2ª TEMPORADA – EPISÓDIO – EU NÃO SOU UMA VÍTIMA

Milagrosamente, Jane estava em sua mesa na central de escritórios da CBI, fazendo anotações sobre o último caso envolvendo Red John, tentando descobrir como ele coaptava figuras tão distintas entre si ao mesmo tempo, perturbadas; Oswald Tunner e seu filho Dumar; Rosalind Harker e certamente, muitos outros. Isso era maior e mais complexo do que ele imaginava. Red John não era apenas um assassino sádico e cruel, era um habilidoso manipulador de mentes fracas. Talvez por isso era tão difícil estabelecer um padrão, um modo de decifrar as nuances de sua atuação. Mas ele era Patrick Jane; o mentalista, o cara mais inteligente da sala, um homem determinado a encontra-lo a qualquer custo, portanto, não importasse o quanto fosse demorar, Red John sofreria a pior das mortes por ter tirado do mundo duas pessoas tão puras e boas como que esposa e filha. Ele sentiria na pele toda a dor e sofrimento do inferno pessoal que Jane estava passando. Por isso ele não deveria se distrair, não deveria estreitar amizades tampouco relacionamentos românticos. Contudo, ele descobriu que evitar o contato humano trabalhando com a equipe de Lisbon era muito difícil. De um modo muito peculiar, pouco a pouco, ele sentiu-se acolhido, parte da equipe e Lisbon atualmente era irritantemente a pessoa mais próxima de amiga que ele tinha em sua vida. Ela era a pessoa em que mais ele confiava depois da morte de sua esposa. Lisbon era como uma mão que o puxava de volta do tormento de sua escuridão.

E naquela manhã não foi diferente; lá vinha ela, marchando decidida em sua direção, com seus olhos verdes brilhando de um modo que denunciava que eles tinham um caso. Ah, mais um caso provavelmente insignificante, que tomaria seu tempo precioso do seu verdadeiro objetivo: encontrar Red John. Só para irritá-la, ele manteve-se com a cabeça abaixada, fingindo que não ouviu seus passos pesados:

'' – Jane!'' – ela chamou com voz autoritária que ele passou a gostar de ouvir.'' – Temos um caso, a polícia de Sacramento pediu nossa ajuda com um homicídio em um shopping.''

'' – Chato.'' – ele respondeu com desprezo.

'' – Ah é?! Mas adivinha, você não escolhe os casos, você trabalha naqueles que eu determinar.''

Ele levantou a cabeça, ergueu as sobrancelhas em diversão, gostando muito do beicinho de raiva dela. Lisbon revirou os olhos – '' vamos logo.'' – ela atirou simplesmente, virando as costas e caminhando apressadamente em direção ao elevador. De algum modo sinistro, ela sabia que ele a seguiria, mesmo com má vontade. Como ela tinha esse poder sobre ele, Jane nem fazia ideia. A única coisa que sabia era que ele sentiu-se compelido a levantar-se, guardar cuidadosamente seu caderno com suas preciosas anotações, ajeitou o paletó ao redor do corpo e foi ao encalço de Lisbon.

O caso, como ele previu, era um simples caso de crime passional. O típico marido submisso, que acumulou anos de raiva, descarregando sua ira no amante da esposa. A policia de Sacramento poderia ter resolvido facilmente sem a ajuda deles, especialmente a dele. Em suma, um desperdício precioso de tempo. E ficou ainda pior quando o suspeito fugiu, deixando atrás dele um grande prejuízo com mercadorias destruídas e um policial ferido.

Devido a essa bobagem, assim que chegaram na CBI, foram chamados à sala de Minelli, quem estava bufando e gritou muito com Lisbon e com ele por causa desse pequeno infortúnio no shopping. Quem se importa com prejuízo material e um tiro de raspão no braço de um policial limitado quando ele tinha fatos mais urgentes para tratar. Ele manteve-se desdenhoso, entediado com essa discussão que não levaria a lugar nenhum; tudo que ele queria era voltar à central do escritório, deitar em seu sofá e pensar. Jane foi tomado de assalto quando Minelli soltou a bomba de que a equipe de Lisbon estava fora do caso de Red John, ele simplesmente não pode aceitar. O caso foi passado para o Agente Samuel Bosco, um policial das antigas, alto, careca, usando ridículos suspensórios e coldres laterais, um olhar astuto e língua afiada. Sem chance que Jane permaneceria em um lugar onde ele não poderia ter acesso ao caso mais importante da sua vida. Lisbon parecia ter ficado muito brava por ter perdido o caso para Bosco, contudo, ela preferiu focar seu despeito em como eles agiram nos últimos casos, criticando seus métodos pouco ortodoxos. Como se tudo que fizeram não importasse. Ele remoía todos esses ressentimentos quando pegou as caixas e começou a embalar seus livros e anotações. Jane foi surpreendido com a reação de Lisbon, que ao invés de tentar convencê-lo a ficar, optou por deixá-lo ir, saindo com sua equipe para atender a um chamado de um novo caso. Enquanto eles saíam apressados, deixando-o ali parado, segurando bobamente seus livros nas mãos, sem sequer virar para trás. Quando a sala ficou vazia, ele sentiu-se oco, como se houvesse perdido seu brinquedo preferido. Subitamente, um desagradável redemoinho torceu suas entranhas e seu coração acelerou; percebendo-se perdido, sem rumo, suas pernas automaticamente o conduziram para a SVU na qual estavam Lisbon, Risgby e Van Pelt. O trajeto até o local do crime foi em um silêncio constrangedor, com Lisbon firmemente concentrada em seu celular, como se nele houvesse a última resposta para o maior mistério do Universo. Jane, por sua vez, manteve-se divertido, seu ego e empáfia dominando suas atitudes de novo. E novidade; Lisbon não se deixou abater por sua fala arrogante e petulante de que eles não seriam capazes de desvendar o crime, batendo a porta do carro com violência, largando-o sem cerimônia no local do crime. Sorte dele que Cho, com seu jeito estoico, foi um pouco mais compassivo e seguiu sua sugestão sem perguntar muito.

Recuperado do choque de ver Lisbon desprezando-o, mostrando a ele que ela não se deixava abater com seu modo rude e desprezível de agir, quase como uma ingratidão depois de tudo que ela fez por ele, tudo que ele aprendeu trabalhando com ela. Seu coração ficou apertadinho e uma inédita dor de cabeça começou a aborrecê-lo. Quando ele viu a barraca de morangos à venda, ele percebeu que deveria ser um pouco mais humilde, menos atrevido se quisesse continuar trabalhando na CBI e ter um mínimo de vida normal. Por isso, ele foi sincero ao se desculpar com ela, e em seu íntimo, ele jurou que tentaria ser menos controlador com seus planos e esquemas, afinal, Lisbon sempre o respeitou e o tratou com dignidade, independentemente de sua tragédia pessoal.

Quanto a Bosco, ele teria que ser muito criativo para continuar por dentro do caso de Red John. Bom, um começo seria xeretar o sistema de arquivos da unidade de Bosco e qual a melhor forma de fazer isso do que trocar as senhas de acesso. Pena que isso durou apenas 15 dias, pois Bosco descobriu e implementou medidas extras de segurança para impedir que Jane continuasse a mudar as senhas dele e de sua equipe. É, foi uma chatice, um pequeno empecilho em sua meta de manter-se por dentro das novidades a respeito de Red John.

Contudo, antes de tentar algo novo, ele teria que resolver o caso de Cristyn Malley, a pobre garota sonhadora que fora assassinada e seu corpo jogado de uma ponte para disfarçar o homicídio. Lisbon mantinha-se determinada que ele ficasse focado no caso, apesar de suas constantes escapadas mentais para desvendar o imbróglio e permanecer atualizado sobre o andamento da investigação sobre Red John. Por isso, quando ele descobriu a respeito do grampo de Cavarelli na sala da CBI, isso deu-lhe uma excelente ideia: usar do mesmo artifício para ouvir as conversas de Bosco. Desse modo, assim que encerraram o caso, ele correu até a casa de pães, comprou uma caixa de rosquinhas, e usando sua habilidade de vigarista, enquanto ele distraia Bosco com sua historinha de fachada que havia desistido de importuná-lo, colocou a escuta discretamente debaixo da mesa de Bosco. Ao voltar para o escritório, ele refastelou-se em seu sofá, satisfeito ao notar que dera certo, que ele estava finalmente sabendo o quanto Bosco havia apurado. Jane ficou um tanto desapontado com suas observações de que eles estavam progredindo muito pouco. Mesmo assim, era uma sensação reconfortante ter conhecimento do andamento da investigação; ele permanecia horas a fio, deitado em seu sofá, com os olhos fechados, fingindo estar dormindo, assimilando com avidez tudo que chegava a seus ouvidos.

'' – Jane. Jane!'' – Lisbon chutou seu sofá, imaginando que ele estava dormindo.

'' – O que foi.'' – ele fingiu que havia sido acordado, colocando uma máscara de aborrecimento no rosto.

'' – O que está fazendo?'' – ela perguntou desconfiada.

'' – Dormindo, o que mais?''

'' – Hum, sei.'' – ela ainda estava muito intrigada, mas preferiu não insistir no assunto. Ela tinha outras preocupações mais urgentes para pensar. Fazia seis semanas que ela estava presa na tediosa sessão de análise com o Dr. Carmen da CBI; o que ele queria com ela, não fazia ideia. As sessões eram obrigatórias após um tiroteio, e depois que Jane matou o xerife Hardy, ela foi encaminhada para a terapia, achando que no máximo em duas semanas seria liberada, contudo, as semanas foram passando e o psiquiatra cismou que ela teria que lhe contar algo. O que, ela não tinha ideia.