Too proud

Too ashamed

Incompatible

With myself

I don't know

What I fear the most

What I am

Or what I'm not

The chemistry

Of the fallen soul

That being broken

Is what makes it whole

(Ihsahn — Pulse)

A primeira vez que o homem voltou a abrir os olhos, ele sentia apenas duas coisas: medo e dor. E, novamente, Severus Snape perguntou-se: "Como diabos ainda posso estar vivo? Ou seria essa a morte — uma eterna agonia?".

Seus olhos registraram a expressão de pavor em olhos que ele conhecia, em um rosto que ele conhecia, mas seu consciente não estava são o suficiente para que ele pudesse dar um nome à pessoa que estava ajoelhada ao seu lado. Ele tinha a impressão de que aquele teto sobre sua cabeça era de Spinner's End, mas antes que pudesse observar melhor para ter certeza, sua cabeça entrou em pane e ele voltou a perder a consciência — não antes de experimentar mais uma rodada de dor excruciante.

E então… O vazio.

Não havia o agora ou sequer um tempo para ser computado. Ele não saberia precisar quantos segundos, minutos, horas ou até mesmo dias permaneceu nesse estado de completo marasmo. Sem forma corpórea, impossibilitado de enxergar seu próprio corpo, apenas existindo como uma espécie de consciência fluida no vazio. O espaço ao seu redor era infinito e dentro desse espaço, não existia nada. Sem livre acesso ao que compunha sua mente, incapaz de unificar os milhares de fragmentos quebrados que formavam as memórias do seu passado, ou até mesmo de consultar o vasto conhecimento acumulado de toda uma vida — tudo, resumido a nada.

Snape não tinha nenhum controle sobre o quê quer que estivesse acontecendo com ele. Tentava pensar de forma racional, mas percebeu que não tinha mais sequer a noção de quem ele era, o quê estava acontecendo, onde é que ele poderia estar — até que tudo, inclusive sua capacidade de se entender como indivíduo, simplesmente deixou de existir.

Na vez seguinte em que os olhos que pertenceram a Severus Snape voltaram a se abrir, eles encontraram aquele mesmo rosto que encontraram da última vez, com a mesma expressão de pavor moldando aqueles olhos castanhos. Entretanto, dessa vez o formato do rosto não lhe remetia ninguém — ele nunca tinha visto aquela pessoa antes e o olhar de pavor dela estava começando a assustá-lo também.

Quando tentou levantar uma mão para tocar o braço da mulher ao seu lado, num movimento instintivo com a intenção de suavizar aquela expressão de medo em seus olhos grandes, percebeu que seus pulsos estavam amarrados na cama. E, se é que aquilo era possível, a jovem ao seu lado pareceu se desesperar ainda mais, gaguejando em pânico:

— Eu-eu sinto muito, professor Snape, eu estava apenas tentando- E eu não sei quem fez isso com o senhor, seus pulsos já estavam assim quando eu cheguei! Oh Merlin, sinto muito! — Ela estava com as bochechas coradas e falava muito rápido, não fazendo muito sentido para os ouvidos dele, que apenas a encarava intensamente, subitamente curioso com a capacidade dela de gesticular muito, falar muito e, entretanto, não fazer sentido algum.

— Quando eu cheguei o senhor já estava assim e então começou a ter uma febre alta. — Alguns segundos depois, ela formulou suas palavras de forma mais clara, entretanto era evidente que continuava muito amedrontada — Como eu não sei com o quê Madame Pomfrey está te tratando, eu optei pelo pano úmido e é por isso eu estava tão perto do senhor e… — Abruptamente, interrompeu seu discurso incoerente, abaixando a cabeça na sequência. Parecia ainda ter muito a dizer, mas nenhuma condição de seguir falando. Estava visivelmente envergonhada e, quando ele tentou pensar na melhor forma de respondê-la, uma onda inesperada de dor cegou seus olhos.

A pontada lancinante em sua cabeça fez com que sua visão ficasse turva, e ele tentou erguer uma mão até seus olhos, tapar um pouco da claridade, mas mais uma vez foi impedido pelas amarras. Nervoso com a restrição, decidiu que era hora de falar, mas assim que arriscou formular as palavras, sua garganta arranhou e um acesso de tosse começou. Não podendo sequer cobrir a boca para evitar de tossir abertamente, virou o rosto e tossiu por tanto tempo que seus olhos chegaram a lacrimejar. Vagamente, ele tinha a noção de que a mulher havia voltado a falar e, quando conseguiu controlar a crise de tosse seca, percebeu que seus pulsos estavam livres das amarras.

Olhando assustado para os braços, incapaz de compreender como aquilo havia acontecido, sendo que ela continuava a uma distância considerável da cama, ele franziu profundamente o cenho em questionamento. Em sua cabeça, tudo estava muito confuso e a dor sobre as têmporas piorava a cada piscar de olhos que dava.

Finalmente podendo levantar as mãos para tocar sua cabeça, ele fechou os olhos com força, numa tentativa desesperada de conter a dor, falando pela primeira vez em um tom de voz rouco e muito baixo:

— Água… por favor…

Ainda de olhos fechados, ele ouviu um sussurro baixinho, impossível de compreender o quê quer que ela estava falando. Segundos depois, com um copo cheio de água em sua direção, ele voltou a ouvir sua voz, agora em um tom muito mais claro, entretanto ainda apreensivo:

— Aqui está, professor. Tente… tente beber devagar, para não se engasgar.

Aceitando com um aceno positivo de cabeça, o homem pegou o copo e notou a lentidão em seus movimentos. O primeiro gole de água serviu apenas para umedecer a boca seca. Sentiu uma dor excruciante ao tentar engolir, fazendo uma careta e refletindo se deveria mesmo beber mais do líquido. Demorou um bom tempo para finalizar sua água, sorvendo-a em pequenos goles e tentando se acostumar com a dor que o mínimo movimento do pescoço e da garganta lhe provocava. Durante esses minutos, sabia que estava sendo observado de perto e, incomodado, entregou o copo vazio para a mulher ao seu lado, reunindo forças para tentar falar sem voltar a tossir:

— Obrigado pela água.

O agradecimento foi recebido com clara estranheza por ela, que pegou o copo e ficou olhando para ele como se um terceiro olho tivesse nascido em seu rosto. Preocupado, passou a mão na testa e maneou negativamente a cabeça, não sentindo nada de diferente sobre a pele e realizando que havia sido uma ideia ridícula.

Então suas mãos desceram para o pescoço, tentando tatear o lugar do seu corpo que mais doía, mas foi impedido por um curativo resistente. Com as mãos trêmulas e um cansaço que ele desconhecia precedente, perguntou lentamente:

— O que aconteceu?

Dessa vez, encarou intensamente os olhos castanhos e percebeu que sua pergunta havia gerado reações diversas: primeiro, ela arregalou os olhos, parecendo ter sido pega de surpresa com a pergunta; na sequência, suas bochechas se avermelharam e ela desviou o olhar, parecendo muito interessada em dobrar e desdobrar o pano em sua mão; antes que voltasse a falar, tomou um longo fôlego e quando seus olhos voltaram a encará-lo, era como se tivesse usado aqueles segundos de silêncio para se munir de coragem, pois sua voz não vacilou no início de sua resposta:

— Harry e eu encontramos o senhor inconsciente, em uma casa que Dumbledore, o quadro de Dumbledore indicou a localização. Eu não tive a oportunidade de perguntar como o senhor foi parar lá, porque quando chegamos o senhor estava… — Ela não desviou o olhar, mas precisou parar por um momento, mordendo o lábio inferior e umedecendo-o na sequência, aparentemente calculando com cuidado suas próximas palavras — O senhor estava gravemente ferido e eu fiz tudo o que podia para estabilizá-lo o suficiente, para que pudéssemos voltar com segurança à Hogwarts. Isso aconteceu nesta última madrugada.

Muitas palavras que ela usou em sua resposta simplesmente não faziam sentido algum para ele. Harry, Dumbledore, o quadro de Dumbledore, "Quem eram aquelas pessoas e onde é aqui? O que é Hogwarts?".

Ele tinha muitas perguntas, mas uma coisa era certa: ela falava a verdade quando dizia que ele havia sido gravemente ferido. Sentia dor por todo o seu corpo, como se suas juntas tivessem sido pisoteadas repetidas vezes e a pele de sua garganta repuxava cada vez que tentava falar, ou mexer minimamente seu pescoço. Sua cabeça doía muito e só percebeu que havia voltado a fechar os olhos, quando ouviu-a recomeçar a falar:

— Eu precisava ver como o senhor estava, ter certeza que havia feito o possível para ajudar, por isso vim até aqui. Deveria ter suspeitado que Madame Pomfrey não estaria presente, todos estão no memorial que está acontecendo nos jardins, mas eu vou chamá-la e…

Ela falava muito rapidamente, gesticulando e ainda usando aquele tom amedrontado, quase como se estivesse se desculpando a cada palavra que pronunciava. Sua agitação em falar, entretanto, foi interrompida por ele, pois as palavras dela continuavam a não fazer sentido algum, mas o final ele tinha compreendido muito bem e o pensamento de ficar sozinho naquele lugar, por alguma razão desconhecida, foi o suficiente para que falasse sem pensar duas vezes:

— Não! — Havia urgência em sua voz e a mulher assustou-se, dando um passo para trás.

Percebendo o efeito causado por seu protesto, limpou a garganta, tentando suavizar o tom e levando uma mão na direção do próprio peito:

— Por favor, não vá. Eu não entendi metade do que você disse, não sei quem são essas pessoas, mas você está certa em uma coisa: o que quer que tenha me acontecido nas últimas horas, deve ter sido realmente grave, mas tem algo que eu… — Imbuído com o medo que sentia desde o momento que seus olhos se abriram, tentou ser o mais claro possível em suas próximas palavras — Eu não- eu não me lembro de nada… — Ainda com uma mão pousada sobre o próprio peito, usou sua outra mão livre para tocar a garganta antes de terminar de falar — Um ferimento como esse deveria ser lembrado, e você fala comigo como se me conhecesse, mas eu não me lembro de nada antes de acordar, o quê aconteceu, quem são essas pessoas que você falou, quem é você- eu não lembro quem sou eu.

Terminou de falar e, por mais que quisesse muito continuar olhando nos olhos da mulher ao seu lado, para observar de perto a reação que suas palavras provocariam, a dor pulsante em suas têmporas aumentou e ele precisou fechar os olhos novamente, voltando a recostar a cabeça sobre o travesseiro, pedindo mentalmente para que aquela agonia diminuísse, ao menos suficiente para que fosse capaz de voltar a raciocinar claramente — para que ele pudesse se lembrar.

Seu corpo estava tensionado sobre a cama, as mãos fechadas em punho ao lado dos quadris, mandíbula fortemente cerrada na tentativa de conter as ondas de dor que sentia em seu crânio. Só percebeu que estava sendo tocado quando sentiu algo pousando em sua testa: molhado, mas não nem de perto gelado; morno o suficiente para que soltasse um suspiro de alívio e, quando seus olhos voltaram a se abrir, foram novamente olhos castanhos que encontrou, bem próximos do seu rosto e com a mesma expressão preocupada de antes.

— Minha mãe sempre dizia que uma compressa morna ajudava com suas crises de enxaqueca, que é o quê eu suponho que o senhor esteja tendo agora. — Ela havia voltado a morder o lábio, insegura, mas não deixando de aplicar o pano em sua testa com gentileza — Tente descansar novamente, professor. — Sua voz ainda era temerosa, mas havia sutileza em suas palavras.

Ele não protestou. Fez exatamente como ela havia indicado, voltando a fechar os olhos e aproveitando a nova sensação de alívio que o cuidado trazia para sua dor. Sua mente ainda trabalhava rapidamente, um medo do desconhecido ameaçando cada novo pensamento que tinha, mas a compressa em sua testa estava acalmando até mesmo a velocidade acelerada com que sua mente estava trabalhando, e logo uma sonolência se aproximou de seus sentidos. Antes que se rendesse e ainda com seus olhos fechados, ele perguntou em voz baixa:

— Você me chamou de "professor Snape". É esse o meu nome?

O pano afastou-se de sua apenas por alguns instantes, retornando a sua testa novamente amornado.

— O senhor é Severus Snape e… foi meu professor por alguns anos.

Ela vacilou em suas palavras, mas não era medo que havia em seu tom, apenas uma cautela quase palpável na escolha das palavras. O nome não lhe trouxe nenhuma familiaridade, mas ao ouvi-la chamando-o de professor, seu estômago embrulhou e fez uma careta de desconforto.

— A dor continua?

Abrindo os olhos, voltou a escrutinar o rosto da mulher ao seu lado. Ela estava bem próxima e ele podia ver alguns fios se soltando do seu penteado, caindo sobre o rosto levemente inclinado na sua direção. Continuava aplicando o pano sobre sua testa, olhando-o intensamente e usando uma expressão concentrada, obviamente aguardando uma resposta para sua pergunta.

— Ainda dói, mas a tática de sua mãe trouxe algum alívio, eu agradeço. É só que… bem, esse nome não me traz nenhuma lembrança.

Ela concordou lentamente com a cabeça, e pareceu disposta a suavizar as linhas de expressão que deixavam clara a preocupação que sentia, mas seus olhos castanhos continuaram fixos nos olhos negros dele quando finalmente respondeu:

— O trauma deve estar produzindo essa amnésia e a dor na cabeça. Tenho certeza que o senhor só precisa descansar para recuperar as energias, professor.

E lá estava a palavra novamente. Aquele título soava tão errado nos ouvidos dele, incomodava-o de tal maneira que sentia sua garganta se fechando, como se um novo acesso de tosse fosse começar. Engolindo com dificuldade, desviou os olhos antes de falar cautelosamente:

— Eu espero que sim. Por hora você pode, quero dizer, talvez seja estranho, mas eu gostaria que não me chamasse de professor. Essa palavra me faz sentir… — Ele não sabia como explicar em voz alta, então optou por reformular o pedido — Por favor, apenas me chame de Severus. — Experimentou o nome lentamente, decidindo que em seus ouvidos as sílabas soavam muito melhor do que o título que aparentemente ele carregava.

Quando voltou a encará-la, percebeu que ela estava visivelmente chocada, por qual razão, não saberia dizer. A boca dela estava ligeiramente aberta, coberta por uma mão apenas o suficiente para que escondesse parte de sua estupefação.

Os segundos se passavam e ela não parecia perto de chegar a uma conclusão — ele quase podia ver o cérebro dela trabalhando à todo vapor — e, numa tentativa de aliviar o desconforto que claramente havia causado, perguntou:

— E como eu devo chamá-la?

Como se tivesse sido tragada de volta à situação, ela abaixou a mão e chacoalhou a cabeça, antes de responder em um tom um pouco acima de um sussurro:

— Granger, senhor. Hermione Granger. — Seus olhos castanhos, entretanto, recusaram-se a focar no olhar intenso que ele lhe direcionava, dando uma vaga impressão de que estava perturbada com aquela interação. O que apenas o deixou ainda mais intrigado.

O nome, assim como todos os outros que ela havia pronunciado antes, não lhe trazia nenhuma recordação. E tentar puxar na memória alguma familiaridade foi o suficiente para que uma nova pontada atingisse o centro de sua cabeça. Com um suspiro resignado, voltou a fechar os olhos e disse, no que ele esperava ser o fim daquele estranho diálogo e, possivelmente, o fim do tormento daqueles olhos castanhos:

— É um prazer, senhorita Granger.

Quase que imediato ao fechar de seus olhos, o pano voltou a ser aplicado em sua testa e ouviu-a falar, em tom vacilante:

— Nada mais justo que o senhor usar meu primeiro nome também, Severus. — Ela pronunciou seu nome de forma engraçada, como se ponderasse cada uma das sílabas e estivesse com medo de falar errado.

Encontrou forças para produzir um meio sorriso em resposta, e antes de se entregar ao cansaço que sentia, disse baixinho:

— É um prazer, Hermione. Eu agradeço seus esforços.

Chegando ao fim da frase, seu corpo pareceu relaxar sobre a delicada pressão que Hermione produzia em sua testa com a ajuda do pano morno.

Foi fácil entregar-se à sonolência e ao cansaço que sentia, postergando para a próxima vez que acordasse as milhares de perguntas que tinha e esperando que, quando seus olhos voltassem a se abrir, o mundo ao seu redor também voltasse a fazer algum sentido.