Quando Harry me procurou para contar seu encontro com Amos Diggory, não acreditei. Como era possível que a informação sobre o Vira-Tempo tivesse vazado? Parecia que havia voltado no tempo e estava vendo um daqueles segredos de Hogwarts, em que dizer que era segredo funcionava como um aviso de que todos sabiam do que se tratava.

O pior é que a cicatriz de Harry tinha voltado a doer, o que me alarmou de forma definitiva. Ele estava arrasado com o problema com o filho, e eu temia que isso dificultasse que ele pensasse com clareza.

Tive a ideia de convocar um Encontro Geral Extraordinário com alguns representantes da comunidade bruxa. Participantes da Batalha de Hogwarts, em geral os nossos amigos, e McGonagall, representando Hogwarts. Uma primeira reunião, para que eles nos ajudassem a pensar em algo, e para perguntar se tinham notado alguma movimentação digna de atenção.

Harry achou que era uma boa ideia, e começamos a pensar em alguns nomes. Ele mencionou o de Draco, que eu não havia lembrado, numa espécie de ato-falho: é claro que ele deveria vir, pois estava relacionado às minhas suspeitas, por mais que não quisesse encarar isso.

Marcamos para o último dia do feriado de Natal, após a partida das crianças para Hogwarts, assim todos estariam por perto. Os convites foram feitos, e aguardava a chegada dos convidados na sala.

Mesmo sendo Ministra da Magia, mantinha o hábito de ser a primeira a chegar. Ethel arrumava a bandeja de chá, e notei as embalagens de açúcar decoradas com abelhinhas. Ele viria. McGonagall chegou, e sentou-se perto de mim. Estávamos no pequeno auditório, e eram esperadas cerca de trinta pessoas.

Já havia um pequeno grupo de bruxos conversando na sala quando Draco chegou e sentou-se mais ao fundo, o olhar sério, quase carrancudo. Harry e Rony chegaram em cima da hora, e sentaram rapidamente, sob meu olhar gélido.

Após conseguir silêncio com algum esforço, pedi que Harry expusesse o problema. Ele relatou as movimentações que o Ministério havia identificado, e perguntou se haviam notado algo diferente. McGonagall comentou que perceberam que alguém havia mexido nos estoques de poção de Hogwarts, mas nada digno de nota.

Expliquei para a plateia que nossa preocupação havia aumentado quando Harry começou a sentir dores na cicatriz. Draco me interrompeu, rude, dizendo que Voldemort estava morto.

Senti aquele nó no estômago. Respondi que nossa preocupação era se algum traço de Voldemort pudesse ter voltado. Harry perguntou se alguém com a Marca Negra havia sentido algo, e Draco novamente foi ríspido, criticando a suposta implicância de Harry com aqueles que tinham a marca.

A conversa descambou logo para uma discussão, com Draco acusando Harry de querer se promover, e Gina de plantar notícias no Profeta Diário. Ele estava bastante alterado. Tentei contemporizar, dizendo que Harry trouxe o caso para discussão na equipe do Ministério, e Draco respondeu que Harry só tinha essa posição porque era meu amigo.

Gina segurou Rony, que já estava partindo para cima de Draco, como nos velhos tempos. Ele estava transtornado, não ouvia nossos argumentos, e disse que era isso que os fofoqueiros esperavam para falar sobre a paternidade do seu filho.

Tomei todo cuidado para que ele não levasse para esse lado, mas foi inútil. Draco deixou a reunião, dizendo que tudo não passava de uma farsa, e foi seguido por alguns dos presentes.

A reunião foi um fracasso. Eu e Rony fomos para a casa de Harry e Gina para conversar, numa noite de pizza nada parecida com aqueles alegres encontros do passado.

Desabafei sobre a minha frustração por não conseguir convencer Draco de que a questão não girava em torno do boato sobre a paternidade de Scorpio, mas eu mesma não tinha certeza de mais nada.

Gina contou que escreveu a ele após o falecimento de Astória, pensando em convidar Scorpio para passar o Natal, e que ele respondeu mandando que Harry negasse os boatos sobre seu filho.

- Ele está obcecado - comentei, desalentada.

- Está desorientado, e muito amargurado - Gina respondeu, colocando a mão sobre a minha e me olhando nos olhos, como se estivesse pedindo que fosse mais compreensiva com Draco. Entendi a mensagem.

Rony tentou brincar, mas estava assustada com a possibilidade de uma parte de Voldemort ter sobrevivido. Eu não poderia deixar de agir ou me acovardar, como Cornélio Fudge, por mais que isso me indispusesse com Draco.

Fomos interrompidos por uma coruja, o que era estranho, pois já era bem tarde. McGonagall a enviou, avisando que Alvo e Scorpio não haviam chegado na escola.

Mobilizei as forças do Ministério na busca. Notifiquei o Primeiro Ministro trouxa sobre o sumiço, pois isso poderia ser uma ação relacionada às movimentações suspeitas que vimos. Nossos temores estavam começando a se concretizar.

Draco se juntou a nós na busca. Ele estava preocupado e ansioso, o que se traduzia em uma rispidez sem limites. Agia de maneira especialmente dura comigo, e não acreditava que havia Comensais da Morte envolvidos.

Harry hesitou, mas acabou contando sobre a briga que teve com Alvo, o que reforçava a hipótese de que os dois haviam fugido. Draco ficou transtornado com a possibilidade de algo acontecer a Scorpio por ter seguido Alvo numa aventura. Todos estavam mobilizados, e estava difícil controlar as emoções.

Draco se voltou para mim, e vislumbrei aquele garoto vulnerável que um dia conheci:

- Se precisam de ouro... De tudo o que os Malfoy têm... Ele é meu único herdeiro, minha única família - seu queixo tremia.

- O Ministério tem reservas o suficiente, Draco. Obrigada - respondi, tentando comunicar com meus olhos que o compreendia, já que não podia abraçá-lo, como desejava.

Draco olhou para Harry e cuspiu as palavras:

- Não ligo para o que fez ou quem salvou. Você continua sendo uma maldição constante na minha família, Harry Potter.

Abaixei os olhos, sentindo tanta pena de Draco quanto de Harry. Enquanto isso, Alvo, Scorpio e sua nova amiga, Delphi, entraram no Ministério disfarçados sob a Poção Polissuco (subtraída de Hogwarts) como Rony, Harry e eu. Eles descobriram por Delphi que havia escondido o Vira-Tempo em minha sala, e conseguiram pegá-lo, num lance digno de Harry, Rony e Hermione.

Foi muita audácia, incluindo os vários beijos que Alvo me deu enquanto estava disfarçado de Rony. Segundo me contaram depois, foi Scorpio que desvendou a chave do feitiço protetor, o que me fez admirá-lo secretamente e achá-lo cada vez mais parecido comigo quando tinha sua idade.

Já Alvo lembrava Harry, com um descaso total pelas regras e autoridade. De qualquer forma, fiquei me sentindo miseravelmente culpada por ter escondido o objeto em minha sala, por mais protegido que estivesse.

Não se deve brincar com viagens no tempo, pois as consequências podem ser nefastas. Uma pequena alteração num evento pode se desenvolver em rumos inesperados. Alvo e Scorpio aprenderam isso de uma maneira muito dura.

Quando eles contaram as diferentes versões das histórias que presenciaram, fiquei chocada quando soube que em ambas meu filhos não haviam nascido, pois não havia casado com Rony. É apavorante pensar nisso, na possibilidade de Rosa e Hugo não existirem, a melhor criação do meu casamento com Rony.

Alvo e Scorpio tiveram muita sorte em ter conseguido voltar à versão original - não só eles, mas nós todos também. Seria terrível viver em um mundo em que Voldemort triunfou e Harry estava morto.

Não deixa de ser um pensamento estranho, que tudo poderia ter sido diferente. Que eu poderia ter sido uma professora em Hogwarts, ou uma guerreira revolucionária. Não pude deixar de pensar que não fiquei com Draco em nenhuma das versões - será que existiria um futuro possível para nós dois?

Mas afastei esses pensamentos, não via que mudança em nossa vida como alunos em Hogwarts poderia ter resultado em ficarmos juntos. Estava acima das nossas forças, ainda que houvesse o desejo. Era um devaneio, apenas isso.

Quando olho para tudo o que houve, vejo a imensa luta de pais tentando proteger os filhos, e isso me fez compreender os equívocos que aconteceram. Harry tentando afastar Alvo de Scorpio, atribuindo a ele o traço de Voldemort, foi um momento particularmente cruel. Compreendi a intenção de Harry, e não sei se faria diferente em sua posição.

Mas Draco sofreu pelo preconceito sobre a paternidade do filho. Foi como se, independente de tudo o que Harry havia dito antes (que era uma bobagem acreditar nos rumores e que iam passar), no fundo Harry estivesse pronto a acreditar nos boatos, quando as circunstâncias levassem a isso.

Era como um estigma, uma Marca Negra, que ninguém esquecia e sempre poderia ser usada contra Draco. Fiquei compadecida com o sofrimento de Draco por seu filho, o filho que se tornou a razão da sua vida, mas de quem também não conseguia se aproximar, assim como Harry de Alvo.

Dei graças à Deméter pela personalidade de Rosa e de Hugo, mesmo que às vezes parecesse que eles eram muito mais filhos de Rony do que meus. Mas é justo reconhecer o papel de Rony como pai, e não consigo imaginar que ele pudesse ter esse tipo de questão com Hugo. E Rosa, sempre tão independente, não consigo imaginar disputando comigo para poder se individualizar, como Alvo com Harry. Não faria sentido.

Eu e Rony tínhamos muita, muita sorte, mesmo. Às vezes, eu refletia sobre como seria se eu e Rony nos separássemos, e como Rosa e Hugo iriam reagir. Eles são tão bem ajustados, e uma separação poderia colocar isso em risco. Por outro lado, será que é justo, ou mesmo honesto, fazer um sacrifício desses em benefício dos filhos, quando o amor acaba?

Toda essa experiência com Alvo e Scorpio nos obrigou a nos olharmos como pais, e também nos aproximou. Ao trio Harry, Rony e Hermione juntaram-se Gina e Draco, e esse quinteto encarou um desafio imenso, em que o bem mais precioso, a vida dos filhos, estava em jogo.

Pensando bem, não foi um quinteto, mas um time de quadribol, pois Alvo e Scorpio, ainda que quase crianças, não foram coadjuvantes.

Lembro emocionada do momento em que estávamos todos ali, na Segunda Reunião Geral Extraordinária, logo após o assassinato de Craig Bowker por Delphi, e McGonagall, não sem uma certa razão, me criticou por ter guardado o Vira-Tempo, acusando-me de ser negligente. Isso doeu muito, vindo dela.

Harry saiu em minha defesa, se colocando a meu lado no palco, e Gina juntou-se a ele, e depois Draco e Rony, numa cena digna de filme. Ali estavam as pessoas mais importantes da minha vida, me apoiando num dos momentos mais difíceis dessa história toda. O amor fluía intenso ali, uma grande energia que nos unia, apesar de tudo.

Draco estava incluído de alguma forma nisso, como parte desse círculo. A hora em que ele brincou, dizendo que estava adorando receber ordens de Hermione Granger, foi um ponto alto para mim, como se ele tivesse baixado suas defesas, nem que fosse por um breve momento.

Até Rony e Draco ficaram mais próximos de alguma maneira. Sei que estou expressando sentimentos, e não fatos concretos. Nunca aceitaria me relacionar com ambos ao mesmo tempo, mas naquela hora era como se fosse assim em algum nível subjetivo e difícil de explicar, em que as escolhas sociais não fazem sentido e onde eu era capaz de reunir o melhor dos dois homens da minha vida. Um futuro alternativo impossível de ser alcançado, ainda que eu possuísse o Vira-Tempo mais poderoso do mundo.

Rony ficou mais emotivo naqueles dias, e chegou a propor que renovássemos nossos votos de casamento. Fiquei comovida com isso, e pensei no quanto havia me afastado dele, e se isso era mesmo um caminho sem volta.

Estávamos na minha sala, e Rony fez menção de me beijar quando Harry, Gina e Draco entraram. Não sei se Draco percebeu, mas me senti incomodada. Existem dois mundos que não se tocam, nem nunca poderiam se tocar: num, Rony e eu somos casados e criamos nossos filhos, e no outro, eu e Draco nos consumimos de amor em um hotel grego.

Esses mundos são irreconciliáveis, e existem em dimensões paralelas, trens velozes correndo em direções opostas. O traço em comum entre eles sou eu, e nem mesmo eu sou a mesma nesses dois mundos, pois num sou realidade e no outro, desejo. Não queria que Draco me visse beijando Rony, e nem podia sonhar que Rony descobrisse o que aconteceu entre eu e Draco.

Isso me obrigava a reconhecer que Rony e Draco eram dois homens muito diferentes, e que não existia uma combinação dos dois com que pudesse ficar.

Minha intuição estava certa desde o início, e Scorpio não tinha nada a ver com Voldemort. O desequilíbrio que detectamos era devido a Delphi ser filha de Voldemort, uma presença feminina aliada à questão da paternidade, como li nos astros.

Ao mesmo tempo em que fiquei aliviada ao saber disso, me senti incomodada por ter sido obrigada a desprezar a minha intuição por uma obrigação profissional. Eu sentia que estava me aproximando de uma encruzilhada, e em breve deveria fazer uma escolha entre o que sentia e o que devia fazer.

Todos nós estávamos atravessados por nossas emoções quando viajamos com o Vira-Tempo de Draco para Godric's Hollow, para assistir o destino de Harry Potter ser cumprido. Eu pude senti-lo ali - o ciclo de Deméter, o Fatum, o destino se cumprindo apesar das pessoas e por causa destas mesmas pessoas, que se dobraram voluntariamente à sua vontade. Como disse o psicólogo trouxa Jung, o livre-arbítrio é a capacidade de fazer com alegria aquilo que eu devo fazer.

Como mulher e iniciada, experimentei a enorme força que atravessou aquele momento, e agradeci à Deusa por poder participar dele. Era como se a própria Deméter estivesse ali presidindo o ritual, em que o destino inescapável de Harry e de todos nós se cumpriu.

Quando tudo acabou, me senti ainda mais ligada a todos eles, de formas diferentes e igualmente profundas, como só quem atravessa um portal junto experimenta, como um ritual de iniciação.

Senti um profundo amor por meu sobrinho Alvo e por sua luta para se tornar alguém, escapando da sombra que Harry projetava sobre ele. Senti amor por Scorpio, que me lembrava o Draco que conheci e amei, e que ao mesmo tempo era tão parecido comigo que, na minha fantasia, era como se fosse nosso filho, unindo o melhor de mim e de Draco, ainda que mal o conhecesse.

Amor por Harry, meu corajoso e heróico amigo, que renovou seus sacrifícios por todos nós, e por Gina, a grande leoa Gina, que nos sustentava com sua força. Amor pelo meu parceiro de vida, Rony, o pai dos meus filhos, o melhor que eles poderiam ter.

E amor por Draco, meu Synchro, meu Wannabee, meu eterno aspirante, meu esposo em sonhos, numa dimensão fantástica e inacessível.

Quando se percebe algo com clareza não é mais possível voltar ao estado anterior de ignorância, e o que percebi ali me modificou de forma profunda e definitiva.

Percebi o quanto havia aberto mão da minha autenticidade e da minha auto-realização.

Compreendi que tive medo durante toda a vida de ser julgada pelos meus amigos e de ser menosprezada por amar Draco Malfoy. E percebi que isso não fazia sentido, pois se meus amigos me amassem, como sentia que me amavam, o importante para eles é que eu fosse feliz.

E mesmo que não aprovassem minhas escolhas, eu os continuaria amando da mesma forma. É assim que me sentia em relação a Rosa e Hugo - eu os apoiaria nas suas decisões, fossem elas quais fossem, porque os amava. Era ridiculamente simples.

O grande problema sempre foi que eu mesma precisava me aceitar, aceitar minhas escolhas, sem me criticar ou culpar. Essa aceitação interna, esse amor por mim mesma, era a grande conquista, a grande mensagem da Deusa para mim. Olhei dentro dos olhos da minha vida, e percebi o quanto vivi em função desses medos, e o quanto fui cruel comigo mesma.

Mas agora isso não importava mais. Como Perséfone, eu deixava o Hades de volta para a superfície guiada pelos braços da amorosa mãe Deméter, e o que aprendi sobre mim mesma não seria esquecido nunca mais.