I drown inside a glass to hide from my doubt
Too many times I've ran to boys to find a way out
- MONEY DON'T FIX LONELY, SOPHIA MESSA
Olhos verdes encaravam a tela do computador expressando nada além de tédio. Liza não estava surpresa com as contas exorbitantes no cartão do pai, mas tinha consciência de que a quantidade de zeros estava passando dos limites.
— Eu não sei o que fiz para merecer isso.
Tinha certeza que as contas absurdas eram de total responsabilidade de Chelsea e, principalmente de seu pai, que fazia de tudo para agradar a namorada, mas no fim do dia seria ela a responsável por visar uma maneira de diminuir os gastos.
Por esse motivo, ao invés de apreciar o fim da tarde de domingo, ela estava deitada enquanto analisava os números que recebeu dias antes de chegar a Nova York. Se não fosse por Elizabeth a situação financeira da família Vogel não seria das melhores.
Após cancelar alguns serviços contratados por Chelsea e dormir pelo resto da tarde, ela se levantou e enviou uma mensagem para as amigas. Candace e Kim estavam planejando ir a uma balada ainda naquela noite para comemorar a volta de Liza. Fazia muito tempo desde a última vez que as três saíram juntas, e mesmo achando as outras duas um pouco superficiais, Elizabeth não recusou o convite.
Tomou banho quando faltava apenas uma hora para encontrar as amigas e agora procurava seu par de sapatos preferidos, que lembrava perfeitamente de ter deixado perto do sofá depois que chegou de um jantar na noite anterior.
Jodie passou correndo por ela, quase engolindo a bolinha que Liza jogou segundos antes. Quando seu olhar seguiu a filhote de Chihuahua, correu para a casinha da cadela e suspirou derrotada ao encontrar os sapatos, que por um milagre não haviam sido destruídos mas estavam completamente babados. O celular começou a tocar e, com os sapatos nas mãos, Elizabeth voltou para dentro da casa. Deixou aberta a porta de vidro que dava para a pequena varanda e olhou ao redor buscando o aparelho, mas o barulho havia cessado.
Ela estava no quarto quando voltou a tocar e encontrou o aparelho no meio dos lençóis, sentou na cama pensando seriamente se atenderia a ligação quando leu o nome do pai no visor. Não tinha escolha, então atendeu e escutou o pai falando por quase dez minutos. Robert havia oferecido sua casa para um evento importante e, como filha dele, era de praxe que estivesse lá. — Acha que irão notar se eu não aparecer? — perguntou esperançosa, ouvindo a resposta afirmativa do pai, e um sermão logo em seguida sobre como ela deveria se envolver mais nos negócios da família. Tinha vontade de jogar o celular longe mas a única coisa que fez foi revirar os olhos.
— Você precisa ir e eu também gostaria que viesse jantar comigo hoje, Chelsea preparou Poutine — citou o prato preferido da filha e Elizabeth riu.
— Tem uma grande diferença entre preparar e mandar a cozinheira fazer.
— Ela está tentando te agradar — ele disse e Liza pôde ouvir a voz de Chelsea ao fundo.
— Eu acabei de voltar de Londres, vou sair com as meninas hoje. — Jodie voltou ao quarto, parando na beira da cama com a bolinha na boca. Resmungou para que a cadela se afastasse e o pai supôs que ela estava com alguém — Não, não tem ninguém comigo. Estava falando com a Jodie — bufou se abaixando para pegar a bolinha e jogar a mesma para fora do quarto. Como já esperava, a filhote foi correndo atrás do objeto e Liza fechou a porta antes que o animal voltasse.
Seu pai ainda insistia no jantar e em como ela deveria valorizar os esforços de Chelsea para agradá-la, Liza não estava com paciência para tantos discursos sem ao menos um gole de whisky antes, então resolveu dar fim ao assunto.
— Olha só, o jantar eu fico devendo hoje mas posso aparecer aí na terça, após o leilão. Só preciso sair e me divertir um pouco.
Ele agradeceu e ela encerrou a ligação, sorrindo com a ironia do que significava a palavra responsabilidade na visão do pai. Robert não cansava de lhe dizer que deveria ser mais responsável. Liza já estava conformada, mas não conseguia parar de pensar que talvez não houvesse toda aquela pressão se ela não fosse a única herdeira do pai. Em seus vinte e seis anos já assumia mais responsabilidades que qualquer uma de suas amigas. Queria curtir sem ouvir reclamações no dia seguinte, mas era praticamente impossível agradar seu pai, ainda mais sabendo que sua 'madrasta' não pensaria duas vezes antes de tentar prejudicá-la.
Jogou o celular em cima da cama e andou despreocupada até o closet. Jodie latia e arranhava a porta, tentando entrar no quarto. Por mais que adorasse o filhote, sabia que o animal faria besteira, fosse destruindo seus pertences ou fazendo xixi em seus sapatos. 'De novo não, Jodie', ela pensou e logo escolheu a roupa que usaria e foi se arrumar, minutos depois as meninas estariam na portaria.
Contrariando o que o pai achava, a vida de Elizabeth não era nem um pouco agitada em Londres, nem mesmo devido ao trabalho. Talvez fosse melhor para a família que Liza ficasse responsável por tudo e não tivesse uma vida normal, era um motivo plausível para explicar a falta de um companheiro durante as visitas dos familiares restantes.
E às vezes preferia desse jeito, mas naquele momento os corpos suados andando de um lado para o outro, as pessoas alegres e música alta, eram coisas que realmente faziam falta. O lugar estava lotado e graças a Candace e Kim, Elizabeth estava em uma das melhores boates da cidade. Não costumava frequentar lugares como aquele desde que o pai havia começado a namorar, foi quando ele a nomeou sua principal representante na galeria de artes e decidiu bancar o adolescente apaixonado.
Candace ficou na pista de dança assim que chegaram e Kim seguiu para a mesa, Liza foi junto para tentar botar o papo em dia.
— Vamos começar pegando pesado — disse Kim, após pedir alguns shots de tequila. Era praticamente um bordão e Liza sorriu ao perceber que certas coisas permaneciam iguais. Kimberly Kavanaugh era sua amiga de longa data, estudaram juntas no colegial e até mesmo frequentavam os mesmos eventos, já que o pai da morena era fascinado por arte.
Era o tipo de amiga que ela contava para tudo, mesmo que às vezes não concordassem com as mesmas coisas. Assim que as bebidas chegaram, Elizabeth tomou o primeiro shot sendo ovacionada e riu com a empolgação da amiga. — Como vão as meninas, Kim? — perguntou quase gritando para ser ouvida. Até onde sabia, as gêmeas já deviam estar na fase irritante da adolescência e isso certamente deixava a amiga de cabelos em pé.
— Não me lembre daquelas pestes hoje, — Kavanaugh respondeu divertida — se eu estou querendo encher a cara, metade da culpa é delas.
Após quase meia hora, Candace voltou e sentou junto às amigas, sem tirar os olhos de outra mesa mais à frente, fazendo as outras duas também olharem para o local. Três homens conversavam, apesar da música alta. Eram todos bonitos, Liza não iria negar. Um deles estava acompanhado por uma morena, a mulher estava sentada no colo dele enquanto os outros apenas agiam como se ela não estivesse ali.
Ele parecia ser bonito e Liza tentou disfarçar, mas após tê-lo encarado por alguns segundos, o homem olhou em sua direção. Ela tomou mais um shot e voltou a falar com Kimberly, que tinha certeza de que conhecia o mais baixo deles. Ele devia ser uns dez anos mais velho que elas, mas era perfeito para Kim.
O mais alto tinha cabelos escuros e tinha o corpo atlético, jogou algumas notas na mesa, olhou para a mesa onde elas estavam e sorriu, antes de ir em direção às escadas que davam para o andar inferior, onde ficava a pista de dança. Pelo sorriso no rosto de Candace quando ela se juntou ao assunto, as outras duas já sabiam que ela iria descer em seguida.
Liza não se importava tanto com a presença da ruiva, Candace Sloan era a amiga baladeira, nunca a amiga em quem Elizabeth confiaria algo. Quando Kim apresentou-as, Liza imediatamente não foi com a cara de Sloan e vice versa, mesmo assim, conviviam em paz para não chatear Kimberly.
— Sério que você vai abandonar a gente aqui por causa de um gostoso? — Kim perguntou um pouco irritada.
— A Liza não vai ficar chateada né, amiga? — Liza riu, a única coisa em comum entre Candace e Elizabeth era o gosto para homens, por isso ela deu de ombros.
— Não julgo, se eu fosse você já teria ido — ela avisou e Candace se levantou de imediato, seguindo pela mesma direção do homem. Kimberly balançou a cabeça em negação.
— Era pra ser uma noite só nossa — Kavanaugh resmungou e Liza lhe empurrou mais um copo.
— Então não deixe isso abalar você, toma mais uma e vamos descer pra dançar também — Liza se levantou sorrindo, Kim fez o mesmo e estendeu o copo para um brinde — EU TÔ DE VOLTA! — Elizabeth disse ao brindarem e a amiga gritou animada, ambas ignorando os olhares das pessoas em volta.
Liza tomou o conteúdo de dois copinhos, o dela e o de Candace, um atrás do outro e puxou a amiga para a pista de dança. Era bom estar de volta.
Candace parou ao seu lado no bar enquanto Kim havia voltado para a pista de dança. Não havia encontrado o cara loiro e então encontrou as amigas quando elas estavam indo dançar. As duas não se entendiam por muitos motivos, mas costumavam gostar de momentos com aqueles, em que as três se divertiam juntas. Liza já havia perdido a conta do quanto havia bebido e resolveu pedir uma água, precisava parar um pouco se quisesse estar inteira no dia seguinte.
Sloan de repente a cutucou, discretamente apontando para um dos caras que estavam na mesa perto delas. O mesmo que Elizabeth - e qualquer um que enxergasse - havia visto com uma morena. Ele olhou na direção do bar e sorriu, antes parecia ter um lugar para ir, mas agora parecia estar indo para o bar também. Vogel disfarçou e aceitou o copo de água gelada quando o barman puxou assunto com ela. Detestava ficar segurando vela e tinha certeza de que a amiga iria matá-la por atrapalhar seus flertes.
A ruiva jogou o cabelo para o lado e se escorou no bar, ficando de frente para o homem, satisfeita em saber que ficaria ao menos com aquele cara, já que o amigo dele havia ido embora. O homem estava a dois passos dela e quando a mulher planejava dizer algo para chamar sua atenção, o loiro passou direto, parando ao lado de Elizabeth, que agora conversava de forma animada com o barman. Revirou os olhos e saiu andando, aquela não estava sendo sua noite.
— Se importa se eu te pagar uma bebida? — Vogel ouviu alguém perguntar e encarou o homem sentado no banco ao lado. Ele era forte e bonito, o que fazia Elizabeth querer sorrir presunçosa, pois sabia o quanto Sloan deveria estar irritada no momento, mas se conteve.
E então, lembrou que ele estava acompanhado no início da noite, o que a fez pensar duas vezes antes de ser educada. Precisava dispensá-lo para que a amiga não ficasse chateada e também para não apanhar de uma desconhecida.
— Tarde demais — ela mostrou o copo e evitou olhar para ele. — já deixei o álcool de lado.
— Não seja por isso — ele sorriu e apoiou no balcão, acenando para o barman, que Elizabeth agora já chamava pelo nome. — Você pode trazer água?
Se antes Liza estava interessada, aquele momento foi decisivo. Antes que pudesse responder, Candace já estava de volta e se colocou no meio dos dois, virada de frente para Elizabeth. Kim vinha logo atrás parecendo irritada e sonolenta.
— O que rolou? — Liza perguntou e Candace bebeu o que restava da água no copo dela.
— Uma de nós precisa levar a Kim pra casa — disse quase em uma ordem e Liza sabia que "uma de nós" era na verdade Elizabeth.
A loira ficou tentada a ignorar as duas até ver Candace ir embora enquanto ela flertava com o gostoso ao lado, que observava a cena enquanto ria com uma Kim bêbada. Não estava rindo dela, estava rindo com ela. Liza concluiu que ao menos ele era um cara legal e que precisava mesmo levar Kavanaugh para casa antes que ela fizesse alguma besteira ou dormisse no chão. Liza suspirou e pegou o copo de água do desconhecido, bebendo quase metade antes de devolver o copo ao dono e se levantar. Sentiu a cabeça girar um pouco, o álcool provavelmente ainda estava fazendo efeito.
— Tudo bem, eu a deixo em casa — disse olhando para Kimberly, que agora já estava quase dormindo ao lado do homem. Candace sorriu e tomou o lugar dela no banco, pedindo outra bebida. Elizabeth estava pronta para arrastar Kim pelo braço e o desconhecido se ofereceu para escoltar as duas até a saída e esperar elas conseguirem um táxi, após Liza recusar carona.
Kavanaugh estava muito bêbada, ficou o tempo inteiro conversando com o cara, a amiga percebeu que ela parecia já conhecê-lo. Ou era a bebida falando por Kim. Alguns minutos se foram voando e o estranho novamente se ofereceu para pedir um Uber, que Liza negou.
— Você tem certeza?
— Tenho, eu liguei pra carona dela assim que saímos. A essa altura já deve estar a uns dois minutos daqui — avisou olhando para a amiga, Kim estava encostada na parede enquanto lutava contra o sono — Não é a primeira vez que a dorminhoca ali fica assim.
O loiro assentiu e encarou a mulher de cima a baixo, era impossível que ela frequentasse aquele lugar, ele se lembraria dela. Mordeu o lábio inferior, ficava duro só de imaginar as coisas que faria com ela. Elizabeth notou o olhar demorado dele em seu decote e conteve um sorriso, quando o olhar dele alcançou o dela, um carro parou na calçada e o motorista saiu dele, pegando Kim no colo sem cerimônias e a deixando no banco de trás do carro. Ele entrou no veículo e esperou a outra mulher.
— Você não vai me dizer seu nome, não é? — O sorriso no rosto de Elizabeth era quase maldoso — Tudo bem, eu descubro.
— Boa sorte com isso — ela respondeu antes de se afastar e entrar no carro, que deu partida em questão de segundos.
