
Ao pensar nisso, toquei meu peito do lado esquerdo com dois dedos, bem de leve, espanando-o discretamente duas vezes. Tinha adotado esse gesto como uma forma de varrer uma lembrança dolorosa do meu coração, e repeti-lo me tranquilizava. Às vezes também fazia sobre os lábios, com dois toques suaves e rápidos, como se estivesse limpando a marca de um beijo.
- Mione, fecha essa pulseira pra mim, por favor. E o Rony, hein? Eu quase bati nele na hora que ele entrou no meu quarto bem quando eu estava beijando o Harry!...
- Eu sei! Tentei arrastar ele pra fora… É que ele está preocupado com você, com medo que fique alimentando esperanças com o Harry e se magoe, depois de vocês terem desmanchado o namoro.
- O Rony não entende. Isso não vai me separar do Harry aqui dentro do meu coração. E eu aceitei o que Harry vai fazer, seja lá o que for. Eu confio nele, isso não vai mudar.
- Gina, você é tão forte!... Uma verdadeira leoa, sabia?
Ela sorriu.
- Eu estou um pouco mais tranquila porque você vai estar com ele, Mione. Você sabe que eles não durariam nem um dia sem você, não sabe?
Eu sorri enquanto ajeitava o cabelo num coque mole, soltando algumas mechas nas laterais do rosto com o auxílio da varinha. Presumi que Gina estava certa: minhas habilidades em feitiços seriam muito úteis dali para frente.
- Da minha parte, vou continuar lutando por aqui. Acho que teremos muita coisa pra fazer em Hogwarts, precisamos resistir. Não sei se todos vão voltar, até mamãe e papai estão receosos. Draco Malfoy, pelo menos, acho que não vai voltar.
Estremeci ao ouvir o nome dele. Não podia borrar o batom tocando os lábios, nem soltar a varinha para espanar o coração sem que Gina achasse estranho.
- Nem posso imaginar o que está acontecendo com ele, depois de tudo o que ele fez… Harry acha que ele não teria tido coragem de matar Dumbledore - respondi, como se isso pudesse redimi-lo um pouco.
- Ele é um wannabe, não é? - falou, balançando a cabeça.
- Como assim? - perguntei.
- Um wannabe. É uma gíria. Sabe o Myron Wagtail, das Esquisitonas? Os fãs dizem: "I wannabe Myron" - imitou, girando os olhos e agitando as mãos.
- Mas porque você associou isso com Malfoy?
- Porque ele é como aquela pessoa que deseja ser famosa e não consegue, ou por ser atrapalhada ou por falta de talento. O Malfoy é assim com as Artes das Trevas.
Era uma ideia divertida e patética. Gina sempre foi criativa, e essa imagem traduzia muito bem o que era a vida de Draco. I wannabe Voldemort, I wannabe Harry Potter…
- Hermione, eu quero te fazer uma pergunta.
Ela parou de se arrumar e me encarou pelo espelho em que ambas estávamos refletidas. Como um basilisco, ela preferiu não me olhar diretamente nos olhos.
- Se você não quiser responder, eu entendo e te respeito, mas vou perguntar porque estou preocupada com você. Você confia em mim, não confia?
- Você está me assustando, Gin - brinquei.
- Você e o Malfoy - tinha alguma coisa rolando entre vocês, não tinha?
Minha expressão foi mais eloquente do que qualquer coisa que conseguisse dizer. Eu era transparente para Gina. Fiquei calada, piscando rápido, a respiração revelando minha ansiedade, procurando no tampo da penteadeira alguma poção para desaparecer. Tentar desmentir só iria deixar tudo pior.
- Tudo bem, Mione. Se você quiser guardar segredo, eu entendo. Mas isso está te corroendo, eu percebo… Você pode desabafar comigo, se quiser.
- Gina, você está me pedindo pra confessar uma coisa que eu não admito nem pra mim mesma… - reconheci, melancólica.
Sob o impacto da minha resposta, ela segurou a minha mão, entre preocupada e compreensiva, me incentivando sem palavras a continuar.
- Eu não consigo falar sobre isso. Não depois de tudo que aconteceu. Isso está morto, eu vou ter que superar.
- Eu te entendo, Mione, e apoio a sua decisão. Mas uma coisa é o que você sabe que tem que fazer, e outra é como você se sente com isso.
- Eu me sinto… - fiz uma pausa, a mão acariciando distraída o lado esquerdo do peito. - Eu sinto que uma parte de mim morreu, como um membro amputado. Morreu, e eu tenho que aceitar e aprender a viver sem ela. É isso.
Gina me estreitou com o braço de forma carinhosa, nós duas ainda nos olhando através do espelho.
- Você sabe que pode contar comigo sempre, pra qualquer coisa, não sabe?
- Eu sei. Obrigada, Gin.
Saímos juntas para a festa. Uma tenda grande foi armada no pomar, com cadeiras arrumadas para os convidados assistirem a cerimônia. Embora o dourado e o lilás predominantes nos arranjos não fossem as cores que escolheria se o casamento fosse meu, achei que a decoração estava bonita e adequada ao momento, sem exageros.
Os casamentos sempre me emocionam, e esse não foi diferente. Foi bonito ouvir Fleur e Gui se comprometerem a ficar unidos por toda a vida. Às vezes, o amor podia vencer.
A surpresa divertida da noite foi que Fleur convidou Krum, que pareceu muito feliz ao me reencontrar. Isso teve um efeito colateral imediato em Rony, que logo me convidou para dançar. Passamos assim a maior parte da noite, como se fôssemos um casal de namorados cujo único objetivo é desfrutar de cada momento juntos.
Foi a última diversão leve que tive até o final da guerra, que se tornou a minha realidade naquela mesma noite.
