Pikipeaks cantavam sobre o telhado de uma certa casa grande do subúrbio anunciando o raiar de mais uma linda manhã na ilha Hau'lie.
De uma das janelas da casa, saiu um pequeno e redondinho pokémon que voou pelo céu com o objetivo de entregar uma carta do seu treinador a um certo cara na rota dois.
Já era algo normal ver em algum momento do mês este incomum pokémon voador ser visto indo da cidade para a rota 2, indo direto até o parapeito de uma certa casa.
Fletchling bicou o vidro por alguns minutos sem parar até enfim ser atendido com um BAM! A janela era aberta com uma puta e desnecessária força, estremecendo tudo e terminando de rachar o já trincado vidro.
— Tem a porra de um buraco na janela! Por que infernos você não entra por ele!? — Berrou o dono daquele quarto onde o pequeno pokémon entrou voando sem cerimônia.
Num canto do quarto tinha um pote com ração pokémon, Fletchling voou até ele e começou a comer o restinho de ração, super tranquilo e contente, nem parecia que tinha um humano gritando com ele no mesmo cômodo. Mas o resto da casa não respondia tão bem a esse escândalo quanto ele.
— QUIETO, GUZMA! SÃO SETE DA MANHÃ!
Guzma terminou de esbravejar assim que ouviu seu pai gritar.
Ignorando o pokemon, Guzma se sentou na cama e focou em se acalmar. Ele encarou o pokemon e tentou pensar.
"Se esse carinha tá aqui, então…"
Guzma olhou para a perninha de Fletchling e viu o tubinho de metal. O passarinho tinha uma carta. Guzma soltou um gemido final. Pelo menos não veio só pra roubar comida do seus pokémon, pensou.
Se jogando na sua cama bagunçada, Guzma esperou o pokémon terminar de comer. Não podia pegar o tubo enquanto o pokémon não terminasse ou o bendito pássaro iria sair voando pelo quarto. Fletchling era um pokémon muito difícil de lidar, igual ao seu dono.
Assim que ouviu o som do bico batendo no fundo do pote de ração, agora vazio, Guzma enfim pôde clamar a carta. Fletchling viu o humano mal encarado se aproximar dele como um grande predador, mas nem piou de surpresa. Fletchling ficou paradinho enquanto Guzma tirava a carta do tubinho em sua perna.
Quando Guzma conseguiu o que queria, ele voltou a se atirar na cama. Ignorava o pokémon que agora voava ao redor do quarto em círculos, piando melodicamente como se estivesse cantando.
Toda carta sempre vinha minuciosamente dobradinha para servir no compartimento minúsculo, era normal, e quando enfim conseguia abri-la, o papel se desdobrava quase sozinho numa folha inteira nas suas mãos. A mensagem que continha era feita com uma fina caligrafia escrita a caneta preta.
Guzma sempre esboçava um sorriso ao ver aquela caligrafia que parecia ter sido feita em máquina de escrever de tão perfeita, de início não lia nada, só ficava rindo de como era bem escrita, delicada, de como cada letra parecia ter sido desenhada invés de escrita.
Era um convite de aniversário. De Illima. Subitamente, Guzma se deu conta: Illima iria fazer vinte anos. Hoje!
— Merda. Merda! — Praguejou enquanto olhava pros lados, buscando alguma coisa, alguma ideia do que dar a Illima.
Popular e desejado como Illima era, obviamente todo o seu fanclub estaria nessa festa, com muitos presentes. Sem falar nos demais líderes das outras ilhas, talvez até kahunas.
Guzma parou de olhar em volta. A mera ideia de ter de interagir com essas pessoas e minimamente fingir que ligava para boas maneiras com elas não agradava o ex líder da team skull. Mesmo que fosse aniversário de Illima, Guzma não sentia ânimo em ir.
Fletchling pousou em sua cabeça e tentou fazer um ninho no seu cabelo.
— Não se sinta em casa, monte de penas, você já já vai sair daqui.
Dito isso, Guzma começou a rabiscar sua resposta numa folha de precisou de três tentativas até ficar satisfeito com o que escreveu.
Assim que despachou o pokémon, Guzma pegou sua jaqueta e saiu também. Tinha de ver a líder das plantas.
Poucas horas antes da grande festa, Fletchling voltou com a resposta que Illima estava esperando, seja por receber ou por já antecipar como seria. O passarinho entrou pela janela já aberta do quarto e pousou direto na escrivaninha onde o rapaz o esperava sentado.
— Fez um bom passeio? Guzma foi legal hoje?
Fletchling não reagiu mal ao nome, então Illima entendeu que sim, Guzma foi legal.
— Desde que as consultas começaram, ele tem melhorado muito, não acha?
Fletching não pareceu entender o que Illima queria dizer, ele só estendeu sua patinha onde levava o tubinho da carta. Illima retirou a carta do tubinho de metal, a qual veio mal dobrada, quase amassada, mas ao menos era legível. Illima mal precisou ler tudo, pois já na primeira linha, Guzma respondeu que não ia. Nenhuma surpresa. Illima acabou então só admirando o jeito tão único de escrever que Guzma tinha.
Era uma letra de forma escrachada, meio torta e que parecia ser escrita por alguém tremendo quando chegava no fim das sentenças. Assim era a letra de Guzma.
Entre explicações do porque não iria, Guzma teve o breve lampejo de lhe perguntar se estava bem com isso. Bem? Com o que não estaria? Era seu aniversário, todos estavam comemorando sua existência e consequentemente a conclusão de uma importante etapa da sua vida que Illima não foi convidado a decidir se queria ou não fechá-la ainda, mas tudo bem porque era tradição, ora! Quem liga para os seus sentimentos se assim manda a maldita ...
— Tradição! — Illima parou de sorrir por um instante ao esbravejar.
Ele tinha conseguido suprimir o dia todo tão bem esse sentimento ruim. Ele conseguiu não se abalar e continuar sorrindo, pois não era nada demais, era só o seu aniversário! E não só isso, Guzma foi gentil de se preocupar com ele e expressar isso, era mais um motivo de sorrir e comemorar! Com isso em mente, Illima olhou para fletchling ainda ali sobre sua escrivaninha lhe encarando, claramente preocupado.
— Não me olhe assim, eu estou bem. Vem, — disse pegando gentilmente o pokémon e o colocando em seu ombro — vamos pra festa.
O dia passou tão rápido, quando notou já era noite e Illima tinha aberto seu último presente sentado em sua cama.
Seu aniversário foi como um flash, mal começou e já tinha acabado. Será que realmente fez vinte anos? Será que se enganou e esse foi seu aniversário de dezenove? Illima não se sentia diferente. Mas as coisas estavam diferentes, ou logo estariam quando o sol nascesse de manhã.
Ainda não foi formalizado, mas ele agora já não podia liderar um desafio, pois sua idade o forçava a deixar seu título, tal como dita a tradição. Ele agora era um adulto.
— Devia ser algo natural, não acham? — Illima comentou com seus pokémons. — Não devia ser algo guiado por tradição. — Illima disse se levantando.
Smeargle, Fletchling e Eevee estavam sobre a cama do seu treinador, vendo o próprio andar pelo quarto gesticulando como se argumentasse com alguém que não eles.
— Devia haver uma batalha, um teste de habilidade, alguma coisa que mostrasse que ainda sou capaz de exercer o meu posto, invés de simples idade, não acham? O que eu sou? Leite vencido para ser descartado depois da validade?!
Eevee era a mais preocupada dentre todos ali. Illima não estava bem.
— Não é justo um kahuna poder ocupar seu posto até a morte, mas um líder ter de obrigatoriamente abrir mão do seu só porque fez vinte. Eu sou mais capaz que alguém que acabou de começar o desafio! Eu sou! Não é?
Illima encarava seus pokémons como se pudessem respondê-lo. Estava tão incomodado, seu peito estava apertado de toda essa situação. Era tanto peso que sentia-se prestes a morrer! E por pouco não morreu mesmo graças ao susto de algo acertando o vidro da sua janela do nada.
Um Masquerain. Um mal encarado Masquerain batia na sua janela. Illima soube só de olhar que era o masquerain de Guzma, a "delicadeza" entregava.
— Sim? — Disse abrindo a janela para o inseto entrar.
Masquerain não entrou. O pokémon voava indicando que Illima devia segui-lo.
"Ah, claro..." Illima pensou. Pelo visto, alguém iria lhe parabenizar ainda hoje.
Masquerain trouxe Illima até o jardim de Melemele.
O grande "mar amarelo" de flores da ilha era muito tranquilo à noite. Sem turistas ou treinadores, a vista era maravilhosa, mas bem no meio do vale tinha um ponto muito chamativo: Guzma com seu cabelo branco e sua jaqueta preta eram contrastantes demais com o amarelo das flores.
Chegando até onde estava, Illima notou o buquê de gracidias na mão dele. Guzma ergueu o braço, oferecendo o buquê.
— Está tudo bem, fletchling me entregou sua carta. Eu entendo seus motivos.
O tom calmo e maduro junto do sorriso perfeito de Illima ao dizer isso foram tão plásticos, tão automáticos que Guzma jogou fora por cima do ombro o buquê.
— Ah, minhas flores! — Illima gemeu.
— Não tá nem um pouco bravo? Sério?! O que você é, um maldito robô todo certinho?! — Guzma esbravejou, se pondo entre Illima e o buquê.
Illima não se deteve e se apressou em recuperar o buquê antes que fosse levado pelo vento. Só depois respondeu Guzma.
— Eu não posso ficar bravo com você só porque não veio no meu aniversário, eu o convidei na última hora e você explicou muito bem que não ia ficar confortável junto com os outros convidados. E você está aqui agora. Fracamente, seria muito infantil reclamar.
— Não é, não! Você está irritado, eu consigo ver na sua cara!
— Não estou.
— Mentira!
— Eu não estou mentindo! — Illima finalmente levantou a voz, mas se corrigiu logo depois. — Eu não estou irritado, não com você.
— Mas tá com alguma coisa. Desembucha. Seu rapaz está aqui pra te ouvir.
Devagarinho, a face sorridente e controlada que Illima vinha segurando foi se desfazendo, dando lugar a um sorriso abatido e olhar triste.
— Será que o meu bom rapaz consegue apagar o dia de hoje? — Illima pediu baixinho enquanto cobria seu rosto com as flores de gracidias — Para que eu continue com dezenove anos quando acordar amanhã?
"Oh" Guzma pensou, então esse era o problema.
— O velho Hala... Ele já…
— O senhor Hala ainda não falou nada comigo, mas não deve demorar para vir me dizer que meu tempo acabou.
Illima brincava com sua presilha. O símbolo de um líder, a flor de quatro pétalas do desafio das ilhas, teria de ser entregue ao kahuna em breve.
— Eu já sabia que ia acontecer, mas mesmo assim… Por que isso incomoda tanto?
— Porque é seu. É a sua conquista e querem tirar isso de você! Não é como ser um Kahuna, mas...
— Eu me esforcei. — Illima disse.
— É… E se não fosse por essas tradições então você teria seu título pra sempre, mas não! Enchem todos com esperanças mesmo sabendo que nem todos vão ser vencedores, então pra que querer tanto ser um, né?
— Guzma…
— Ninguém ocupa o posto pra sempre e mesmo assim nos enchem de esperança, de vontade de ser líder, só pra depois tirarem de quem consegue ou esfregar na cara de quem nunca iria conseguir que "oh, que pena, mas você não é bom o bastante. Continue tentando!"
— Guzma.
— O desafio da ilha é só uma grande bobagem! É idiota, é estúpido! Ninguém devia se sentir mal por causa disso!
— Não devia mesmo.
— Então você tá bravo, certo, Illima?!
— Eu estou… Triste.
— Eeee…
— Bravo também. Eu sei que é algo bobo, mas eu sinto tanta raiva agora.
— Foda-se o que você sabe! Você ta puto! Você tem total direito de ta puto porque isso é uma sacanagem!
Illima acenou concordando, era muito cruel isso tudo, mas logo em seguida, ele percebeu algo interessante conforme notava como isso lhe deixava um pouco melhor.
— É assim que você faz?
— Quê?
— É desse jeito que você lida com os seus sentimentos? Pondo tudo em palavras?
Meio sem jeito pelo jeito pomposo de Illima falar, Guzma olhou pro lado, evitando a expressão admirada de Illima.
— A doutora só diz pra falar sobre as coisas que incomodam. Porque é pesado guardar tudo, se você pôr pra fora, o peso pelo menos não vai ficar só com você. É o que ela diz!
Illima olhou ainda mais admirado para Guzma. E talvez fosse só a luz da lua ou alguma coisa assim, mas Guzma podia jurar que os olhos azuis de Illima estavam cintilando.
— Que foi? O que você tá olhando assim?!
— Me sinto melhor agora, mesmo ainda chateado. — Illima disse pondo a mão sobre o peito como se literalmente tivesse tirado isso dele agora. — Que bom que você ouviu o senhor Hala e foi falar com ela. Esse é o nosso menino!
— Eu quero muito te bater agora.
— Oh, isso é algo muito impulsivo e ruim.
— Não machucando os outros tá tudo bem ser um pouco impulsivo. É o que a psiquiatra disse.
— Como ela define impulsividade?
— Ahm, eu não sei? Ter te chamado aqui a essa hora com certeza foi impulso.
— Uhnm… Eu quero ser impulsivo também, quero fazer algo sem me importar com o depois! Guzma!
Illima se virou para o ex líder da time skull, punhos fechados, olhos brilhando e muita animação na sua doce voz.
— Eu o convido para um desafio, seja meu último desafiante! Vamos batalhar!
Diante dessa pose toda, Guzma só conseguiu soltar um "o quê?" sem emoção. Isso chateou Illima que esperava um pouco mais de ânimo, era um desafio, o seu último!
— Vai, mostre um pouco de entusiasmo, Guzma! Por favor. Isso é importante pra mim.
Guzma fez força para não sorrir, Illima fazendo voz tristonha era um golpe muito baixo, mexia direto com seu coração. E Illima sabia disso!
— Você é cruel, liderzinho. — Disse sacando uma pokeball.
Illima apenas sorriu. Era injusto apelar assim? Era, mas queria essa batalha demais, iria encerrar sua trajetória como líder de desafio com um desafio realmente implacável contra um dos treinadores mais fortes que conhecia.
No dia seguinte, Guzma veio pessoalmente ver como Illima estava. O senhor Hala podia aparecer a qualquer momento, Illima devia estar em pânico.
Ele não achou Illima em casa, nem na cidade ou em lugar nenhum da ilha, preocupado, Guzma foi ver o senhor Hala e encontrou o kahuna de boa na varanda de casa curtindo uma malasasa, Hala não sabia onde Illima estava.
— Illima não estava em casa quando fui até lá, ele deve estar decidindo o que vai fazer agora, Kukui me contou que o viu conversando com Burnet hoje cedo. — Comentou o senhor Hala.
Burnet, a esposa do professor Kukui? O que Illima podia estar tratando com ela? Guzma não conseguia imaginar nada fora talvez um bico de ajudante de laboratório.
Não soava tão mal, Illima era perfeito para ser um ajudante de professor.
"Professor Illima" não soava nada mal também.
Professor Illima de jaleco e cabelo longo entregando iniciais para jovens treinadores definitivamente não soava nada mal.
— Você está com insolação, Guzma? Seu rosto está vermelho.
Guzma ficou quieto, e mais vermelho.
Uma semana, Illima passou uma semana evitando ser encontrado, as únicas pessoas que o viam nesse tempo eram Burnet, Kukui e a sua família talvez.
Guzma não estava contente. Nem um pouco. Ele estava prestes a explodir Poo Town de tanta frustração se não fosse Nanu trocar uma ideia com Kukui sobre a situação toda e então voltar e dizer ao ex líder dos caveiras que Illima estava no porto de Hau'lie, esperando por ele.
— Ahm?
Guzma parou de pichar a cidade e não acreditando no que Nanu disse, ele teve de ser forçado pelo velho a pegar uma pokecarona e ir pra ilha Hau'lie naquele momento.
— Vamos, não era isso que você queria? Dê alola a rapaz por mim.
— Como assim?
Nanu não respondeu, o Charizard partiu antes e logo, Guzma foi largado no porto da ilha Hau'lie que estava abrigando um imenso cruzeiro.
No píer, Guzma viu seu namorado de um jeito que nunca viu: Illima tinha uma mochila de viagem, um boné de baseball e usava a flor de líder ainda.
Os dois se encararam e tudo parecia estar claro, só precisava ser dito e Illima uniu toda sua convicção e disse:
— Eu vou para Unova, estudar com a professora Fennel e a professora Juniper.
— É o que?
— Depois eu vou para Kallos, desafiar a liga!
— É O QUE?!
— Eu vou ficar com a minha flor de capitão, ela é o símbolo de uma parte importante da minha vida e não vou entregá-la.
— Por isso você vai fugir assim?
— Vem comigo! Vamos viajar juntos, Guzma! — Illima todo sorridente propôs estendendo sua mão esquerda.
— Cê tá doido, Illima. Vem, eu largo você na sua casa. — Guzma disse, pegando na mão de Illima.
Mesmo esperando algo assim, Illima ainda ficou chateado, mas ele não ia mudar de ideia. Illima segurou Guzma pela mão, o fazendo se virar confuso. Nesse instante, Illima o puxou com toda força que tinha e, ficando nas pontas dos pés, o beijou. Suave, um beijinho de despedida que desarmou Guzma e deu brecha para Illima correr e embarcar no cruzeiro que soou o apito, estava partindo.
— Oh, parece que chegamos tarde.
Senhor Hala vinha pelo píer, junto com ele estavam Kukui e a professora Burnet.
— Senhor, Illima pirou! — Guzma disse apontando para o navio.
— Sim, ele nem se despediu de nós. — Disse Kukui.
— Eu tinha um guia de Unova pra ele, essas crianças de hoje. — Burnet lamentou com o dito guia nas mãos.
— Guzma.
— Senhor?
Senhor Hala jogou a mochila nos braços de Guzma e desejou boa viagem antes de pegá-lo pelos ombros e com toda a sua força arremessar o rapaz no deque do navio.
— Cuidem-se! — Kukui falou, acenando.
— Digam pra Juniper que mandei alola! — Burnet gritou.
O trio ficou vendo o cruzeiro zarpar e quando este estava já bem longe, ainda conseguiram ouvir um muito aborrecido Guzma gritar "Illima, volte aqui!".
