Nota inicial: como prometido, aqui vai o próximo capítulo :)


And I know

I'm racing myself

To the point of no return

They move so slowly when they're not afraid

I just keep moving at a different rate

It's a kind of stillness, I can't relate

They move so slowly when they're not afraid

(Whispering Sons — Alone)

Dez minutos depois, Hermione se encontrava parada em frente à Sala de Transfiguração. Com as bochechas avermelhadas e alguns fios do seu penteado soltos, ela estava tentando normalizar sua respiração antes de abrir a porta. Desistindo de acalmar o tremor de suas mãos, e torcendo para que atrás daquela porta ela encontrasse alívio para o pavor que sentia, Hermione segurou a maçaneta da porta.

Seu maior medo não era simplesmente o fato de Snape ter morrido,mas a combinação desse pensamento com a possibilidade de Harry, Ron e ela terem uma parcela de culpa nisso, por não terem feito nada quando encontraram-no caído no chão da Casa dos Gritos. Em especial, ela temia não ter feito tudo que estava ao seu alcance para manter seu antigo professor vivo, naquela estranha casa em que Harry e ela haviam sido levados por Monstro, na noite anterior. Ela não sabia se seria capaz de se perdoar pela omissão.

Entrou sem olhar nada em específico, mais preocupada em fechar a porta atrás de si e não ser percebida por ninguém — mesmo que tivesse tomado cuidado no trajeto, e não encontrado pelo caminho, nem Peeves ou mesmo algum dos fantasmas, Hermione tinha a sensação de que estava quebrando algum tipo de regra implícita e, dessa vez, não havia mais nenhuma daquela familiar excitação infantil por trás de suas ações; apenas medo de ser pega e pavor do que quer que ela fosse encontrar, ou não encontrar,dentro da Sala de Transfiguração.

Assim que fechou a porta atrás de si, ela sentiu uma vertigem ao voltar os olhos para o interior da sala. Tudo estava exatamente como se lembrava de ter visto na noite anterior, menos o biombo cobrindo sua visão da cama. Agradecendo mentalmente por não ter dado sequer nenhum passo, Hermione escorou seu corpo na porta de madeira atrás de si e soltou um longo suspiro aliviado.

Sobre a cama, a apenas alguns metros de distância, seu antigo Professor de Poções dormia um sono profundo. Todo o pavor que Hermione sentiu nos últimos minutos esvaiu-se pelo chão, lentamente sendo preenchido por uma sensação de alívio, permitindo que Hermione voltasse a respirar normalmente.

Ela poderia, então, simplesmente virar as costas e voltar ao encontro de seus amigos, para acompanhar o memorial que acontecia nesse exato momento nos jardins de Hogwarts — agora tendo a certeza de que seus esforços tinham sido suficientes e que, o quê quer que Shacklebolt tenha pretendido com o discurso que fez, deveria ser parte de algum plano superior ou qualquer que fosse a explicação para tal.

Ela deveria sair daquela sala antes que fosse descoberta, mas assim que esse pensamento brotou em sua mente, percebeu que o ritmo lento que o peito de Snape fazia estava se alterando, como se de repente ele precisasse respirar mais rápido, mesmo estando parado e, aparentemente, dormindo.

Curiosa, a jovem só percebeu que havia se mexido quando seus olhos conseguiram distinguir cada linha de expressão no rosto de Snape, dada a proximidade que se encontrava. Parada ao lado da cama, Hermione observou que o rosto do antigo professor estava desfigurado em uma careta de dor — seus olhos se mexiam rapidamente por sobre as pálpebras fechadas, enquanto os lábios finos se mexiam, entretanto sem que nenhum som fosse produzido. Antes que se permitisse absorver mais informações daquela cena, Hermione chamou-o em um tom um pouco acima de um sussurro vacilante:

— Professor…?

Ao invés de receber uma resposta, percebeu que o quê quer que Snape estivesse sonhando, apenas piorava com o passar dos segundos. Descendo o olhar de seu rosto para o seu pescoço, Hermione viu que as bandagens que protegiam o ferimento estavam começando a sangrar e constatou, em choque, que os braços do homem estavam atados à cama com faixas brancas que lembravam as que eram usadas para enfaixar membros quebrados.

À princípio, Hermione indignou-se com a situação.

"Quem poderia ter feito isso?"

Entretanto, antes que pudesse pronunciar em voz alta sua incredulidade, Hermione precisou usar seu reflexo para se afastar do agarrão que Snape tentou dar em algo no ar, com uma de suas mãos que ainda estava atada à cama. O pouco de mobilidade que ele ainda tinha disponível era o suficiente para que, no que ela agora presumia ser algum terrível pesadelo, Snape acabasse desferindo golpes no ar, provavelmente numa tentativa de atacar alguma coisa que só ele estava vendo.

Ela percebeu que os pulsos do homem estavam avermelhados e a pele ameaçava rasgar, tamanha a violência com que ele se debatia. Não como quando tivera aquela convulsão, no momento em que Hermione tentou trazê-lo à consciência horas atrás, mas literalmente como se estivesse no meio de uma briga e precisasse se defender com as mãos nuas. Voltando o olhar desesperado para o rosto de Snape, Hermione percebeu que o curativo em seu pescoço agora sangrava abertamente, o próprio rosto do homem ganhando um tom doentio que antes não estava lá.

Buscando pela sala qualquer coisa que pudesse lhe ajudar, alguém capacitado o suficiente para tirar Snape do estresse em que ele se encontrava, Hermione angustiou-se ao constatar que estavam completamente sozinhos. Nem mesmo a silhueta de Dumbledore, pintada com tintas mágicas, estava na moldura em cima da cama de Snape —, apenas o cenário de uma mesinha e um cálice, gravados na moldura rústica, sem nenhum sinal da pintura do falecido diretor.

Subitamente, Snape parou de se debater. Do mesmo modo que havia começado, os movimentos cessaram. O corpo do homem amoleceu, a tensão dos músculos sendo substituída por uma flacidez convalescente, enquanto sua respiração desacelerou, finalmente normalizando após alguns segundos. Mas o sangue do ferimento no pescoço já estava começando a manchar a blusa branca que haviam colocado nele, chegando até mesmo no lençol. Hermione pensou que agora deveria chamar alguém, fosse McGonagall ou Pomfrey, mas inconscientemente acabou aproximando suas mãos das bandagens. Movida pelo instinto de sobrevivência primordial, Hermione tocou as bandagens sem medo algum, agindo puramente por instinto, muito diferente da sua natureza sempre tão racional.

Metodicamente, sem realmente considerar que mais uma vez estava invadindo o espaço pessoal de seu antigo Professor de Poções, desfez o curativo manualmente. As cicatrizes estavam quase fechadas, apenas alguns pontos haviam se aberto e dali, a quantidade de sangue que vertia era realmente preocupante. Munindo-se de sua varinha, performou um simples feitiço para limpar o sangue, apenas o suficiente para que o restante de Ditamno que tinha em sua bolsinha pudesse ser aplicado. E, ainda inconscientemente, Hermione pôs-se a divagar em voz alta:

— Professor Snape, eu sinto muito que isso esteja te acontecendo… — Suas mãos continuavam a trabalhar — Eu… eu não estava lá naquela noite, mas Harry viu o que o senhor fez com Dumbledore. — Algumas gotas de Ditamno aplicadas, Hermione procurou na mesinha ao lado da cama e encontrou gaze, assim como o restante do material que precisava para fazer um novo curativo — E depois disso… Simplesmente não havia espaço para dúvidas sobre a sua lealdade. Por mais que eu tenha tentado compreender, racionalizar, tudo indicava que o senhor era um… — A palavra que Hermione ouviu Harry e Ron pronunciando por meses, traidor , simplesmente parecia inadequada de ser pronunciada em voz alta na direção de alguém que padecia diante de seus olhos. Mesmo que esse alguém fosse o temível Professor Snape.

Com a bolsinha de contas mais uma vez em mãos, Hermione cogitou usar a Poção para Repor o Sangue, mas acabou decidindo que seria uma manobra muito arriscada, ministrar qualquer coisa sem saber o quê, exatamente, Madame Pomfrey já havia utilizado. Optou por terminar de arrumar a cama, ajeitando novamente os lençóis que haviam sido chutados para longe e, satisfeita com o resultado, voltou o olhar para Snape.

— Eu não sei o quê exatamente fez Harry mudar de ideia, ou o por quê Dumbledore, o quadro de Dumbledore nos atribuiu a tarefa de te trazer de volta à Hogwarts…

Completamente perdida em pensamentos, Hermione percebeu que ele ainda estava com a tez doentiamente avermelhada. Na mesma mesinha ao lado da cama, havia uma bacia vazia e uma flanela dobrada. Com apenas um floreio da varinha, Hermione conjurou um pouco de água, umedecendo o pano antes de torcê-lo. Aplicando o tecido gentilmente sobre a testa de Snape, Hermione retirou alguns fios negros que estavam no caminho, surpreendendo-se com a textura do cabelo e segurando uma das mechas por mais tempo do que seria necessário. Por fim, concluiu seus pensamentos em voz alta:

— Mas, qualquer que tenha sido a causa para Harry mudar de ideia sobre o senhor, eu tenho certeza que foi algo muito significativo. Harry não costuma mudar de ideia facilmente, como o senhor bem sabe…

Em silêncio, a jovem fez o mesmo processo de aplicar o pano durante vários minutos, molhando-o na bacia, torcendo até que ficasse bem seco e deixando por alguns minutos sobre a testa avermelhada, até que o rosto do homem voltasse à cor normalmente pálida de sempre, e o fato de que ela estava tocando o corpo de Severus Snape repetidas vezes finalmente se fizesse consciente em sua mente. Como se a realização tivesse gerado uma queimadura na mão que segurava o pano sobre a testa do homem, Hermione apressou-se em afastar-se dele, deixando o tecido cair de sua mão no processo. Soltando uma lufada de ar exasperada, ela se abaixou para pegar o objeto e, quando se levantou, um grito assustado formou-se em sua garganta e precisou usar toda sua força para fincar os pés no chão, ou acabaria caindo.

Pois dois olhos negros a encaravam de perto e, diferentemente de todos os olhares que Hermione Granger recebeu de Snape ao longo dos anos que esteve sob sua tutela, neste olhar não havia nada . Apenas duas esferas negras sem ódio, raiva, desprezo ou dor, como ela havia presenciado na noite anterior. A única expressão que Hermione poderia usar para definir aqueles olhos era a mais completa e assustadora personificação do vazio.


Nota final: hoje à noite ou amanhã, "Olhos castanhos" será postado.