A cerimônia de passagem do cargo foi rápida. Meu mandato foi elogiado por Kingsley, que agora era um decano do Conselho Bruxo, e por Percy, meu sucessor. Agradeci a todos pela parceria, e desejei sucesso. Era estranho ver Harry ali, como um alto funcionário, enquanto eu saía livre, sem rota traçada, aguardando para ver em que direção o Universo me levaria.

Fui até minha antiga sala para terminar de guardar minhas coisas. Ethel me recebeu chorosa, e eu a consolei, dizendo que ela havia feito um ótimo trabalho, e tinha certeza de que faria o mesmo por Percy.

Meus livros já estavam encaixotados, e apenas acomodei o tesouro precioso na velha bolsinha enfeitiçada. Segurei a bolsinha enternecida, lembrando o quanto ela havia me acompanhado durante as diferentes fases da minha vida. Estávamos juntas mais uma vez, partindo para caminhos novos e desconhecidos, e não sentia medo, apenas uma ansiedade boa, como quando acordava na manhã de Natal e ia abrir os meus presentes.

Abri a gaveta para esvaziá-la, e encontrei a caixinha de veludo. Num impulso, abri o estojo e tirei o colar, vestindo-o. Não me lembrava de ter feito isso antes, seria como violar um símbolo sagrado. Mas agora parecia natural vesti-lo, como se estivesse colocando o relógio de pulso ao sair para trabalhar.

Olhei no espelho e fiquei admirando a composição. A blusa preta destacava meu colo e tinha o decote perfeito para emoldurar o colar, que ficava tão bem como se seu comprimento tivesse sido ajustado para mim pelo ourives. Meu cabelo solto emoldurava o conjunto.

Ouvi as batidas na porta, que estava entreaberta. Virei para ver quem era, e meus olhos se encontraram com os de Draco. Ele viu o colar imediatamente, e veio em minha direção. Não sei de quem foi a iniciativa, nós dois nos atiramos nos braços um do outro ao mesmo tempo, foi tudo muito rápido.

O beijo apaixonado foi uma lembrança de quanto tempo estávamos longe um do outro, e do quanto havíamos sentido falta de estarmos juntos. Os carinhos foram ficando mais intensos, e me descolei dele com dificuldade:

- Não podemos ficar aqui, Draco…

- Vamos pra minha casa.

- Na mansão Malfoy? Eu não sei… - Lembrei da única vez que estive lá, não era um lugar em que gostaria de ficar.

- Não, um lugar perto de lá, confie em mim.

Ofereci a ele o pó de Flu, e peguei um pouco, aguardando suas instruções.

- Diga: quero ir para a edícula de Draco na propriedade dos Malfoy.

Fiz exatamente como ele indicou. Saí pela lareira da sala clara e decorada com simplicidade, ainda que com extremo bom gosto. Ele veio logo em seguida, e não vi mais nada que não fosse Draco.

Passaram-se alguns dias, não tinha certeza de quantos. Via que a noite chegava e o dia amanhecia, mas não seguíamos o relógio das horas, nem do sol.

Aquela primeira opção que ofereci a Draco na Grécia estava se realizando. Passamos todo o tempo nos amando com intensidade, numa voracidade que eu desconhecia e não sabia que era capaz de sentir.

Nos intervalos, conversávamos sobre o passado, reconstituindo os detalhes de como cada um viveu o Synchro, e de como era a nossa vida, as particularidades que dão colorido a uma história longa como a nossa, mas que permaneciam desconhecidas por nós. Estávamos nos descobrindo.

Como, por exemplo, a inspiração que ele teve para escrever o cartão com a palavra "Wannabee". Ele não sabia explicar bem como foi, apenas que teve a intuição e a escreveu, pois eu saberia de quem era o presente ao ler o cartão e entenderia como ele se sentia - que não havia desistido de mim, e sempre permaneceria desejando que ficássemos juntos, por mais inábil que ele fosse para conseguir isso. Era a definição perfeita.

Lembramos da história que Demetriou nos contou sobre sua vida, e pela primeira vez sentimos que poderíamos ficar juntos, a despeito do Synchro, ou por causa dele. Não falávamos sobre o futuro, como se isso acionasse um Tabu que desmancharia o encanto que estávamos vivendo.

Uma manhã, Draco sentou na borda da cama, em frente ao espelho, e ficou mexendo no cabelo. Eu o abracei por trás, olhando para ele através do espelho. Reparei, sem me importar, nas nossas olheiras e no seu peito arranhado pelas minhas unhas, e mergulhei no seu pescoço, mordendo-o levemente.

- Você acha que esse cabelo me deixa muito parecido com meu pai?

- Hum… já que você perguntou… eu acho, sim.

- Quero cortar. Você corta pra mim?

- Não é a minha especialidade, mas como a causa é nobre, farei o meu melhor.

Ele enfiou a calça de moletom surrada, e eu, sua camiseta larga de Durmstrang, que parecia um vestido para mim. Ficamos na varanda, e cortei os cabelos dele com capricho. Enquanto ele se olhava no espelho de mão (que usava mais para ficar encarando meu rosto compenetrado), fui ajeitando as imperfeições com a varinha, e consegui um corte bem parecido com aquele que ele usava no começo do sexto ano, de que gostei tanto. Porém, os olhos claros e intensos no rosto mais maduro, com a barba por fazer, separavam o homem que tinha em meus braços agora do garoto torturado de anos atrás.

Ouvimos vozes na porta da frente. Reconheci a voz de Gina, discutindo com o elfo doméstico, que implorava que seu mestre não queria ser incomodado. Ela chamava por Draco em voz alta e batia na porta, sem se importar. Olhei para Draco, como se ambos ouvíssemos uma voz nos sacudindo de manhã para ir para a escola.

- As crianças… - falei, preocupada.

Fui apressada até a porta, seguida por Draco, que a destrancou com a varinha e abriu antes mesmo de chegarmos. Gina estava com uma expressão preocupada que mudou para espantada quando me viu chegar. Harry estava com ela, e ficou lívido quando me viu. Draco me seguiu, e ficamos os quatro nos olhando por um breve momento, até que perguntei:

- As crianças, tá tudo bem com as crianças?

Gina demorou alguns instantes para responder, boquiaberta.

- As crianças? Sim, sim, tá tudo bem com elas. Nós estávamos preocupados com você, Mione. Você sumiu já faz quatro dias! Ninguém sabia de você, seus pais estão desesperados. Nós procuramos em todo lugar, e eu tive a ideia de vir aqui, falar com Draco, e…

Ela se calou, estava absorvendo o impacto da visão de mim e de Draco. A camiseta surrada marcava meu corpo, e sugeria que eu estava nua por baixo dela. A calça de moletom de Draco, que deixava entrever o início dos seus pelos pubianos e que ele puxava para cima, tentando disfarçar, também não era roupa de quem esperava visitas. Meu cabelo despenteado, as olheiras, arranhões e marcas roxas em nós dois não deixavam dúvida do que estivemos fazendo nesses quatro dias.

Draco quebrou o gelo:

- Pode ir, elfo, não vamos precisar de você. Vocês querem entrar?

Gina se adiantou:

- Sim… Hermione, se você quiser conversar, só nós duas, nós podemos… - não deixei ela completar. Impulsivamente, segurei a mão de Draco e respondi:

- Eu não vou pra nenhum lugar sem o Draco. Não mais. - Ele apertou a minha mão e me abraçou por trás, confirmando com seu gesto que não pretendia se separar de mim tão facilmente.

A expressão de Gina voltou a mostrar preocupação, era como se eu estivesse surtando. Ela precisava tomar todo o cuidado com o que ia dizer. Harry continuava mudo, boquiaberto, entendendo a mensagem silenciosa de Gina para que ele ficasse assim, sem tentar dizer nada.

- Tudo bem, Hermione. Vamos tomar um café, então? Harry, você podia ir pra casa, avisar os outros que encontramos Hermione e que ela está bem?

- Ah… sim, sim, vou fazer isso. Hã… qualquer coisa… me avisem.

Harry saiu, quase tropeçando, e Gina entrou conosco. Sentamos no balcão da cozinha, e Draco convocou uma camiseta, que colocou apressado antes de fazer o café e servir três xícaras com a varinha.

Eu o olhava ansiosa, enquanto Gina me observava, apreensiva. Só fiquei mais calma quando ele se sentou ao meu lado e me deu a mão. Parecíamos dois fugitivos tentando se proteger diante de um oficial da fronteira.

Gina estudava a situação, e procurava a melhor forma de começar a falar. Nós três ficamos olhando para as nossas xícaras, como se ali dentro estivesse a solução para sair dessa situação embaraçosa.

- Vocês… ver vocês assim… eu fico feliz por vocês. De verdade.

Eu e Draco continuamos calados, nossas mãos se estreitando com mais força.

- Vocês estão juntos, e isso não é um crime. É o desejo de vocês, e vocês vão viver isso custe o que custar, eu sinto isso. Não estamos em Hogwarts, e vocês não têm mais onze anos. Vocês são fortes para enfrentar o que vier, e vencer.

Eu e Draco nos olhamos, emocionados, compartilhando o olhar com Gina.

- Eu fiquei preocupada… Por Merlin, vocês parecem dois reféns, presos aqui. Vocês não pretendem se esconder do mundo aqui, pretendem? Porque… tem coisas acontecendo… Recebemos a notícia hoje de manhã, a professora McGonagall faleceu.

- Ah, Gina, não… - e comecei a chorar, com Draco me sustentando em seus braços.

- O funeral será amanhã à tarde. Ela será sepultada em Hogwarts, perto de Dumbledore.

- Nós vamos?... - respondi, olhando para Draco. Eu desejava ir, mas não iria mais a nenhum lugar sem ele.

- Sim. Vamos juntos - ele respondeu, confirmando.

Gina foi embora após sua missão de resgate, não sem antes me fazer prometer que não sumiria sem dar notícias nunca mais.

Foi assim que entendi o que aconteceu, um resgate. Eu e Draco tínhamos abandonado tudo. Toda a ânsia que suportamos, todo o desejo que reprimimos por anos nos engoliu como uma onda, e lentamente estávamos afundando, seduzidos pelo canto dos sereianos, sem perceber o risco real de ruptura com tudo aquilo que havíamos construído e com as pessoas que amávamos.

Havíamos escolhido a morte, e quando Gina apareceu foi como se nos lembrasse que não precisava ser assim. Podíamos ficar juntos e viver, enfrentando as reações que surgiriam devido à nossa união com a mesma coragem que havíamos enfrentado nossa separação, perto do que nada seria difícil demais.

Senti o peso do que teria que enfrentar em breve. A maledicência da sociedade bruxa, que criaria todo tipo de história envolvendo eu e Draco, a ex-Ministra da Magia de sangue ruim e o herdeiro de sangue puro da tradicional família Malfoy. Já visualizava as páginas do Profeta Diário buscando pistas sobre a nossa relação, entrevistando pessoas que nos conheciam e usando todo o tipo de artimanha para vender jornais.

Mas isso era insignificante diante do principal: como reagiriam meus amigos, Rony e meus filhos? Quando eu lembrava da expressão de Harry ao me ver com Draco sentia uma pequena amostra do que poderia ser considerada uma reação menos ruim: espanto e silêncio. Como seria enfrentar algum tipo de acusação, a incompreensão por parte dele? Quantas vezes, na escola, eu e Rony ficamos sem nos falar, e Harry tinha que dividir suas atenções entre nós, o que ele detestava? Como seria agora?

Porque havia Rony. Por mais que estivéssemos separados quando me encontrei com Draco, era tudo muito recente e repentino. Ele estava magoado, com dificuldade de aceitar a separação. E ainda mais com Draco, de quem ele nunca gostou, como se intuitivamente soubesse que ele representava um risco. Eu amava Rony, não suportaria feri-lo, ele não merecia isso. E minar meu relacionamento com Rony poderia acarretar um prejuízo ainda maior, o comprometimento das nossas relações com os nossos filhos.

Esse era o meu principal medo. Como Rosa e Hugo iriam reagir? Como seria para eles enfrentar as brincadeiras maldosas e inevitáveis que surgiriam em Hogwarts sobre mim e Draco? Eu tinha muita confiança na educação que eu e Rony demos a eles, mas o sentimento de rejeição é capaz de levar as pessoas a atos insensatos, como o que Alvo e Scorpio fizeram.

E Scorpio, como reagiria? Vendo a sua mãe substituída dessa forma? Por Deméter, e se Draco me deixasse por não suportar a oposição de Scorpio ao nosso relacionamento? Um pensamento terrível atravessou a minha mente, lancinante por ser uma certeza inevitável: eu não estava disposta a fazer concessões. Nem por meus filhos, nem por nada.

O toque de Draco em meu ombro me trouxe de volta, me despertando desses pesadelos. Ele me encarou com aquele olhar sério tão dele, como se estivesse adivinhando o que se passava na minha mente:

- Não importa o que aconteça, eu nunca mais vou te deixar ir embora, Granger - disse, a mão sustentando levemente meu queixo, como se para garantir que eu confirmasse a mensagem em seus olhos.

- Nada nem ninguém vai me separar de você, Draco. Nem o destino, e que ela me perdoe, nem a Deusa. Nem que eu tenha que morrer por isso.

Ele me abraçou com força, selando nosso pacto. Estávamos juntos, para sempre, e não importava quanto tempo duraria esse sempre, se anos ou minutos.

Foi quando eu decidi escrever a carta, uma espécie de inventário afetivo, tentando colocar em palavras o turbilhão de sentimentos que me atravessaram e que eu precisava expressar de uma forma palpável e coerente. Não importava se meus amigos e meus filhos iriam entender e me perdoar, não importava nem mesmo se iriam ler. Eu precisava escrever para sobreviver.