O clima no feriado de Natal estava tenso. Alvo estava incomodado por ter se tornado a ovelha-negra da família, agora que ingressara em Sonserina. Proibi Rony de fazer qualquer brincadeira a respeito disso, e graças à Deusa ele conseguiu se conter.
Rosa tratava tudo com um certo descaso, e pensei que ela era bem diferente de mim nesse ponto. Para Tiago, era apenas mais uma forma de ridicularizar o irmão. Lílian e Hugo pressentiram que o que começou como uma brincadeira tinha ficado sério, e era mais prudente não tocar no assunto, pois isso abalava os adultos.
Gina estava lidando bem com o problema, e Harry também, mas percebi que ele estava preocupado. Os outros alunos riam de Alvo na escola, e o comparavam o tempo todo com Tiago e Harry. Não devia ser nada fácil ser filho de Harry Potter.
Tentei conversar com Alvo - apesar de ser madrinha de Tiago, sempre nos demos melhor, talvez por uma certa disposição introspectiva que não era comum na família, mas que eu e ele possuíamos.
Poderia falar muito de Sonserina, de suas tradições e reputação que iam muito além de Voldemort, sendo inclusive a casa a que Merlin pertencia, mas não queria soterrar meu sobrinho com dados históricos. Em vez disso, preferi escutá-lo, reafirmando que ele estava se saindo muito bem, e que achava bonita sua amizade com Scorpio, o que era a mais pura verdade.
As crianças podem ser muito cruéis, e esse era um aspecto de Hogwarts que me irritava: como os adultos não interviam para mediar os casos de bullying? Decidi que ia levar esse assunto ao conselho escolar de Hogwarts, do qual fazia parte, e cobrar providências mais efetivas. Tinha certeza que era um tema que preocupava McGonagall também, como diretora de Hogwarts, e que deveríamos fazer algo mais efetivo a respeito com os alunos e professores.
Draco Malfoy, no entanto, estava procurando resolver as coisas do seu jeito. No dia do embarque das crianças (com direito a uma parada na barraca que vendia produtos orgânicos logo na entrada da estação, pois as crianças e Rony queriam pão de mel), encontrei Draco novamente levando Scorpio, desta vez sem a esposa. Ele estava muito sério e mal me olhou.
Após a partida do trem, ele foi em direção a Harry, e notei que tiveram uma conversa rápida e meio tensa. Como Harry agora tinha um cargo importante, Draco queria que o Ministério fizesse um pronunciamento sobre os Vira-Tempos, lembrando que foram destruídos na Batalha do Departamento de Mistérios, como uma forma de acabar com os boatos sobre a origem de seu filho e Voldemort. Harry tentou dissuadi-lo, dizendo que não deveria dar atenção a essas fofocas, pois elas iriam acabar desaparecendo. Mas ele não pareceu convencido, segundo meu amigo.
Quem estava muito feliz no segundo ano era Rosa, que finalmente ingressou no time de quadribol como artilheira, se juntando ao primo Tiago, que era apanhador, como o pai. Rony não cabia em si de alegria, e Harry e Gina adoraram a notícia, felizes por uma tradição familiar estar sendo preservada. Alvo, no entanto, não demonstrava o menor entusiasmo, pois detestava quadribol. Mais uma semelhança entre eu e meu sobrinho, o que nos aproximava ainda mais.
O abismo entre Harry e Alvo aumentava. Alvo agia na defensiva, e estava cada vez mais rebelde nas aulas. Quanto mais Harry tentava se aproximar dele, mais era rechaçado e mais se afastava do filho, perpetuando um ciclo vicioso. Para completar, Lílian havia ingressado em Hogwarts e foi selecionada para Grifinória, e Alvo estava se sentindo péssimo, já que era o único entre os irmãos que pertencia à Sonserina.
Minha participação no conselho escolar de Hogwarts era ativa, mesmo com as exigências do meu cargo no Ministério, e minha pauta principal era o combate ao bullying. Apesar de ser bem acolhida por McGonagall, nem todos os conselheiros acreditavam na necessidade dessa discussão, mas eu seguia defendendo sua importância.
No final de 2018, minha vida iria dar uma reviravolta, para a qual eu confesso que estava preparada: Kingsley iria se aposentar, e me indicou para substituí-lo como Ministra da Magia. Contei para Rony, Harry e Gina em uma noite de pizza, e queria saber a opinião deles, pois estava disposta a aceitar.
Harry era totalmente a favor, pois conhecia as políticas internas do Ministério, e achava que eu era a melhor pessoa para o cargo. Gina achava que eu deveria fazer o que me fizesse feliz, e ela sabia que eu adorava um desafio. Rony disse que se sentia da mesma forma, e que sabia que eu chegaria lá. Lembrou que Rosa estava em Hogwarts e Hugo ia fazer dez anos, e logo entraria em Hogwarts também, então eu não precisava me preocupar com as crianças.
Rony foi sincero quando disse que se preocupava que eu trabalhasse demais - admiti que ele estava certo, e que ia procurar tomar cuidado. Seu verdadeiro temor, na verdade, é que meu cargo poderia colocar mais alguns tijolos no muro que nos separava.
Sei que Rony, assim como eu, temia que chegasse a hora de Hugo ir para Hogwarts - na nossa grande casa vazia, sem filhos para nos ocupar, teríamos que falar em algum momento sobre nosso casamento, e nenhum de nós estava ansioso por isso.
Mergulhei de cabeça na nova rotina, e não consegui cumprir a promessa de moderar o ritmo do trabalho que fiz a Rony - era muito improvável que conseguisse, e me senti desonesta em alimentar as expectativas dele quanto a isso. Fiquei apenas três dias com as crianças e Rony, Gina e Harry nas férias, pois não podia me ausentar mais do que isso naquele momento. Rony pareceu sentir mais que as crianças, e a rotina como Ministra da Magia já estava mostrando como seria a nossa vida dali para a frente.
Em setembro de 2019, quando as crianças já estavam se preparando para regressar a Hogwarts, recebemos a notícia de que Astória Malfoy faleceu. Isso cortou meu coração, tanto pelo garoto Scorpio, que aprendi a gostar através de Alvo, quanto por Draco - ele deveria estar arrasado.
Como Ministra da Magia, enviei oficialmente os pêsames à família. Mas queria fazer mais do que isso, queria dizer a Draco como me sentia, e que ele podia contar comigo - pelo menos, com meu amor, ainda que distante.
Queria mandar uma mensagem, mas não sabia o que fazer. Pensei em usar o colar no funeral, mas isso me pareceu obsceno e inapropriado. Decidi conjurar uma pequena guirlanda com flores miúdas de jasmim, frutinhas vermelhas, folhas verdes variadas e ramos de trigo, símbolo de Deméter e do ciclo de morte e renascimento. Acomodei em uma caixa envolta com uma fita branca. Quando a caixa fosse aberta, duas abelhas encantadas sairiam do meio das flores, fariam um pequeno vôo e desapareceriam.
As lágrimas corriam enquanto conjurava o feitiço e fazia a embalagem. Chamei um elfo, e pedi para entregar na Mansão Malfoy. Não enviei nenhum cartão, era desnecessário.
O funeral de Astória teve todas as honras das famílias tradicionais bruxas como os Greengrass e os Malfoy. Alvo havia sido convidado por Scorpio para ir ao funeral, e prometi que ele iria comigo. Aparatamos juntos: eu, Harry, Gina, Alvo e dois chefes de departamento da mais alta hierarquia, representando o Ministério.
O caminho para o mausoléu estava coberto de flores, e as indefectíveis abelhas estavam ali, sobrevoando. O dia estava claro e a temperatura era amena, favorecendo a cerimônia ao ar livre.
O esquife de madeira negra estava fechado e quase submerso em uma montanha de flores. O sepultamento seria no Mausoléu dos Malfoy, que ficava na mesma propriedade que a mansão da família.
Logo vi Draco, muito pálido e sério. Ao seu lado, o filho Scorpio olhava para o chão, tristonho. Ambos estavam vestidos de negro. Às vezes, Draco e Scorpio trocavam olhares que indicavam uma relação carinhosa entre eles, e Draco tocava com delicadeza os ombros e a cabeça do filho, que correspondia, olhando-o com ternura. Isso me fez bem, pois senti que tinham um ao outro para se consolar.
O lugar que ia ocupar estava designado pelo cerimonial - as autoridades ficavam ao lado esquerdo, os amigos do direito, e Draco e Scorpio no centro, com poucos familiares mais próximos. Narcisa estava ao seu lado, com a mesma altivez, mas com o semblante fechado e entristecido. O casal ao lado de Scorpio devia ser os pais de Astória, pois estavam inconsoláveis.
Draco olhava em frente, mirando um ponto acima das coroas de flores sobre o caixão. Os olhos de Scorpio se iluminaram quando viu Alvo, que fez um aceno para ele. Ele estava ali, como havia prometido ao amigo.
A cerimônia foi intensa e bela. Um tio de Astoria fez o discurso de homenagem, e Draco ficou em silêncio com sua dor. Fiquei emocionada com as palavras, e não pude evitar que duas lágrimas escorressem durante a cerimônia. Lembrei da comovente frase no túmulo de Lílian e Tiago Potter: "Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte!".
Ao final do funeral, Draco e o filho receberam os cumprimentos dos presentes. Fiz sinal para que Harry e Gina entrassem na minha frente, e ficamos olhando o abraço terno que Scorpio e Alvo trocaram. Uma improvável mas forte amizade existia ali, daquele tipo que eu, Rony e Harry conhecíamos bem, o tipo de amizade pela qual enfrentamos as mais loucas aventuras - o que, em breve, ficaria demonstrado.
O rosto de Draco estava tão duro que tive receio de me aproximar. Estendi a mão a ele e o olhei nos olhos, dizendo que sentia muito. Algo no brilho do meu olhar molhado deve ter mostrado a ele que eram sentimentos sinceros, e não uma mera formalidade do Ministério. Ele continuou segurando minha mão e disse:
- Obrigado pelas flores, Granger.
Eu sorri, um pouco sem jeito. Ele havia recebido minha mensagem. Ofereci a mão em seguida a Scorpio, que retribuiu com seu olhar triste. Estava com tanta pena do garoto! Sentia uma proximidade inexplicável com ele, como se ele fosse meu próprio filho. Imaginava meus filhos passando por uma provação dessas, e se não fosse tão escandaloso eu o teria abraçado ali mesmo.
Pensei em Hugo, que tinha dez anos, a distância que separava esse momento daquele casal que se reencontrou num hotel grego, durante os Mistérios de Elêusis. E permiti que uma lágrima escorresse em memória daquele passado perdido no tempo.
