Ele se deixou cair exausto ao meu lado, e por alguns momentos ficamos assim, olhando para o teto. A Lua Cheia de Peixes estava alta, iluminando o mar grego, e sua luz parecia ser mais forte do que a do abajur. A voz de Draco pronunciando meu nome e dizendo que me amava ecoava na minha cabeça, como um mantra sagrado.
Estávamos sobre a coberta amassada e comecei a sentir sua textura, era um tecido meio brilhante e incomodava um pouco. Não tinha nada para me cobrir, e pensei que seria bom ter alguma coisa para me proteger da intensidade do olhar de Draco, ainda que um lençol fosse um escudo um pouco frágil.
- Tá tudo bem, Granger?
Tínhamos transado apenas duas vezes, mas identifiquei um padrão: Hermione era um nome apenas para ser dito durante o sexo, quando Draco se permitia ficar vulnerável, aberto para mim. Ele iria continuar a me chamar de Granger, por mais intimidade que tivéssemos. E jamais me chamaria de Weasley.
- Sim, tudo bem… é essa colcha, ela pinica… vamos tirar?
Ele se levantou e começou a tirar a colcha. Pela Deusa, o seu corpo era lindo, e eu poderia passar o resto da minha vida apenas olhando pra ele. Me levantei para ajudar, mas senti a fraqueza de novo, e sentei.
Ele se preocupou, disse que eu não estava bem no restaurante, e me acomodou na cama, convocando a água e as frutas e insistindo que eu comesse. Comecei a mordiscar a maçã verde, que eu sempre o observava comer na escola. Ele me serviu um copo de água.
- Você viu a Lua Cheia de Deméter, Granger? Como está bonita? Amanhã, durante o primeiro ritual, o aspecto estará exato.
Concordei, sem me espantar por ele conhecer a configuração astrológica dos Mistérios de Elêusis.
- Apaga a luz pra gente deixar o quarto iluminado só por ela - pedi.
Ele fez um gesto com a varinha para desligar o abajur, e me olhou sorridente, feliz com o efeito. Parecíamos um casal de namorados, com uma intimidade insuspeitada para a nossa segunda vez, a primeira em uma cama de verdade. De repente, ele ficou sério.
- O que foi? - Perguntei.
- Lembrei da nossa primeira vez, na Torre de Astronomia… era Quarto Crescente, mas a Lua estava tão iluminada como se estivesse cheia.
Ele cobriu distraído a Marca com a mão direita, acariciando-a levemente, como se quisesse apagá-la e às memórias que ela lhe trazia.
- Granger… eu queria te pedir perdão.
Fiquei em silêncio, olhando para ele.
- Você não precisa me perdoar, mas eu tenho que pedir… Não pelo que eu fiz como Comensal, pelos crimes que eu já paguei. Eu queria que você me perdoasse por ter te chamado de sangue ruim quando tínhamos doze anos, e por você ter sofrido com isso.
Minhas lágrimas escorriam. Lembrei de Severo e Lílian.
- Hoje eu consigo ver, antes não. Eu vivia na sombra do meu pai, sufocado pelos preconceitos da minha família de "sangue puro". Eu nunca tinha parado para pensar o quanto isso é sem sentido, não tinha coragem de questionar essa bobagem. Eu mudei, Granger, não sou mais assim.
Eu continuava ouvindo, atenta.
- Sabe o Scorpio? Eu e… a mãe dele… nós ensinamos ele assim, que fazer diferença no tratamento de bruxos pela pureza de sangue é errado.
- Puxa, o seu pai não deve gostar nada disso. - Não resisti e comentei. Ele riu.
- Não gosta mesmo. Já tivemos algumas brigas por isso. Mas a educação do meu filho é um problema meu e da mãe dele, não admito interferências dele ou da minha mãe.
- Eu fico feliz de verdade em ouvir você dizendo isso, Draco. Eu desejei tanto que você se libertasse, que conseguisse construir seu próprio caminho.
Ele acariciou meu rosto, e se acomodou ao pé da cama, deitando em posição inversa à minha e se posicionando para ter uma visão mais completa de mim. Tentei me cobrir, mas ele segurou o lençol e ficou olhando meu corpo.
A maçã era grande, não conseguia comer mais, não enquanto ele estivesse me devorando com os olhos. O quarto estava muito claro, e ele não parecia ter a intenção de parar de me olhar tão cedo. Estava cada vez mais ruborizada, mas sustentei seu olhar.
- Você está muito bonita, Granger. Mais macia, arredondada… mais mulher.
Sorri, abaixando os olhos, e tentei puxar o lençol de novo, mas ele não permitiu. Prestei atenção pela primeira vez na Marca Negra em seu braço. Parecia uma tatuagem antiga, quase desbotada.
- Você reparou que é a segunda vez que a gente conversa, Draco? A primeira assim, mais calma, diferente de como conversamos na Torre, em desespero. A gente se conhece há... o quê? Dezessete anos?
- Mais ou menos isso.
- Eu vejo duas opções - falei, respirando pausadamente e retomando meu controle hermioniano. - Podemos ficar aqui, nessa cama, transando até essas frutas e essa água acabarem e morrermos de inanição. Ou…
- Não precisa continuar, nada pode ser melhor que a primeira opção.
- …ou podemos conversar, a primeira conversa séria da nossa vida. Pra gente se conhecer, entender o que acontece com a gente.
- Eu acho que não tenho muita escolha, né? Foi uma pergunta retórica?
Olhei para ele com aquela expressão que ele conhecia desde que tínhamos onze anos, e que não deixava dúvidas sobre o que eu queria fazer. Ele soltou o lençol e pude me cobrir, tentando ficar um pouco mais composta para uma conversa séria na cama. Ele se deitou de lado, sem se cobrir, e prometi a mim mesma que não ia deixar a visão do corpo dele me distrair.
- Muito bem. Por onde você quer começar? - Perguntou, mordendo uma maçã, com uma expressão bem humorada.
- Que tal… por hoje? Ou melhor, por aquele momento em que você entrou na sala da palestra de Demetriou. Como você chegou até aqui? E o que conhece… sobre o Synchro?
- Uau, Granger, você não perde tempo. Direto ao ponto.
Ele ficou um momento em silêncio, como se estivesse escolhendo qual seria a melhor forma de organizar o conteúdo da sua fala. Sentou-se com as pernas cruzadas, olhando para mim.
- Eu estudo Magia Antiga há muito tempo, Granger. Você sabe que em Sonserina esses conteúdos são mais comuns. Aprendi muito sobre Magia das Trevas, até mais do que queria. Agora não estudo mais isso, mas continuo a estudar Magia Antiga e os oráculos, principalmente Astrologia. Foi assim que conheci Hutton e Demetriou, lendo seus trabalhos acadêmicos.
Eu ouvia atentamente, e ele continuou.
- Eu sabia que você tinha feito seu doutorado com Hutton, já li sua tradução dos Contos de Beedle muitas vezes, mas não imaginei que encontraria você aqui hoje. Eu acreditava que um dia ia te encontrar de novo, mas não sabia quando, nem como seria, e fazia muito tempo que a gente não se encontrava. Eu sei do Synchro, Granger. Do nosso Synchro.
Ele sabia. Não sei dizer se me sentia aliviada ou vulnerável ao ouvir isso. Ele sabia. Do nosso Synchro. Como disse antes, não era momento para joguinhos, e agora iria até o fim.
- Desde quando, Draco? Você sabe sobre o Synchro?
- Foi no sexto ano, o ano mais difícil da minha vida - seus olhos se ensombreceram. - Eu estava no limite. Meu pai estava em Azkaban, e eu culpava Potter por tudo. Eu o odiava, Granger, com todas as minhas forças.
- Não era difícil perceber isso…
- Mas você não sabe… tudo. Não era só pelo meu pai ou o quadribol… era você, Granger. Eu achava que você gostava dele, que vocês eram namorados, e eu o odiava por isso.
Meu queixo caiu sem que eu percebesse. Sempre desconfiei disso, e finalmente estava ouvindo Draco confessar.
- Você… reparava em mim? Eu achava que você nem sabia que eu existia, a não ser pra me xingar de… - parei, afinal, ele acabara de me pedir desculpas.
- Eu não conseguia parar de pensar em você, Granger. Sabe a história que a Demetriou contou? Era assim, a mesma coisa. Você era uma sangue ruim, alguém que eu tinha que evitar, que minha família jamais aceitaria. Era impensável. Se eu me apaixonasse por uma gigante, seria menos escandaloso. Mesmo assim, eu não conseguia parar de pensar em você, e não tinha ninguém pra desabafar ou me ajudar a entender meus sentimentos. Não tinha coragem de pedir ajuda, e nunca iria falar com você, disso eu tinha certeza.
Assenti em silêncio, para que ele continuasse.
- Lembra daquele dia da primeira aula com Slughorn, em que ele mostrou as poções? Lembra da Amordentia? Eu senti o seu cheiro, Granger. Um perfume floral e doce, delicado, o mesmo que está enchendo este quarto agora. O mesmo que ficou impregnado na minha memória naquele dia em que dançamos a quadrilha, no Baile de Inverno. Eu zombei da poção do amor porque eu estava tentando disfarçar. Eu senti muito medo, Granger, porque não podia admitir que estava apaixonado por você.
Meu estômago pulou ao ouvi-lo dizer que estava apaixonado por mim na escola, assim, tão sinceramente, sem meias palavras. Ele continuou:
- Eu procurei Slughorn depois da aula. Pedi que ele me explicasse melhor sobre a obsessão por amor, mas sem poção. Ele me contou sobre o Synchro, uma marca de Magia Antiga. Falou sobre os casais marcados, sobre os sinais que indicavam os encontros, entre eles a abelha, marca de Deméter. Falou que era um destino, que não podia ser desfeito por magia, mas era possível apaziguar. Ele pareceu preocupado com meu estado, deve ter desconfiado, e comentou que a Poção de Própolis Regenerativa Universal poderia ajudar a minimizar os sintomas mais fortes. Me entregou um frasco, e disse que a receita estava num livro sobre curas espirituais que havia na biblioteca, se eu quisesse aprender a preparar.
Eu ouvia com atenção os detalhes da minha história, da nossa história, sob a perspectiva de Draco.
- Estava obstinado em consertar o Armário Sumidouro naquela época, você sabe… Eu não pensava em outra coisa. Mesmo assim, parei tudo e fui até a biblioteca procurar o que havia sobre o Synchro. E nas fichas de retirada… em todas… eu encontrei seu nome. Ela também sabe, pensei. Num dos livros, encontrei um desenho… um círculo, com anotações na sua letra.
Eu gelei - o fundo da xícara! Como podia tê-lo esquecido dentro de um livro devolvido à biblioteca?
- Eu estudei a partir dele. As abelhas, a runa Perth, o símbolo alquímico do mel, do Synchro… Estava tudo lá, como se você tivesse mandado instruções para mim. Comecei a reparar nas abelhas, e fui reconstituindo alguns episódios que a gente viveu. As abelhas estavam lá, nas flores, desenhos, nos potes de mel, no hidromel, até na blusa da garota da Lufa-lufa que não lembro o nome, naquele dia, da ronda no corredor…
- Andressa Stone.
- É, acho que era isso - ele me olhou, meio surpreso.
E continuou:
- Eu comecei a olhar pra você de um jeito diferente. Você sabia, sentia algo por mim. Mas eu não sabia como a gente ia poder se encontrar, nem se íamos conseguir conversar algum dia sobre o assunto, a gente vivia em mundos diferentes, nos lados opostos da guerra. Eu estava sob muita pressão, uma pressão direta de Voldemort, que ia matar os meus pais e a mim. Naquela noite, eu fui até a Torre de Astronomia para tomar uma decisão difícil. O armário estava pronto, eu não podia mais adiar. Tinha que deixá-los entrar no castelo e… matar Dumbledore.
Ele engoliu em seco, a voz quase sumindo. Esperei que ele continuasse.
- Eu fiquei lá, pensando… não nego que olhei pra baixo, que pensei em pular. Era uma forma de acabar com tudo, de ficar livre. Foi quando eu vi a abelha. A noite estava clara, ela era grande e inconfundível, com um zumbido forte, parecia encantada. Era uma abelha e estava ali na Torre de Astronomia no meio da noite, o que era muito improvável. Eu lembrei do Synchro, e quase no mesmo instante ouvi você me chamando e me virei. Bom, o resto você sabe…
- Por que você não me esperou? Por que não aceitou minha ajuda?
- Eu não acreditei que daria certo, Granger. Eu tive mais medo do que fé em você, acho que esse sempre foi o meu problema…
Draco parecia ter se animado em poder finalmente abrir seu coração, e continuou, sem esperar resposta.
- Teve aquele dia na mansão… foi bem estranho. Eu tava em casa no feriado de Páscoa. Ganhei um ovo de chocolate de presente da minha mãe, e ele era todo decorado com motivos de abelha. Tinha uma textura de colméia, e dentro vieram bombons de chocolate com mel, no formato de pequenas abelhas. Fiquei olhando pra aquilo e pensei que não era possível, não tinha como a Granger aparecer na mansão Malfoy. Mas quando a minha mãe me chamou para ir até a sala, tive certeza que o Synchro era uma magia muito poderosa. Ali estava você, Weasley e Potter, com a cara amassada.
- Você reconheceu ele?
- É óbvio, Granger! Um cara com a estatura do Potter e de óculos, você de um lado e o Weasley do outro, quem poderia ser? Eu fiquei aterrorizado, achei que eles iam matar vocês ali e levar o Potter para Voldemort. A hora que Bellatrix viu a espada e enlouqueceu eu não entendi mais nada. Ela queria que eu matasse os sequestradores, ela não entendia porque eu não tinha prazer em me tornar um assassino, e me achava um covarde. Mas quando eu vi Lobo Greyback te olhando… Decidi que ia matá-lo, nem que morresse fazendo isso. Só precisava achar a hora certa, não podia errar. Quando ela te torturou, Granger…
Ele parou, a voz embargada, respirando fundo e tentando retomar o fio da fala.
- Quando ela te torturou, eu decidi que ia matá-la também. Pouco importava que ela fosse minha tia e amante de Voldemort, eu ia matá-la, nem que fosse a última coisa que eu fizesse na vida. Mesmo que eu não conseguisse escapar, o mundo seria melhor sem Bellatrix nele. Fiquei esperando o momento certo. Mas de repente tive uma ideia melhor: eu ia te tirar dali, desaparatando com você.
- Desaparatar? Que loucura… pra onde?
- O primeiro lugar que passou pela minha cabeça foi Londres, na Tottenham Court. Era de noite, a rua devia estar cheia de bêbados, e ninguém ia estranhar muito eu te arrastando e você me socando, querendo voltar para seus amigos.
Eu bebia suas palavras, fascinada com a magia que unia as nossas vidas.
- Acho que isso seria bem provável… - comentei.
- Foi quando Weasley entrou gritando na sala e começamos a lutar. Continuei de olho em você e Bellatrix, e vi a hora em que ela encostou a faca no seu pescoço. Ela estava muito perto, eu ia ter que te puxar, não queria correr o risco dela desaparatar com a gente. Ela não ia acreditar em nenhuma desculpa que eu inventasse pra me aproximar. Mas quando ela disse que ia entregar você ao Lobo Greyback, não pensei em mais nada. Pulei na sua direção, e o lustre caiu quase em cima de mim. Os estilhaços cortaram todo meu rosto, que ficou encharcado de sangue na hora.
- Eu achei que você estava perto demais, não entendi o que tinha acontecido…
- Teve outras vezes, Granger… eu tentei proteger você, mesmo que não parecesse. Eu não podia arriscar meu disfarce. Foi assim na copa de Quadribol, quando eu sabia que iam atacar os trouxas. Nem sabia do Synchro na época, só queria que você não se machucasse. E foi por isso que eu voltei a Hogwarts no dia da Batalha, sabia que você ia estar lá, e precisava te proteger, ainda que eu fizesse mais trapalhadas… Fui tão idiota, Granger…
- Não pensa mais nisso, Draco, passou… você não sabe como foi importante te ouvir… você não faz ideia de como as coisas que aconteceram comigo foram parecidas, como estávamos sintonizados, mesmo separados…
Estava perdendo o fôlego, com as mãos geladas, minha pressão devia estar baixando. Ele deitou ao meu lado e me beijou.
- Você parece cansada, Granger… Você não estava muito bem, e agora, com mais esse monte de emoções… A gente devia dormir, amanhã continuamos discutindo a relação, o que acha? Eu passo a noite aqui, com você.
Minha resposta foi me aconchegar no peito de Draco, um pouco antes de apagar, caindo num sonho sem sonhos, finalmente aninhada no lugar em que desejava estar desde os onze anos: os braços de Draco Malfoy.
