Durante a festa, chegou o aviso de que o Ministro da Magia foi morto e o Ministério, tomado por Voldemort. Os Comensais da Morte estavam vindo para a Toca, atrás de informações para capturar Harry, que estava bem ao meu lado quando o alerta chegou.

No meio dos gritos e da confusão que se seguiu, ficamos procurando Rony, e já estava entrando em desespero quando o encontramos no meio da correria. Desaparatei com os dois para a rua Tottenham Court, que estava cheia de gente se divertindo naquela hora da noite, incluindo alguns bêbados inconvenientes.

Estava com tudo que iríamos precisar na bolsinha enfeitiçada, incluindo a capa de Harry, que entreguei a ele assim que aparatamos. Trocamos de roupa e continuamos a caminhar pela rua, tentando pensar no que fazer e para onde ir, com os garotos ainda espantados como foi que eu havia trazido nossa bagagem e pensado em tudo - eles deveriam me conhecer melhor, a essa altura da nossa convivência.

Para nossa surpresa, fomos atacados por dois Comensais brutamontes no café em que paramos. Era difícil de entender, pois já passava da meia noite e Harry não deveria estar com o rastreador de feitiços, pois completou dezessete anos. Mas, afinal, quais regras ainda estavam sendo respeitadas? Era difícil dizer.

Acabei concordando em ir para a sede da Ordem da Fênix, no Largo Grimmauld, por falta de opções. Os feitiços de proteção de Olho Tonto estavam assustadores, e ficaríamos seguros lá, pelo menos até decidirmos o que fazer em seguida.

Harry estava sentindo dores na cicatriz, e mais uma vez insisti com ele para bloquear essa ligação com a mente de Voldemort. Ele concordava sem entusiasmo, mais para me fazer parar de falar, pois continuar ligado à mente de Voldemort era a forma dele saber seus próximos passos.

Não havia argumento racional para convencê-lo do risco que estava envolvido, e Harry nunca foi o tipo de pessoa que avaliava riscos racionalmente - se fosse, não teria feito tudo o que fez e conseguido o que conseguiu.

Para nosso alívio, recebemos um Patrono do Sr. Weasley avisando que a família estava a salvo, o que nos deixou um pouco mais tranquilos.

Arrumamos nossos sacos de dormir na sala. Era melhor ficarmos juntos, e também não estávamos com coragem de nos separar. Quando desejei boa noite a Rony ele segurou a minha mão, e dormimos assim. Era um lugar em que eu me sentia confortável: ao lado de Rony, meu amado amigo, que nunca iria me fazer mal.

Era do que precisava, do afeto de quem me amava de verdade. Estava esgotada de despejar amor num escoadouro emocional que me enfraquecia, como se fosse uma artéria aberta. Estava decidida a não fazer isso nunca mais. O que estava enterrado deveria permanecer assim. Passei os dedos sobre o coração duas vezes e adormeci.

Quando acordei de manhã me assustei, pois Harry não estava, e logo chamei Rony para sairmos à sua procura. Encontrei-o no quarto de Sirius, lendo uma carta de sua mãe para o padrinho.

Era difícil imaginar a dor de tantas perdas pelas quais Harry já havia passado, e no entanto ele estava ali, como se não houvesse outro sentido para a sua vida senão cumprir sua missão. De fato, não havia.

Harry queria ir a Godric's Hollow - estava abalado a respeito das coisas que descobriu sobre Dumbledore, e queria tirar a história a limpo. Eu entendia, mas achava perigoso demais.

Não me surpreendi quando Harry chamou minha atenção para o aviso pregado na porta do quarto do irmão de Sirius, Régulo Arturo Black, ou R.A.B. Já entendia bem o papel da sincronicidade. Viemos parar exatamente no lugar que nos levaria à próxima pista.

Desejei que nosso caminho dali para a frente fosse assim, cheio de sinais, mas reformulei o desejo: seria cheio de sinais, e desejei estar atenta para percebê-los e interpretá-los.

Não imaginávamos que o medalhão que jogamos fora na limpeza que fizemos nas férias, há dois anos atrás, seria tão importante. Nossa sorte, ou o Fatum que nos envolvia, foi que Monstro havia salvado o medalhão do lixo e guardado.

Fiquei tocada com a lealdade de Monstro, considerando tudo o que passou para fazer a vontade de Regulus. Era importante que Harry entendesse os sentimentos de Monstro, para que não repetisse o mesmo erro de Sirius, cuja insensibilidade acabou contribuindo para a sua própria morte.

Para resumir a história, conseguimos falar com Mundungo Fletcher, que havia roubado o medalhão junto com outros objetos da casa, e descobrimos que o vendeu para Umbridge. Começamos a elaborar um plano para entrar no Ministério e pegar o medalhão. Passamos um mês estudando e vigiando o Ministério dentro das nossas limitações, nos revezando na tarefa sob a Capa da Invisibilidade.

Numa dessas vigílias, Harry descobriu que Snape assumiu a direção de Hogwarts. Era estranho pensar que o Expresso estava saindo naquele momento para a escola, e nós três não estávamos nele. Ficar longe de Hogwarts era uma das coisas que me entristecia mais. Era uma separação da minha preciosa identidade de aluna, mas evitava falar disso para não chatear meus amigos.

Harry queria que agíssemos logo. A dor na cicatriz voltou, e ele perdeu o receio de assumir que queria manter a ligação com a mente de Voldemort para saber o que ele estava fazendo, e tudo o que eu lhe dizia contrário a isso era inútil. Ele pretendia descobrir por que Voldemort estava interessado em varinhas, e com isso tinha a esperança de entender o comportamento de sua varinha quando lutou contra Voldemort, na ocasião da sua transferência com os sete Harrys.

Por mais que dissesse que ele deveria considerar a influência de seu poder como bruxo, Harry não abandonava a ideia de que era algo envolvendo a varinha. Era exasperante como às vezes ele podia ser tão obtuso e teimoso.

Nossa invasão do Ministério, agora inundado de cartazes com a foto de Harry sob o título "Indesejável Nº1", teve mais voltas e reviravoltas que uma novela de cavalaria e, contra todas as expectativas, conseguimos pegar o medalhão. Por pouco não fomos capturados, pois quando aparatamos no Largo Grimmauld, o Comensal da Morte Yasley se agarrou a mim e viu a porta com o número 12.

Eu reagi rápido para escapar dele e nos trouxe para a floresta, mas na fuga Rony estrunchou, e seu braço ficou bastante ferido. Cuidei dele da melhor maneira possível, e decidimos acampar ali, mesmo inseguros se seria um bom local, já que Rony estava fraco para viajar. Lancei vários feitiços de proteção à nossa volta, e pedi que Harry montasse a barraca para podermos descansar.

Rony estava fraco, mas mesmo assim se preocupou se os Cattermole, com quem estivemos, tinham conseguido escapar do Ministério também. Senti uma imensa ternura por Rony naquele momento.

Nenhum feitiço que tentamos sequer chamuscou o medalhão, que estava protegido por algum tipo desconhecido de magia das trevas. Harry colocou o medalhão no pescoço para transportá-lo em segurança, mas percebi logo que isso afetava seu humor. Ele ficava agressivo e impaciente, e também não conseguia invocar um Patrono sob a influência da Horcrux. Propus que nos alternássemos nessa tarefa, assim não ficaria pesado para nenhum de nós.

O humor de Rony piorava por outro motivo: a falta de comida. Ele era parecido com Draco nesse aspecto: o garotinho da mamãe, que nunca passou nenhum tipo de privação desse tipo. Ele estava se tornando cada vez mais desagradável, o que me preocupava. Ele não ajudava a mim e a Harry a pensar no que fazer, e criticava todas as nossas propostas. Eu procurava comida e cozinhava sozinha, mas nada disso parecia sensibilizá-lo. Ele estava insuportável, e isso só piorava quando era sua vez de ficar com o medalhão.

Meus feitiços de proteção foram colocados à prova quando vimos um grupo de pessoas próximo ao nosso acampamento e elas não nos notaram. No grupo, estavam os duendes Grampo e Gornope, o pai de Tonks, Ted, e nosso colega de Hogwarts, Dino Thomas, além de Dirk Cresswell. Ouvir secretamente a conversa do inusitado grupo nos trouxe muitas informações, já que estávamos isolados e há muito tempo sem notícias.

Entre outras coisas, soubemos que a espada de Gryffindor que havia sido guardada por Snape no Gringotes era uma réplica. Gina tentou roubar a espada do gabinete de Dumbledore, agora ocupado por Snape. Pensava em minha amiga como uma guerrilheira em Hogwarts, e desejei que ela estivesse bem, assim como Neville, Luna e quem mais estivesse lutando.

Decidimos tentar obter alguma informação com o Fineus Nigellus do retrato que tirei do Largo Grimmauld e guardei na bolsinha. Com isso (e uma boa dose de paciência), conseguimos descobrir que Dumbledore utilizou a espada para destruir o anel de Tom Riddle. Estava explicado porque a deixou para Harry: a espada era capaz de destruir Horcruxes, pois absorvia o poder que havia combatido. O problema agora era onde encontrar a verdadeira espada de Gryffindor.

Eu e Harry estávamos empolgados, discutindo onde a espada poderia estar, quando Harry perguntou a Rony o que ele achava. Sua resposta foi como um soco no estômago. Ele estava nervoso e enciumado.

No começo, não consegui entender o que estava acontecendo. Ciúmes de mim… com Harry? Ele falou que a lista das coisas que tínhamos que procurar sem saber por onde começar só aumentava, e que estava farto disso. Esperava que Harry tivesse todas as respostas, e aquele Rony entusiasmado com a missão quando saímos parecia ter desaparecido.

Ele e Harry discutiram de forma raivosa, como nunca vi antes. A chuva que caía lá fora ribombava na barraca, e o volume dos gritos aumentava cada vez mais.

Supliquei para que Rony tirasse o medalhão. Harry estava transtornado, e acusou a mim e ao Rony de cochichar pelas suas costas. Eu tentei me defender, ofendida com as suas acusações injustas. Era como se os dois tivessem decidido explodir na mesma hora, e tentei manter o mínimo de equilíbrio para que nós não nos matássemos ali mesmo, dando a vitória precocemente a Voldemort.

A palavra fere rápido nessas horas. Foi assim quando Harry perguntou o que Rony ainda estava fazendo ali. Rony respondeu ainda mais nervoso, é difícil lembrar, temia que eles acabassem lutando. Lancei um feitiço Protego entre Rony, de um lado, e eu e Harry, do outro. Rony atirou a Horcrux numa cadeira quando Harry a exigiu, e quis saber se eu iria com ele ou ficaria com Harry.

Parecia que estava no meio de um pesadelo. Como poderia abandonar Harry e a nossa missão? Como Rony ousava nos deixar quando mais precisávamos dele? Como eu poderia ficar sem ele, cujo afeto ajudou a me curar?

Ele saiu da barraca antes que eu conseguisse me livrar do meu próprio feitiço protetor e desaparatou. Desabei na poltrona, chorando tudo o que estava segurando até ali. Harry me cobriu com o cobertor de Rony e foi para cama. Nenhum de nós sabia o que fazer, nem conseguiu dizer nada.

No dia seguinte, precisávamos partir, o que sempre fazíamos como medida de segurança - não ficávamos mais de um dia em cada lugar. Demorei mais do que o normal na arrumação do acampamento para ver se Rony voltava, sem sucesso. Harry, como eu, olhava ansioso sempre que ouvia algum barulho que sugerisse que Rony havia voltado, mesmo sob a forte chuva que caía.

Dei a mão para Harry para desaparatarmos, e assim que chegamos ao novo local comecei a chorar. Minha sensação era de ter chorado sem intervalos desde que Rony partiu, e era quase assim, mesmo. Harry sabia que era inútil tentar me consolar, e também lidava com sua própria dor.

Nos dias seguintes, não falamos mais sobre Rony. Fazíamos nossas tarefas automaticamente. Continuamos tentando planejar quais seriam nossos próximos passos, mas tudo era muito incerto, e estávamos mais perdidos do que nunca.

Tirava o retrato vendado de Fineus Nigellus para conversar comigo e Harry, na expectativa de saber alguma notícia. Harry olhava o Mapa do Maroto com a mesma finalidade. Sem falar sobre isso abertamente, desejávamos saber sobre Rony. Será que ele retornou para Hogwarts? Ou será que ficou tão furioso que desistiu de tudo?

Li e reli algumas vezes o livro que Dumbledore deixou para mim. Minha fluência na leitura de runas antigas estava cada dia melhor. Dedicava-me a essa tarefa como se ela pudesse me proteger de todo o sofrimento e, num passe de mágica, fizesse que eu, Rony e Harry estivéssemos de volta a Hogwarts, com tudo como era antes. Ou quase tudo, pensei, espanando os lábios duas vezes, num gesto sutil.

À medida em que me aprofundava na leitura, o símbolo do olho triangular, desenhado no livro por Dumbledore, me intrigava cada vez mais, pois não se tratava de uma runa, nem fazia sentido algum em relação ao texto. Não encontrei nada sobre ele nos livros que trouxe, e estava cada vez mais cismada.

Resolvi conversar com Harry sobre isso, e ele lembrou do colar que o pai de Luna usava no dia do casamento. Ele sabia que se tratava da marca de Grindelwald, e contou a história que ouviu de Krum sobre o assunto.

Harry continuava querendo ir a Godric's Hollow, e acabou me convencendo. Não conseguimos pensar em outro lugar para procurar a espada de Gryffindor, por mais que eu acreditasse que seria uma empreitada arriscada e perigosa.

Batilda Bagshot, a autora da História da Magia, ainda estava viva e havia conhecido Dumbledore. Assim, nos agarramos à possibilidade remota do diretor ter confiado a verdadeira espada a ela. Era o que tínhamos, e resolvemos tentar nossa sorte.