2ª TEMPORADA – CALVÁRIO DE CULPA

Os diálogos em destaque foram retirados da obra original, respeitando-se os direitos autorais de Bruno Heller e da CBS.

Jane sentia-se um estranho no meio deles, um intruso no momento de luto deles; Lisbon estava sofrendo terrivelmente a morte de Samuel Bosco como ele nunca tinha visto antes. Os olhos dela estavam nublados de tristeza, refletindo sua mágoa. E claro, ele, Jane, era culpado de tudo isso. Mais uma vez, sua arrogância e petulância causou a morte de quatro bons agentes. Samuel Bosco, apesar de sua pose de macho alfa, era um bom homem e protegia Lisbon acima de tudo. Lisbon, por sua vez, era uma pessoa maravilhosa, boa o suficiente para abrir mão de sua paixão por Bosco em respeito ao casamento dele. E por sua culpa, de novo sua culpa, ele causou um tormento de infelicidade a ela, ao provocar a morte de Bosco e sua equipe, para o simples capricho de Red John que queria manter o sombrio vínculo entre Jane e ele. Ficou mais do que claro que Red John estava enredando um sofisticado e sinistro jogo com Jane, eliminando todos que porventura cruzassem seu caminho. Jane acreditava que não era merecedor de ficar no mesmo ambiente de pessoas tão boas e puras como Lisbon e sua equipe. Jane sentia que já havia cruzado a linha do bom senso, e ele estava disposto a fazer qualquer coisa e tudo que podia para alcançar sua vingança.

Por isso, ele saiu de fininho da sala de escritórios, deixando Lisbon e sua equipe remoendo sua miséria. Bosco, em seus últimos momentos, disse a Jane onde os arquivos da sua investigação sobre Red John estavam e que ele acreditava que seriam úteis em sua odisseia de vingança. Jane foi até a sala de Sam, descobrindo os arquivos no local indicado pelo falecido, sentando-se em uma mesa paralela para começar sua busca. Ele não sentiu quando Lisbon chegou devagarinho atrás dele:

'' – Você mentiu para mim.'' – a voz dela estava embargada, com seus olhos brilhando em lágrimas.

'' – Menti?'' – Jane desconversou, mantendo sua atenção nas folhas do arquivo que estava revisando.

'' – Sam não disse para você cuidar de mim. Ele falou sobre a localização dos arquivos dele sobre Red John, para que você continuasse com sua obsessão.''

'' – Lisbon...'' – ele implorou sua compreensão.

'' – Você está se perdendo, está afundando nessa compulsão doentia de caçar esse monstro.''

'' – Na verdade, o monstro aqui sou eu, Teresa.'' – ele disse em voz baixa e carregada de emoção. '' – Red John acha divertido brincar comigo, mata as pessoas para me provocar. Então, não é obsessão, compulsão ou mania; é meu destino caçar e matar esse homem.'' ele finalizou com os olhos sérios.

'' – Jane... você não está sozinho.''

'' – Sim, estou e somente eu devo pagar o preço por minhas ações e pelas ações dele.''

'' – Não, não é verdade. ''

Jane balançou a cabeça negativamente, voltando-se em silêncio para as páginas do arquivo que estava lendo. Lisbon permaneceu parada ao lado dele, seu coração partido em mil pedaços, sem saber mais o que fazer para retira-lo de sua escuridão de culpa e remorso. Nesse momento, ela percebeu sua própria sombra de infelicidade. '' – Teresa, não minta para mim, sei que está mentindo. Seus olhos sempre te entregaram, olhos sinceros. Então eu vou dizer que é melhor que estejam certos: Eu te amo, Teresa. Te amo de verdade.'' Essas palavras iam e vinham dentro de sua mente, dilacerando cada vez mais seu coração. De repente, ela sentiu o peso da perda de Sam, enchendo-se de tristeza para desabar em uma poltrona atrás de Jane. As lágrimas que passaram dias brigando para caírem finalmente venceram a disputa, e escorregaram livres, molhando suas bochechas, agora quentes e vermelhas de suplicio. Ali, na penumbra da sala de seu amigo e mentor, ela pode liberar todo seu luto e baixinho, Lisbon começou a soluçar, tremendo um pouco em seu lugar, olhando perdida para todos os lados da sala onde agora ela só via o corpo de Sam no chão quase sem vida, seus agentes mortos ladeando-o em uma cena macabra de morte.

Jane foi despertado de sua pesquisa ao ouvir os soluços baixos de Lisbon. Imediatamente, sem parar para pensar, ele largou a pasta que estava vendo e aproximou-se cautelosamente de Lisbon, que agora mantinha seus braços firmemente cruzados em frente a seu peito, movimentando-se lentamente para frente e para trás, em um peculiar estado de transe.

'' – Lisbon...'' – ele chamou baixinho, mas ela não respondeu, permanecendo em sua apatia de dor. '' – Teresa...você está bem?''

'' – Por que Jane? Por que isso aconteceu? Sam era um bom homem, decente, honesto. Não merecia morrer assim.'' – ela disse entre soluços, lágrimas correndo copiosamente por seu rosto.

'' – Teresa, eu sinto muito mesmo...'' – Jane não sabia o que dizer a ela. Então, ele se aproximou, estendeu os braços para ela, e a abraçou com força, acariciando levemente seus cabelos. Eles ficaram abraçados por um longo tempo, até Lisbon acalmar-se um pouco. '' – Venha, eu te levo pra casa.'' – ele disse baixinho, segurando carinhosamente seus ombros. Ela acenou com a cabeça em concordância, e juntos, moveram-se para fora da sala de Bosco, caminhando lentamente pelos corredores escuros e vazios da CBI. Os arquivos de Red John, outrora tão importantes, agora ficaram esquecidos na mesa: no dia seguinte ainda estariam lá, e nesse momento, Lisbon precisava mais do nunca de um ombro amigo. Contudo, será que ele era um amigo para Lisbon? Será que ela o consideraria como uma pessoa com a qual ela pudesse contar, houvesse o que houvesse? Ele ultrapassara a linha de colegas de trabalho para amigos? Ele não tinha certeza, porém, no momento não havia tempo para pensar nisso. Agora, sua prioridade era dar a Lisbon toda sua atenção e carinho; a despeito do que ele havia se imposto, dos muros que havia construído para evitar a aproximação dela.

Gentilmente, Jane a colocou no banco do passageiro do carro dela, assumindo o volante para conduzi-los à casa dela, surpreendentemente, cumprindo todas as leis de trânsito e mantendo uma velocidade compatível com a pista. Ao chegarem no conjunto de apartamentos dela, ele estacionou suavemente na vaga dela, saltando do seu lugar para chegar à porta do passageiro, abrindo-a para que ela saísse. Lisbon, por um momento, olhou em volta, confusa de onde estavam. Ela estremeceu levemente quando Jane apoiou a mão em suas costas, levando-a para seu apartamento. De alguma maneira, Jane sacou as chaves da bolsa de Lisbon, abrindo a porta para que entrassem. Assim que se viu em sua sala, Lisbon desabou no sofá, com os braços apoiados nos joelhos, e suas mãos juntas segurando seu queixo, o rosto encharcado de lágrimas silenciosas. Jane ficou parado de frente a ela, um tanto perdido do que fazer a seguir; quando finalmente se decidiu, ele tirou o paletó, jogando-o em uma poltrona. Ele foi à cozinha para preparar uma refeição leve e chá para os dois. Ele levou à sala os pratos de torradas, bolachas com manteiga e as poucas frutas que encontrou na cozinha dela e duas xícaras de chá, cujos saquinhos ele teve que vasculhar por todos os armários para encontrar.

'' – Teresa, aqui, coma um pouco.''

'' – Não estou com fome.'' Sua voz saiu rouca e estremecida.

'' – Por favor.'' – ele insistiu, colocando no rosto uma expressão mais doce possível. Ela não resistiu ao seu olhar de afeto e carinho, pegando uma bolacha e uma xícara de chá. '' – Assim é melhor.'' Eles comeram em silêncio, cada qual envolvido em seus pensamentos. Quando Jane viu que ela estava segurando a xícara de chá frio por tempo demais, ele tirou delicadamente a louça de suas mãos, recolhendo tudo para a cozinha. Ao voltar, ele pegou devagar em seu cotovelo, incitando-a a sair do sofá; juntos, subiram as escadas até o quarto dela.

'' – Olha, eu vou trocar suas roupas por outras mais confortáveis. Então, por favor, não me bata, combinado?'' – ele tentou sorrir divertido. Lisbon devolveu o sorriso que não alcançou seus olhos, seu rosto triste e inchado de lágrimas. Ela levantou os braços para que ele tirasse seu terninho de trabalho e sua camisa crepe bege. Jane teve que usar todo seu autocontrole, desviando o olhar dos belos seios de Lisbon, apertados em um sutiã esportivo preto. Ela mesma abriu o botão da calça e levantou um pouco os quadris, ajudando-o a retirar sua calça.

'' – Onde ficam seus pijamas?'' – ele perguntou evitando com todas suas forças olhar para ela.

'' – Na terceira gaveta da cômoda. '' – ela respondeu fungando um pouco.

Jane vasculhou a gaveta, tirando um pijama de calça e camiseta de algodão, que parecia muito confortável.

'' – Quer que eu saia?'' – ele falou com a voz carregada de ternura.

'' – Não. Pode ficar. Vou me trocar ali no banheiro.'' – ela foi em direção ao banheiro de sua suíte, tendo Jane prestado atenção ao barulho dela para acudi-la, caso fosse necessário. Cerca de quinze minutos depois, Lisbon saiu do banheiro, com o rosto lavado, os olhos inchados, o cabelo amarrado em um rabo de cavalo despretensioso e vestida com sua roupa de dormir. Ela sorriu suavemente para ele quando o viu de pé ao lado da sua cama, segurando o edredon como se fosse uma cabana, obviamente convidando-a para se deitar. Ela fez uma expressão de agradecimento ao enfiar-se debaixo das cobertas. Jane deu-lhe um leve beijo nos cabelos e estava na porta de saída, no momento que Lisbon sussurrou:

'' – Patrick?'' – o uso do seu primeiro nome nos lábios dela o congelou no lugar.'' – Você pode me abraçar até eu dormir?'' – a voz dela era baixa, chorosa, dolorosa.

'' – É claro.'' – ele obrigou-se a responder, ainda chocado pelo fato dela tê-lo chamado de Patrick ao invés do usual Jane. Ele voltou para a cama, tirou o colete, os velhos sapatos marrons, entrou na cama e imediatamente, Lisbon virou-se para o peito dele, abafando mais lágrimas e um choro sentido. Jane não disse nada; não havia o que falar para consolar o suficiente a dor de Lisbon; por isso ele ficou calado, passando os dedos delicadamente nas costas dela, apoiando seu queixo na cabeça dela, apertando-a com força até quando ele sentiu que a respiração dela tornar-se regular e os soluços pararem. Ele ficou um pouco mais nesse abraço reconfortante, o qual estava acalmando-o também. Naquele instante de excêntrica intimidade entre os dois, ele pode sentir seus demônios calando-se e sua ansiedade constante diminuindo. O perfume suave dos cabelos dela o embalou para um sono profundo, cheio de sonhos com sua esposa, sua filha, Bosco e sua equipe, saindo e entrando de uma sala escura, iluminada por uma fraca luz vermelha, sendo recebidos por uma figura encapuzada, empunhando uma faca em uma das mãos e o símbolo de Red John espalhado por todas as paredes do lugar. Durante a madrugada, Jane acordou assustado de um destes sonhos e percebeu com espanto que Lisbon havia jogado um de seus braços em torno dele, reivindicando silenciosamente sua presença. Não querendo acordá-la, ele apenas se acomodou no lugar, observando a chegada da manhã de um novo dia pelas frestas da janela.