Dois passageiros se olham, cada um num trem diferente, viajando em direções opostas. Eles se reconhecem e sabem que esse encontro é especial, eles se buscaram por toda a vida, mas não podem mudar o destino dos trens. De repente, percebem que os trens estão parados. É a sua chance de descer, e assim o fazem. Ela corre pela estação, ele também, e se encontram na plataforma de ligação.

Meu relato termina aqui. Olho para tudo o que aconteceu como se acabasse de atravessar o continente, e estivesse sentada descansando por um tempo e mirando o oceano, que agora devo atravessar.

Não posso prever o que vai acontecer, não me atrevo a planejar. Estou entregue ao sabor do momento, aguardando o que a Deusa me reserva, a grande lição que tirei de tudo que vivi. Ao mesmo tempo, tomei meu destino nas mãos, e vou lutar pela minha felicidade.

Talvez, algum dia, vocês possam entender por que não pude mais trair meu coração. Fiz uma escolha, e compreendo que terei um preço a pagar por ela.

Tenham a certeza que o amor que sinto por vocês é inabalável.

Sua,

Hermione

No funeral, permaneci o tempo todo ao lado de Draco, mas resolvemos não ficar de mãos dadas. Nossa união já iria causar escândalo suficiente na comunidade bruxa, e não precisávamos dar material para os fofoqueiros, nem queríamos desviar a atenção da cerimônia.

Rony estava lá, e não me olhou nenhuma vez. Soube através de Gina que Harry tentou prepará-lo, contando sobre mim e Draco, e que ele reagiu mal, como não poderia deixar de ser.

Minhas esperanças de manter uma boa relação com Rony por causa das crianças estavam indo por água abaixo, mas estava resignada. Eu havia feito uma escolha há anos atrás quando fiquei com Rony, e paguei um preço por ela. Agora, estava escolhendo ficar com Draco, e sabia que não ia ser barato.

As crianças estavam arredias, um pouco pela ocasião triste, mas também por sentirem o clima tenso entre eu e Rony. Precisava ter paciência, conquistar meus filhos poderia ser uma missão difícil. Decidi que iria conversar com eles sozinha, na manhã seguinte, desejando que o clima estivesse um pouco menos carregado.

Contei a eles que agora estava namorando Draco, e que queria que soubessem antes de começar algum tipo de fofoca na escola. Assegurei a eles que isso não mudava nada no que sentia por eles, e pedi que pudéssemos continuar a conversar sobre tudo, como sempre fizemos.

Ambos ficaram calados, absorvendo o impacto. As lágrimas começaram a cair dos olhos de Hugo, que perguntou se isso queria dizer que eu e o seu pai nunca mais ficaríamos juntos, e respondi que sempre estaríamos juntos como pai e mãe, mas não mais como um casal.

Rosa parecia segurar a vontade de chorar, mas devia estar achando que isso era coisa de criança. Fiquei admirada quando ela disse que eu merecia ser feliz, mas que ela ainda precisava se acostumar com a ideia. Pedi permissão para abraçá-los e ficamos ali, somando as nossas lágrimas às de Hugo.

Draco também conversou com Scorpio e contou sobre nós. Segundo ele, o garoto adorou a novidade, e Draco ficou meio surpreso em ver como o filho gostava de mim, já que mal me conhecia.

Scorpio disse que ia falar com Alvo, e que iam ajudar com Rosa e Hugo, se fosse preciso. Draco respondeu que ele não precisava se preocupar com isso, que eu teria paciência e iria encontrar junto com o pai de Rosa e Hugo a melhor forma de conversar com os filhos.

As coisas em Hogwarts iam lentamente retomando seu rumo. Flitwick havia assumido informalmente o lugar de McGonagall, pois era o vice-diretor. Ele me procurou para conversar.

- Hermione, eu soube que você não está mais no Ministério. Tudo indica que serei conduzido para o cargo de diretor pelo conselho. Teremos que reformular a atribuição das disciplinas, já que vou deixar vaga a cadeira de Feitiços. Eu queria fazer um convite a você, Hermione. Gostaria que considerasse a possibilidade de integrar nosso quadro de professores. Sei que você é super qualificada para lecionar em Hogwarts, com seu histórico acadêmico e profissional. Mas acho que você sabe o quanto Minerva gostava de você, e o quanto desejava que você se tornasse professora em Hogwarts. Você poderia assumir qualquer disciplina e seria bem sucedida, pois é inteligente e dedicada o bastante para isso. Mas ouvindo a voz do meu coração, se seu velho professor tem direito a fazer esse pedido, eu ficaria orgulhoso se você assumisse a cadeira de Feitiços. Você sempre foi excelente na disciplina. Até hoje, não tive um aluno melhor do que você.

- Professor, eu… eu estou honrada pelo convite… Eu preciso conversar com… o senhor pode me dar um dia para pensar?

- Claro, querida, fique à vontade.

Os eventos seguintes se sucederam em uma sequência rápida. Falei com Draco, que apoiou a minha decisão de aceitar o cargo. Na semana seguinte, assumi a cadeira de Feitiços em Hogwarts.

Ser professora me trouxe uma realização pessoal que eu não suspeitava. Era como se estivesse autorizada a ser a eterna aluna, aprendendo e ensinando o tempo todo. Posso dizer que me encontrei na profissão, e a exerci com devoção.

Draco alugou uma casa em Hogsmeade para nós, e brinquei que a casa era menor que a sua edícula, mas ele não se importava nem um pouco.

Ele terminou de passar a direção dos seus negócios para os seus sócios, um processo que ele havia iniciado desde a morte de Astória, quando começou a sentir que era o momento de se dedicar a construir algo seu, que o motivasse e com o que se envolvesse como um propósito pessoal.

Enquanto isso, sua principal ocupação era me esperar e fazer amor comigo quando eu voltava para casa, ao que nos entregávamos com fervor e ainda sôfregos, como se cada vez pudesse ser a última.

Ele estava feliz, feliz como eu nunca havia visto. Se ocupava com tarefas simples na casa e no jardim, e voava de vassoura boa parte do tempo, o que ele adorava. As roupas pretas deram lugar a jeans, camisetas e camisas descontraídas, que faziam com que parecesse mais jovem do que o garoto que eu conheci na escola. Nunca pensei que Draco Malfoy pudesse se adaptar a uma vida no campo, mas estava enganada.

A relação com as crianças foi progredindo aos poucos. Rosa não gostou muito de virar "irmã" de Scorpio - fator que teve o efeito oposto na aceitação de Scorpio da minha relação com Draco. Ele parecia apaixonado por Rosa.

Eu e Draco os observávamos para identificar se eles tinham o Synchro, e chegamos à conclusão que não havia indícios. Tudo entre eles era tranquilo, com Scorpio mais afetivo e Rosa desinteressada, ou fingindo desinteresse. Não havia aquela aura de sofrimento, aquela sofreguidão que caracteriza o Synchro.

De qualquer forma, Draco e eu tínhamos a certeza que nunca faríamos nada para impedi-los de ficarem juntos, se esse fosse o desejo deles.

Hugo ficou mais reticente em relação a Draco no começo, mas ele conseguiu se aproximar do garoto por conta dos treinos de voo. Draco ia semanalmente a Hogwarts para auxiliar o professor Salomon Hooch, sobrinho da agora aposentada professora Hooch, nas aulas de voo de vassoura, e era muito popular entre os alunos. Assim como Snape, ele teve a chance de viver uma outra história como professor em Hogwarts, só que muito mais descontraída e feliz.

Meus pais ficaram um pouco receosos no início, mas quando viram o estado de felicidade em que eu estava, acabaram convencidos que havia feito a melhor escolha para a minha vida.

Narcisa reagiu melhor do que eu esperava - não éramos próximas, mas ela me tratava educadamente. Ela logo percebeu que Scorpio se dava muito bem comigo, e queria a felicidade do neto tanto quanto a do filho. Ela sabia que Draco não admitiria nenhuma interferência na nossa relação, então era prudente e nos respeitava.

Rony ainda estava magoado comigo. Eu sabia que isso era uma ferida que levaria tempo para ficar curada, e talvez nunca cicatrizasse de forma completa. De qualquer maneira, ele me tratava bem, ainda que de modo frio, por causa das crianças.

No começo foi difícil, e Gina foi importante para convencê-lo de que eu não havia me separado de forma premeditada para ficar com Draco. Mas a força do Synchro nem sempre pode ser bem compreendida por quem não a viveu, e eu me resignei a isso.

Não havia por que compartilhar com Rony os detalhes sobre o Synchro. Magia Antiga não era o forte dele, e essas informações só iriam fazer com que ele sofresse mais. Além disso, era algo que pertencia a mim e a Draco, e não pretendíamos compartilhar com ninguém. Eu sabia que o tempo faria seu papel e, como no ciclo de Deméter, era preciso aguardar a hora de plantar e a hora de colher - o renascimento segue a morte.

Como era de se esperar, as relações com o restante da família também ficaram um pouco mais difíceis, e eu não tinha pretensões de levar Draco a um jantar na casa dos meus sogros, isso seria pedir demais.

Mas Harry e Gina acolheram bem o casal que formamos, e vinham jantar conosco em Hogsmeade de vez em quando, junto com Neville e sua esposa Ana, e também Luna e seu marido Rolf. Falávamos sobre os filhos e sobre a vida, e celebrávamos os bons momentos juntos. Aprendi que o tempo era precioso, e vivia cada momento intensamente.

Como dois adolescentes, comemoramos nossos primeiros seis meses juntos na Casa de Chá Madame Puddifoot, para o espanto dos jovens clientes, que não ficaram muito à vontade para se beijar na frente do casal de professores. Mas eu e Draco mantivemos a compostura, e voltamos logo para casa, para comemorar do jeito que desejávamos.

Draco estava cada vez mais envolvido com a vida no campo. Um dia, me disse que queria comprar uma propriedade rural e começar uma produção artesanal de hidromel. Era perto dali, cerca de dez quilômetros de Hogsmeade. Ele queria que eu fosse conhecer e aprovar antes de fechar o negócio.

- Draco, isso é um castelo. Você vai comprar um castelo?

- Não é bem um castelo, Granger, é uma casa de campo grande…

- Doze quartos, Draco.

- Bom, juntando os filhos e amigos, acho que vamos conseguir ocupar quase todos. Você vai adorar a biblioteca, vem ver…

Ele sabia exatamente como me convencer. Mudamos para o castelo assim que as reformas ficaram prontas, o que foi bastante rápido, pois a propriedade estava em excelente estado de conservação, apesar de ter quase duzentos anos.

A biblioteca se tornou um projeto coletivo envolvendo Rosa, Hugo, Scorpio e Alvo, e até Tiago e Lílian vinham às vezes nos ajudar a catalogar e arrumar os livros. Fizemos quase tudo manualmente, pelo prazer artesanal que dava, e usamos magia apenas para alcançar as prateleiras mais altas.

Draco se divertia, dizendo que a biblioteca estava quase à altura da voracidade leitora de Hermione Granger, e os três mil volumes confirmavam isso. Essas horas de arrumação foram nos unindo como família, e contribuíram de forma decisiva para estreitar o relacionamento dos meus filhos com Draco, e o meu com Scorpio.

Aliás, eu não me cansava de elogiar Scorpio para Draco, afirmando que ele havia feito um excelente trabalho como pai. Rosa parecia mais descontraída, e não posso negar que o fato de morar parte do tempo num castelo teve seus efeitos no seu imaginário de adolescente. Hugo adorava voar com Draco pela propriedade, e espaço era o que não faltava. Pareciam felizes, e eu agradecia à Deusa por mais este presente do Universo.

Rosa, Hugo e Scorpio agora eram filhos de professores, assim como Alvo, Tiago e Lílian eram sobrinhos, e costumávamos brincar com isso, dizendo que deveriam dar o exemplo.

Tiago ria, dizendo que agora tínhamos uma célula espiã da família em Hogwarts, e que eles tinham que tomar cuidado redobrado para aprontar. Gina e Harry, por sua vez, se sentiam muito mais tranquilos em saber que eu e Draco estávamos próximos das crianças.

Desenvolvi uma ação consistente no projeto contra o bullying desde que assumi como professora, e obtivemos progressos significativos. A comunidade escolar, incluindo alunos, professores e familiares, entendia e apoiava cada vez a importância dessa ação. Formamos comissões de alunos que ficaram à frente dos projetos, das quais Scorpio e Alvo participavam e, para minha surpresa e orgulho, Rosa também.

Outra meta que havia proposto e para a qual havia obtido apoio do conselho escolar era a de promover ações de articulação entre as casas, com foco na convivência harmoniosa e não competitiva. Uma das melhores ideias veio das crianças: formamos dois times de quadribol com os jogadores das casas misturados, que faziam um jogo no encerramento da temporada, logo após o jogo final, num evento beneficente.

Esse jogo virou uma verdadeira festa, e juntava mais gente no campo de quadribol do que a partida final, numa comemoração descontraída, que não valia pontos e a que todos aderiram espontaneamente. Era assim que eu vivia o meu lado coletivo da marca de Deméter, cuidando da comunidade, e estava realizada.

Draco se tornou um produtor de hidromel de qualidade superior, e mantinha uma cooperativa de elfos livres responsável pelo manejo com as abelhas e com a destilaria. Nossa produção era pequena, mas já era bem cotada entre os clientes. Draco queria manter assim, não queria uma vida de empresário novamente. Tínhamos decidido que nossa vida não iria mais girar em torno do trabalho, e seguíamos fiéis a esse propósito.

A longa carta que escrevi permaneceu guardada. Ela serviu como um processo de cura interior. Os acontecimentos se desenvolveram muito bem, para meu espanto e felicidade, pelo que serei eternamente grata à Deusa. Eu não precisava mais da carta, e deixei para o futuro decidir se e quando a dividiria com meus filhos e amigos. Todos os dados disponíveis foram tabulados e minha hipótese foi comprovada: eu e Draco estávamos descaradamente felizes.

Tantos resultados positivos nos fizeram ousar um pouco mais, e decidimos fazer um almoço no feriado do Natal. As crianças, ou melhor, os jovens, ficaram responsáveis pela decoração do castelo, o que foi mais um motivo de divertimento e proximidade entre nós e eles.

Controlei minha ansiedade e os deixei livres para escolher os enfeites, apesar de ficar um pouco arrepiada com as ideias de Hugo, que havia puxado muito o pai. Eles decidiram decorar a enorme sala de jantar com o tema Hogwarts, com todas as cores das casas e bandeiras misturadas. Não pude conter a emoção quando vi o resultado: eu e Draco fizemos um bom trabalho com eles.

Neville e Luna viriam com seus parceiros e filhos, e Blásio Zabini, que fora sócio de Draco nas empresas, também viria com a família. Harry e Gina estariam lá, como era de se esperar. A casa ficaria cheia de filhos e filhas, e a animação estava garantida. Solomon Hook, Flitwick e Hagrid também confirmaram a presença, assim como meus pais, e até Narcisa aceitou o convite. Por incrível que pareça, os doze quartos seriam ocupados.

Eu estava muito animada, e andava por todos os lados, cuidando dos preparativos finais para o almoço, junto com os elfos da cozinha que, assim como os demais que trabalhavam na propriedade, eram livres e assalariados. Preparamos um banquete à altura de Hogwarts, o tema da festa.

Escolhi um vestido clássico, no tom de carmim que gostava de usar. A saia ligeiramente rodada era um convite a rodopiar, e Draco, como se estivesse adivinhando esse pensamento, me girou num passo de dança assim que entrei na sala, nós dois rindo como namorados, enquanto os garotos nos faziam caretas, assobiavam e batiam palmas.

Quando parou, ele ficou me olhando, o olhar sério combinando com um sorriso de admiração, ambos agradecidos por viver esse momento. Ele estava realizado, e alternava o olhar entre meus olhos e o colar da abelha, que nunca mais deixei de usar desde o dia em que o coloquei pela primeira vez.

Eu tinha um celular trouxa especialmente para falar com meus pais, que não se acostumavam com as corujas, mesmo depois de todos esses anos. Eles estavam vindo de carro, e eu os estava acompanhando pelas mensagens. Enquanto os convidados iam chegando pela lareira e Draco e os garotos os recebiam, atendi a ligação da minha mãe.

- Onde vocês estão, mãe?

- Já passamos Hogsmeade, agora estamos na estrada para o campo. Ah, estamos vendo o olmo grande, estamos bem perto.

- Ótimo. Assim que passar o olmo, vocês vão ver a estrada que chega aqui à direita. Vão andar um pouco, e vão chegar logo no monumento. Daí já vão ver a casa de cima, e é só continuar na estrada para chegar.

Meus pais seguiram minha orientação e pegaram a estrada que levava ao castelo.

- Olha querido, eu acho que o monumento está ali.

- Uau, ela não estava exagerando quando disse que era um castelo, hein?

- Vamos, já estamos atrasados.

Eles seguiram após contornar o gramado circular em que ficava o monumento, um obelisco com cerca de três metros de altura. A rocha tinha um formato retangular rústico e um acabamento levemente polido, como uma pedra de Stonehenge. Na parte superior, uma abelha em estilo medieval esculpida em baixo relevo se harmonizava com o desenho do monumento. Sob ela, uma única palavra se destacava, entalhada na pedra: WANNABEE.