Não vi o que aconteceu com Dobby. Estava sem sentidos quando cheguei na praia, e Rony me levou para dentro. Minha primeira visão foi o rosto de Fleur me olhando de forma amorosa, e me senti culpada por tê-la tratado mal quando estávamos na Toca. Ela amava Gui de verdade, e estava mesmo preocupada comigo, tentando cuidar de mim da melhor forma que podia.

Rony estava a seu lado, e quando nossos olhos se encontraram foi como se ele tivesse visto um anjo vindo salvá-lo em plena batalha, o alívio estampado no rosto amigo que conhecia desde criança, e que agora mostrava as primeiras marcas de quem enfrenta a vida.

Ele me contou o que aconteceu quando aparatamos, e que Harry estava cavando a cova para Dobby sem usar magia. Eu insisti para ir ao enterro, e Rony sabia que não adiantava nem tentar me convencer do contrário. Fleur me emprestou um robe para me agasalhar, e Rony me amparou até o local, segurando-me pela cintura.

Foi simples e tocante. A pedra com que Harry marcou o lugar parecia ter sido esculpida com todo o sentimento do mundo.

Harry queria falar com Grampo e Olivaras, e chamou a mim e Rony para acompanhá-lo. Ele me elogiou pela presença de espírito de ter inventado que a espada era falsa, mesmo sob a tortura de Bellatrix, e contou que havia pedido a Grampo para confirmar a minha versão.

Rony me segurava pelo braço, com carinho, e senti que nós três estávamos mais unidos do que nunca. Gui insistia em saber o que estava acontecendo, mas Harry não deu detalhes, mantendo-se fiel à determinação recebida por Dumbledore, ainda que o velho diretor não lhe inspirasse a mesma confiança de antes.

Fomos primeiro conversar com Grampo. Eu e Rony ficamos atônitos quando ouvimos Harry dizer a Grampo que queria invadir o Gringotes. Seu desespero estava impedindo-o de pensar com clareza, e isso já estava passando dos limites da sanidade. Comecei a achar que todos nós havíamos enlouquecido coletivamente quando começamos a discutir a ideia, como se fossemos mesmo invadir o banco.

Grampo mostrava todo seu ressentimento com os bruxos, e tinha certeza que os duendes seriam ainda mais perseguidos com a ascensão de Voldemort. Não sei o quanto ele acreditou na sinceridade das minhas palavras, mas precisei dizer que meu status de sangue ruim me tornava tão alvo de perseguição quanto ele. Sei que foi um risco argumentar com ele, mas o sentimento de injustiça me tomou, pois a defesa da igualdade entre os seres mágicos era uma luta pessoal minha.

Deixamos Grampo descansando e conversamos sobre nossas possibilidades. Harry estava convencido de que uma das Horcruxes estava no cofre de Bellatrix, o que fazia todo o sentido diante do comportamento da bruxa na mansão, mas também achava que ela não sabia do que se tratava, nem o que era uma Horcrux. Este era um segredo que Voldemort não dividiria com ninguém, e ele devia ter pedido a ela apenas que guardasse o objeto, enfatizando que era importante.

Em seguida, fomos conversar com o Sr. Olivaras. Harry queria saber mais sobre as varinhas que pegou na mansão, onde ficaram a minha varinha e a que ele estava usando, de ameixeira-brava.

Harry temia o que poderia acontecer, agora que Voldemort descobriria que sua varinha, de azevinho com núcleo de pena de fênix, estava destruída, como diria a leitura dos feitiços previamente realizados pela minha varinha, quando tentei consertar a de Harry.

O Sr. Olivaras não conseguiu explicar por que a varinha de Harry havia partido a varinha emprestada por Lúcio Malfoy que Voldemort usou na noite em que o perseguiu. Harry continuava a não aceitar a hipótese que seu poder como bruxo poderia explicar isso, como eu já havia proposto. Mas achei prudente não insistir.

Como Harry já sabia, o Sr. Olivaras reafirmou que um bruxo não depende da varinha para fazer magia, apesar dela facilitar alguns processos. A varinha é tão boa quanto o bruxo que a porta, pensei. Mas Voldemort, como Harry, não acreditava muito nisso, e estava atrás da Varinha das Varinhas.

O Sr. Olivaras acreditava que a Varinha das Varinhas existia e tinha um poder especial, mas pareceu sincero ao dizer que desconhecia a história das Relíquias da Morte.

Depois, quando ficamos a sós, Harry nos contou que descobriu onde a Varinha das Varinhas estava através da visão da mente de Voldemort: era a varinha de Dumbledore, que ficou em sua posse desde que ele derrotou Grindelwald. Voldemort a retirou do túmulo do diretor, e agora havia se tornado uma ameaça ainda mais poderosa.

Pensei na estranha encruzilhada que os aposentos da casa de Gui e Fleur representavam. Num quarto, estava Grampo e o compromisso com a destruição das Horcruxes, e no outro, Olivaras e o desejo de obter as Relíquias da Morte. Harry oscilava entre os dois, e teria que tomar uma decisão.

A decisão de Grampo em nos ajudar foi a mão do Fatum indicando que eram as Horcruxes que deveríamos continuar a perseguir e destruir. O preço pedido por Grampo, a espada de Gryffindor, era muito alto, mas não estávamos em posição de negociar. Uma vez aceito, Grampo não poderia ser enganado, como insisti com Rony (às vezes, sua falta de princípios era exaustiva, ele parecia não entender o que estava implicado).

Harry decidiu que entregaria a espada a Grampo assim que a utilizássemos para destruir todas as Horcruxes. Ele afirmou ao duende que concordava com os termos, mas não disse quando entregaria a espada. Eu tinha certeza que era isso o que faria - ele honraria sua palavra, pelo menos é o que eu esperava, e cobraria isso dele.

Toda essa negociação foi muito intensa, e fiquei de novo pálida e me sentindo enfraquecida. Harry e Rony perceberam, e insistiram que fosse me deitar, pois precisava recuperar minhas forças para podermos planejar como íamos dar conta da empreitada. Concordei, pois precisava ficar sozinha para elaborar o que aconteceu.

Estava melhor fisicamente, pois os efeitos da maldição Cruciatus no meu corpo haviam se abrandado com as poções medicinais que Fleur me fez tomar. Em relação aos meus sentimentos, no entanto, tudo ainda era confuso e doloroso.

Como era esperado, fiquei abalada em reencontrar Draco após tanto tempo. Pensei na última vez que estivemos juntos, no nosso encontro intenso e angustiado na Torre de Astronomia. Eu sentia aquele puxão no estômago ao reviver como ele me tocou. Essa era a lembrança que mais tentava reprimir e que mais me angustiava.

Quando o vi, foi como se meu corpo o tivesse reconhecido e respondido a ele na mesma intensidade, e qualquer esforço mental que fizesse para controlar isso fosse inútil. Ele estava ali, na minha frente, e experimentei mais uma vez a avalanche dos meus sentimentos por Draco me dominando.

Não consegui observá-lo bem e nos olhamos rapidamente apenas uma vez, mas foi o suficiente para ver que ele estava com uma aparência péssima, a pele mais pálida do que nunca, o olhar desesperado de quem está angustiado e não vê saída, como naquela noite na Torre. Ele parecia ser mais uma vítima naquela sala, assim como eu e os outros prisioneiros. E, no entanto, teve a coragem de não nos denunciar, se mantendo evasivo sobre o fato de ter nos reconhecido, o que eu estava convicta que havia feito.

Lembrei dos passageiros de trem que se encontram e se olham, cada qual no seu vagão, indo em direções opostas na estação do Synchro. Não havia nada a fazer: eu continuaria meu caminho, e ele, o dele. Ele não poderia fugir ao seu destino, e deveria enfrentar Voldemort, Bellatrix e seus pais da forma que pudesse, já que não tinha amigos como os meus para ajudá-lo nessa tarefa. E eu continuaria a trilhar o caminho que havia escolhido, que incluía Rony. Essa era a minha decisão, e não pretendia me desviar dela.

Mas o coração doía, e já havia feito alguns vergões na pele do lado esquerdo do peito sem perceber, na tentativa de amenizar meu sofrimento. Fleur veio me ver, e pedi a ela um pouco de poção para a cura emocional, dizendo que precisava acalmar meu coração após o que passei na mansão dos Malfoy. Ela assentiu e foi buscar na mesma hora, e me ajudou a tomar, acariciando meu rosto e secando minhas lágrimas com delicadeza.

Pedi que não contasse aos garotos para que não se preocupassem comigo, e ela concordou. Dormi um sono sem sonhos e acordei me sentindo melhor, como se tivesse comido um pedaço de chocolate após um encontro com dementadores.

Passamos os dias seguintes planejando a invasão do Gringotes, e eram tantos detalhes a serem revistos que fiquei bastante envolvida no processo. Fui me sentindo mais forte, pois estava usando minha mente racional para resolver uma tarefa difícil, e isso era o tipo de coisa que me fazia bem.

Usar a varinha de Bellatrix estava sendo mais difícil. Num nível racional, tentava me convencer que a varinha é tão boa quanto o bruxo, e repetia para mim mesma todo aquele discurso teórico que costumava pregar para Harry. Emocionalmente, no entanto, sentia repulsa àquela varinha, como se ela me aproximasse de alguma forma a Bellatrix, e tremia ao imaginar tudo o que aquela varinha havia feito.

Quando tomei a Poção Polissuco (contendo o enjôo para não vomitar a única dose) e vi meu corpo se transformar no de Bellatrix, tive que controlar minha repulsa. Não pude deixar de pensar em Draco e no quanto era repugnante conviver com ela o humilhando e pressionando para que se tornasse um assassino cruel como ela.

Fiz alguns feitiços disfarçando Rony, para que ele se passasse por um bruxo estrangeiro acompanhando Bellatrix. Grampo iria apoiado nas costas de Harry como uma mochila, ambos cobertos pela Capa da Invisibilidade.

Por mais vezes que eu tivesse repassado os detalhes do plano, tive que respirar fundo, tentando me acalmar, quando entramos no Caldeirão Furado em direção à entrada do Beco Diagonal, e senti os olhares dos poucos bruxos presentes em minha direção.

O estalajadeiro Tom me cumprimentou receoso, os olhos baixos e o tom servil, e respondi desejando a ele um bom dia também. Harry me advertiu na hora, e me senti completamente idiota: precisava me esfoçar mais para estar literalmente na pele de Bellatrix.

Era uma situação surreal, em que pessoas em farrapos se afastavam de mim na rua, fugindo à minha aproximação. Um homem com uma bandagem ensanguentada no olho me abordou, ríspido e assustado, querendo saber o que fiz com seus filhos. Rony o estuporou enquanto eu gaguejava.

Fui abordada por outro homem que conhecia Bellatrix - a sorte é que Harry e Grampo me passavam informações, e soube que se tratava de Travis, outro Comensal da Morte. Apesar do medo, me saí um pouco melhor na conversa com ele. Não pude evitar que ele me acompanhasse, pois também estava indo ao Gringotes.

No banco, pedi que Travis passasse a minha frente, fingindo conversar alguma coisa com Rony. O duende que me atendeu teve um ligeiro sobressalto quando me viu. Ele quis ver a minha varinha, e reagi tentando transformar o medo que sentia em indignação por ser confrontada assim. Eu só pensava que íamos ser desmascarados, e fiquei grata quando Harry usou a maldição Imperius no duende.

Ponderei que, na guerra, nossos princípios morais são postos à prova, e que estaria morta muito cedo se não abrisse mão da minha inflexibilidade de julgamento. Agradeci intimamente quando soube que Harry fez o mesmo com Travis, e conseguimos entrar no túnel que levava aos cofres, escoltados pelo duende Bolgrode.

Seguimos através dos túneis no carrinho pilotado em alta velocidade por Grampo, por um labirinto de curvas sucessivas. Eu repelia com força a dúvida de como sairíamos dali - não tínhamos um plano definitivo para essa parte.

Atravessamos uma enorme cascata que jorrava sobre os trilhos, e o inútil movimento que Grampo fez para frear o carrinho nos jogou para fora da pista. Consegui agir rápido e lancei um feitiço amortecedor antes que nos esborrachássemos no chão.

Olhei para Rony, e vi que havia voltado ao normal. Constatei sobressaltada que eu também voltei, e me senti secretamente aliviada, apesar do medo. Isso significava que os feitiços haviam cessado, o que foi confirmado por Grampo, devido à passagem pela Queda do Ladrão. Harry lançou mais uma vez a maldição Imperius em Bogrode, e eu lancei um Protego para desviar o jorro da cascata para cima.

Continuamos andando em frente, e por mais que soubesse o que iria encontrar agora, não pude conter o espanto. O enorme dragão acorrentado tinha uma cor esbranquiçada por estar preso há anos num lugar sem luz. Seu corpo estava coberto de cicatrizes, e seus olhos eram rosados e leitosos, indicando que era quase cego. Parecia um enorme gato sphinx acuado e rosnando, com a diferença que poderia nos carbonizar em segundos. As gigantescas asas inúteis se dobravam desajeitadas em suas laterais, como se não pertencessem a ele e estivessem atravancando o pouco espaço disponível no salão dos cofres.

Grampo nos indicou onde estavam os cêmbalos e como utilizá-los, e o gato colossal recuou e bufou à nossa passagem, tentando evitar a dor que foi condicionado a sentir. Eu não tinha direito a hesitar, mas toda aquela crueldade estava me fazendo muito mal. Tive que seguir adiante, balançando fracamente o cêmbalo enquanto as lágrimas corriam.

O cofre foi aberto pelo toque da mão de Bogrode. Era um espaço entulhado de objetos, jóias e peles. Procurávamos a taça de Hufflepuff ou um objeto desconhecido. Eu torcia para que fosse a primeira, pelo menos teríamos mais chance de acertar.

Peguei uma pequena taça que poderia ser a que buscávamos, mas a soltei em seguida, quando queimou meus dedos. Ao cair no chão se multiplicou, e agora havia umas vinte cópias dela espalhadas, impossibilitando dizer qual era a verdadeira. Gritei para que todos ficassem parados e não tocassem em nada, mas era quase impossível.

Harry conseguiu localizar a taça de Hufflepuff numa prateleira alta. Esquecendo toda a nossa discussão anterior, lancei um Accio inútil, e fui criticada por Grampo - feitiços convocatórios não funcionam dentro do cofre, ainda mais com uma Horcrux. Harry teve a ideia de usar a espada de Gryffindor para pegar a taça pela alça, e o levei próximo a ela com um Levicorpus.

Os objetos tocados por ele foram se multiplicando e nos queimando, mas Harry conseguiu pegar a taça. Tentei nos proteger com um Impervius, mas a montanha de metal já estava na altura da cintura para mim e Rony, e tentávamos resgatar os duendes soterrados, enfrentando a dor das queimaduras.

Harry ergueu Grampo nos ombros e perdeu a espada na confusão, que foi encontrada e agarrada pelo duende, ainda equilibrado sobre Harry. A taça voou pelo ar, mas Harry conseguiu apanhá-la, como se fosse o pomo dourado mais importante do mundo, enquanto as cópias caíam em volta dele e sua mão queimava.

Grampo desapareceu pela porta com a espada, gritando para os outros duendes, que agora lotavam o salão, que tomassem cuidado com os ladrões. Estava claro que ele não confiava que Harry iria cumprir sua parte no acordo, e não sei se teria adiantado termos sido mais honestos com ele sobre a nossa necessidade de manter a espada até destruirmos todas as Horcruxes.

Estávamos os três ali, com queimaduras por todo o corpo, lançando feitiços contra o grupo de duendes e guardas bruxos que se aproximavam, ferozes. Não sabia como escapar, só tentava nos defender e ganhar cada segundo.

Quando o dragão rugiu e cuspiu fogo no grupo ameaçador, Harry teve a insana ideia, a única possível. Lançou um feitiço para soltar as correntes do dragão e nos mandou segui-lo. O plano era absurdo, mas não havia mais parâmetros para julgar o que era absurdo ou não naquela situação. Harry me ajudou a subir, e Rony montou atrás de nós.

O dragão percebeu que estava solto e começou a escalar as paredes rochosas, lançando chamas para abrir caminho, e fomos ajudando-o com feitiços explosivos para abrir espaço. Irrompemos em pleno salão de mármore do Gringotes, como uma força subterrânea furiosa que não pode mais ser contida. O dragão quase cego foi em direção à luminosidade que entrava pelas portas e, como uma mariposa que encontra a luz, voou para a liberdade.

Não sabíamos para onde o dragão estava nos levando, não era possível guiá-lo. Ouvia Rony gritando e xingando. Harry estava quieto, agarrado às escamas, como se estivesse agradecendo silenciosamente.

Acomodada entre os dois amigos, me permiti chorar, não pela dor das queimaduras, mas por toda a angústia que vivemos e que agora deixávamos para trás, num vôo cada vez mais rápido e vertiginoso. Foi um escape glorioso, um mergulho para a morte, e no entanto estávamos ali, com mais um inocente salvo, uma versão gigante de Bicuço.

O dragão liberto reencontrava sua natureza a cada batida das poderosas asas, mergulhando em direção a ela e dela se impregnando, como se nunca tivesse sido prisioneiro.

Lembrei de Draco, e desejei que, como seu gêmeo dragão, pudesse ser livre também. Agradeci por poder chorar sem ser questionada pelos meus amigos, o coração doendo mais que as queimaduras.

Segurando-me nas escamas duras e grossas do enorme animal, o acariciei num gesto trêmulo que ele jamais perceberia, assim como as lágrimas que escorriam pelas suas costas, enquanto pronunciava o nome em silêncio, o nome que fazia minha língua sibilar em surdas explosões atrás dos dentes e no palato, a versão latina de dragão, o nome de Draco.