You turn me on like a light switch

When you're movin' your body around and around

- LIGHT SWITCH, CHARLIE PUTH

O dinheiro é simplesmente a maior vantagem que alguém pode ter. Com uma boa quantidade dele, você pode fazer coisas absurdas como planejar uma festa num bairro chique logo após se mudar, e foi exatamente isso que os novos donos fizeram ao se mudar para o Upper East Side. Não fazia mais de três dias desde a mudança e, após a equipe terminar de arrumar a casa, nada os impediria de darem uma enorme festa.

A decoração estaria pronta em algumas horas, mesmo com a festa marcada para o dia seguinte. As portas dos quartos estavam trancadas e pequenas divisórias foram montadas nos fundos da casa, todas com cortinas, colchões de ar, velas aromatizadas e o suficiente para os convidados que quisessem mais privacidade. A enorme piscina estava cheia bem ao lado e não muito longe dali, o dj já estava arrumando os equipamentos de som.

Também estavam abastecidos com comida, Dallas fez uma lista de compras grande o suficiente para um ou dois batalhões, e o mais importante havia acabado de chegar:

— Deixem tudo lá nos fundos. — Yvan pediu aos funcionários da fornecedora de bebidas.

Sorrindo, feliz em saber que já estava quase tudo pronto, mas sua expressão se desfez assim que olhou mais adiante do caminhão da fornecedora.

— Ei! O que acha que está fazendo? — perguntou ao vizinho.

O homem estava parado enquanto seu cão fazia cocô no gramado tão bem cuidado de Yvan. — Foi mal, cara. Meu cão tem necessidades — o vizinho sorriu debochado. Platter bufou,

já deveria saber que os riquinhos daquele bairro estavam acostumados a levar o cachorro para passear e fazerem o que quisessem, onde tivessem vontade. Não culpava o cão, mas o dono.

Havia tido tanta paz o dia inteiro organizando a festa, não conseguia acreditar que o vizinho babaca queria lhe tirar do sério. Respirou fundo, recuperando toda sua calma e quando estava prestes a pedir educadamente que o homem se retirasse, Damian foi mais rápido.

— Você e esse saco de pulgas vão ficar paraplégicos se não saírem da porra do meu gramado. — a voz carregada de ódio soou atrás de Yvan. Foi difícil para o mauricinho não se assustar quando viu que Damian carregava um taco de basebol, por isso, ele começou a puxar o cão para longe — Leva o cocô junto, seu merda!

— E-eu não trouxe um saco plástico — o homem gaguejou, internamente rezando para que ele o deixasse ir.

— Azar o seu, se vira! — cruzou os braços, assistindo o vizinho tirar a camisa que vestia e usar para fazer o que ele mandou. Yvan queria rir, por mais que não gostasse do temperamento de Damian em alguns momentos. Olhou para o amigo e conseguiu ver a satisfação nos olhos do loiro.

Era sempre assim. Quando aparecia um problema, Yvan resolvia com palavras. Damian escolhia a violência. Na maioria das vezes, ambos conseguiam eliminar pequenos imprevistos, cada um com seu jeito. Mesmo com a diferença gritante de temperamentos, Damian Nichols e Yvan Platter eram como irmãos.

— As duas mocinhas podem parar de arranjar confusão e levar aqueles pacotes para o depósito? — ouviram a voz de Dallas e logo a mulher apareceu no gramado. Ambos sabiam que pacotes eram aqueles e também que ela não os deixaria em paz enquanto não fizessem o que foi pedido.

Seus cabelos negros e curtos lhe deixavam dois ou três anos mais jovem do que realmente era, e qualquer um ficaria encantado com uma mulher tão bonita. Mas além de linda, era perigosa. E por esse motivo Dallas Wright era a única mulher entre eles.

[...]

Quatro horas depois, Yvan estava pronto para ir. Seu quarto estava parcialmente escuro, apenas a luz que vinha do banheiro iluminava um pouco. A porta foi aberta e Damian acendeu as luzes. Todos já aguardavam prontos na sala, e Platter estava demorando mais que o normal, obrigando o loiro a subir e checar o amigo.

Damian Nichols era sempre o primeiro a saber quando havia algo errado. Para ele, estar em um negócio arriscado com seus amigos era reconfortante e ao mesmo tempo um motivo a mais para se preocupar. Desde que se mantivessem em equilíbrio, nada poderia abalar os dois, mas eles não estavam em perfeito equilíbrio desde a última negociação e Nichols sabia que era isso que atormentava Yvan.

— Achei que já estivesse pronto. O que houve?

— Quando começa o leilão? — Yvan perguntou para o amigo e Damian o encara, a serenidade que quase nunca se via em seu rosto.

— Em meia hora, Dallas irá com você e eu estarei com a organizadora.

— E se algo der errado? — o moreno perguntou afrouxando o nó da gravata.

Por mais otimista que fosse, agora ele carregava o sentimento de culpa e medo. Sempre que começavam um novo negócio, era Yvan quem tomava dianteira de tudo, criando as estratégias para que nada desse errado. Agora, ele parecia ter perdido um pouco de fé em si mesmo. Já havia visto seus planos darem errado uma vez.

— Não vai. — Damian sorriu para o amigo, tentando passar algum conforto — Hoje só teremos que comprar os quadros, o resto será feito em alguns dias. Confio em você, irmão. Dando certo ou não, a gente dá um jeito.

— Certo. — Yvan passou uma das mãos em seus cabelos, jogando alguns fios para trás e respirou fundo, se sentindo um pouco melhor — Valeu, irmão. Nichols deu um tapinha no ombro de Yvan e deixou o quarto. Nada podia dar errado.

Mansão Vogel

Leilão de Felix Vonnegut

8h35 P.M.

Não fazia muito tempo que estava na casa do pai. Provavelmente quinze minutos, sem contar a enrolação que foi cumprimentar os convidados mais importantes que já estavam no lugar. A música suave preenchia o salão enquanto homens em ternos elegantes debatiam sobre política, esportes e outros interesses em comum. Mulheres exibiam vestidos longos e caros por todos os cantos, davam falsas risadas e se gabavam dos feitos de seus maridos. Garçons andavam por todo o lugar, servindo champanhe e uma iguaria francesa.

— Lizzie! — uma voz familiar chamou e a mulher rezou para que fosse apenas sua mente lhe pregando uma peça. Infelizmente, a imagem de Gregory vindo em sua direção era bem real. O velho Gregory Arnolds, dono da maior rede de telecomunicação do estado, um sujeito respeitado por muita gente. E arrastava um bonde por ela.

— Me mate agora. — sussurrou, implorando a Deus e forçou um sorriso quando o homem se aproximou — Olá, senhor Arnolds.

— Sem formalidades, querida. Me chame de Greg. Como você está?

— Estou bem, senhor Arnolds. — repetiu, vendo o mais velho puxar a gravata, tentando afrouxar o nó — Aproveitando a festa?

— Certamente, querida. Se me permite dizer, está ainda mais encantadora no dia de hoje — ele sorriu amarelo e Elizabeth forçou-se a fazer o mesmo. Todo aquele cavalheirismo barato nunca funcionaria com ela, não enquanto ele tivesse quase o dobro de sua idade.

— Obrigada, senhor Arnolds — um garçom passou com uma bandeja cheia de taças de champanhe. Elizabeth pegou uma das taças, e mostrando que não havia aprendido nada nas aulas de etiqueta, pediu que o garçom esperasse enquanto ela rapidamente ingeriu o líquido, deixando a taça vazia na bandeja e dispensando-o após pegar outra.

— Está se sentindo bem, querida? — o homem perguntou preocupado. Não estava acostumado a vê-la beber, muito menos daquele jeito.

— Não muito, — mentiu e o velho a olhou desconfiado — deve ser a claustrofobia. Se importa se eu for tomar um ar?

— Claro que não, se quiser posso acompanhar você — Lizzie conteve a vontade de revirar os olhos e se pôs a respirar mais devagar.

— Agradeço, mas acho melhor ficar sozinha até me sentir melhor — tentou dizer sem soar muito debochada e soltou mais uma lufada de ar antes de pedir licença e se afastar.

Assim que teve certeza de que ele não mais a observava, encontrou uma mesa vazia bem escondida e sentou-se ali. Longe dos olhares dos demais, no entanto, um lugar bom o suficiente para ver tudo e todos.

O vestido a apertava, embora ela não deixasse transparecer o incômodo e mantivesse sua postura impecável. Era a pose de durona que fazia as pessoas manterem distância. Eles a reconheciam pelo sobrenome e para Elizabeth, por mais arrogante que fosse, também era motivo de orgulho. Era herdeira legítima do segundo homem mais rico da América. Tinha tudo que muitas queriam: uma mansão, seis apartamentos em diferentes cidades, uma casa, carros importados, armários lotados de roupas, sapatos e joias, e uma conta bancária invejável.

Mas por uma vida cercada de luxúria, o preço que pagava era viver num mundo de aparências. Poucas pessoas a conheciam como a mulher extrovertida e gentil que era. Mesmo saindo com muitos rapazes, Elizabeth tinha de ser discreta. Nunca era vista com seus affairs e isso gerava muitos boatos de que ela era uma solteirona. Ou lésbica. Em eventos como aquele, ela precisava entrar no personagem que lhe foi designado por todos em volta: a mulher superficial, insensível, arrogante e amarga.

Eram muitas palavras para se referir a ela, mas o pior era ser vista como alguém incapaz de ser amada ou amar. Em toda a vida, não havia motivos para que a alta sociedade tivesse uma visão tão distorcida, com exceção de tantos boatos que Liza tinha certeza, haviam sido iniciados por sua maior rival. Foi com uma expressão desgostosa que Elizabeth a viu descer as escadas.

O vestido vermelho a deixava deslumbrante. Chelsea fazia questão de exibir um falso sorriso, com dentes perfeitamente brancos e alinhados. O colar de genuínos diamantes que adornava seu pescoço podia ser uma ótima distração das cirurgias plásticas que foram realizadas ali. Cirurgias tão boas que quase poderiam esconder a megera por trás da máscara de mulher exemplar. Quase.

Yvan vestia o terno recentemente comprado e lhe cabia perfeitamente. Não tinha metade da situação financeira dos outros presentes e, sabia que muitos dos convidados hesitavam em manter contato, afinal Yvan era muito jovem para estar ali por conta própria e não tinha um sobrenome conhecido. A maioria das pessoas o viam como um intruso, enquanto ele se apresentava como um amante da arte.

Damian estava do lado de fora, discretamente checando o perímetro. Sempre foi o mais cauteloso dos dois, e após a última negociação, ele estava sendo bem mais rígido com a segurança. Yvan se sentia grato, sabia que o amigo estava fazendo aquilo por ele também.

— Robert Vogel e Chelsea Hallway, o segundo homem mais rico da América e a namorada — Dallas disse enquanto todos aplaudiam o casal, que descia as escadas. A mulher era bonita e estava na cara que era uma interesseira — E aquela ali é Elizabeth Vogel, curadora, marchand e galerista — ouviu Wright dizer e olhar na direção de uma mulher loira, ela estava sentada sozinha um pouco mais distante deles e também observava a entrada do casal, porém com uma expressão nada amigável — Para ter especialidade nas três áreas ela deve curtir esses quadros quase tanto quanto você, mas alguns funcionários disseram que só está aqui porque o pai a obrigou.

Aquela era uma informação importante. Se Elizabeth Vogel tinha tantas habilidades quando se tratava de arte, ele precisava dela.

— Não fale com ela agora, você terá sua oportunidade depois — ela avisou, sem tirar os olhos da loira, e assentiu, se perguntando se a espera valeria a pena.

Com tranquilidade, Liza poderia afirmar que o leilão havia sido um sucesso. Muitas pessoas deram lances altíssimos em quadros de artistas recém descobertos, mas o último quadro era de tirar o fôlego. Elizabeth nem mesmo sabia que ele estava no catálogo, ou faria questão de comprar antes que fosse a leilão.

Seu pai tinha a mania de dizer que o melhor deveria sempre ficar por último, mas dessa vez ele havia se superado. Ela encarou o quadro assim que colocaram no mostruário e se aproximou do microfone novamente.

— Uau, eu nem consigo acreditar que estou vendo essa raridade de perto — disse sorridente e alguns riram — Bom, para quem não conhece essa é uma peça de óleo sobre tela criada em 1913 pelo expressionista Franz Marc e intitulada como "Deer in a Monastery Garden". Eu mesma gostaria de fazer um lance se não estivesse aqui em cima, então por favor, lutem por essa obra da mesma forma que eu o faria e lembrem-se que todo o valor será revertido em fundos para as nossas instituições de caridade — os convidados aplaudiram e Elizabeth anunciou o lance inicial.

Menos de cinco minutos depois, Liza anunciou o comprador, feliz pelo lance alto e em saber que aquele dinheiro faria uma diferença enorme para as pessoas que eles ajudavam. Era responsável por inúmeras instituições não só na África e países menos favorecidos, como também na América.

— Vendido para… — Elizabeth forçou o olhar na direção do comprador, tentando lembrar se o conhecia e chegando à conclusão de que ele era novo ali.

— Yvan Platter — o homem disse, já subindo no palco e parando em frente ao quadro. Os outros convidados se levantaram de seus assentos e voltaram a transitar pelo salão. Não havia mais nada que os interessasse ali.

O moreno alternou seu olhar entre o quadro e a mulher, que ainda estava ali, observando a tela com intensidade. Pelo que havia ouvido falar, a herdeira Vogel só estava presente por obrigação, mas observando de perto, Yvan reconhecia que ela era realmente apaixonada por arte.

— Foi um bom lance — ela comentou sorrindo. Conhecia todas as pessoas naquele salão, até mesmo sabia os nomes dos funcionários, mas ver alguém da mesma faixa etária que ela se interessar por um quadro daqueles era novidade — Eu vou mandar embalar com cuidado, senhor Platter.

— Me chame de Yvan, temos a mesma idade — ele sorri e estica a mão para ela, que aceita o cumprimento.

— Elizabeth, mas acho que sua assistente já te falou isso — disse olhando em direção à morena parada no canto do salão. Enquanto Yvan realmente era um completo desconhecido para Liza, a morena já lhe parecia extremamente familiar.

Dallas realmente havia feito a lição de casa e informava Yvan sobre quem tinha mais importância naquele lugar, principalmente sobre os donos da casa. O homem sorriu e deu de ombros. — Sou novo no ramo, não poderia chegar aqui sem saber com quem criar conexões — confessou e acompanhou Elizabeth, que descia do palco já em direção ao salão.

E estava certo. Num lugar como aquele, se Yvan tinha algo a oferecer, deveria ser rápido e fazer contato com as pessoas certas. Mas com os olhos claros e aquele sorriso, Liza tinha certeza que era questão de tempo até ele chamar atenção de grandes nomes. A beleza é uma porta de entrada para descobrir o que há além da superfície.

— Se for um artista, sugiro que encontre o Kavanaugh para conversar — deu a dica, apontando para o pai da amiga. Kimberly estava ao lado dele, sorrindo enquanto conversava com mais duas pessoas, sendo um deles seu irmão e o outro, o cara baixinho que encontraram em outra noite. Dallas se aproximou, um sorriso forçado na direção de Elizabeth.

— Meu representante já está fazendo isso por mim — ele disse e sorriu para ela, antes de revirar os olhos ao notar a expressão de Dallas. — Eu preciso ir, Elizabeth. Foi um prazer.

— O prazer foi meu, entrarei em contato com o seu representante para garantir que não haja problemas no transporte da tela — ela disse mais para Dallas, que apenas assentiu e apertou o braço de Yvan, um pedido silencioso para que fossem embora.

— Fico extremamente grato — ele sorriu novamente e se retirou. O olhar de Elizabeth acompanhou o trajeto deles até a porta de saída, onde um loiro já conhecido por ela estava parado, sorrindo em sua direção. Ele trocou algumas palavras com Yvan e a morena, que agora Vogel tinha certeza que era a mulher que o acompanhava na boate, antes de ir até onde ela estava.

— Você me encontrou mesmo — ele sorriu com o comentário e ficou de pé ao lado dela, que observava os convidados.

— Devo confessar que além da coincidência de estarmos no mesmo lugar, sua amiga foi de grande ajuda, Elizabeth. — ele disse seu nome e Liza sentiu arrepios só de imaginar como seria ouvi-lo dizer mais vezes — O irmão dela veio me agradecer por ter ficado com vocês assim que me viu, e eu soube que talvez você estivesse aqui também — ele se virou para ela, havia afrouxado a gravata e alguns botões da camisa estavam abertos — O que eu não esperava é que fosse a dona da casa.

— Não sou a dona, meu pai é — corrigiu e ele assentiu, vendo Dallas entrar novamente na mansão e tendo certeza de que estava ali para buscar ele.

— Tenho que ir, mas foi ótimo esbarrar em você — ele começou se afastando — deveríamos fazer mais vezes.

— Você não vai me dizer o seu nome, não é? — ela repetiu a pergunta que ele havia feito duas noites atrás. Ele sorriu e se afastou, Elizabeth o observou sair pela porta e a morena a encarando antes de ir também — Tudo bem, eu descubro.