Notas iniciais: olá, mundo! Que saudade que eu estava de postar IdS!

Aos que seguem acompanhando essa história, saibam que nossa força-tarefa vai bem! Cherik tem sido maravilhosa comigo e com IdS.

Prometo que hoje não vou falar muito. Só gostaria de deixar meu agradecimento para a querida May Prince, que tem acompanhando essa história desde o começo: muitíssimo obrigada, querida! As atualizações semanais estão de volta, para alegria geral!

Temos mais uma pessoa que começou a acompanhar IdS: Mickky, obrigada por ter deixado seu comentário, você não tem noção do quanto eu fico feliz e motivada a continuar escrevendo!

Sem mais falação, deixo o capítulo de hoje para vocês.


Preto e branco

It's tearing up peace I found. I cannot calm down. Wandering again.

I feel what I need to feel. A genuine detour. Is this my way to keep it up?

Who I am has changed in time.

Don't hold on to what once was.

Open to all I can become.

(Revamp — I Can Become)

Banho tomado, roupas limpas e sentindo a boca salivar com o cheiro apetitoso que vinha da Sala Comunal, Hermione sentia-se ligeiramente melhor. Possivelmente resultado da combinação de uma potente Poção Calmante, com um longo banho de banheira — um luxo que ela não pode se dar em muitos meses.

Assim que seu corpo entrou em contato com a água quente, submergindo entre as bolhas de sabão, Hermione pensou que fosse ser incapaz de se mexer do conforto que seu corpo encontrou dentro da banheira, mas descobriu que ainda havia restado uma parcela de energia para que conseguisse se ensaboar e desembaraçar os nós do cabelo. Em nenhum momento, seus pensamentos traíram a concentração em realizar sua higiene pessoal — inconscientemente, Hermione compreendeu que estava agindo em uma espécie de piloto automático. Não sabia como deveria se sentir em relação a isso, mas essa também não era uma preocupação vigente. Ali, no banheiro que usou por tantos anos, ela se sentia atada a um tipo de apatia desconhecida, entretanto confortável o suficiente. Era melhor do que o choro de mais cedo, ou a confusão de sentimentos que parecia provocar-lhe um tipo de desprendimento da realidade — não sentir nada e agir por instinto, era infinitamente melhor do que ser tragada da realidade e catapultada dentro de seu próprio sofrimento, Hermione concluiu.

Manteve-se nesse estado anestesiado até que todos os nós em seus fios cacheados estivessem desatados; sua pele estava começando a se avermelhar, assim como as pontas dos dedos estavam começando a enrugar — deu-se por satisfeita quando percebeu que suas vias aéreas também haviam sido desobstruídas, graças ao vapor do banheiro. Ao levantar-se e enrolar seu corpo em uma toalha limpa, Hermione sentiu-se pronta o suficiente para o quê quer que fosse acontecer na sequência.

O processo de se vestir proporcionou tempo suficiente para que pudesse colocar sua cabeça em ordem. Pentear os cabelos foi o momento em que, pela primeira vez em meses, conseguiu realmente observar suas feições no reflexo do espelho de corpo inteiro, que ficava no centro do dormitório feminino.

Estava mais magra do que seria saudável. Suas bochechas, antes proeminentes em seu rosto, agora estavam pálidas e, abrindo uma espécie de sorriso para si mesma para avaliar sua expressão, pouco — quase nada — a lembrava da forma que seu rosto costumava ganhar quando ela sorria. Embaixo de seus olhos, havia um inchaço pouco característico, que deixava sua compleição ainda mais abatida. Seus fios de cabelo estavam quebradiços e desidratados, cobrando todos os meses de descuido.

A impressão que Hermione tinha, era de que observava outra pessoa no espelho, não a si mesma, tão grande era o distanciamento que sentia do reflexo diante de seus olhos. Não sabia como lidar com essa sensação amargurante e temeu que seus olhos voltassem a marejar. Foi então que sentiu, novamente, o cheiro instigante vindo da porta. Cheiro de comida e bebida fresca.

Fechou os olhos e soltou um gemido de apreciação. Seu estômago roncou alto — qual havia sido sua última refeição? O pão que Aberforth Dumbledore havia oferecido e isso havia sido há…?

Em um estalo, Hermione forçou seus olhos a se abrirem. Sabia que se se permitisse seguir com essa linha de raciocínio, poderia abrir espaço para pensamentos indesejados. Observando, uma última vez, seu semblante no espelho, se pôs a refletir sobre os próximos passos, enquanto terminava de secar seu cabelo e se preparar para reencontrar seus amigos.

O que fazer agora?

Preciso esclarecer o que aconteceu a Ron, Ginny… Talvez Neville e Luna, não sei.

A Professora McGonagall disse que pela manhã acontecerá o memorial e então…?

Ir à Austrália. Preciso saber como meus pais estão.

Mas antes… Visitar o professor Snape e me certificar de que ele ficará bem.

Satisfeita o suficiente com o esboço que desenhou em sua mente de um plano para o seu futuro, Hermione virou-se e deixou seu reflexo para trás, pronta para rever seus amigos.


O grupo estava sentado ao redor de uma mesa farta, conversando em um tom que não lembrava em nada a forma agitada e exagerada que seus amigos costumavam falar. Ginny estava entre Harry e Ron, e do outro lado, Neville segurava a mão de Luna sobre a mesa. Harry ainda estava com os cabelos molhados e tão sonolento que não conseguia conter alguns bocejos exagerados.

Do outro lado da sala, a lareira ainda estava acesa e Hermione podia ver que todos Weasleys estavam acomodados em sacos de dormir. Somente George continuava sentado na poltrona, contemplando as chamas com uma mão apoiada no queixo e a outra rodando um líquido escuro em um copo. Sendo completamente honesta consigo mesma, Hermione não se surpreendia que o gêmeo ainda não havia conseguido dormir. Ela queria poder se aproximar e falar qualquer coisa que pudesse consolá-lo, mas conteve o ímpeto. Amanhã eu prestarei minhas condolências. Hoje eu tenho certeza que ele precisa apenas do silêncio, ponderou em pensamentos, virando o corpo novamente para andar na direção dos seus amigos.

— Hermione! Venha, vou servir seu chá. — Ginny usava um tom baixo, mas animado o suficiente para fazê-la sorrir.

— Obrigada, Ginny.

Sentando ao lado de Luna, Hermione se impressionou ao ver a fartura da mesa: quase um mini-desjejum, com ovos, bacon, frutas secas e…

— Chá de canela com gengibre! — Hermione exclamou, sentindo a boca salivar.

— Eu sentei do seu lado no café da manhã por quase cinco anos, isso era o mínimo que eu poderia fazer. — Ginny usava um tom prático, mas havia um sorrisinho contente em seus lábios ao perceber a alegria de Hermione.

— Nós já comemos, tome seu tempo, Mione. — Harry começou a falar entre um bocejo e outro — Eu também já expliquei que precisávamos buscar uma… coisa, por isso desaparecemos.

Seu tom poderia ser facilmente confundido com natural, mas Hermione percebeu a entonação que ele usou ao falar da tal "coisa" em questão, enquanto os olhos verdes fitavam-na seriamente por sobre os óculos. Hermione disfarçou o alívio que sentiu com um longo gole do chá, agradecendo mentalmente por Luna escolher aquele momento para começar a falar sobre os zonzóbulos que estavam entrando nos ouvidos de Neville, levando o jovem a se debater assustado.

Mas o olhar que Ron lhe direcionava deixava claro que ele não havia acreditado em nenhuma palavra dita por Harry. Ginny parecia sentir o mesmo, apenas disfarçava melhor sua insatisfação se ocupando com a organização da mesa.

Hermione não conseguiu comer muito sob o escrutínio de Ron. Mas conseguiu tomar duas xícaras de chá, e isso ajudou a esquentar o corpo, enquanto tentava fortemente desviar sua atenção do olhar do amigo e fingir interesse na conversa de Luna e Neville.

Assim que colocou a xícara vazia de volta no pires, satisfeita com a refeição, Neville se levantou e disse:

— Vou acompanhar Luna até a Sala Comunal da Corvinal. — Hermione se surpreendeu com o tom adulto que ele usava, percebendo que Neville também havia amadurecido muito nesse último um ano. Sua face, antes rechonchuda e corada, agora estava repleta de linhas de expressões, e havia uma fina camada de barba no seu queixo.

— Até amanhã, pessoal! — Luna se despediu sorridente, acenando para todos e se virando para partir.

— Até. — Ginny respondeu em voz alta por todos.

Ron quase não conseguiu esperar Neville e Luna cruzarem a passagem que os levaria até os corredores. Sua voz era urgente, mas ele conseguiu manter o tom baixo o suficiente — o que pareceu cobrar ainda mais de seu rosto, que assumiu uma coloração tão vermelha quanto seus cabelos:

— Agora eu quero saber a verdade. Você mente muito mal, Harry. E Hermione, sua cara nem fica vermelha!

Hermione suspirou. Deveria ter se preparado para isso, mas por um instante realmente acreditou que essa conversa poderia ser prorrogada para… sempre, se tivesse ao menos um pouco de sorte.

Dobrando o guardanapo de pano que estava em seu colo, ela protelou para responder, na esperança que Harry se prontificasse a explicar. Mas numa olhada rápida na direção do amigo, percebeu que ele estava lacrimejando de sono e quase dormindo sentado.

Suspirando resignada, ela começou a falar, com os olhos fixos em suas mãos, que ainda dobravam e desdobravam, repetidamente, o guardanapo:

— Enquanto a professora McGonagall fazia seu pronunciamento, eu me lembrei que o… o corpo do professor Snape ainda deveria estar na Casa dos Gritos.

— Snape morreu? — Ginny sussurrou, parecendo ligeiramente animada com a pergunta.

— Sim, na Casa dos Gritos. — Ron respondeu em um tom completamente desinteressado.

— Não. — Harry e Hermione falaram ao mesmo tempo que Ron, e o ligeiro silêncio que se seguiu foi tenso.

— Não??? Como assim, não morreu? — Ron havia abandonado o tom baixo e estava quase gritando.

— Morreu ou não morreu? — Ginny perguntou quase junto ao irmão, e Hermione sentiu brotar um crescente desespero em seu peito.

Vistoriando rapidamente a sala, ela percebeu que todos continuavam na mesma posição — George sequer havia mexido um músculo desde a última vez que olhou em sua direção —, e soltou um suspiro pesado de alívio. Voltando a encarar os irmãos, Hermione sibilou entredentes:

— Será que vocês podem falar baixo?

Respirando fundo para acalmar as batidas aceleradas de seu coração, ela buscou o auxílio nos olhos de Harry, que parecia ter acordado o suficiente para falar:

— Snape não é quem pensamos ser. Olha só, eu não posso compartilhar tudo que sei porque… ele merece ter sua privacidade reservada. — O amigo parecia surpreso com a própria constatação, mas continuou a falar em tom extremamente sério, que não deixava muito espaço para contestações — A morte de Dumbledore foi muito diferente do que pensávamos… do que eu pensei ter visto. E quando Hermione lembrou que ele ainda estava lá, na Casa dos Gritos, eu sabia que deveria dar um jeito de proporcionar um fim minimamente digno para ele.

— Você está maluco?! — Ginny exclamou no tom mais baixo que sua indignação permitia. Na sequência, ergueu o braço direito, puxando a manga da blusa que usava e mostrando uma cicatriz recente, ainda avermelhada, em seu antebraço. Era fina e comprida, como se uma adaga tivesse rasgado a pele. Mas Hermione sabia que aquilo era proveniente de algum tipo de Magia Negra. O arrepio sinistro que sentiu em sua espinha respondeu antes mesmo que Ginny voltasse a falar:

Isso foi o quê aconteceu durante o encargo de Snape como Diretor de Hogwarts. — Sua voz estava tão baixa que não passava de um sibilo — Pergunte a Neville o que nós tivemos de enfrentar enquanto vocês… — Ela não terminou de falar, pois seus olhos se encheram de lágrimas enquanto formulava a frase, e sua voz acabou falhando.

Hermione podia sentir o ressentimento velado nas palavras de Ginny, e aquilo fez com que ela odiasse ainda mais Voldemort. Estava claro que a garota ainda não havia superado o fato de Harry, Ron e Hermione terem ido em busca das Horcruxes e sumido por meses. Sendo sincera consigo mesma, ela não sabia dizer se gostaria de ouvir o que realmente havia acontecido em Hogwarts, durante o último ano.

— Então peço desculpas por comemorar, mesmo que apenas por alguns segundos, o fato de Snape ter morrido. — Ginny finalizou seu discurso em um tom que destilava desprezo, levantando-se da mesa e indo até George, sentando-se no braço de sua poltrona em silêncio e assumindo uma postura muito parecida com a do seu irmão mais velho: fitando a lareira, provavelmente tão alheia quanto George aos estalos que a lenha produzia.

O Trio de Ouro ficou em silêncio por um bom tempo, perdido em seus próprios pensamentos. Foi Ron quem falou primeiro, em um tom pouco amigável:

— Então vocês desapareceram para salvar a vida daquele traidor?

Hermione não tinha palavras para responder essa acusação. Afinal, ela mesma não sabia qual era a verdade por trás das memórias de seu antigo professor, que agora estavam guardadas em sua bolsinha de contas, pendurada no pescoço sob a blusa. Ela não sabia o quê, de fato, fez com que Harry passasse a acreditar na inocência de Snape, mas tinha a certeza de uma única coisa: havia visto um ser humano no limite da vida e, qualquer que fosse sua traição, era obrigação das autoridades mágicas vetar. Não era seu lugar para julgar.

Harry, entretanto, veio em defesa de Snape, usando um tom pertinente, que não deixava mais espaço para discussão:

— As coisas não são tão simples quanto parecem, Ron. A vida não é preta e branca, como a gente acreditou por tanto tempo. — Harry soltou um suspiro cansado, mas ainda não havia terminado de falar — Snape errou em muitas coisas e eu não sou maluco, como Ginny bem pontuou, de tentar explicar ações indefensáveis como o que ele permitiu que acontecesse em Hogwarts enquanto Diretor, além de todas as outras coisas que fez conosco enquanto estudávamos aqui. Mas sua lealdade sempre esteve para com a Luz, mesmo quando matou Dumbledore, bem na minha frente, eram apenas ordens que ele estava cumprindo. — Ron ameaçou protestar, mas Harry foi incisivo ao concluir — A verdade dele é, como eu já disse, dele e de mais ninguém. Eu não posso revelar os motivos, não é meu lugar. Quando ele acordar, tenho certeza que tudo vai ser explicado. Eu só quero que você, assim como Ginny, saiba que se eu consegui colocar um ponto final nessa loucura, foi porque Snape me mostrou o caminho. Aquelas memórias continham a resposta e sem elas, eu não saberia o quê fazer para acabar com Voldemort de uma vez por todas.

Ron emudeceu. Hermione podia ver que ele ainda tinha vontade de protestar e questionar, mas Harry não parecia inclinado a acrescentar mais nada e, com um aceno triste na direção dela, levantou-se da mesa e disse:

— Deveríamos tentar dormir um pouco. O memorial acontece amanhã de manhã, e ainda há muito que se fazer. — E foi em direção a um dos sacos de dormir que estavam vazios, deixando Hermione e Ron sozinhos.

Ela estava pronta para seguir o amigo, mas a voz acanhada de Ron a segurou sentada:

— Mas, Hermione… não faz sentido…

— Eu sei, Ron… — Ela realmente sabia, não eram apenas palavras vazias para confortá-lo — Mas, no final, nós sempre acreditamos em Harry, não é? Seja para voar até o Ministério da Magia, ou percorrer toda a Grã-Bretanha atrás das malditas Horcruxes. — Com um suspiro cansado, Hermione concluiu sua fala em um sussurro, olhando intensamente para Ron — E acredite em mim quando eu te digo que, todo o mal que o professor Snape nos causou ao longo dos anos, seguindo ordens ou não, foi cobrado nessas últimas horas.

Ron engoliu em seco e não aguentou sustentar o olhar de Hermione por muito tempo.

— Vamos, Harry estava certo quando disse que deveríamos tentar dormir. — Hermione levantou-se, esperando que Ron fizesse o mesmo para que pudessem, finalmente, dormir depois de quarenta e oito horas que pareciam ter durado uma eternidade.


Notas finais: vocês vão perceber uma melhora significativa na qualidade dos próximo capítulos.

Uma das coisas que eu pude perceber enquanto estávamos "em manutenção", foi a mudança da minha escrita ao longo dos meses. Ainda que eu seja uma ficwriter antiga no fandom, fiquei muitos anos sem produzir nada e, como é bem típico da minha pessoa, voltei na loucura escrevendo uma longfic rsrs

A única parte boa é que, diferentemente da eu-do-passado, a minha eu-do-presente conseguiu finalizar sua primeira longfic! Cheers!

"Instinto de Sobrevivência" está finalizada. Agora, em uma baita força-tarefa, eu e minha beta estamos tentando betá-la o mais rápido possível.

Sendo leitora há tantos anos quanto escritora amadora, eu entendo a necessidade que sentimos de ler tudo numa tacada só, juro que entendo. Mas IdS é meu bebê e eu quero dar o melhor tratamento possível para essa história! Então seguiremos com capítulos semanais e, caso consigamos adiantar bastante a betagem, eu posto mais capítulos por semana. Minha intenção não é fazer nenhum suspense — quem me conhece, sabe que eu tenho zero capacidade de esconder as coisas —, eu só quero poder deixar essa história o mais próximo da perfeição possível. Sei que estou repetitiva, mas esse realmente é um trabalho de uma vida rs

O meu mais profundo agradecimento aos que continuam aqui, acompanhando a progressão dessa história. Seja um fantasminha ou um leitor que deixa suas impressões, eu quero que saibam que "Instinto de Sobrevivência" é, no final, um história para sobreviventes — seja qual for sua luta, saiba que juntos, venceremos! Um grande abraço e até domingo que vem!