- Rony, eu quero a separação.

Estávamos sentados na cozinha da casa vazia de filhos, cada um segurando sua xícara de chá. Ele me olhou intrigado, como se tivesse dito algo na linguagem das cobras.

- O quê? Mas… como assim? A gente não vai renovar os nossos votos?

Rony foi entendendo aos poucos o que eu estava dizendo. Sempre apreciei a organização como um valor maior, mas o que estava propondo agora era um enorme tsunami na nossa vida tão bem alinhada, que caminhava para a cena dos dois velhinhos de mãos dadas na varanda. Não havia varanda, nem casa, nem velhinhos. Não havia mais Rony e Hermione, pois eu queria a separação.

Quando Rony entendeu o que estava acontecendo, e viu que era sério, quis saber por quê. Eu contei para ele a minha experiência, os sentimentos que aquilo que vivemos em Godric's Hollow despertou em mim. Que havia visto o quanto estava insatisfeita, e que não queria mais viver assim. Ele me olhava boquiaberto, sem acreditar.

- Rony, você é o melhor pai do mundo… eu não quero que as crianças sofram, não mais do que o necessário. A gente precisa se entender para fazer as coisas da melhor forma pra elas.

- Como elas não vão sofrer? Você tá querendo acabar com a nossa família, Hermione.

- Rony, é desonesto a gente continuar casados assim, não é isso que eu quero ensinar pra eles. Não está mais dando certo, não está bom pra nenhum de nós.

- Fale por você, Hermione. Eu amo a minha vida, minha casa, meus filhos. Eu amo você!

- Rony, eu sempre vou te amar, você é o pai dos meus filhos. Mas não assim, como homem, como um casal. Nosso casamento acabou faz tempo, e quando as crianças foram pra Hogwarts, não deu mais pra disfarçar. A gente nem se encosta mais, pela Deusa!

- Você só trabalha, Hermione. Não tem tempo pra mim, e mal tem tempo pras crianças.

- Eu amo meus filhos, Rony, e sempre estive presente quando eles precisaram de mim. Eu não quero brigar com você por causa disso, eu preciso que você compreenda que nosso casamento acabou pra mim. Não posso continuar, você não vê? Como eu vou fingir pra você? Eu não quero ser desonesta.

Ele abaixou a cabeça, desolado. O peso do que estava falando ia tomando conta dele, e quanto mais ele entendia, mais afundava na cadeira.

- Eu concordo que o meu trabalho atrapalhou nossa vida. Eu não estou feliz com ele, Rony. Quero sair do Ministério.

Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido.

- Mas como?... Você sempre quis…

- Será que eu quis, Rony? As pessoas diziam que eu era capaz, Harry dizia que precisava da minha ajuda, e eu fui me deixando levar pelo prazer do desafio, você sabe como eu sou competitiva. Eu traduzi os Contos, Rony! O que eu fiz com isso depois? Eu poderia ter escrito livros infantis, feito outras traduções, sei lá. Mas eu fui seguindo em frente, no automático. Eu não posso mais, Rony, não depois de tudo que a gente viveu em Godric's Hollow. A vida merece que a gente esteja à altura dela.

Ele não respondeu. Eu quase ouvia seu cérebro tentando raciocinar em busca de uma saída, ou tentando acordar de um pesadelo.

- Eu quero que você fique aqui, Rony. Eu sei o quanto essa casa é importante pra você, é a base para os nossos filhos também. Eu vou sair, vou pra casa dos meus pais. Pelo menos por enquanto, depois eu me organizo melhor.

Observar-me fazer algo que não estava milimetricamente planejado talvez fosse o que mais estivesse assustando Rony.

- E o que você vai fazer… depois?

- Eu pensei em voltar à universidade, talvez fazer um novo doutorado, você sabe o quanto eu gosto de estudar. E eu tenho as minhas economias.

- É outro homem? Você está me deixando pra ficar com alguém, Hermione?

Meu estômago doeu. Eu não queria mentir para Rony.

- Não, Rony. Estou fazendo isso por mim.

Eu estava sendo honesta. Não ia tocar no nome de Draco, que era uma abstração na minha vida, até porque havia decidido me separar independente do que Draco achasse. Não o consultei, nem consultaria. Não era por ele, era por mim.

Rony ficou desolado. Tive certeza que ele iria demorar para superar, e talvez não me perdoasse nunca. Coloquei algumas coisas na bolsinha enfeitiçada, e peguei a rede do Flu para a lareira dos meus pais, que já me esperavam, preocupados.

Mandei uma coruja para Gina, avisando que havia saído de casa, e que ia me separar de Rony. Ela respondeu quase na hora, querendo conversar. Disse que Rony havia ido à casa deles, e que estava chorando na sala com Harry. Perguntou se ela podia vir aqui. Eu respondi dizendo que poderíamos almoçar juntas amanhã, mas que precisava ficar sozinha hoje.

Encontrei com Harry pela manhã no Ministério. Ele já sabia que pretendia pedir demissão pela conversa com Rony.

- Você tem certeza disso, Hermione? Você sabe que seu trabalho é essencial por aqui…

- Sim, Harry. Se tem alguma coisa que eu tenho certeza, é disso. Aquilo que aconteceu em Godric's Hollow virou uma chave dentro de mim. Eu estou num momento da vida em que eu não aceito mais pressão, quero fazer algo que me inspire, em que eu possa ser verdadeira.

- E eu pensava que era o mais ousado de nós dois…

- Acho que chegou a hora de eu viver minhas próprias aventuras, Harry.

- Eu entendo. Eu só fico triste… O Rony está inconsolável, mas uma hora ele vai superar. Eu fico triste por nós todos juntos, as crianças, as noites de pizza, as férias, os jogos de quadribol…

- Eu sei - respondi, as lágrimas rolando silenciosamente. Eu vou sentir muita falta disso também. Mas um casamento não pode ser só isso, Harry.

- Não, acho que não.

Convoquei uma reunião dos conselheiros, e apresentei minha demissão em caráter irrevogável. Gostaria que Harry assumisse o cargo, mas sabia que esse não era o seu perfil, a parte burocrática o mataria.

Percy Weasley havia se tornado um valioso colaborador nos últimos anos, e sabia que ele tinha o respeito ao Ministério como instituição que faltava à Harry. Eles se davam bem, e Percy aprendeu a considerar o que Harry tinha a dizer, e teria paciência com seus atrasos na entrega das papeladas.

Seu nome foi aprovado pelos conselheiros, e marcamos a cerimônia para a passagem do cargo. Havíamos vencido a última investida das Artes das Trevas e as coisas estavam de volta ao normal. Eu saí do Ministério com a consciência tranquila.

Gina veio me encontrar para irmos almoçar. Ela estava preocupada.

- Como o Rony está, Gin?... - perguntei

- Ele está um trapo, Mione. Mas ele vai superar, ele é mais forte do que parece.

- A última coisa que eu queria é que ele ficasse magoado comigo - respondi, as lágrimas correndo. - Mas eu não podia mais, Gina. Eu preciso assumir os meus verdadeiros sentimentos, não aguento mais viver assim, em função do que os outros esperam que eu faça, que eu seja.

- Mione, eu preciso perguntar… sua decisão tem a ver com Draco?

- Não, Gina. Eu não falei mais com Draco desde o nosso último encontro em Godric's Hollow. Eu tomei essa decisão sozinha, por mim mesma. Eu sei que não vai ser fácil, mas eu precisava.

- Você sabe que pode contar comigo, não sabe? Por mais difícil que seja para mim também?

- Sempre. Minha leoa.

E nos abraçamos, pois nada mais precisava ser dito.

Rony ainda estava bastante chateado comigo, mas combinamos de passar o fim de semana em Hogsmeade para contar juntos a Rosa e Hugo. Os dois estavam um pouco desconfiados, já imaginavam que estava acontecendo algo conosco. Explicamos de forma aberta para eles, evitando apontar culpados.

Rony foi perfeito, e eu sabia o quanto aquilo estava sendo difícil para ele. Contamos para eles os nossos arranjos, que eu ficaria com meus pais e Rony, em casa. E que sempre seríamos seus pais, mesmo separados, e que o nosso amor por eles estava acima de qualquer coisa. Pedi que eles perguntassem tudo, sem medo.

Hugo queria saber se não iam mais viajar com os primos, e eu disse que poderíamos sempre fazer viagens juntos. Também perguntou se poderia chorar, e dissemos que ele podia ficar triste, isso era normal. Rosa queria saber se ia ter um quarto na minha casa e outro na casa do pai, e pareceu gostar da ideia quando eu disse que era provável que sim.

Fiquei orgulhosa, mais uma vez, dos meus filhos, e de como lidaram bem com a notícia, apesar de ficarem tristes. Percebi que Rony ficou se sentindo um pouco melhor e também com menos raiva de mim após a conversa.

Passei em Hogwarts para conversar com McGonagall. Queria manifestar a minha intenção de permanecer no conselho educacional, agora como familiar, e não mais como representante do Ministério. Ela disse que não podia cogitar a possibilidade de eu sair do conselho, ainda mais agora, que estávamos conseguindo progressos na discussão sobre o bullying.

- McGonagall… Minerva. Eu não sei se eu já disse o quanto você é uma referência fundamental para mim. Eu a respeito muito. E queria me desculpar, mais uma vez, pelo episódio do Vira-Tempo.

- Eu sei que você sente muito, Hermione, e já aceitei suas desculpas, querida. Sei que você não errou por falta de responsabilidade. Aliás, quando deixei você usar o Vira-Tempo, quando era aluna, você foi mais do que correta. Infelizmente, a maioria das pessoas não é assim, e sabemos os danos terríveis que o uso irresponsável de um objeto desses poderia ter causado.

- Sim, Minerva, eu sei. É um alívio que tudo tenha dado certo, e estejamos aqui, no tempo correto.

- Bem, devo confessar que teve uma coisa que eu gostei no futuro alternativo. Você aqui, como professora em Hogwarts.

- Era um sonho que eu tinha quando aluna, dar aula em Hogwarts.

- Quem sabe esse sonho não se realiza?

Despedi-me de McGonagall pensando nessa possibilidade. Afinal, agora estava livre para escolher fazer o que quisesse, e ir atrás dos meus sonhos me parecia a escolha natural.

Fui até a orla da Floresta Proibida e encontrei Firenze, um encontro autorizado pelos centauros não por ser ex-Ministra da Magia, mas por ser uma iniciada nos Mistérios de Elêusis, como eles sabiam sem que eu precisasse contar.

- Estou me despojando de todas as ilusões que eu alimentava, Firenze. É um processo difícil, mas é inexorável. Tenho que viver isso.

- Você nunca esteve tão dentro do caminho quanto agora, Hermione. Viva isso com intensidade. Essa transformação é vital para você.

Ao dizer isso, ele jogou a mistura de ervas na fogueira, e inspirei profundamente a fumaça encantada. Me senti limpa e livre de todos os medos.