Os sequestradores pediram os nossos nomes para verificar os registros. Era uma questão de tempo até descobrirem que demos nomes falsos a eles. Fomos amarrados junto com outros prisioneiros, que descobrimos serem Dino Thomas e o duende Grampo.

Harry respondia às perguntas dos sequestradores, tentando ganhar tempo. Eles não faziam ideia de que tinham encontrado alguém muito valioso para Voldemort. No pouco tempo que restava pensávamos no que fazer, mas as possibilidades de reação eram quase inexistentes. Os sequestradores revistaram a barraca e pegaram a espada, mas não a reconheceram.

Foi quando um deles leu a manchete do Profeta Diário. Era um artigo sobre mim, "a sangue ruim que estava viajando com Potter". Minha foto ilustrava a reportagem, e a semelhança não poderia ser negada. Mesmo assim eu neguei, ainda que o desespero em minha voz me traísse.

Greyback se aproximou de Harry e examinou sua testa com mais atenção. Eu tremia, porque nosso tempo estava se esgotando e logo seríamos descobertos. Os sequestradores estavam excitados com a captura que fizeram sem querer, e discutiam para onde nos levar. Eles nos levantaram do chão num movimento brusco e nos agarraram para desaparatar.

Aparatamos em uma estrada pequena no campo, que terminava num enorme portão de ferro escuro e retorcido em arabescos. Eu nunca havia visto aquele lugar, mas sabia exatamente onde estava, porque é ali que Draco deveria estar. Os sequestradores anunciaram no portão que prenderam Potter, e nos arrastaram até a entrada da mansão Malfoy.

Era uma propriedade suntuosa, com detalhes rebuscados como pavões albinos passeando no jardim, que fosforesciam na noite clara. Fiquei imaginando como seria crescer em um lugar assim.

Olhei para Harry com dificuldade, pois estávamos amarrados. Seu rosto já estava desinchando. Ele estava respirando ansioso, e atribuí isso à situação, pois não imaginava que ele sentia uma dor crescente na sua cicatriz.

Reconheci Narcisa Malfoy quando ela veio nos receber, pois mantinha o mesmo ar aristocrático de quando a vi pela primeira vez, na copa de quadribol. Seu rosto, no entanto, estava mais maltratado, com a pele pálida e opaca, e uma ruga funda se destacava na testa.

Greyback empurrava Harry na direção dela, segurando-o pelo ombro e nos arrastando juntos, pois estávamos amarrados em um bolo compacto. Ele me apontou para ela também, afirmando que eu era a sangue ruim que estava viajando com Potter, e mencionou a reportagem do Profeta Diário. Desviei os olhos dela, que abriu a porta e nos mandou entrar. Isso não era bom sinal. Ela pode não ter reconhecido Harry, mas havia me reconhecido.

Narcisa disse que o filho estava em casa passando as férias da Páscoa e saberia reconhecer Potter. O último fio de esperança de que ele não estivesse lá se desfez - uma esperança tola diante do Synchro, como eu já sabia.

A sensação de afundamento no estômago que senti ao ouvir o nome de Draco após tanto tempo me abalou e tropecei, logo sendo arrastada por Greyback para não desequilibrar o grupo compacto de prisioneiros.

Fomos levados até um salão grande e deixados no meio dele. A lareira de mármore acesa e o enorme lustre central iluminavam pouco o ambiente sombrio, mas era possível perceber o quanto tudo era luxuoso, com tapetes e quadros imponentes, de onde os ancestrais da família Malfoy nos olhavam com inequívoco desprezo.

Lúcio Malfoy se aproximou, ostentando no rosto o mesmo escárnio que seus ancestrais, talvez um pouco prejudicado pela expressão abatida. A temporada em Azkaban não deve ter feito muito bem a ele, pensei.

Draco estava sentado numa das poltronas, e caminhou em nossa direção quando a mãe o chamou. A mãe e o pai se postaram um de cada lado dele, e o colocaram em frente a Harry, querendo que Draco confirmasse sua identidade.

Ele não disse nada. Ousei olhar um pouco mais para ele, evitando os olhos. Ele parecia mais magro e mais pálido do que a última vez que o vi na Torre de Astronomia, há um ano atrás, naquela noite que eu não conseguia esquecer, por mais esforço que fizesse.

A cena era ridícula: um rapaz com a mesma altura, corpo, cabelos e óculos de Harry Potter, tendo de um lado Hermione Granger e de outro Rony Weasley - será que era mesmo Potter? Era tão óbvio, por que Draco hesitava em responder? O pai o pressionava a confirmar, ansioso, pois se chamasse Voldemort e se tratasse de um engano, as consequências seriam desastrosas. Draco respondeu que não sabia, e voltou para perto da lareira, com a cabeça abaixada.

Greyback então se lembrou de mim, e virou o nosso grupo de forma a me destacar sob a luz fraca. Narcisa confirmou que me reconheceu, mencionando inclusive nosso encontro na loja de roupas e a foto no jornal.

Ela perguntou para Draco sobre mim. Como ele poderia negar? Talvez fosse fácil mentir para qualquer um, mas não para a mãe. Ele titubeou, não queria olhar para mim. A mãe esperava ansiosa alternando os olhos entre mim e ele, e parecia estar começando a estranhar por que ele estava demorando tanto para responder.

Decidi que não iria tornar as coisas mais fáceis para ele, e juntando um último fio de coragem, o encarei. Não vi nem a sombra daquele olhar sério que me engoliu das outras vezes. Tudo o que eu percebi foi medo. Ele não conseguiu sustentar meu olhar e murmurou, hesitante, que era eu. Também reconheceu Rony a pedido do pai, mas deixando uma dúvida no ar. Ele se virou de costas para o nosso grupo e voltou à poltrona, mais uma vez.

Bellatrix Lestrange irrompeu no salão e veio em nossa direção. Ao contrário dos outros, sua excitação era visível. Ela estava ansiosa para chamar Voldemort, e recuei instintivamente quando ela expôs a Marca Negra no braço esquerdo. Ela e Lúcio começaram a discutir sobre quem deveria chamar Voldemort, e Greyback se intrometeu, preocupado com sua recompensa.

Foi quando Bellatrix notou a espada no cinto de um dos sequestradores e começou a gritar, transtornada. Em gestos rápidos e precisos, ela estuporou os quatro sequestradores, que não tinham a menor condição de enfrentá-la. Ela interrogou Greyback, agora forçado a se ajoelhar, sobre a origem da espada, e o lobisomem contou que a encontrou em nossa barraca.

Bellatrix mandou Draco levar os sequestradores desacordados para fora, e acrescentou que, se ele não tivesse coragem, ela terminaria o serviço depois. Narcisa se ofendeu com a forma como ela tratou Draco, mas Bellatrix estava fora de si e gritava que estavam em uma situação séria, e que Voldemort não poderia ser chamado ainda.

Senti pena da forma como Draco foi tratado, mas também um pouco de esperança: de alguma forma ele parecia resistir, não se tornando um assassino como sua tia e os outros Comensais.

Narcisa mandou Greyback levar os prisioneiros para o porão da casa, mas Bellatrix exigiu que me deixasse ali. Rony gritou, e foi esbofeteado por ela. Bellatrix cortou as cordas que me prendiam aos outros com uma pequena faca de prata, e me jogou com violência no chão.

Eu ouvia os gritos de Rony vindos do porão. Tentei localizar onde estava Draco, mas ele estava fora do meu campo de visão. Bellatrix se deitou sobre mim num movimento rápido e ágil, segurando meus braços. Eu tentava virar o rosto para não sentir o seu hálito, ela estava muito perto. Eu não conseguia me mover, sua pressão era forte. Ela me cheirava como se fosse um felino estudando a melhor forma de dar o golpe fatal na presa.

- Sua sangue ruim nojenta… eu vou perguntar só uma vez… como vocês pegaram a espada?

Por que ela estava tão transtornada com a espada? Ela parecia ter esquecido que Harry Potter estava no porão da casa. Será que ela sabia das Horcruxes? Eu tentava pensar rápido qual a razão desse interesse, mas não rápido o suficiente para ela.

- Crucio!

Toda possibilidade de pensamento desapareceu, e meu corpo se curvou pela dor lancinante. Um grito desesperado saiu como se fosse parte de uma convulsão pavorosa. Eu tinha a sensação de que poderia dizer qualquer coisa, fazer tudo para aquela dor parar. Durou apenas alguns segundos, e quando ela parou eu estava ofegante, e as lágrimas escorriam sem controle. Comecei a falar a primeira coisa que me ocorreu:

- Nós achamos… na floresta…

- Você está mentindo, sua sangue-ruim imunda, sei que está! Você esteve no meu cofre em Gringotes! Diga a verdade, diga a verdade!

Dessa vez, a maldição Cruciatus foi lançada sem palavras, mas a dor me retorceu da mesma forma brutal e esmagadora. Gritar era inevitável, uma consequência incontrolável da tortura. Ela interrompeu a maldição e se abaixou, me puxando pelos cabelos e aproximando seu rosto do meu. Senti a faca gelada no meu pescoço.

- O que mais você tirou? O que mais tem com você? Me diga a verdade ou, juro, vou furar você com esta faca!

- Mais nada, eu juro! Não tiramos nada do seu cofre, é uma cópia, é falsa!

Ela parecia não me ouvir.

- Que mais você tirou? Que mais? RESPONDA! CRUCIO!

A dor era lancinante, e Bellatrix parecia saber o que estava fazendo, aplicando-a na dosagem certa para eu não desfalecer.

- Como foi que você entrou no meu cofre? – berrou. – Aquele duende nojento, no porão, a ajudou?

- Só o conhecemos esta noite! – respondi, soluçando. – Nunca estivemos em seu cofre... essa não é a espada verdadeira! É uma cópia, é só uma cópia!

- Uma cópia? – guinchou Bellatrix. – Ah, com certeza!

Lúcio Malfoy interrompeu, dizendo que o duende poderia confirmar se a espada era verdadeira ou não. Mandou Draco ir ao porão buscar Grampo. Distingui de forma embaçada pelas lágrimas a sua figura alta e magra se deslocando. Ele não olhou para a cena.

Bellatrix estava ao meu lado, em pé, e eu estava caída no chão, ofegante. Ela guardou a pequena adaga de prata e empunhou a varinha apontada para a minha testa enquanto me examinava, furiosa. Ela respirava ansiosa, mas seus gestos eram firmes e precisos. Era uma bruxa poderosa, e poderia me matar facilmente. Eu só estava viva ainda por ela me considerar útil.

Quando Grampo entrou, ela o segurou pelas vestes de forma violenta, e fez um corte em seu rosto com a varinha. O sangue escorria quando ela o interrogou. Grampo parecia não ter sentido a dor, ou estava congelado de medo e rancor.

- Então – perguntou a bruxa a Grampo. – É a espada verdadeira?

Fechei os olhos. Era o fim. Bellatrix não ia perdoar minha mentira.

- Não – respondeu Grampo. – É falsa.

Eu não consegui acreditar no que ouvi. Apenas um duende poderia diferenciar a espada verdadeira da falsa. Grampo estava mentindo.

- Você tem certeza? – ofegou Bellatrix. – Certeza absoluta?

- Tenho.

O alívio se espalhou no rosto de Bellatrix, toda a tensão se dissipou.

- Ótimo – disse ela, e, com um gesto displicente da varinha, fez mais um corte profundo no rosto do duende, fazendo-o cair, com um berro, aos seus pés. Ela chutou-o para longe.

- E agora – acrescentou com uma voz transbordante de triunfo –, vamos chamar o Lorde das Trevas - disse, ao mesmo tempo em que levantava a manga do vestido e tocava com o dedo indicador na Marca Negra. – E acho – continuou – que podemos dar um fim na sangue ruim. Greyback, leve-a se quiser.

Ouvi a voz de Rony gritando ao invadir a sala. Ele desarmou Bellatrix. Harry veio logo atrás e agarrou a varinha dela. Eles começaram a lutar com Lúcio, Draco, Narcisa e Greyback, e não viram quando Bellatrix me puxou e colocou a faca no meu pescoço. Senti a dor do corte superficial e o sangue escorrendo. Estava quase desmaiando, com o corpo exausto pela tortura.

Quando ela gritou que ia me matar se eles não entregassem as varinhas, Rony e Harry congelaram e a obedeceram. Bellatrix deu ordens para que ambos fossem amarrados novamente, e chamou Greyback para me entregar, como um prêmio. Eu mal conseguia acompanhar o que estava acontecendo, pois os efeitos residuais da maldição estavam me entorpecendo. Eu ia desmaiar, constatei, apavorada.

Fui reanimada pelo susto quando o lustre caiu sobre mim e Grampo, que ainda segurava a espada como se sua vida dependesse disso. Bellatrix me soltou, tentando se proteger.

Não sei explicar como, mas me feri apenas superficialmente. Rony me puxou por trás, me arrastando dali. Ouvi os gritos, mas não conseguia entender bem o que estava acontecendo. Vi Harry tomando as varinhas que estavam com Draco, que segurava o rosto ensanguentado com as mãos. Os estilhaços pareciam tê-lo atingido mais fortemente do que a mim, talvez ele estivesse próximo demais.

Após o barulho de Harry estuporando Greyback, os gritos continuaram e julguei ter visto Dobby. Eu estava certa, pois logo em seguida senti a mão de Rony me puxando e desaparatamos.

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Nota:

As falas de Bellatrix foram transcritas do livro Harry Potter e as relíquias da morte.