O Sr. e a Sra. Weasley se recolheram cedo, haviam enfrentado emoções demais. George e Percy se juntavam aos amigos, buscando consolo e rememorando as aventuras com Fred. As pessoas se reuniam e conversavam, a dor permitindo que relaxassem ao menos um pouco, e honrassem os entes queridos perdidos, assim como o fato de estarem vivas.
Estávamos tão cansados quanto quem acaba de sair de uma guerra, mas ninguém conseguia dormir. Queríamos matar as saudades dos amigos, conversar sobre os planos para o futuro e sobre assuntos banais, também. Afinal, há muito que não sentávamos para conversar trivialidades como os jovens que éramos, e pela primeira vez, em muito tempo, estávamos nos autorizando a isso.
Tomei um banho quente e reconfortante, o corpo finalmente relaxando a tensão, e depois fui sentar com Rony, Harry, Gina, Neville e Luna na Sala Comunal de Grifinória. Também nas salas das outras casas os grupos estavam misturados, com alunos de todas as casas em todos os lugares.
Monstro trouxe comida, e lembrei com saudade dos banquetes de Hogwarts, comendo com gratidão ao recordar quanto tempo passamos nos alimentando de cogumelos durante a fuga.
Os dormitórios estavam quase vazios, pois os alunos mais novos haviam sido evacuados. Rony foi me levando pela escada a um quarto do dormitório dos meninos que ainda estava desocupado, pois muitos casais estavam tendo a mesma ideia. Não éramos mais monitores e havíamos vencido a guerra, portanto, por que não?
Juntamos duas camas e dormimos, apenas, pois estávamos exaustos. Mas de manhã, quando acordamos ainda abraçados, fizemos amor pela primeira vez. Foi muito bom, Rony sempre me tratou como uma rainha, e o mesmo se aplicava ao sexo.
Ficamos abraçados vendo o sol se firmar lá fora. Estávamos quase no verão e o dia prometia ser lindo, com uma temperatura amena e céu muito azul, sem nuvens.
Não pude deixar de comparar minha primeira vez com Rony com o momento que vivi com Draco: um era solar, acolhedor, carinhoso, quente, macio. O outro, noturno, lunar, desesperado, angustiado e doloroso. Reafirmei para mim mesma que havia feito uma escolha, e era nos braços de Rony que eu queria estar de agora em diante.
Descemos para o café da manhã quase ao mesmo tempo que Harry e Gina, e ao ver minha amiga tive a certeza que ela havia feito a mesma coisa que eu, pois ostentava o sorriso largo de quem está apaixonada e pode viver sem medo seus sentimentos.
Rony também percebeu, mas fingiu que não viu. Ele também estava muito feliz, e tudo estava tão perfeito que não havia lugar para ciúmes de irmão mais velho. Harry estava sorrindo e leve como há muito tempo eu não via: finalmente, meu amigo estava começando a experimentar a felicidade que ele merecia há tanto tempo.
Durante o café, fomos conversando e nos inteirando dos trabalhos de reconstrução de Hogwarts. A presença de Harry mobilizava as pessoas - todos queriam falar com ele e perguntar sua opinião sobre alguma coisa, e ele atendia a todos gentilmente. Mas era preciso organizar o trabalho, pois todas essas solicitações iam deixá-lo exausto em pouco tempo.
McGonagall já se antecipara a isso e estava organizando uma reunião na sala de Dumbledore com os professores, membros da Ordem da Fênix e funcionários do Ministério que estavam no castelo, para a qual eu, Harry e Rony fomos convidados. Ela queria formalizar sua recondução ao cargo de diretora e formar uma comissão de reconstrução, para a qual contava com a nossa participação, auxiliando-a a fazer uma comissão de alunos para organizar a atuação de todos.
Pelos participantes do Ministério que estavam ali, ficamos sabendo que a indicação deles era de que Kingsley assumisse o cargo de Ministro da Magia, o que foi aplaudido por todos. Ele teria que partir em breve, mas deixaria alguns funcionários para auxiliar no trabalho de reconstrução, entre eles Percy, que estava animado com a nova posição.
O Sr. Weasley também iria participar, assim como a mãe de Rony, o que entendemos que seria uma forma de auxiliá-los a lidar com o luto pela perda de Fred. Todos nós nos sentíamos um pouco assim: trabalhar pela reconstrução era uma forma de honrar todos os que perdemos e reverenciar esse fato marcante na história de Hogwarts.
Todos estavam interessados em Harry, e Kingsley perguntou o que ele pensava em fazer em seguida. Ele disse que gostaria de continuar com seu projeto de se tornar um auror, mas apenas quando a reconstrução de Hogwarts estivesse concluída. McGonagall observou que todos os alunos teriam o tempo necessário para pensar nisso, e que Harry não deveria se sentir pressionado.
Harry pediu a atenção de todos, pois queria fazer um pronunciamento. Começou dizendo que Dumbledore, mesmo após sua morte, organizou as coisas de forma que ele e os amigos conseguissem alcançar os meios para derrotar Voldemort. Ele disse que não entraria em detalhes agora, mas queria ressaltar um aspecto.
Contou ao grupo o papel que Severo Snape teve para sua proteção e para o sucesso da nossa missão, tendo inclusive sacrificado a sua própria vida para isso. Ele queria que o professor recebesse as merecidas homenagens e retratação diante da sociedade bruxa. Pediu, diante de todos, que eu escrevesse o obituário de Snape, pois entendia que estava à altura da tarefa.
Fiquei honrada com a atribuição e a confiança depositada por Harry em mim. Quando a reunião terminou, estávamos com várias ações organizadas, cada um de nós assumindo uma parte dos trabalhos. Eu iria fazer o obituário, e também participaria da comissão de reconstrução com os elfos, além de me candidatar a representante de Grifinória na futura comissão de alunos.
Quando as pessoas foram embora, McGonagall pediu que eu, Harry e Rony ficássemos mais um pouco, pois gostaria de conversar sobre os nossos planos escolares para o futuro. Ela queria reiterar que, para ela, nós éramos antes de tudo estudantes, ainda que tivéssemos nos tornado heróis. Ela desejava que tivéssemos a certeza de poder fazer as escolhas de um jovem adulto que está terminando sua escolaridade, sem sermos pressionados mais do que já é esperado nessas horas.
Harry e Rony se colocaram dizendo que esse era o último ano para eles em Hogwarts, e que não pretendiam continuar em setembro. Queriam saber se poderiam se dedicar à carreira de auror sem concluir os exames, e McGonagall disse que precisava levar a questão ao conselho escolar, mas entendia que, pelos excelentes serviços prestados por eles à comunidade bruxa, eles receberiam a certificação do curso. E que esse ano, pelo seu caráter excepcional, deveria ser considerado dessa forma em termos de avaliações e exames.
Na minha vez, ponderei que pretendia voltar em setembro e cursar o último ano com todos os aspectos formais, o que não surpreendeu Harry, Rony e a diretora. Disse a ela que pensava em seguir uma carreira acadêmica após a saída de Hogwarts, fazendo um doutorado, com o que ela concordou, entusiasmada, elogiando-me e sublinhando que não via melhor decisão para uma bruxa com a minha inteligência, e que teria prazer em me ajudar, fazendo as recomendações necessárias para isso.
Encerrada essa parte, Harry lembrou mais uma vez do obituário, e disse que eu deveria acessar as memórias que Snape deu a ele como inspiração para a escrita. Completou dizendo que, apesar de ser algo muito pessoal, tinha certeza que eu encontraria o tom correto para fazer a justa homenagem ao professor, sem expô-lo em sua intimidade.
McGonagall agradeceu a Harry pelas palavras, dizendo que encontrou muito consolo em conhecer a história de Snape, pois conseguia agora compreender a postura de Dumbledore em relação a ele, e tinha certeza que o obituário que eu escreveria faria esse papel para muitos que o julgaram sem saber dos seus verdadeiros motivos.
Harry indicou que as memórias estavam na penseira, e que talvez fosse melhor guardá-las comigo e olhá-las depois, ao que consenti. McGonagall disse que tinha um frasco de vidro com ela, e Harry já estava puxando com a varinha o fio prateado da penseira quando McGonagall entregou o vidro a Harry, que acondicionou o líquido ali e me entregou. Observei que era um lindo frasco antigo, com um belo aplique de metal de uma abelha delicada.
Eu sabia que Draco Malfoy havia ido embora com a família, mas mesmo assim fiquei esperando que ele entrasse na sala. Quando nada aconteceu, e Harry, Rony e McGonagall começaram a estranhar minha hesitação, guardei o frasco e disse que começaria a trabalhar no obituário ainda hoje, imaginando que nas memórias de Snape havia alguma mensagem do Synchro para mim.
Combinei com McGonagall que viria às 18h para consultar a penseira e começar a escrever. Ao chegar, despejei o conteúdo do delicado frasco de abelha na penseira e mergulhei para ver as memórias de Snape com reverência, como se estivesse entrando num templo para assistir a uma cerimônia sagrada.
Foi impactante estar nas cenas e encontrar aquele Snape desconhecido para mim, com sua expressão apaixonada. Fiquei muito emocionada, ainda mais porque lembrava o tempo todo do que ele havia feito, e também por quê e por quem havia feito.
Foi impossível segurar as lágrimas quando Snape pediu desculpas a Lilian por tê-la chamado de sangue ruim. E também quando vi que Dumbledore sabia de tudo o que Draco deveria fazer e teve compaixão por ele, pedindo que fosse Snape que tirasse sua vida para poupar Draco.
A descrição que Harry fez das memórias estava bem exata na sequência que eu observei, e fiquei pensando o que poderia ser um elemento novo que fizesse sentido diante do sinal do Synchro. Assisti as cenas algumas vezes, indo e voltando como se fosse um filme trouxa.
Encontrei uma fala muito rápida de Dumbledore, que deve ter passado despercebida a Harry, ou à qual ele não deve ter dado importância. Ele murmura para si mesmo "o Synchro" quando vê o Patrono da corsa de Snape sendo criado, no momento em que perguntou a ele se se sentia assim em relação a Lílian depois de todo esse tempo, ao que o professor respondeu com apenas uma palavra: "sempre".
Compreendi que Snape também vivia o Synchro com Lílian. Senti toda a força me deixar, e me controlei para não demonstrar isso, por estar sendo observada pelos diretores nos retratos, e por medo que McGonagall entrasse e me pedisse explicações.
Resolvi recolher as memórias e sair dali, pois precisava de privacidade. Fechei a sala e fui até a Torre de Astronomia, que estava vazia. Mesmo com todas as lembranças que aquele lugar trazia, era ali que sentia que precisava estar.
Era o Synchro que ligava Snape a Lílian, uma relação em que o preconceito quanto aos sangues ruins triunfou. Ainda assim, Snape não deixou de amá-la, e viveu através de Harry uma forma de redenção. Sua vida e sua morte ficaram ligadas a Lílian para sempre.
O quanto ela o amou eu não poderia saber, ela parecia feliz com o pai de Harry, e esse pensamento me lembrou mais uma vez que o Synchro entre duas pessoas não significava que elas iriam ficar juntas como um casal, e sim que iriam compartilhar a vida, da forma que fosse.
Eu sabia que Draco estaria sempre presente na minha vida, por mais que eu ficasse com Rony, assim como eu também estaria na vida de Draco. Não era possível saber como ou quando isso aconteceria de novo, apenas que continuaria a acontecer, pois eu não poderia fugir do nosso Synchro. Mas também significava que eu poderia ser feliz com Rony, assim como Lílian e Tiago foram.
Eu havia levado um caderno de rascunho e penas, e na Torre de Astronomia escrevi o texto do obituário como se alguém estivesse ao meu lado ditando palavra por palavra, uma escrita que quase não precisou de correções.
Quando o texto foi publicado, recebi muitos elogios, mas o mais importante para mim foi Harry ter gostado e considerado que estava à altura de Snape. Foi mais um trabalho escrito que fiz a pedido do meu amigo, talvez o mais importante de todos eles.
Em memória de Severo Snape
por Hermione Granger
Que estranho pensamento, imaginar que a seu lado, agora, pode estar um protagonista anônimo que, sob o disfarce da introspecção e certa hostilidade, esconde sua grandeza e coragem. Alguém que escolhe se sacrificar sem receber nenhum tipo de reconhecimento ou glória, apenas pelo compromisso com algo maior e transcendente. Assim foi Severo Snape, cuja trajetória heróica conhecemos apenas após a sua morte.
Fui apresentada ao professor Snape ao frequentar suas aulas em Hogwarts. Assim como para muitos outros alunos, o professor Snape que conheci possuía em brilhantismo o mesmo que em disciplina, e não nos poupava de palavras duras. Como meus colegas, fui humilhada algumas vezes por ele durante as aulas, pois nos tratava de forma ríspida, e mesmo aqueles que supostamente ele apreciava não recebiam nenhuma demonstração particular de afeto. Inspirava medo e por vezes ressentimento, e até quem o admirava, como o professor magnífico que era, deveria fazer isso a uma respeitosa distância, pois ele não permitia nenhum tipo de aproximação.
Sua trajetória acadêmica formidável em Hogwarts começou quando ingressou na casa Sonserina. Desde cedo, interessou-se pelas Artes das Trevas, o que levou-o a se aproximar dos ideais de pureza do sangue bruxo, mesmo sendo ele próprio mestiço, filho de mãe bruxa e de pai trouxa. Juntou-se àqueles que seguiam o auto-intitulado Lorde das Trevas, e tornou-se um Comensal da Morte.
Os ideais defendidos por esse grupo e o rastro de destruição que Voldemort deixou atrás de si foram questionados por Severo Snape quando desembocaram nos eventos que levaram à morte de Lílian Potter, sua amiga de infância, a quem dedicou especial afeição.
A brutalidade do assassinato de Lílian o levou a duvidar dos valores que ele até então apoiava, e contou com Alvo Dumbledore como apoio nessa transição. Tornou-se membro da Ordem da Fênix, o grupo leal a Dumbledore, ao mesmo tempo que mantinha sua filiação junto aos Comensais da Morte. Severo Snape atuou desde então como um agente duplo, cujo papel foi decisivo no combate a Lorde Voldemort.
O escopo da sua atuação era conhecido totalmente apenas por Dumbledore, que afiançava e reafirmava sua total confiança em Severo Snape diante dos colaboradores que não partilhavam dos mesmos sentimentos, e que, por lealdade a Dumbledore, confiaram em Snape, ainda que com relutância.
A eles, é preciso reafirmar que estavam certos em confiar em Dumbledore, e que a história agora esclarece porque isso foi necessário, mesmo em momentos terríveis, como o assassinato de Dumbledore por Snape, que foi talvez a mais dura tarefa imposta pelo próprio Dumbledore ao professor. O diretor sabia que estava desenganado, e não pretendia perecer em mãos inimigas.
Com essa missão dada a Snape, o diretor visou também proteger Draco Malfoy, que foi encarregado por Voldemort de executar Dumbledore, pois não representava um dilema ético para Voldemort usar um jovem de dezesseis anos para tal tarefa. Em seu último momento, Dumbledore agiu como o grande educador que sempre foi, pensando no bem do seu aluno antes de pensar em si próprio.
De forma especial, isso deve ser ressaltado em relação a Harry Potter. Quem testemunhou a relação de Harry Potter e Severo Snape pode assegurar que se tratou de antipatia à primeira vista. O professor não disfarçava sua aversão ao aluno que, por sua vez, não se sentia diferente em relação a ele. No entanto, Severo Snape morreu defendendo Harry Potter, por amor e lealdade ao menino que jurou proteger, mesmo que isso nunca fosse revelado durante sua vida.
Que a solidão e o sofrimento que Severo Snape experimentou em vida possam ser honrados em memória, pelo reconhecimento do seu sacrifício desmedido.
Que possamos abrir o coração para aqueles que parecem tão diferentes de nós, pois no fundo partilhamos sentimentos semelhantes, ainda que demonstrados de forma diversa.
Que os discursos de pureza de sangue possam ser questionados e combatidos, e que os valores humanos da igualdade e da fraternidade na comunidade bruxa possam sempre triunfar.
E que seja esta a última e mais importante lição a ser aprendida do professor Snape: a lealdade ao bem maior é o principal compromisso de uma vida, independente do preço a ser pago.
