Notas iniciais: olá, mundo! De volta para mais um capítulo e seguem notas iniciais muito pertinentes:
1) Continuo sem nenhum beta, então peço compreensão para os possíveis erros gramaticais/problemas com a coerência que eu deixei passar em minhas revisões.
2) Também comecei a publicar "Instinto de Sobrevivência" na plataforma Spirit, então caso você prefira o layout de lá, fique à vontade para migrar.
3) E, o mais importante: esse capítulo é dark angst. Muito sofrimento, dor, sangue e um diálogo difícil, então estejam avisados. Para pessoas mais sensíveis, tome cuidado com os gatilhos e, se não se sentir à vontade, não prossiga com a leitura. Minha intenção não é causar mal a ninguém, mas a arte tem esse poder de trazer desconforto e reflexões que às vezes não estamos preparados para fazer. E isso não é um problema, ao menos não deveria ser, então para evitar o seu desconforto e a minha paciência sendo testada por comentários maldosos, optei por fazer esse longo aviso inicial. Prontos para o capítulo?
O pó voltou ao pó de onde veio
My hunger to destroy
When I was just a boy
It pulled me deeper into something that I now enjoy
The ritual begins
Evil will meet its end
In your destruction I will finally feel whole again
There is no more time for apologies
Malevolent emotions
Take hold of me
Are you ready to begin your trip to the other side?
Death is an old friend of mine
(Disturbed — Old Friend)
Snape aparatou na porta de Spinner's End e surpreendeu-se que nenhum membro seu tivesse sido estrunchado durante a aparatação. As feridas em seu pescoço, entretanto, haviam voltado a sangrar e ele pensou não ter mais reserva alguma de energia para se levantar do chão da entrada de sua casa. Sua cabeça parecia não ser capaz de dar sequência ao plano de autopreservação que o havia salvado até o momento, então ele apenas registrava vagamente o rastejar de seus membros em direção ao batente da porta. Por que eu ainda não morri?
Inerente à fraqueza que sentia, combinado com o estado confuso de sua mente uma vez brilhante, a silhueta coberta pelo manto negro não se parecia em nada com o Mestre de Poções que praticamente deslizava pelos corredores de Hogwarts. Ele sentia um desprezo crescente em seu peito pela sua atual situação, mas acima de tudo, sentia-se aquém da realidade que seus dedos tocavam. Foi de forma mecânica que conseguiu se erguer o suficiente para tocar a maçaneta de bronze envelhecido que o separava do interior da casa — mas assim que percebeu que a porta estava entreaberta, todos os alertas de perigo soaram em uníssono em sua cabeça e ele, apoiando-se sobre a larga maçaneta, juntou forças para se colocar em pé, varinha em riste na tentativa de se proteger de quem quer que estivesse ali.
O hall estava com as luzes apagadas, mas a ante-sala que guardava alguns objetos deixados por sua mãe estava iluminada. Quem quer que estivesse na casa, estava fazendo barulho sem se importar em ocultar sua presença. Aquilo, definitivamente, não era um bom sinal.
Pensando o mais rápido que seu corpo fatigado era capaz, Snape tentou manter a postura ao andar até o cômodo. Mas percebeu que sua perna esquerda se arrastava ao invés de acatar o comando para andar sem encostar nas madeiras soltas. Antes que chegasse na metade do caminho, um vulto negro saiu pela porta da ante-sala e a próxima coisa que os olhos arregalados de Snape registraram, antes de ter seu peito atacado por um feitiço estuporante, foi a máscara prateada que cobria o rosto do intruso.
Sendo arremessado para trás, novamente encontrando-se próximo à porta de entrada, Snape percebeu que sua mão direita não segurava mais sua varinha. Ele estava no chão, sangrando, agora com falta de ar e completamente desarmado. Foi com expressão resignada de que, finalmente, seu fim havia chegado, que Snape levantou a cabeça para encarar o homem que andava até sua direção.
Com passos descuidados sobre o chão de madeira, o homem retirou sua máscara enquanto se aproximava de Snape. E, para o desgosto do espião, o rosto de Rodolphus Lestrange apareceu por detrás da máscara prateada. Um rosto aristocrata que estava suado, sujo e não lembrava nem um pouco a mui nobre família Lestrange, uma das apoiadoras mais leais do Lord das Trevas.
Lestrange não parou a uma distância habitual de Snape, mas andou até chegar a centímetros de seus pés, flexionando as pernas e ficando de cócoras, para que seu rosto estivesse no mesmo nível do homem caído e seu olhar diretamente fixado nos olhos de Snape.
A máscara escorregou por seus dedos e atingiu o chão com um baque surdo, os braços de Lestrange sendo cruzados e apoiados em seus joelhos, a varinha sendo segurada com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.
Lestrange, de imediato, não falou. Escrutinou o rosto de Snape de perto, demorando-se nos olhos e depois descendo até o pescoço. Se Snape não estivesse tão resignado com a situação, de certa forma quase que em paz que finalmente acabaria, talvez tivesse tentado esconder seu estado de fragilidade. Mas Snape tinha certeza absoluta que Lestrange não lhe deixaria sair vivo dali, ele tentando disfarçar sua condição atual ou não. Afinal, Bellatrix não havia alcançado sua insanidade sozinha — ela e Rodolphus se complementavam em muitos quesitos, além da obsessão por poder e devoção cega ao Lord das Trevas.
Depois de alguns segundos em completo silêncio, Lestrange soltou um sibilo longo, enquanto maneava negativamente a cabeça e finalmente dirigia a palavra a Snape:
— Eu sabia que você voltaria para as suas origens, seu verme imundo. Aliás, essas feridas respondem muitas perguntas minhas, traidor.
Usando da ponta de sua varinha, Lestrange forçou o queixo de Snape a se erguer e o espião lutou contra a dor que o movimento causava. Apesar de não ter soltado nenhum som, Snape tinha plena ciência que o quê escorria pelo seu rosto era suor e lágrimas. Ele estava farto e, com seu melhor sorriso sarcástico, respondeu com a voz rouca e entrecortada:
— Eu não iria tão longe ao afirmar que suas perguntas me interessam, Lestrange.
A impertinência de sua postura, mesmo considerando o estado atual em que se encontrava, acendeu um brilho sinistro nos olhos de Lestrange. Aquele brilho não poderia significar nada bom.
Com a mão esquerda livre, Lestrange agarrou o colarinho de Snape e o puxou com força para cima, enquanto o próprio voltava a ficar em pé. Snape não achava que existia mais espaço em seu corpo para mais dor, mas o movimento brusco obrigou-o a fechar os olhos e era como se estrelas brilhassem por detrás de seus cílios. Ele só queria que acabasse.
Sendo arrastado pelo chão empoeirado, Snape acabou perdendo a consciência no meio do caminho. Lestrange só percebeu quando havia arrastado o corpo dele por todo o hall, ao parar por alguns segundos até decidir que a ante-sala em que estivera minutos atrás era grande o suficiente para que pudesse continuar com seus questionamentos. Com um rolar de olhos desdenhoso, jogou o corpo flácido no chão e chutou o torso uma, duas, três vezes. Nenhuma reação.
Afastando-se alguns passos, Lestrange apontou a varinha para seu companheiro Comensal da Morte e gritou:
— Enervate!
Snape, agora deitado de barriga para cima sob o chão sujo, abriu os olhos em uma expressão de medo e puxou uma lufada sofrida de ar. A mão direita tateou o chão ao redor e ele lembrou que a varinha havia caído de sua mão. Se eu ao menos tivesse minha varinha, poderia encerrar essa encenação terminando de abrir os rasgos no meu pescoço, mas ele estava desarmado e à mercê de Lestrange pelo tempo que seu corpo ainda funcionasse.
— Bellatrix sempre soube a verdade sobre sua lealdade, o verme que você sempre foi entre nós, Comensais da Morte e verdadeiros seguidos do Lord das Trevas. — A voz de Lestrange estava alguns tons acima do que ele geralmente falava, uma acidez destilando por cada palavra que escapava de sua boca — Bella…
Snape teve certeza que Lestrange disse algo mais, mas por um instante o pulsar frenético deseu sangue circulando em suas veias era tudo que seus ouvidos conseguiam registrar. Talvez se ele perdesse a consciência novamente, Lestrange não seria capaz de reanimá-lo e então a graça acabaria.
Ainda perdido em pensamentos, Snape só percebeu que havia sido atingido por um feitiço quando seus músculos começaram a contrair-se sob a pele, produzindo um tipo específico de dor que qualquer Comensal da Morte seria capaz de identificar sem precisar usar muitos neurônios.
Durou menos de um minuto, mas foi o suficiente para que deixasse Snape completamente sem ar e encolhido sobre o próprio corpo quando finalmente a maldição foi interrompida. Interrompida para que, segundo depois, sua bochecha fosse pisada por uma bota enlameada e com um odor extremamente desagradável.
Seu instinto inicial foi de manter os olhos fechados e fingir inconsciência, mas o pé em seu rosto aumentou abruptamente a pressão que exercia e Snape teve certeza que o quê engoliu, além de sangue e saliva, era um dente — ou talvez dois.
— É claro que você não sabe a resposta para essa pergunta. Você não estava lá quando a vadia traidora-do-sangue acertou-a bem no peito e Bellatrix caiu. — Uma última pressão e o pé deixou o rosto de Snape, agora fazendo um movimento que o forçou a encarar o rosto de Lestrange, mais de um metro e oitenta centímetros de distância.
Esta distância, entretanto, não era suficiente para esconder o brilho sentimental nos olhos de Rodolphus Lestrange. De forma sinistramente horrenda, sua expressão estava transtornada e de seus olhos algumas lágrimas traiçoeiras caiam. Ele estava chorando.
O espião poderia não ter mais nenhum rastro de dignidade sobrando em seu corpo, mas ele ainda era Severus Snape e uma oportunidade como essas não se deixava passar. Nem mesmo quando é de conhecimento geral que nunca se deve importunar um louco.
Aproveitando que Lestrange havia tirado o pé de seu rosto, Snape esforçou-se para apoiar-se em seus cotovelos e, com uma expressão zombeteira, destilou escárnio em suas palavras:
— Você está chorando? Chorando pela morte de sua querida Bellatrix? Patético…
— Tire o nome de minha mulher dessa sua boca imunda, Snape! Crucio!
A expressão de chacota rapidamente se transformou em dor e enquanto Lestrange administrava a maldição, iluminando a ante-sala em um tom verde-vivo, gritava como um louco:
— Você FUGIU assim que as coisas ficaram assustadoras demais, não é mesmo Snape? — Um monólogo, pois obviamente Snape se debatia e ao invés de conseguir responder, acabou se entregando aos gritos de dor que tanto havia se esforçado para conter.
— E então, o Lord das Trevas te encontrou e você teve o quê mereceu, seu projeto de aborto.
E essas foram as últimas frases que Snape ouviu, antes de perder a consciência novamente. Se a situação fosse outra, apenas duas rodadas de Cruciatos não seria o suficiente para derrubá-lo. Mas Snape estivera próximo da morte muitas vezes durante aquelas últimas horas e seu corpo finalmente havia cedido ao esgotamento.
Quando a maldição foi interrompida, o subir e descer de seu peito era quase imperceptível. Ao redor de seu pescoço, uma poça de sangue começava a se formar. E a forma como seu corpo estava disposta deixava claro que ossos tinham se partido.
Lestrange sabia que Snape ainda estava vivo e, por alguns segundos, cogitou reanimá-lo mais uma vez para continuar com a tortura, até que ele visse a vida deixando os olhos de Snape.
— Mas a verdade, Snape, é que enquanto eu vou sair pela porta dessa casa nojenta, ainda um Lestrange e pronto para reagrupar os que sobraram, você vai ficar aqui e agonizar até a morte. — Cada palavra era dita enquanto pé ante pé, Lestrange caminhava na direção de Snape, até estar novamente próximo do corpo aparentemente sem vida.
— E o melhor de tudo: ninguém sequer vai se preocupar com a sua falta. Porque você, Snape… — Novamente Lestrange pisou no rosto de Snape — É um mestiço imundo, patético e está sozinho. E vai morrer como o verdadeiro traidor que é.
Antes de virar-se para ir embora, Lestrange cuspiu no corpo de Snape. E então partiu, transformando-se em um vulto negro e desaparecendo sem deixar rastros.
Notas finais: apesar de complexo, esse foi um dos capítulos que eu mais amei escrever. Depois de tantos anos consumindo fanfics sobre o Snape, dos estilos mais variados que existem, eu sempre quis escrever um pouco sobre a dualidade "Comensal da Morte/Espião".
Mas me conta, você que leu até aqui: o que esse capítulo te causou?
Nos vemos no próximo domingo!
