Nota inicial: olá, mundo! Pega sua água, sua coquinha gelada, o maço de cigarro que hoje tem bastante coisa para ler antes do capítulo.

Lexas, nosso novo beta, levantou algumas questões que mais pessoas podem ter notado ao longo da leitura dos últimos capítulos. Pelo fato de "Instinto de Sobrevivência" ter sido um trabalho solo desde o início, percebo que alguns detalhes talvez estivessem explícitos somente para mim. Então, trago algumas considerações pertinente (se você teve alguma outra dúvida que eu não expliquei aqui, por favor, avise-me para que eu também possa esclarecer):

1: Quando Harry pede que Hermione vá buscar as memórias de Snape, eu deixei implícito que, graças ao frisson da Batalha Final, Harry acaba esquecendo as memórias de Severus na Penseira e só durante o discurso que McGonagall faz no capítulo "Acabou?", é que ele se lembra desse detalhe e acontece aquela tomada de decisão de Hermione buscar e armazenar as memórias, enquanto Harry vai buscar o corpo de Snape na Casa dos Gritos.

2: Quando Harry pergunta para Hermione "onde é aqui?", no capítulo "Spinner's End", também ficou implícito que, apesar de a Diretoria ser um ambiente familiar para os dois, aquela sala em específico, embaixo do mezanino e acoplada à própria Diretoria, não era um local conhecido nem por Hermione, nem por Harry. Por isso ele faz a pergunta "onde é aqui?", quando percebe que eles estão em algum lugar dentro da Diretoria, mas não exatamente na sala que era de conhecimento canônico geral.

3: Ainda no capítulo "Spinner's End", infelizmente cometi uma falha gritante nas leis de antiaparatação de Hogwarts. A ideia de usar o Monstro como suporte me pareceu brilhante, contudo, quando fui fazer a betagem para postar o capítulo, percebi que não dei nenhuma explicação coerente do "por quê?" ou "como?" Monstro foi capaz de aparatar Harry e Hermione de Hogwarts até Spinner's End. Eu poderia reescrever o capítulo e corrigir essa falha no plot, entretanto optei por apenas esclarecer isso em nota. É frustrante perceber erros como esse e, para que essa frustração não seja capaz de me desanimar ainda mais, prefiro apenas assumir o furo no plot e dar sequência, na expectativa de oferecer explicações melhores no futuro. Se IdS for reescrita, fica para a minha eu-do-futuro resolver essa pendência.

4: Caso você está acompanhando essa longfic e não tinha percebido nenhum desses fatores anteriores, só segue o baile e ignora essa longa nota rs

Agradecimentos: Lexas, obrigada por aceitar entrar nesse projeto como beta e me ajudar não somente com a parte ortográfica/gramatical, mas também com a sistemática do plot em si. Sinto-me bem mais segura tendo alguém para apontar as falhas antes da publicação, mas também para segurar minha mão rs

Minha fiel e querida leitora May Prince, peço perdão por ter te deixado ansiosa! Não foi minha intenção, juro que não foi. Eu quis ressaltar a quantidade de capítulos prontos (entretanto ainda não betados) para que você (e os leitores fantasmas) soubessem que IdS, ainda que não esteja finalizada, está em vias de finalização. Agradeço imensamente sua presença nessa história, saiba que sua participação me inspira a não parar de escrever.

Tivemos uma semana difícil por aqui. Alguns dias eu simplesmente não conseguia colocar as palavras da minha mente em palavras escritas, mas atribuo ao estresse da vida real. Inclusive, estou recuperada da COVID, apenas aprendendo a lidar com as sequelas que ficaram.

O plot segue firme e estou me aproximando dos capítulos finais desse arco. Sim, depois de muito conversar com meu beta e ponderar com meus botões, decidi que "Instinto de Sobrevivência" é apenas o primeiro arco de um história muito maior.

Hoje (12/08/2022), estou com 350 páginas de arquivo bruto e, como disse antes, estou me aproximando dos últimos capítulos. Talvez mais duas semanas e eu consiga chegar no último capítulo desse primeiro arco.

Meus motivos para dividir esse plot são muitos, entretanto os mais importantes são: eu tenho muito mais do que já está escrito para contar, muitas perspectivas de personagens diferentes e, por conta disso, eu estava me perdendo dentro da minha própria criatividade; além disso, esse projeto cresceu MUITO mais do que eu esperava e, finalizando esse primeiro arco, eu preciso dar um tempo para a minha cabeça.

Fiquem tranquilos: apesar de meu plano em terminar IdS consistir em uma espécie de cliffhanger, eu não tenho intenções de fechar esse arco de qualquer forma ou sem explicações importantes. Como você que está lendo isso aqui e agora já deve ter percebido, eu sou extremamente perfeccionista e tenho um apego sentimental com essa história.

Bom, já falei muito. Aos que estão ficaram, desejo um ótimo capítulo!


Instinto no comando

I don't know if you're ready

And I don't know where to begin

Open your eyes

(Breathe in life)

Open your eyes

(Breathe in, breathe out)

(In Flames — Stay With Me)

Suas pernas começaram a se mexer instintivamente, enquanto sua cabeça tentava compreender cada frame que seus olhos registravam. Se o primeiro olhar que deu para a cena à sua frente foi chocante, agora que estava bem próxima do corpo de seu antigo professor, Hermione achou impossível continuar a conter os gritos de terror em sua cabeça. Ela precisava fazer alguma coisa com suas mãos, ocupar-se de alguma forma antes que cedesse à loucura e simplesmente começasse a gritar, a literalmente gritar.

Ajoelhando-se ao lado do peito de Snape, Hermione inspirou com força, buscando controlar o ritmo acelerado de seu batimento cardíaco. O que foi um tremendo erro, pois o cheiro metálico de sangue, misturado com alguma coisa que não soube identificar imediatamente, inundou suas narinas de modo que precisou fechar os olhos para controlar a náusea. Outro erro, pois assim que seus olhos se fecharam e ela tentou controlar o tremor involuntário de seu corpo, recompor-se ainda que minimamente, ouviu Dumbledore falar em um tom urgente:

— Senhorita Granger, o tempo está passando!

— Se o senhor puder não me apressar, eu agradeceria. — Hermione não abriu os olhos para falar, e por mais que um certo medo de se dirigir a Albus Dumbledore com tamanha petulância tivesse feito suas últimas palavras saírem levemente tremidas, falava sério. Mortalmente sério.

Retirando sua bolsinha de contas do pescoço, ela se esforçou para não se assustar ao reabrir os olhos. Inutilmente. A mão que segurava a varinha chacoalhava incontrolavelmente, mas ela se esforçou para apontá-la para a abertura da bolsinha, e então murmurou um Accio Kit de Poções, pegando em seguida a maletinha de couro de dragão que guardava seu mini-kit de primeiros-socorros.

A bolsinha foi solta e balançou livremente em seu pescoço, enquanto ela abria a maletinha e procurava pela primeira poção que usaria. Indecisa sobre qual seria a melhor forma de começar, decidiu colocar o kit de lado e, primeiro, realizar alguns feitiços para saber exatamente o quê estava acontecendo com Snape. E foi preciso muita concentração para focar seus olhos no rosto doentiamente pálido de seu antigo professor, e não perder o ritmo enquanto recitava os encantamentos que aprendera em seu quinto ano.

Começou apontando a varinha para a cabeça dele e foi descendo lentamente, passando pelo pescoço, tórax, barriga, quadril e pernas. Pelo pouco que ela conseguia se lembrar dos livros de medibruxaria que lera, a cor do brilho de sua varinha mudava de acordo com a parte do corpo para a qual apontava; e, pelo que conseguia compreender, Snape estava, sim, vivo — como? era que ela não sabia responder.

Decididamente, o primeiro lugar que Hermione precisava começar era no pescoço. Sem saber se funcionaria, resolveu retirar o vidrinho de Ditamno para servir de segunda opção, apoiando-o sobre o peito de Snape. Foi a primeira vez que teve certeza de que o homem estava realmente vivo, pois inconsciente ou instintivamente, não soube definir com precisão, o corpo sob seu toque se retraiu minimamente, reconhecendo e repelindo o contato estabelecido. Hermione sentiu seu coração apertar e, antes de dar sequência, sussurrou um pedido sincero de desculpas enquanto olhava para o rosto de Snape — tanto por estar invadindo seu espaço pessoal, quanto pela triste situação em que ele se encontrava.

Comandando aos olhos que parassem de lacrimejar, Hermione engoliu com força o aperto que sentia em seu peito e apontou a varinha para o pescoço de Snape. Targeo foi o primeiro feitiço que sussurrou, limpando o sangue que impedia sua visão de distinguir o verdadeiro machucado. Identificada as feridas, sussurrou três vezes o contra-feitiço Vulnera Sanentur, torcendo para que a lembrança de Harry sobre a briga que ele e Draco travaram em seu sexto ano estivesse correta. Hermione se lembrava do relato do amigo, como apenas quando Snape se ajoelhou ao lado do Sonserino e recitou o contra-feitiço três vezes, foram que as feridas causadas pelo Sectumsempra pararam de sangrar.

Foi com um alívio imenso que observou as feridas no pescoço de Snape começarem a se fechar, lentamente e de uma forma que deixava clara a precariedade da situação. Mesmo assim, soltou o ar que sequer tinha percebido que segurava, finalmente cedendo às lágrimas e sentindo seu rosto umedecer em meio a um choro silencioso. Permitiu-se apenas alguns segundos de alívio, voltando então a se concentrar no rosto do professor. Atenta à respiração dele, Hermione sussurrou Enervate e nada aconteceu.

Decidida a tentar novamente, mais uma vez murmurou Enervate e, dessa vez, os olhos de seu antigo professor se abriram. E nas orbes negras Hermione viu um pavor primordial. Enquanto dos lábios embranquecidos um som de dor quase inaudível escapava, os olhos de Snape permaneceram sinistramente abertos, ainda que por poucos segundos. Quando Hermione se debruçou sobre seu corpo, buscando dentro de seus olhos qualquer sinal de que ele estivesse consciente, Snape entrou em choque e todo seu corpo começou a convulsionar.

— HARRY! Rápido, segure seu quadril enquanto eu seguro sua cabeça.


Até aquele momento, Harry funcionava no piloto automático, seguindo as ordens que Dumbledore havia implorado, com olhos emocionados e tão próximo da superfície da moldura que passava a impressão de que estava fisicamente na sua frente: "Severus está gravemente ferido, Harry. Peça a Monstro que os leve até a casa da família Snape, ele conhece a localização. Traga Severus de volta à Hogwarts.".

Seus protestos haviam, então, morrido em sua garganta. Afinal, todos os seus esforços desde o discurso de McGonagall, haviam sido motivados pela intenção de limpar o nome de Severus Snape. Se existia uma possibilidade de resgatá-lo com vida, então Harry faria o que estivesse ao seu alcance — mesmo que isso significasse continuar se submetendo às vontades de Dumbledore.

Inconscientemente, o pensamento de mais uma vez curvar-se aos desejos do falecido bruxo, engatilhou a lembrança das memórias que havia acessado há poucas horas atrás; como um filme, Harry reviveu diante de seus olhos o crucial diálogo que definiu seu destino.

— Você o criou como um porco para o abate?

— Ora, isso é comovente, Severus. Você acabou se afeiçoando ao menino, afinal?

— A ele? Expecto Patronum!

Da ponta da varinha de Snape irrompeu a mesma corça prateada que Harry viu na Floresta de Dean: ela posou, correu pelo soalho do gabinete e saiu voando pela janela.

— Lily... Depois de todo esse tempo?

— Sempre. (1)

Com a última palavra de Snape ecoando em seus ouvidos, Harry chacoalhou a cabeça com força, numa tentativa de dissipar as imagens diante de seus olhos. A contragosto, com sua mandíbula e punhos cerrados, ele aceitou o último pedido de Dumbledore.

Na postura da amiga ao seu lado, Harry podia identificar seu próprio medo. Ele gostaria de poder explicá-la melhor o motivo de sua decisão, mas nem mesmo em sua própria cabeça tudo que aconteceu nas últimas horas fazia algum tipo de sentido racional.

A única coisa que o impulsionou a convocar Monstro, segurar a mão de Hermione e aparatar para um lugar desconhecido, era a necessidade de fazer o certo para com Snape. Se o pouco que ele havia visto era realmente verdade — a súplica do quadro de Dumbledore não deixava espaço para dúvidas —, então resgatá-lo com vida era o mínimo que ele poderia fazer.

Mas o que seus olhos viram assim que chegaram em Spinner's End fez seu estômago revirar e, percebendo que Hermione parecia estar em um estado tão abalado quanto ele, Harry fincou os pés no chão e manteve-se o mais ereto possível.

Jogado em uma poça grotesca de sangue, o corpo de Severus Snape estava tão desfigurado quanto um boneco de pano abandonado — rasgos fundos em seu pescoço, pernas em uma posição que deixava claro que os ossos haviam sido quebrados e um cheiro pútrido, desconhecido aos seus sentidos, completava a cena revoltante diante de seus olhos.

Quando Hermione soltou sua mão e se ajoelhou ao lado do corpo moribundo, Harry pensou que perderia, de vez, o equilíbrio de suas pernas. Não era possível que aquele homem estivesse vivo, não quando tudo em sua aparência gritava morte.

Foram as palavras frias e quase histéricas da amiga, dirigidas ao quadro de Dumbledore, que o tiraram do torpor inicial. Ainda que muito lentamente, Harry começou a se aproximar, chegando próximo o suficiente para que pudesse ver de perto a situação.

Quando Hermione tentou trazer o professor de volta à consciência e aquelas convulsões começaram a chacoalhar o corpo quase sem vida, Harry não teve dúvidas de que desmaiaria. Contudo, o pavor na voz de Hermione obrigou seu cérebro a reagir. Ajoelhando-se próximo do quadril que se debatia com baques surdos no chão de madeira, Harry concluiu que, quaisquer que fossem os erros que aquele homem havia cometido em sua vida, o preço que ele estava pagando agora era alto e terrível de se presenciar.


Hermione mudou a posição de seu corpo para colocar a cabeça de Snape sob seu colo, sua visão periférica captando os movimentos desengonçados de Harry na extremidade oposta.

Ela sentiu que havia sentado em algo úmido, mas não se importou — precisava imobilizar o torso dele, senão as feridas voltariam a se abrir e teria que recomeçar tudo de novo, o que definitivamente não era uma opção.

Durou quinze, vinte segundos no máximo e, durante esse tempo, Hermione não respirou. Buscando o olhar de Harry, percebeu que seu desespero estava espelhado nos olhos verdes do amigo, que tentava imobilizar o quadril de Snape aplicando pressão contra o corpo sobre o chão.

Quando as convulsões cessaram e os membros de Snape amoleceram, parando abruptamente de se debater, um silêncio sepulcral instaurou-se entre os três. Dentro da mente de Hermione, até mesmo os gritos haviam cessado.

— Inclusive, bela forma de dispensar Dumbledore, Mione…

A jovem direcionou um olhar confuso para Harry, deixando claro que não estava entendo o quê ele estava falando.

— Depois que você sibilou aquela resposta, o queixo dele caiu e ele ficou te encarando por um bom tempo. Quando você começou os encantamentos, ele disse que voltaria à Hogwarts para ajustar as acomodações para receber Snape. — Harry explicou em um tom prático, mas seu sorriso pequeno tinha um ar maroto e, antes que Hermione pudesse responder, ele emendou a fala, agora em um tom sério:

— Hermione, quanto às memórias de Snape... — O amigo olhou para o corpo que os dois seguravam, voltando a encarar Hermione alguns segundos depois com uma expressão desconcertada — Você está salvando a vida dele e… eu, eu… olha, é uma história complexa demais para explicar agora e, além do mais, eu mesmo não entendi metade do que vi, mas posso afirmar que Dumbledore tinha razão todas as vezes em que disse que ele era nosso aliado. O que eu presenciei na Torre de Astronomia não foi o assassinato de Dumbledore, mas sim a continuação de um plano muito maior do que nós dois podemos sequer começar a imaginar… — Harry parou de falar, parecendo indeciso e tão perturbado quanto uma pessoa atingida por um poderoso Confundus.

Hermione queria fazer mais perguntas, mas percebeu que não tinha forças para essa conversa, pelo menos não agora. Não quando tudo que ela conseguia sentir era o cheiro de sangue e um desespero instintivo para acabar com aquela situação o mais rápido possível.

Harry pareceu perceber seu desconforto, pois perguntou rapidamente:

— Como eu posso ajudar, Mione?

Hermione levantou os olhos, claramente agradecida pela distração, respondendo na sequência:

— Ahn, você… — Ela começou vacilante, pensando no quê Harry poderia ajudar que não envolvesse nenhum feitiço de cura, pois aquele definitivamente não era o forte do amigo.

— Um cobertor! — Exclamou energicamente — Harry, encontre alguma coisa nesta sala para transfigurar em um cobertor grande o suficiente para cobrir o corpo todo de Snape. — Ela não precisou falar duas vezes, o amigo já estava em pé na metade de sua instrução, vasculhando a sala com os olhos — Enquanto isso, voltarei a estabilizá-lo o suficiente para que possamos voltar à Hogwarts.

Descendo o olhar para o homem recostado em seu colo, Hermione percebeu que algumas partes da ferida no pescoço, infelizmente, voltaram a sangrar.

Depois do susto inicial ter passado, Hermione habilmente abriu o vidrinho de Ditamno e aplicou generosas gotas sobre o machucado. Antes de rodar mais uma série de feitiços para averiguar o estado dos órgãos internos do corpo de Snape, buscou na maletinha de couro uma Poção para Repor o Sangue. Abrindo delicadamente a boca dele, derrubou somente um pouco da poção, massageando a parte da garganta que não havia sido atingida com extremo cuidado, para facilitar a deglutição.

Demorou alguns minutos para que ela conseguisse administrar a quantidade que julgava suficiente, e quando correu novamente os feitiços de avaliação, suspirou satisfeita ao concluir que parte da hemorragia interna estava estabilizada.

Todavia, não tinha recursos para controlar a temperatura corporal, a qual, segundo um dos feitiços-diagnósticos, estava perigosamente baixa; tampouco alguma maneira para ajudar com os ossos quebrados na perna e no tórax. Estava no limite de suas habilidades, embora não conseguisse se conformar com a situação de seu antigo professor.

Para os cortes do rosto, Hermione usou um simples Episkey, minimamente satisfeita com o resultado. Harry reapareceu em seu campo de visão, com uma espécie de manta escura nas mãos.

— Havia um lençol cobrindo alguns móveis. Acho que ainda está um pouco empoeirado, mas eu tentei… — Disse enquanto se aproximava, estendo a manta sobre o corpo de Snape e se certificando que ele estivesse coberto dos pés até os ombros, deixando de fora as feridas no pescoço, que ainda estavam bem irritadas e mal curadas.

— Está ótimo, Harry. É o suficiente para voltarmos para Hogwarts. Você vai chamar Monstro?

O jovem maneou a cabeça em negativo, oferecendo uma mão para ajudar Hermione a se levantar do chão. Com cuidado, ela retirou a cabeça de Snape de seu colo, aceitando a ajuda do amigo e se levantando rapidamente.

— Dumbledore disse que McGonagall levantaria os feitiços antiaparatação para que pudessem aparatar diretamente em Hogwarts. Mas, Mione… Em todas as vezes que eu aparatei mais de uma pessoa comigo, éramos eu, você e Ron. E todos estavam conscientes... — Hermione não precisava olhar o rosto de Harry para saber que o jovem estava aterrorizado com a ideia. Não que ela estivesse muito longe.

— Eu sei, mas precisamos ser rápidos, pois não sei quanto do que eu fiz foi realmente útil, ou quanto tempo ele ainda tem. — Apontando a varinha de novo para Snape, Hermione sussurrou um Wingardium Leviosa seguido de um Locomotor, para ter certeza de que o corpo dele ficaria alguns centímetros do chão e estável.

— Dumbledore disse onde devemos aparatar?

— Na nossa antiga Sala de Transfiguração. Ele disse que a professora McGonagall estará nos esperando lá com reforços.

Hermione acenou afirmativamente, voltando a encarar Harry nos olhos. Seu amigo estava tão esgotado quanto ela própria se sentia, e essa constatação levou-a a falar:

— Aparate sozinho, eu levo ele comigo.

Ela quis sorrir ao ver o visível alívio que o amigo sentiu ao ouvir suas palavras, mas estava tão tensa que teve certeza que o máximo que conseguiu fazer em resposta foi uma careta.

— Pronta?

— Tanto quanto possível. — Hermione colocou a palma de sua mão sobre o peito de Snape, encostando-se no corpo dele e concentrando-se na imagem de sua antiga Sala de Transfiguração.

Depois que ouviu o pop alto que indicava a partida de Harry, Hermione assustou-se ao constatar que estava sozinha com seu antigo professor, cujo corpo flutuava inconsciente ao seu lado, sob sua única e exclusiva responsabilidade. O pânico nublou sua visão e ela forçou seus olhos a se fecharem, comandando sua cabeça a visualizar os detalhes do lugar que deveria aparatá-los.

No fundo de sua mente, a possibilidade de aparatar em Hogwarts, diretamente dentro dos terrenos daquela propriedade mágica, parecia-lhe algo simplesmente incabível de se conceber. Foi o cheiro pútrido impregnado em suas narinas que contrariou sua razão — também não era possível que Severus Snape estivesse vivo e, entretanto, eram em suas vestes negras que ela segurava com força.

Decidida a permitir que seus instintos mágicos assumissem o controle, Hermione realizou o último feitiço que precisava acertar naquela noite e, depois de alguns segundos de concentração, desaparatou com Snape para a Sala de Transfiguração, em Hogwarts.


(1) Citação direta/adaptada de "Harry Potter e as Relíquias da Morte", J. K. Rowling.

Notas finais: tais considerações soarão saudosistas (eu sei), mas existe uma grande possibilidade de eu ter errado a utilização de algum feitiço; na minha época (disse a senhora de 84 anos que habita em mim), tínhamos o incrível site da "Madame Pince", onde todas nossas dúvidas quanto aos termos, datas e qualquer assunto sobre o Universo Mágico podiam ser encontrados em detalhes. Hoje, existem alguns sites que fazem esse papel, mas eu não posso dar certeza absoluta que a utilização dos feitiços que eu citei nesse capítulo estão corretas. Então este é um grandíssimo e adiantado mea culpa.

Além do mais, eu desisti logo no começo de não misturar os termos/nomes originais com a tradução brasileira oficial, simplesmente porque eu consumi tanta fanfic em inglês nos últimos anos que, conforme eu escrevia IdS, ficou instintivo demais para eu mudar na revisão.

Ex.: os nomes estão todos na forma original, já a "Poção para Repor o Sangue" acabou sendo escrita com a tradução PT-BR. É apenas um detalhe, mas eu sou paranóica com algumas coisas, então achei melhor deixar essa nota explicativa.

Agradeço a você que chegou até aqui! Essa tem sido uma jornada única na minha vida como escritora amadora e eu tenho aproveitado cada momento. Um ótimo final de semana, nos vemos semana que vem!