Stonehenge era uma espécie de Hogwarts para adultos: bem maior e mais antiga, com construções milenares e uma biblioteca com manuscritos raros, da qual não reclamaria se ficasse presa nela pelo resto da vida.

Estava um pouco ansiosa na primeira vez que encontrei a professora Hutton, mas fiquei agradavelmente surpresa. Eu a imaginava uma pessoa mais severa, com a postura mais ereta, parecida com McGonagall, mas ela era mais descontraída e sorridente, apesar de ambas terem o mesmo ar maternal.

Isso durava até quando alguém fazia uma pergunta a ela: era capaz de citar grandes trechos de livros de memória, comparar a visão de diferentes autores e apresentar sua opinião sobre eles de uma forma cativante e bem humorada, e sempre muito bem fundamentada. Não poderia desejar uma orientadora melhor, e senti que ela também simpatizou comigo logo de início.

Hutton me recebeu em sua sala para explicar como funcionaria nosso trabalho e orientar as referências da minha tradução para o inglês da versão em runas antigas de Os Contos de Beedle, o Bardo, que seria o produto final do meu doutorado. Ela me serviu um delicioso chá de jasmim, e observei o delicado trabalho no açucareiro, representando pequenas abelhas. Fiquei distraída, quando ele perguntou:

- Você tem mais alguma dúvida, Hermione?

- Acho que não, professora. Tenho certeza que terei outras dúvidas, mas agora tenho todas as informações que preciso.

- Você não tem dúvida alguma sobre o Synchro?

A professora Hutton, definitivamente, não estava para brincadeiras. Ele me lembrava um pouco Dumbledore, com aquele olhar que dava a impressão de que era capaz de ler a sua alma. Decidi que não ia perder a oportunidade, e contei minha experiência com o Synchro desde o começo até meu recente ritual com Firenze.

Ela afirmou que eu poderia participar do grupo de estudos sobre Deméter, nos Mistérios de Elêusis, como iniciada, e que ela poderia me orientar nesse processo. Esclareceu que o Synchro era estudado como parte dos Mistérios, e que eu encontraria bons interlocutores para aprofundar meus estudos.

Aceitei o convite, me sentindo honrada por ser guiada por Hutton. Ela também ponderou que este estudo e a iniciação seriam atividades paralelas ao doutorado, pois ainda que as runas antigas fossem uma linguagem da Magia Antiga, os rituais de iniciação eram um objeto complexo e único, e quis saber se eu estava disposta.

Respondi que sim, que já não tinha o mesmo medo da Magia Antiga de quando comecei a estudar, mas que ainda era algo que não compartilhava com ninguém, nem com meus melhores amigos. Hutton ponderou que eu não precisava da autorização de ninguém para ser iniciada, e que se quisesse manter segredo sobre meu estudo de Magia Antiga, era um problema que dizia respeito somente a mim. Observou também que o ritual iniciático das sacerdotisas era transmitido oralmente por milênios, e sobre isso deveria assumir o compromisso de manter o mais profundo sigilo.

Foi assim então que, como na época do Vira-Tempo, comecei a estudar duas áreas ao mesmo tempo: a tradução dos Contos de Beedle em runas antigas e as práticas de iniciação nos Mistérios de Elêusis. Era uma vida dupla que preferi continuar a manter apenas para mim, não dividindo nem mesmo com Gina.

Minha amiga, aliás, estava passando por um desafio: ela e Harry decidiram se mudar para a casa da Ordem da Fênix no Largo Grimmauld, que agora era a casa de Harry, e que iriam morar juntos antes de se casar.

Isso quase matou a Sra. Weasley de susto, pois ela não pretendia abrir mão do sonho de fazer o casamento de sua única filha mulher. Mas Gina e Harry conseguiram contornar a situação muito bem, comprometendo-se a fazer uma cerimônia de casamento tradicional assim que os compromissos profissionais de Gina permitissem.

A casa de Harry e Gina logo virou a segunda casa para mim e Rony. Ele ganhou um quarto na casa e passou a morar lá também, e é para lá que eu ia sempre que estava de folga na universidade.

As lembranças dos momentos alegres que nós quatro vivemos naquela casa são as melhores que tenho daqueles anos. Inventamos festas em que Harry e Rony cozinhavam sem a ajuda de Monstro e organizamos gincanas e bailes com nossos amigos de Hogwarts e os colegas de Harry e Rony no Ministério (em que agora Neville estava também), além das noites de jogos e de pizza.

Era uma farra, e a bagunça resultante era colossal, mas nem Harry nem Gina pareciam se importar com isso: eles sempre deram prioridade a desfrutar da companhia dos amigos.

No dia seguinte de uma dessas festas que atravessou a madrugada, eram quase onze horas quando desci descabelada para a cozinha e encontrei Gina tomando café e lendo o Profeta Diário. Ela me perguntou, um pouco séria:

- Você viu quem vai se casar?

- Você sabe que eu não leio a coluna de fofocas, Gin.

- Draco Malfoy.

- O quê?...

Ainda bem que soube por Gina, pois a minha cara de decepção não teria passado despercebida.

- Sim… Com Astoria Greengrass. Você lembra dela?

- Sim, claro que sim… Mas ela é tão novinha, terminou a escola agora em junho.

- Nem tanto para os nossos padrões bruxos, você sabe que começamos a vida mais cedo. Ainda mais os casais que passaram pela guerra, olha eu e o Harry… Pela notícia, parece que eles estavam esperando ela se formar para se casar. Tá tudo bem, Mione?

- Sim… fiquei surpresa, só isso. Você sabe que eu e o Rony estamos muito bem, ele é o homem que eu escolhi para a minha vida. Foi só… meio estranho saber que Draco vai se casar, só isso.

Ela me olhou compreensiva e estendeu o jornal com um gesto, mas eu não quis ler. Apenas olhei a foto, em que a bela monitora da Sonserina estava radiante, e ao lado dela, envolvendo-a num abraço, Draco sorria e atestava, mais uma vez, que nossos destinos, mesmo cruzados, não nos davam direito a ficar juntos.

Estava entrando na fase final da tradução, com a revisão do último conto e fazendo as correções indicadas por Hutton. Ela estava muito satisfeita com o trabalho, e já tínhamos em vista uma editora interessada em publicar a tradução após a defesa da tese.

Paralelamente, continuava a fazer as práticas de iniciação, e Hutton considerou que eu poderia ser iniciada durante os rituais dos Mistérios de Elêusis, quando se celebrava o retorno de Perséfone à luz, vinda de sua temporada no Hades. Era o símbolo do renascimento no ciclo de Deméter.

Em agosto, fiz a defesa da tese, com a participação de McGonagall na banca, e em setembro viajei à Grécia com Hutton e fui iniciada nos Mistérios de Elêusis. Para todos, eu dei a desculpa de que estava indo com Hutton em um evento acadêmico, e que não seria possível combinar turismo e trabalho na viagem. Foi a forma que encontrei de guardar apenas para mim a minha nova conquista: agora era uma iniciada no culto a Deméter.

Rony não insistiu em me acompanhar, pois estava bem no meio de uma transição profissional. Ele já estava sentindo há algum tempo um descontentamento com a carreira de auror, ao contrário de Harry, que parecia ter encontrado a vocação da sua vida.

Para Rony, as responsabilidades do cargo eram exaustivas, e a carreira estava sendo um pouco decepcionante, com menos aventuras do que ele sonhou, e muito mais planejamento do que ação efetiva. Isso coincidiu com a necessidade de Jorge ser ajudado na Gemialidades, e ele vinha insistindo que Rony se tornasse seu sócio.

Rony acabou concordando, e no início do ano começou a trabalhar com Jorge, onde se encontrou. Ele sempre teve bom humor e um certo jeito rebelde, o que era uma combinação ideal para o negócio.

Outra vantagem que pesou bastante foi que Rony finalmente começou a ganhar um bom dinheiro e a ter acesso a coisas que nunca pode ter na infância, como boas roupas, vassouras modernas e uma boa casa, que começamos a procurar juntos em Londres.

Ele estava feliz, e eu mais ainda com a publicação da minha tradução de Beedle, que logo se tornou um sucesso e foi adotada como livro didático em Hogwarts.

Profissionalmente, ainda não sabia bem o que fazer. Meu principal desejo era ensinar em Hogwarts, mas era um pouco como um sonho de criança que não sabia se iria funcionar agora que era adulta. Estava envolvida na discussão política dos direitos dos elfos, que andava bem ativa no Ministério na época.

Harry começou a fazer uma campanha para que eu fosse trabalhar com ele no Ministério, não como auror mas no setor das conciliações, pois achava que a minha contribuição seria importante. Num dia em que Kingsley apareceu numa das festas de Harry e Gina ele reiterou o convite, e decidi experimentar para ver como me saía. Acabei envolvida com o trabalho no Ministério, e logo passei a integrar a equipe de assessores diretos de Kingsley, que gostava muito do meu trabalho.

A temporada de quadribol se encerrava em maio, e Harry e Gina estavam pretendendo se casar nesse mês. Os dois tiveram a ideia de fazermos uma cerimônia conjunta, e eu e Rony acabamos concordando com a ideia.

Rony já havia comprado uma casa em Londres, não muito longe do Largo Grimmauld e do Ministério. Eu ia completar vinte e três anos, e achei que era uma boa idade para me casar, segundo meu cronograma, a partir do qual eu decidia quando os eventos iriam acontecer na minha vida (ou, pelo menos, achava que decidia). Assim, já havia defendido meu doutorado, e agora iria me casar, e daqui a dois ou três anos ter um filho, e depois de dois anos um segundo filho, uma menina e um menino.

Nossa festa de casamento seria numa grande tenda montada no pomar da Toca, como uma espécie de homenagem ao último casamento Weasley ocorrido lá, na noite em que o Ministério caiu e é considerada a data oficial do início da guerra. Dessa vez, o evento seria de paz e alegria, e não poderíamos querer um lugar melhor para celebrar com a família e os amigos.

Foi iniciativa de Harry que convidássemos Draco Malfoy para a festa. Rony concordou, meio a contragosto. Draco costumava ir ao Ministério, e Harry comentava volta e meia que havia encontrado com ele por lá.

Eu estava trabalhando no Ministério e nunca o encontrei, e sabia que não adiantava me preocupar com isso. Poderíamos morar dentro da mesma casa: se o Synchro não anunciasse nosso encontro, ele não ocorreria.

Harry comentou que soube que Draco e Astoria queriam ter filhos, mas por algum problema não conseguiam, e que envolvia uma maldição de sangue da família de Astoria. Ele não sabia mais detalhes porque não tinha intimidade para conversar com Draco sobre o assunto. Fiquei pensando como reagiria se soubesse que Draco se tornaria pai, se só em saber do seu desejo de ter um filho já me sentia um pouco incomodada.

Como o casamento era dos quatro, os convidados deveriam ser aprovados por todos, e a família Malfoy passou pelo crivo. Enviamos o convite para Draco e família, mas ele não compareceu, alegando ter compromissos no exterior. Ele nos enviou presentes, com cartões personalizados com seu nome e o de Astoria, num papel timbrado nobre e com acabamento refinado.

Os presentes eram iguais, um serviço de baixelas de jantar em uma finíssima porcelana. O de Harry e Gina tinha o acabamento em filetes prateados e era decorado com uma flor-de-lis, e o meu e de Rony tinha um acabamento dourado, com uma abelha estilizada na borda.

Fleur e a Sra. Weasley ficaram elogiando o bom gosto dos Malfoy, e agradeci intimamente por ter recebido um presente que não usaria no dia a dia, pois não suportaria lembrar de Draco cada vez que olhasse os pratos.