Setembro chegou, e com ele a época do retorno das crianças para Hogwarts - agora, não tão crianças assim. Precisava parar de chamá-los de crianças, Rosa me fulminava com o olhar quando fazia isso. Ela já estava no quarto ano, e Hugo finalmente iria ingressar na escola. Por Deméter, como o tempo passa! Agora seríamos eu e Rony na grande casa vazia, que ficaria maior ainda quando Rosa e Hugo embarcassem para Hogwarts.
Tudo estava pronto para a partida, mas eu precisava resolver algo antes. Saí de madrugada, antes de todos acordarem. Queria chegar mais cedo ao Ministério, para poder ficar pelo menos uma hora na minha sala sozinha, antes do expediente começar.
Algo não ia bem, e não sabia explicar o que era. Com o passar dos anos, aprendi a respeitar minha intuição - afinal, estudava Magia Antiga há mais de vinte anos. Era um mal estar indefinido, que eu havia atribuído à partida dos filhos, ao encontro com Draco e à situação com Rony. Mas não era só isso, havia algo mais.
Entrei na minha sala e tranquei a porta, agradecendo por não encontrar ninguém além dos elfos limpando o expediente. Minha sala é uma espécie de templo, uma dimensão paralela ao aparente gabinete da Ministra da Magia. É onde consigo ficar sozinha e refletir, nessas brechas da agenda corrida.
Tenho muitos livros aqui, e alguns deles são proibidos, como o velho livro ensinando a fazer Horcruxes que peguei de Dumbledore e mantive comigo. Como Ministra da Magia, tenho acesso a alguns manuscritos secretos, alguns livros banidos e amaldiçoados, a maior parte tratando de Magia das Trevas.
Mas também guardo aqui alguns itens especiais da minha biblioteca pessoal, como os livros sobre oráculos e o Synchro, livros que denunciam meu interesse na Magia Antiga, que consegui proteger dos olhares curiosos durante todos esses anos.
Eles não ficam expostos, e estão muito bem protegidos por feitiços. Aliás, foi particularmente desafiador colocar esses feitiços, pois queria algo que fosse indevassável. Os livros estão protegidos por enigmas, e atacarão quem quiser tirá-los da estante. Estão muito bem guardados, ou pelo menos era o que eu pensava.
Peguei meu horoscópio e comecei a examinar as configurações astrológicas, projetadas em um mapa tridimensional que acionei com a varinha.
O mapa da Batalha de Hogwarts, que não olhava há anos, estava particularmente ativo. A progressão da Lua no nadir do mapa era o sinal de que algo profundo deveria ser finalizado. O trânsito de Urano e a progressão de Vênus no meio céu indicavam uma intervenção feminina, talvez a influência da Deusa, talvez uma exigência para minha mediação, como mulher em uma posição de poder.
Urano anunciava que os acontecimentos seriam imprevistos e a reação deveria ser imediata. Júpiter se aplicando à conjunção com Plutão e Saturno em Capricórnio era um aspecto ativo que há alguns anos os astrólogos vinham aguardando, pois envolvia assuntos de poder e de autoridade, sinalizando uma crise que poderia trazer profundas transformações e abalos estruturais.
Consultei as runas, e os presságios também não eram nada bons. Prever o futuro é difícil, todos nós que estudamos a Magia Antiga sabemos disso. Mas era inegável que a configuração atual era delicada, e eu precisava ficar atenta aos sinais. Talvez pudesse conversar com Firenze - durante todos esses anos mantivemos contato, e decidi que iria mandar uma coruja para tentar marcar um encontro com ele.
Ouvi as batidas na porta de Ethel, minha secretária. Ela trazia um relatório urgente de Harry. Era um relatório secreto, lacrado, apenas para mim. Foi escrito às pressas e completamente fora dos padrões de memorandos internos do Ministério, como era comum Harry fazer, para meu desespero.
Já havia falado com ele muitas vezes sobre isso e pedido para ele tentar se adequar, sem sucesso. Ele informava (nunca me pedia autorização para nada) que estava partindo para investigar uma informação de que Theodore Nott, um antigo Comensal da Morte, estava de posse de um Vira-Tempo.
Isso era preocupante por vários motivos. Primeiro, porque todos os Vira-Tempos conhecidos haviam sido destruídos naquele episódio em que invadimos o Ministério da Magia, quando Sirius foi morto. Se Nott estava com um Vira-Tempo, alguém deveria tê-lo construído recentemente, sem o conhecimento do Ministério. Segundo, porque era uma atividade suspeita de um Comensal da Morte, justamente o tipo de sinal para o qual fiquei alerta após a leitura do horoscópio.
Havia também mais um aspecto. O boato que envolvia o nascimento do filho de Draco envolvia o uso de um Vira-Tempo. Eu não acreditava nisso, nem por motivos racionais, muito menos por motivos intuitivos. Quando olhava para Scorpio via Draco, era óbvio. Mas não podia desprezar nenhum indício, não nesse momento astral delicado.
Fui até a sala de Harry para esperá-lo, torcendo para que a missão acabasse logo. Queria levar as crianças para a estação junto com Rony, o que estava ficando cada vez mais difícil, devido às demandas do meu cargo.
A sala de Harry era o oposto da minha: desorganizada e entulhada de papéis e objetos desnecessários. Harry era um homem de ação, sua melhor versão manifestava-se no trabalho de campo, e tentar fazer com que mantivesse seus registros em ordem era uma tarefa quase tão difícil quanto domesticar um dragão.
Estava ansiosa, e comecei a arrumar a pilha de papéis para me distrair. Alguns informes me chamaram a atenção. Trasgos da montanha foram vistos cavalgando em Arpéus pela Hungria, assim como gigantes com tatuagens de asas nas costas andando pelos mares da Grécia, e uma movimentação de lobisomens em direção aos subsolos também foi identificada.
Poderiam ser eventos isolados, mas eu não acreditava em coincidências há muitos anos, ainda mais com um céu como o atual. Havia uma movimentação de seres das trevas, como se estivessem percebendo ou se preparando para algo, e isso precisava ser investigado.
Dei um pulo de susto com o barulho da entrada de Harry na sala. Ele tinha um corte no rosto que sangrava, e lembrei dos tempos de Hogwarts, em que ele aparecia machucado com uma frequência alarmante.
Ele ficou sem jeito em me ver. Não pude deixar de me referir à bagunça da papelada, mas disse que estava ali para saber notícias de Nott. Harry relatou que o Comensal estava detido, e o Vira-Tempo, confiscado.
Ele me entregou o objeto, que examinei com atenção. Era bem diferente do que usei nos tempos de escola, era mais simples, mais moderno, e devia mesmo ter sido confeccionado recentemente.
Haviam estudos mencionando a possibilidade de construir Vira-Tempos que avançassem períodos de tempo maiores no passado, mas eles foram descontinuados devido à destruição dos Vira-Tempos. Se alguém estivesse trabalhando nisso, teria sido de forma secreta e ilegal, sem o conhecimento do Ministério. Tive um pressentimento ruim: isso só poderia ser feito por praticantes de Magia das Trevas.
Disse a Harry que precisava guardar o Vira-Tempo e examiná-lo com mais tempo. Implorei que ele lesse os relatórios, mencionando as movimentações com que havia ficado preocupada. Ele respondeu que sabia de tudo, e que descobria essas coisas em campo, e não lendo os relatórios do Ministério.
Ele estava preocupado, eu podia sentir, e não era só com questões profissionais. Alvo estava retornando para a escola, e a relação entre eles continuava difícil. Dispensei-o para que fosse para casa, afinal, em breve o expresso estaria partindo para Hogwarts, e pelo menos ele deveria ir, já que eu não estaria, mais uma vez.
Mandei uma coruja para casa, me desculpando e prometendo que iria a Hogwarts em breve para dar o abraço que fiquei devendo. Não era uma promessa vazia, pois tinha a intenção de ir falar com Firenze, e mandei uma coruja para ele também.
Guardei o Vira-Tempo na estante, e reforcei os feitiços protetores. Ninguém deveria saber que havia um objeto desses ali, e classifiquei o relatório informativo ao setor de Objetos das Trevas como ultra-secreto.
Abri a gaveta para pegar uma pena nova e vi a caixinha de veludo. Acariciei a tampa macia, e pensei que Draco não iria gostar nada se soubesse que havia um Vira-Tempo circulando por aí. Se ele já não soubesse disso, pensei, receosa.
Rony estava dormindo no sofá quando cheguei pela rede do Flu na lareira de casa, e o barulho o acordou. Pedi desculpas, e perguntei como havia sido a partida das crianças. Ele contou que foi tudo bem, não estava a fim de conversar muito e eu também, por isso não insisti.
Confirmei a ele que estava pretendendo mesmo ir a Hogwarts, queria conversar com McGonagall sobre a questão do bullying na escola, em que o conselho já tinha feito alguns avanços.
Rony me olhava de forma condescendente, como se fosse um novo projeto de libertação dos elfos, mas eu fingia não perceber. Quando cismava com uma coisa ia em frente, e ele sabia que não adiantava tentar me impedir. Disse que ele poderia ir comigo, se quisesse, e ele concordou, pois não perderia a oportunidade de estar com os filhos.
Firenze me respondeu, e pediu para eu ir em duas semanas. Organizei tudo com McGonagall e Rony. Neville estava dando aulas em Hogwarts agora, e ele daria atenção a Rony quando eu fosse encontrar com Firenze.
Enquanto isso, íamos tocando nossa rotina, agora sem os filhos. Hugo, como esperado, foi selecionado para Grifinória, e imaginei como Alvo deveria estar se sentindo, agora que, no grupo dos irmãos e primos em que cresceu, ele era o único que não pertencia a essa casa.
Intimamente, agradecia a sobrecarga de trabalho, assim tinha uma boa desculpa para chegar tarde em casa, quando Rony já estava dormindo. Tomávamos café juntos, ainda que sempre estivesse com um pouco de pressa, e mantínhamos um clima cordial entre nós.
Rony não parecia ressentido, apenas triste pela ausência das crianças, ou dos adolescentes, ou dos nossos filhos. Não sei quanto tempo íamos conseguir evitar uma conversa mais séria. Discutir a relação é algo que Rony detestava, então, enquanto eu não tomasse a iniciativa, íamos levando.
Nossa visita a Hogwarts foi rápida - no que dependesse dos meus filhos, ela seria instantânea, pois estavam naquela fase em que querem andar longe dos pais, principalmente Rosa. Tiago, ao contrário, estava sempre de bom humor, e parecia que havia nascido em Hogwarts.
Encontrei Alvo e Scorpio na escola, e achei Alvo meio distante, o que me preocupou. Ele sempre demonstrou um carinho especial por mim, e agora havia me recebido com frieza. Já Scorpio pareceu mais simpático, apesar do ar triste pela perda recente da mãe. Mostrou interesse em conversar sobre minha rotina como Ministra da Magia, mas Alvo o arrastou, dizendo que eles não tinham tempo para isso.
Harry havia me pedido notícias do filho. Queria saber minha opinião sobre Alvo, e agora me encontrava na difícil situação de escolher as palavras para relatar a ele que não havia ficado nada animada com nosso encontro.
Após minha conversa com McGonagall sobre o conselho escolar, fui conversar com Firenze. Ele concordou em vir me encontrar no castelo, pois não queria me arriscar a ir até a Floresta Proibida com tantas suspeitas sobre a movimentação de seres das Trevas, assim como não queria designar uma guarda para me acompanhar.
Nos encontramos em sua velha sala de aula, que não estava mais encantada, e estava vazia desde que fora reconstruída. A sala funcionava agora como um espaço alternativo, que era ocupado de acordo com a necessidade. Pedi para que ele viesse à noite, tentando minimizar o espetáculo da Ministra da Magia e o Centauro conversando.
Pedi muitas desculpas a Firenze pelas condições do nosso encontro, mas ele compreendeu. Havia visto os sinais no céu, e também viu que algo iria acontecer, algo ligado à Magia das Trevas e… a Voldemort. Eu não entendia como isso era possível, e reprimia com força a ideia de que tivesse algo a ver com Scorpio.
Firenze disse que os centauros estavam atentos, e o melhor que eu tinha a fazer, na posição de Ministra da Magia, era ficar prevenida diante dos sinais, e não desprezar nenhum indício, por menor que fosse. Com a mesma inocência da menina de quinze anos que Firenze conhecera, arrisquei-me a perguntar:
- Firenze, há um boato… envolvendo o filho de Draco Malfoy e Voldemort. Você acha possível? Eu não acredito, mas não quero ser levada por… sentimentos pessoais.
- A forma com que Voldemort está envolvido ainda será revelada, não está clara. Saturno está forte e poderoso em Capricórnio, e a paternidade é uma questão do momento. Há perigo no ar, Hermione.
Agradeci, agora mais preocupada. Sabia que não ia conseguir extrair mais nada de Firenze. Algo terrível ia acontecer, e precisava estar preparada.
