Notas iniciais: Olá para quem estiver lendo. Como prometido, segue a atualização da história, hoje com algumas ressalvas.
O capítulo não está betado. Infelizmente as agendas minha e da beta não estavam batendo e estou temporariamente sem ninguém para me ajudar, então peço compreensão com os possíveis erros que passarão pela minha revisão solo.
Apesar de não saber se alguém está acompanhando, estou muito contente em publicar mais um capítulo dessa história que eu tenho em tão grande estima. Portanto, se você é um leitor fantasma, saiba que ficarei muito contente em receber uma mensagem sua para saber o que está achando do plot.
E, por último: atente-se à classificação dessa história. Não me responsabilizo pelo acesso de menores à conteúdos impróprios para sua idade.
Disclaimer: este Universo e esta música não me pertencem e eu não ganho nada com essa publicação.
Acabou?
Hello?
Don't you know we know you know?
Don't you know?
You were brave, with a free-talking mind
And a voice that is still a-cry for life!
And no matter what we want, we want to be loved!
Yes, we were here — we were afraid!
(Rishloo — Just a Ride)
Hermione estava completamente esgotada. Seu cérebro, depois de um ano inteiro vivendo em estado de vigilância constante, parecia prestes a sofrer um curto circuito. Em partes, o que a segurava em pé era o abraço que recebia de Ron e Harry. Talvez essa era exatamente a única coisa que ainda mantinha suas pernas eretas e pés fincados no chão.
Havia acabado. Finalmente, Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado estava morto. E o braço de Ron em seu ombro direito, apertando como se também dependesse daquele contato para permanecer em pé, dolorosamente a lembrava que Voldemort não era o único que havia morrido naquele dia. Fred, Tonks, Lupin… Seus olhos ardiam tanta era a força que fazia para não chorar, pois ela sabia que assim que a primeira lágrima rolasse, seria impossível parar.
Enquanto o abraço do trio ia se desfazendo, mais um nome veio à mente: Professor Snape. Não teve muito tempo para continuar a lista de mortos, pois os olhos de Harry foram a primeira coisa que os olhos de Hermione encontraram quando os três finalmente se separaram.
Havia um tom diferente nos olhos verdes que ela conhecia tão bem. Os três amadureceram mais do que era sequer saudável pensar, ao longo da corrida insana atrás das malditas Horcruxes. Mas em Harry havia mais do que alívio por tudo ter chegado ao fim — eram os olhos daquele garoto que ela conheceu em seu primeiro ano em Hogwarts, a mesma expressão de pavor que ele usava quando a entrada de Hermione e Ron fora permitida na enfermaria e os três, sozinhos, puderam conversar sobre o terrível encontro de Harry com o professor Quirrell.
Depois daquele ano, Hermione percebera que qualquer que fosse a dificuldade, Harry somente se permitia sentir qualquer coisa remotamente normal depois do fim. Acontecera a mesma coisa durante o episódio da Câmara Secreta, quando Sirius Black escapara de Azkaban e durante todos os anos que se seguiram — enquanto Ron se apavorava de imediato e Hermione aprendia a raciocinar seu medo e transformá-lo em um plano, Harry estava sempre pronto para a pancada da vez. Por pior que fosse a situação, o menino aguentava até o fim e somente diante dos olhos do restante do Trio é que deixava claro o quanto estava ferido, cansado. E eram esses os olhos que Hermione encarava agora.
Virando lentamente a cabeça, mantendo pelo máximo de tempo que pode os olhos fixos em Harry, Hermione encontrou o rosto transtornado de Ron. Sangue, lágrimas e sujeira maculavam aquele rosto que Hermione aprendera a amar ao longo dos anos. Ron, o menino do nariz sujo em sua primeira viagem no trem para Hogwarts; Ron, que por tanto tempo fora sua paixão secreta e por quem ela agora nutria um sentimento de conforto, mesmo após o inusitado beijo que trocaram na Câmara Secreta.
Parte dela queria se jogar nos braços de Ron e esquecer o restante do mundo, mas Hermione sabia que aquele fora apenas um modo de aliviar toda aquela tensão que se formara durante os meses que passaram isolados do mundo, mas principalmente durante as últimas quarenta e oito horas em que não sabiam se sobreviveriam ou não diante do atual cenário. Não havia nenhum tipo de desejo arrebatador entre eles — mesmo agora, olhando firmemente em seus olhos, Hermione podia sentir o carinho que era nutrido entre ambos. Ela jamais se esqueceria daquele momento, mas sabia que amá-lo de qualquer outra forma que não como um irmão, do mesmo modo que amava Harry, estaria além de sua capacidade — de certo modo, parecia que mancharia toda a história que construíram ao longo dos últimos anos. E Ron, devolvendo-lhe o olhar com a mesma intensidade, parecia sentir o mesmo que ela. O sorriso triste em seus lábios dizia mais do que palavras poderiam naquele momento.
Nenhum dos três parecia inclinado a falar. O tempo era algo que, pela primeira vez em muitos meses, não era motivo de preocupação. Hermione tomou fôlego para quebrar o silêncio uma, duas, três vezes e em nenhuma de suas tentativas, as palavras que lhe vinham à mente pareciam apropriadas. Algo gritava em sua cabeça que assim que o silêncio fosse quebrado, o Trio seria novamente catapultado à dura realidade que os rodeava. Não precisava ir muito longe, com sua própria visão periférica, Hermione era capaz de ver parte da ruína que Hogwarts havia se tornado naquelas últimas horas.
Mas não foi nenhum dos três que quebrou aquele silêncio reconfortante. Um grito fez-se ouvir entre as lufadas de ar frio, longo e capaz de produzir um arrepio em sua espinha. O coração de Hermione disparou e seus olhos imediatamente buscaram o interlocutor daquele grito sofrido.
— HARRY!
O nome reverberou entre o espaço por alguns segundos, até que o silêncio voltasse à tona. Dessa vez, era um silêncio que ora ou outra parecia ainda trazer um eco remanescente do brado de um coração apaixonado.
Ginny Weasley estava a alguns metros, correndo na direção deles, cabelos esvoaçados e numa velocidade inacreditável. Harry não demorou muito para correr na direção da garota, encontrando-a no meio do caminho em um abraço que quase os fundiu em um único corpo. Eles pareciam conversar entre si, enquanto mãos afagavam costas, braços e Ron falou em voz baixa, pegando a mão de Hermione sem que ela sequer percebesse que ele havia novamente se aproximado:
— Eles realmente se amam, não é? — Um pouco daquele ciúmes de irmão mais velho ainda era perceptível na voz do ruivo, mas Hermione sabia que era apenas uma fachada, afinal, Ron tinha uma enorme dificuldade em esquecer velhos arrependimentos, ela bem sabia disso.
— Sim, eles se amam. E eu fico grata em ver que o fim dessa Guerra já está dando bons frutos. — A jovem mulher acrescentou no exato momento em que o casal se separou e enlaçou as mãos, voltando o olhar para Ron e Hermione.
Ron abaixou os olhos para encontrar os de Hermione, assumindo uma feição muito séria e madura que encheu o coração dela de orgulho.
— Suponho que você esteja certa… — Ron disse, ainda que em tom vacilante — Isso não significa que eu quero ver minha irmãzinha se atracando com o meu melhor amigo. — E lá estava novamente o garoto que Hermione conhecia tão bem.
Com um maneio negativo e um revirar de olhos, Hermione soltou sua mão de Ron e buscou seu braço como apoio, dizendo:
— Vamos lá, Ron. Podia ser bem pior. Ela podia ainda estar com Corner, se é que você se lembra… — A provocação foi dita com tanta facilidade que Hermione sentiu-se estranha por trazer à tona um assunto tão leve em uma hora como esta. Mas antes que o desconforto fizesse sua mente voltar a trabalhar na velocidade da luz, Hermione piscou diversas vezes e acabou não ouvindo o que quer que Ron havia respondido à provocação.
A leveza da situação chegando ao fim, Hermione sentiu Ron puxando seu braço em direção ao casal. A vista do castelo atrás deles trazendo-a de volta para o presente momento — a Guerra podia ter chegado ao fim, mas ainda havia muito a ser feito e por mais que Hermione quisesse apenas deitar em uma cama quente e dormir pelo próximo mês, esta infelizmente não era uma alternativa.
Algumas horas haviam se passado e, mesmo sequer acreditando que era possível dizer isso, Hermione estava ainda mais cansada do que antes. Muitos foram abatidos durante aquelas terríveis horas, mas o pior era o cenário no Salão Comunal. Conforme a notícia da queda de Voldemort se espalhava, familiares da Ordem da Fênix, assim como alguns Aurores chegavam à Hogwarts e a dor dos que haviam perdido alguém se mesclava com o alívio de tudo ter, finalmente, se encerrado.
Minerva McGonagall andava em direção ao púlpito onde antes ficava a mesa dos professores, agora vazio e sem nada que diferenciasse o local do restante do salão. Mas sua caminhada, lenta e compassada, cumprimentando respeitosamente os que encontrava no caminho, chamou a atenção de todos e uma a uma, as conversas paralelas foram cessando, até que a chefe de Grifinória estivesse onde tantas vezes esteve, em pé, no mesmo lugar em que os que primeiros anos eram selecionados para suas devidas casas — onde tantos foram os comunicados e anúncios recebidos pelos alunos durante o período letivo.
Seu olhar sério e a linha reta que seus lábios formavam trouxe um arrepio ao corpo de Hermione que como muitos no salão, empertigou-se para ouvir o quê a bruxa tinha a dizer.
Levantando a varinha até sua garganta, Hermione pode perceber que ela performava um poderoso Sonorus. Mas ainda assim houve alguns segundos tensos antes que McGonagall conseguisse finalmente falar:
— Alunos, ex-alunos… Aos meus companheiros da Ordem da Fênix e aos valentes Aurores que lutaram bravamente neste dia. — As suas primeiras palavras começaram vacilantes, como se McGonagall estivesse tentando controlar a emoção que sentia ao se dirigir às pessoas do salão. Hermione sabia que, assim como os acontecimentos daquele dia entrariam para a história do mundo bruxo, aquele discurso que se iniciava também estaria incluído. O aperto em seu peito era doloroso, mas Hermione não desviou o olhar da antiga professora nem por um segundo.
— Durante anos terríveis, muitos atuaram contra as trevas que ganhava força sob o comando de… Voldemort. — Hermione percebeu que não havia sido a única a segurar a respiração diante do nome pronunciado em alto e bom som; Ron segurava Molly em seus braços e sussurrava algo para a mãe que a jovem não conseguia ouvir, mas que fora capaz de abrandar o pavor no rosto da bondosa senhora. Harry estava extremamente concentrado no que McGonagall dizia, com a mandíbula firmemente cerrada e os punhos em igual posição. Ginny abraçava um Arthur Weasley totalmente abalado.
Os segundos pareciam se arrastar enquanto todos ali esperavam que o Taboo fosse ativado, mas parecia que assim como o dono do nome, a própria maldição também havia sido extinta.
— Voldemort está morto. E agora é a hora de reerguer o mundo bruxo. — McGonagall insistiu em repetir o nome que por meses agira como mau agouro entre a comunidade bruxa, deixando claro para os que ainda reservavam dúvidas: o fim realmente havia chegado.
— Aos Aurores que desejarem partir, posso imaginar que há muito a ser feito no Ministério e alguns… fugitivos que precisam ser contidos. — O austero olhar por sob os óculos deveria ser uma característica para pessoas influentes, pois Hermione não conseguia deixar de relacionar o movimento com o mesmo que o falecido diretor, Albus Dumbledore, fazia.
A comoção foi rápida. Aurores com seus uniformes do Ministério e alguns que vieram diretamente de suas casas, vestidos como civis para lutar contra Voldemort e os Comensais da Morte, começaram a partir do salão. Um a um, eles cumprimentaram McGonagall de longe com um maneio de cabeça e desaparataram — o que levou Hermione a concluir que os feitiços de proteção ainda não haviam sido restaurados.
Depois que a última Auror desaparatou, McGonagall limpou a garganta discretamente, chamando a atenção dos que restaram de volta para ela.
— Aos alunos que ficaram e lutaram bravamente, peço que se estiverem feridos, busquem a ajuda de Madame Pomfrey e a equipe de confiança que ela chamou de St. Mungus, nesse exato momento. Agora é hora de cuidarmos uns dos outros. — O olhar impassível mesclava-se com a típica preocupação característica da personalidade austera da Professora de Transfiguração — Isso serve para você também, senhor Longbottom. Esse corte na sua testa não vai se curar sozinho…
Hermione procurou a silhueta de Neville dentre os pequenos grupos espalhados pelo Salão Principal. E sorriu um breve sorriso ao encontrar o amigo abraçado com Luna, com as bochechas coradas e a cabeça levemente inclinada para baixo, parecendo o menino de onze anos que desafiara os nervos da mesma McGonagall ao interromper sua fala para resgatar o sapo fujão, Trevor, em seu primeiro ano. Algumas coisas nunca mudariam, Hermione concluiu quando percebeu que Neville se soltava de Luna e tropeçava em seus próprios pés enquanto se direcionava para a saída. Sequer parecia o jovem homem que bravamente sacara a espada de Gryffindor do Chapéu Seletor e decepara a maldita cobra. A maldita cobra…
Como se uma luz tivesse sido acesa em seu cérebro, Hermione se lembrou de Nagini. E dá horrível visão do seu antigo Professor de Poções sangrando em seus últimos momentos de vida. Foi como se seu coração falseasse uma batida e Hermione buscou aflita os olhos de seus melhores amigos. Harry parecia ter sido atraído para aquele olhar, enquanto Ron continuava a embalar a mãe em seus braços. Hermione não poderia quebrar aquele momento, não depois da perda da família Weasley, então enquanto Minerva McGonagall retomava seu discurso, Hermione acenou para que Harry se aproximasse.
— Aos que foram ou são Monitores-Chefes, peço que acompanhem e ajudem a acomodar os…
Hermione não estava mais ouvindo. Harry tinha um olhar alarmado ao andar em sua direção.
— Está tudo bem, Mione?
— Harry, o professor Sn… O corpo do professor Snape ainda deve estar na Casa dos Gritos. — Havia urgência na voz de Hermione e Harry não tardou a compreender o quê exatamente a amiga estava pensando.
Mas antes que uma resposta se formasse em seus lábios, a voz de McGonagall voltou a ser ouvida, dessa vez aparentemente mais séria do que antes:
— … e aos que morreram tentando acabar com essa Guerra, os terrenos de Hogwarts resignificarão nossas perdas e nosso luto — uma cerimônia acontecerá na próxima manhã, nos jardins da escola. Conto com a presença e solidariedade de todos. — Com um aceno rápido, o Sonorus foi desfeito e McGonagall deu um passo para descer do púlpito. E então…
Um gemido sofrido escapou de uma mulher na multidão, trazendo todos os olhares para a família Weasley. Molly caiu como que em câmera lenta ao chão, agarrando-se nas pernas de Ron enquanto seu lamento materno ecoava pelo Salão Principal como o choro de uma fênix. Hermione nunca havia visto tanto sofrimento estampado no rosto de alguém até aquele momento em sua vida.
Harry e ela, em passos sincronizados, inconscientemente começaram a andar em direção à matrona. Mas, antes que chegassem próximo da família Weasley, Harry parou abruptamente, fazendo com que Hermione colidisse em seu ombro.
— Hermione, as memórias de Snape. — Seu tom era urgente — Ele merece um fim… um fim tão digno quanto os outros. — Mesmo gaguejando entre as palavras, Harry falava sério — Eu não tenho como te explicar agora, mas aquelas memórias provam o verdadeiro papel de Snape nessa Guerra — ele não é… não era quem pensávamos ser.
O jovem havia buscado as mãos de Hermione enquanto falava, apertando-as com força entre as suas. Mas o choro sofrido de Molly interrompeu o diálogo e os dois voltaram a olhar para a roda que se formava ao redor da mulher.
— Harry… — Hermione começou a protestar, mas foi interrompida pela urgência com que Harry voltou a falar:
— Precisamos guardar aquelas memórias antes que outra pessoa as ache, Hermione. É a única forma de provar a lealdade de Snape. Eu sei que este não é o melhor momento, mas enquanto vou até a Casa dos Gritos, certificar que… que… ele seja transportado até… — Agora, Harry não conseguia completar as frases e parecia prestes a começar a hiperventilar, mas não era preciso, Hermione havia conseguido entender o que ele dizia antes que ele precisasse terminar.
— Vá, Harry. Um simples feitiço de levitação será o suficiente para… — Hermione tentou, mas as palavras que precisavam ser ditas pareciam erradas em sua mente, e ao invés de debater qual seria a melhor forma de falar, optou por apenas pular o óbvio e terminar seu raciocínio com o máximo de firmeza que conseguia:
— Eu vou avisar Ron… e Ginny. — Acrescentou rapidamente, vendo que Harry havia buscado com o olhar sua amada entre os ruivos que se uniam, como num círculo, ao redor da mãe — E vou até a diretoria, certificar que as memórias estejam armazenadas e seguras. — Harry acenou afirmativamente, já virando-se para a saída do salão.
— Obrigado, Hermione. Eu devo isso a ele… — Havia tristeza em seus olhos e voz, mas também a famosa determinação grifinória que Hermione conhecia tão bem — Nos encontramos na diretoria?
— Eu te espero lá. — Hermione tentou sorrir e passar a segurança que era intrínseca à sua essência, mas o lamento de Molly Weasley irrompeu ainda mais alto e Hermione sabia que aquele choro ficaria, também, para a história daquele dia que parecia não ter fim.
Notas finais: Espero que esse capítulo tenha sido tão bom para vocês quanto foi para mim. Devo dizer que escrever "Instinto de Sobrevivência" tem sido um bálsamo para a alma, mas também quero alertá-los que os próximos capítulos serão mais sombrios.
Caso tenha chegado até aqui, deixe um review me contando o que achou. Saiba que vai fazer uma escritora amadora muito feliz.
Beijos e nos vemos no próximo domingo!
