02ª TEMPORADA – EPISÓDIOS 17 A 21

OS DIÁLOGOS DESTACADOS FORAM RETIRADOS DA OBRA ORIGINAL, RESPEITANDO-SE OS DIREITOS AUTORAIS DE CRIAÇÃO DE BRUNO HELLER E DA REDE CBS. NESTE TEXTO, A HISTÓRIA SEGUIRÁ SOB O PONTO DE VISTA DE MADELEINE HIGHTOWER, UMA DAS PERSONAGENS MAIS EXCITANTES DA SÉRIE. ESPERO QUE GOSTEM!

Quando disseram a Madeleine Hightower que ela assumiria a chefia da Divisão de Crimes Graves, sentiu uma vibração de alegria ao mesmo tempo que um frio percorreu sua espinha. Assim como todos da aplicação da lei, ela conhecia a reputação de Patrick Jane, um consultor civil, atingindo por uma devastadora tragédia ao perder mulher e filha assassinadas, que usava métodos pouco ortodoxos para esclarecer os crimes. E a responsável pela equipe, agente Teresa Lisbon, tendia a proteger sua equipe, especialmente Jane, colocando-se à frente da linha de fogo das reclamações e denúncias de falta de profissionalismo. Ela queria entender o que acontecia com essa equipe, que apesar de ter o número de fechamento de casos mais alto da CBI, estava afundada em críticas e impugnações. A promotoria lutava muito para que os processos não fossem anulados, tendo sorte de que apesar das trapalhadas de Jane, a equipe conseguia reunir provas o suficiente para embasar as confissões extraídas das mais variadas formas possíveis. Sem dúvida, era um trabalho espetacular de Lisbon e sua equipe, mas Madeleine não pretendia ser conivente com as acrobacias de Jane. Ela estudou as fichas de todos, focando especialmente em Jane e Lisbon; era evidente que o relacionamento deles era além de colegas de trabalho. Por tudo que ela leu e ouviu, os dois eram inseparáveis e protegiam um ao outro com fervor. Então, Madeleine planejou a tática para lidar com os dois; Jane era um ativo importante, um funcionário produtivo que resolvia casos. Mas Lisbon, ela poderia usar Lisbon como uma ''arma'' para segurar as peripécias de Jane. Portanto, no primeiro encontro com Lisbon, ela pôs as cartas na mesa, deixando clara sua posição:

'' – Senhora, eu lhe asseguro que o incidente de hoje não reflete como a equipe trabalha. – Lisbon entrou na sala nervosa, ansiosa pelo prisioneiro que tinha fugido sob sua vigilância.

'' – Você teve um dia ruim, fez besteira, acontece. Vamos ao trabalho. Esse juiz que mudou de ideia quanto ao mandado'' – Madeleine iniciou a conversa olhando firmemente para os olhos verdes e confusos de Lisbon.

'' – O juiz Witers. Ele é teimoso quando decide algo dificilmente muda de ideia. Estou tentando...''

'' – O real motivo. Jane insultou Hoperbanks e Hoperbanks reclamou. Tudo bem eu posso lidar com isso. Ele é um ativo importante, resolve casos, não podemos perde-lo. Ao meu ver, quem está em uma situação delicada é você.'' – ela finalizou séria.

'' – Como assim?'' – Lisbon rebateu, ainda mais confusa do que estava quando chegou.

'' – Esse escritório passou por grande revés e minha missão é tornar essa equipe a melhor possível. E Patrick Jane faz parte disso. Então, se você não conseguir lidar com ele, encontraremos alguém que possa. '' seu tom era baixo, incisivo, quase ameaçador

'' – Certo, entendi senhora.'' – Lisbon olhou para todos os lados, buscando apoio.

'' – Eu vou ligar para o Juiz Witers sobre o mandado.'' Madeleine dispensou Lisbon sem mais delongas, satisfeita por ter visto o receio nos olhos dela. Agora, só falta conversar com Jane, o que ela planejava fazer no dia seguinte da reunião com Lisbon:

'' – Oi.'' – ela chamou de sua mesa, enquanto estava afundada em papéis e burocracia. '' – Estou conversando em particular com todos para acertar as coisas.''

'' – Hum, ótima prática.''

'' – Falei com Lisbon ontem. Falei o quanto valorizo sua contribuição para agência.'' – o tom dela era bajulador e cínico ao mesmo tempo.

'' – É bom saber.'' – Jane respondeu com uma voz neutra.

'' – Disse que é bom demais para nós o perdermos por causa de uma jogada que pode ser ruim. Disse também que se isso acontecer, é o pescoço dela que estará em jogo. Você, está protegido menos contra assassinato; Lisbon não. Se fizer besteira, ela está fora'' – Madeleine finalizou séria, perdendo a falsa entonação de bajulação. Ela sustentou o olhar firme de Jane, que para o deleite dela ficou surpreso com sua posição severa.'' – Alguma pergunta?''

''- Nenhuma me vem à mente agora.'' O rosto neutro, tentando sem sucesso demonstrar a emoção crua de irritação que brilhava em seus olhos.

'' – Ok. Obrigada pela atenção. Vou adorar trabalhar com você.''

'' – Certo, tchau.'' – Jane estava visivelmente balançado, e Madeleine sabia que ele estava irritado e preocupado. Contudo, ela estava disposta a manter sua palavra; Hightower não era de fazer ameaças vazias. Então, como o caso Hoperbanks era notório pela influência dele na alta sociedade, Madeleine saiu de seu escritório para acompanhar os interrogatórios. De soslaio, ela viu Jane entrar na sala de interrogatório onde estava Anglet, suspeito de comprar o anel. Ela ficou impressionada como Jane manipulou Anglet para que ele achasse que quem vendeu o anel, vendera o anel falso no lugar do verdadeiro. Quando ela tinha ouvido o suficiente, entrou na sala, liberando Anglet. Ao confrontar Jane, ele desdenhou das observações dela. Madeleine não podia acreditar em como Jane não se importava com as regras, nem mesmo para supostamente proteger Lisbon, que chegou à sala um pouco depois:

'' – Sabia que era justamente essa situação da qual estava falando? Não pensei que aconteceria tão cedo. Seu pescoço está em jogo, agente.'' – ela saiu da sala, deixando Lisbon confusa e Jane inquieto. No caminho do retorno ao seu escritório, Madeleine passou por Rigsby e Van Pelt que caminhavam juntos no corredor e trocaram um olhar claramente de amantes. Ela percebeu imediatamente o que estava acontecendo e perguntou-se porque Lisbon não tomou nenhuma atitude, deixando os dois rondando pelo prédio compartilhando olhares de amor, mesmo sendo contra as regras da CBI. Então, Lisbon não só protegia Jane, mas também fazia vista grossa com seus agentes. O que mais ela encobria? Madeleine passou a tarde em seu escritório meditando o que fazer em relação à Unidade de Crimes Graves; ao final do expediente, com sua decisão tomada, ela passou na sala de Lisbon, encontrando Jane deitado confortavelmente no sofá de Lisbon enquanto ela terminava a papelada do caso. Era inquietante o quão tranquilo e normal Jane permanecia deitado, refastelado com conforto, como se nada no mundo fosse mais importante do que seu descanso e papo furado com Lisbon. Ela suspirou fundo, e lançou a bomba sobre Rigsby e Van Pelt de uma vez, sem dar chance de Lisbon ou Jane respirarem. Madeleine não se sentiu incomodada em colocar Lisbon contra parede, acusando-a abertamente de conivência com a quebra de regras de seus agentes. Ao sair, ela vislumbrou rapidamente a reação dos dois: Lisbon ficou intrigada, Jane admirado e Madeleine ficou contente por deixar claro seu ponto de vista.

-x-x-x—x-x-x-x-x-x-x-xx-x-x-x-xx-x-x-x-x-x-x-x-xx-x-x-x-x-x-xx-x-x-x-xx-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

A tensão era palpável no escritório da Unidade de Crimes Graves; Lisbon estava mais ansiosa do que nunca, aflita por sua nova chefe, Madeleine HigthTower pairar no ambiente de seu escritório com olhos atentos como águia. Os pobres Rigsby e Van Pelt tinham a nítida sensação de que HigthTower sabia sobre eles, mas estranhamente não dizia nada a respeito, apenas encarava-os com um olhar conhecedor. Jane não queria dar o braço a torcer, mas ele estava muito incomodado com o atual estado de angústia de toda a equipe, principalmente Lisbon, que mantinha os ombros encolhidos e uma diária dor de cabeça. Agora, a ida deles a cenas de crime ou entrevista com testemunhas e suspeitos era preenchida por um silêncio desconfortável, com Lisbon apertando com uma força desnecessária o volante do carro, o nó de seus dedos brancos de tanto serem pressionados. As piadinhas e as conversas amigáveis terminaram e para Jane lidar com uma Lisbon mal-humorada, especialmente quando não era sua culpa, era aborrecido.

Quando Madeleine achou que havia deixado todos apreensivos o suficiente, chamou os três para seu escritório para uma conversa:

'' – Faz algum tempo que eu queria falar com vocês, mas estou com tanto trabalho em minha mesa...mas enfim.'' – ela tirou os olhos dos papéis que estava assinando para encará-los. '' – Agentes Rigsby e Van Pelt, estão em um relacionamento íntimo?'' a pergunta foi direta e incisiva.

'' – Sim.'' – os dois responderam cabisbaixos.

'' – Eu compreendo, trabalham juntos, sentimentos afloram, nada errado com isso, mas como sabem, é contra as regras da CBI, e como eu digo para meus filhos, regras são regras.'' – ela estava sendo categórica e firme. '' – Relacionamento íntimo entre agentes não é permitido pelas regras da CBI, então, se quiserem ficar juntos, um de vocês será transferido de Unidade; se quiserem permanecer na Unidade, não poderão ficar juntos. Espero pela resposta até amanhã de manhã.'' – finalizou taxativa. '' – Obrigada pela atenção, podem ir.'' – HigthTower dispensou-os e quando Lisbon levantou-se com intenção de sair também, HigthTower a chamou de volta: '' – Você fica Lisbon. Porque não resolveu essa situação: Eu entendo os dois escondidos por aí, mas você como supervisora deles deveria ter tomado providências. Espero mais de você.''

'' – Eu prefiro não me defender, senhora...''

'' – Vou fazer um memorando de correção. Obrigada pela atenção.'' – o rosto de Lisbon caiu e seus olhos ficaram úmidos, tendo ela lutado para não chorar na frente de sua chefe. Ela saiu apressadamente da sala, pisando forte, a irritação borbulhando em seu estomago. Ela não deveria ter recuado em sua decisão em denunciar os dois aos Recursos Humanos. Se ela tivesse feito isso à época, talvez nada disso estaria acontecendo. Ela entrou furiosa no escritório dos Agentes, disparando perguntas sobre o andamento do caso em que estavam trabalhando. De relance, ela viu o desanimo por parte de Rigsby e Van Pelt e seu coração ficou um pouco mais apertado, aumentando sua frustração. Ela dividiu as tarefas, levando Jane consigo para conversarem com a agente de condicional de Leonard Railton.

'' – Escuta...'' – Jane a chamou de canto antes de saírem – '' – Não precisa esconder sua frustração quanto a HighTower. Cedo ou tarde vai acabar estourando com tanta raiva reprimida.''

'' – Espero que esteja comigo nesse momento.'' – Lisbon respondeu sucinta e irritada.

'' – É com isso que estou preocupado.'' – Jane respondeu, mostrando uma expressão divertida, ao mesmo tempo inquieta no rosto. Normalmente ele não permitia que as relações interpessoais da equipe o atingissem, mas, nos últimos tempos, ele viu-se tão apegado a todos eles que era impossível fingir que não estava sentindo nada. Especialmente com Lisbon; ele percebera há algum tempo que ela estava se tornando pouco a pouco muito importante em sua vida. Os jantares entre eles haviam diminuído consideravelmente desde o caso da empresa de bioquímica. Lisbon instintivamente recolocou uma parede entre eles, a mesma que ela construiu assim que ele começou a trabalhar na CBI, uma forma de se preservar quanto à aproximação dele. Jane entendia perfeitamente os motivos dela, contudo, para a surpresa dele, sentia uma falta imensa da companhia dela, de poder acolhe-la em seus braços e sentir o perfume de seus cabelos em seu nariz. Estar ao lado dela era reconfortante, uma retomada aos velhos sentimentos calorosos por conviver com alguém de novo.

Por isso, ao fazer seu trabalho de consultoria, Jane de alguma maneira queria chamar a atenção de HighTower, de modo que pudessem conversar a sós, para esclarecer as coisas. Enquanto Cho interrogava o guarda florestal que trabalhava protegendo plantações ilegais de maconha em meio à floresta do Parque Nacional, ele irrompeu à sala para fazer perguntas que a princípio não estavam necessariamente ligadas ao assassinato de Leonard. HighTower, que estava acompanhando da sala de observação, o chamou para sua sala:

'' – O que conseguiu do cara?'' – ela perguntou incisiva

'' – Os traficantes não mataram Leonard.'' – ele respondeu com simplicidade.

'' – Tem certeza?'' – HighTower pressionou

'' – Bom, certeza é a mãe dos tolos.'' – Ele devolveu com uma expressão neutra.

'' – Então tudo isso é só adivinhação sua.'' – pelo tom de voz, ela estava começando a perder a paciência.

'' – Basicamente. Quer dizer, é o que eu faço. Por exemplo, eu acho que é casada.'' – Jane começou a fazer sua usual leitura pessoal.

'' – Estou usando uma aliança.'' – Madeleine estava claramente na defensiva.

'' – Acho que é casada, mas infeliz. Talvez não esteja pensando em divórcio, mas uma separação experimental.'' – ele continuou como se não tivesse sido interrompido.

'' – Sei que não está me dando conselho de relacionamento. Acho que seu modo de expressar infelicidade.'' – ela segurou seu olhar decidida.

'' – Pode ser.'' – ele confidenciou.

'' – Acho que é o seu jeito de dizer que está insatisfeito pelo modo que trato a Lisbon.''

'' – Nós passamos muito tempo juntos; então, quando ela está infeliz, eu fico mais ainda. É a natureza humana.'' – ele não pestanejou ao confirmar a observação de HighTower.

'' – É o seguinte Patrick, pode não deixar eu fazer meu trabalho do meu jeito e espera os resultados e eu deixo você o seu do seu jeito.'' – ela manteve-se firme em sua posição, deixando claro que não iria recuar por causa das veladas ameaças de Jane.

'' – Parece justo, até certo ponto. Terminamos?.''

'' – Não, por favor não interrompa interrogatórios. É rude.''

'' – É uma regra?''

'' – É uma orientação. Agora terminamos.''

'' – ok. Adorei as sandálias.''

'' – Obrigada.''

Madeleine observou Jane saindo de sua sala, mantendo sua pose de arrogância, deixando claro para ela que ele não cederia tão facilmente à sua pressão, assim como Rigsby e Van Pelt. Ela notou que lealmente e instinto de proteção não era só por parte de Lisbon; Jane também tinha isso entranhando em seu modo peculiar de pavonear Lisbon. Nesse momento, ela percebeu que teria que tomar outro caminho, encontrar outra forma de manter Jane na linha ao mesmo tempo que ele continuasse fechando casos. Talvez atacar Lisbon não fosse uma boa ideia. Jane deixara bem claro que ele não se intimidaria com isso e faria de tudo para continuar com seu jeito nada ortodoxo de investigação, só que envolvendo Lisbon o mínimo possível. Isso poderia causar mais danos à agência do que Madeleine tentar controla-lo. Aparentemente, somente Lisbon exercia alguma influência sobre Jane no excêntrico relacionamento dos dois. Ao contrário de Rigsby e Van Pelt, Jane e Lisbon não estavam envolvidos sexualmente, porém, alimentavam uma relação mais do que profissional. Isto era claro para HighTower. O modo que um defendia o outro ultrapassava o limite do trabalho. Eles tinham um vínculo muito forte, praticamente platônico, pois nenhum dos dois baixava a guarda para vivenciarem as emoções que os cercavam. E impor-se a isso usando a força não traria o resultado pretendido por HighTower; eventualmente, uma contenção mais intelectual fosse o caminho. Lidar com a situação à medida que os problemas surgissem e aparar as arestas. Portanto, quando o caso foi resolvido, Madeleine passou pela Unidade, acompanhando Jane e Lisbon até os elevadores, iniciando a conversa com muito tato:

'' – Os proprietários da plantação de maconha foram presos na fronteira.'' – ela disse suavemente. '' – E um tal do Sr. Silver Wing ligou para reclamar de uma confusão armada por Jane. Ele estava muito irritado.'' Ela disse severamente e parou e observou a reação dos dois. Como esperado, Jane balbuciou algumas desculpas esfarrapadas, todas livrando Lisbon da responsabilidade ao passo que Lisbon assumiu a responsabilidade para protegê-lo, anunciando que estava preenchendo um pedido de desculpas. Aí estava a confirmação: Jane e Lisbon protegiam-se ferozmente e não havia nada que HighTower pudesse fazer para mudá-los. Então, quem sabe o caminho não fosse o de manter vigilância, deixando-os trabalhar como estavam acostumados. Ela percebeu que isso daria menos trabalho do que tentar controlar Jane ou pressionar Lisbon. '' – O caso foi resolvido?'' – ela perguntou cortando o discurso dos dois.

'' – Sim.'' – eles responderam juntos.

'' – Ninguém se machucou?'' – sua pergunta era quase retórica.

'' – Não.'' – Lisbon devolveu com firmeza.

'' – Então que se dane. O caso foi resolvido, a justiça foi feita. Continuem com o bom trabalho.'' – Madeleine concedeu a Lisbon um sorriso de reconhecimento, notando imediatamente os ombros dela relaxando assim como o rosto contorcido de Jane. Era isso. Ela nunca poderia controlar qualquer um deles, apenas dar alguma margem de manobra.

-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-

Meses depois de iniciar na chefia da CBI, Madeleine HighTower percebeu que estava lidando uma criança mimada: Patrick Jane. E também lidava com uma irmã mais velha chamada Teresa Lisbon. Era uma relação peculiar daqueles dois. HighTower já havia percebido que a dinâmica deles era única; uma dupla que excedia as expectativas quando se tratava de resolver crimes, a pena era que os casos resolvidos vinham acompanhados invariavelmente com dúzias de reclamações. Lisbon mantinha um controle relativo sobre as atitudes dele, quase sempre encobrindo suas travessuras, mesmo que sua carreira corresse risco. Se Lisbon não tomasse cuidado, se não fosse mais rígida, certamente perderia seu emprego. Em relação a Cho, Rigsby e Van Pelt, Madeleine notou que o envolvimento deles com Lisbon era de uma camaradagem, de uma lealdade raramente vista dentro da aplicação da lei. Formavam um grupo coeso, arrojado, focado. Seguiam a liderança de Lisbon sem pestanejar e tinham um carinho especial por ela. Semanas de observação deram a ela a certeza que a Unidade de Crimes Graves chefiada por Lisbon era implacável, unida e funcionavam como uma família.

E veio a morte da promotora assistente Kelly Flowers. Todos ficaram com os nervos à flor da pele, ansiosos para capturar o sujeito, uma jornada de vingança, mascarada sob a pífia justificativa de ''mandar um recado''. A equipe de Lisbon foi designada para o caso, e lógico, em três dias conseguiram prender um suspeito, contudo, na audiência de instrução, a advogada do suspeito Silvan desenterrou uma caneca com as digitais de Jane, pois claro, ele tinha que invadir a casa do culpado sem um mandado, fuçar nos objetos pessoais, descobrir que Silvan guardava os vídeos de seus crimes em seu computador, uma espécie de portifólio para seus potenciais clientes. Jane convenceu Lisbon a armar uma cilada para prendê-lo, que teria sido uma jogada inteligente, se não fosse a ilegalidade da busca de Jane. O caso todo desmoronou, e pelo que Madeleine soube, o promotor responsável, Marc, ficara uma fera, esbravejou com Lisbon e Jane em seu escritório, praticamente cuspindo as palavras. Consequentemente, Madeleine teria que tomar uma atitude, era uma ótima oportunidade de ensinar uma lição a Lisbon, Jane e à equipe.

'' – Pensei que confiavam um no outro.'' Madeleine iniciou a conversa em um tom correcional.

'' – Confiamos, temos muita confiança. Eu não disse nada para Lisbon porque sabia que ela podia ficar encrencada.'' Jane começou a justificar rapidamente, blindando Lisbon.

'' – Cala a boca Jane.'' – Lisbon sibilou baixinho, seu rosto contorcido de fúria.

'' – Que bela parceria temos aqui. Lisbon, está suspensa por cinco dias enquanto a unidade correcional analisa a situação.'' – HighTower manteve sua voz firme e fria.

'' – Opa, opa, a culpa foi minha, não dela.'' – Jane rapidamente tomou partido, puxando a responsabilidade para ele. Um fato inédito para HighTower.

'' - Essa é a situação da qual falamos Patrick. Lisbon é responsável pelos atos dos membros de sua equipe, inclusive você.''- ela foi incisiva, sem dar margem à qualquer brecha ou alívio de sua decisão.

'' – É só isso senhora?'' – a expressão entristecida de Lisbon era de cortar o coração, mas HighTower não poderia recuar, não poderia ceder aos rostos apelativos de Jane e Lisbon. Enquanto Lisbon caminhava rapidamente para a porta, Jane foi atrás dela, sussurrando desculpas, um outro aspecto surpreendente para HighTower. Ele estava sendo sincero, sua voz tremia um pouco de emoção e sua linguagem corporal era de uma pessoa que tinha plena consciência de que havia feito algo muito errado a ponto de prejudicar alguém muito querido. Era quase patético o modo com o qual ele correu atrás de Lisbon. HighTower chamou Jane de volta, e quando ele retornou, tinha um olhar sério e desafiador, demonstrando que não estava nem um pouco intimidado pela decisão dela. Ali, ela estava encarando um homem triste, em conflito, afundado em um mar de culpa e ódio de si mesmo, porém, naquele momento, ela também via um homem determinado a buscar justiça para sua chefe, ou melhor, para sua parceira e amiga a qualquer custo. Mesmo que ele não admitisse isso sequer para si mesmo. Madeleine ficou curiosa para descobrir o que Jane faria para livrar Lisbon da suspensão. Por isso, ela preferiu acompanhar tudo de longe, não interferindo na investigação de Cho e nas artimanhas de Jane. E ela ficou impressionada de como Jane armou tudo de modo a obrigar o promotor Marc se incriminar.

'' – Chamou senhora?''

'' – Sim, sentem-se. Eu só queria confirmar algumas coisas antes de tomar uma decisão.'' – ela olhou para Lisbon. '' – Você desrespeitou sua suspensão, encarou uma perigosa organização de criminosos sem reforço e fez parte da armadilha de Jane para incriminar Marc.''

'' – Sim senhora.'' – Lisbon respondeu baixinho.

'' – E você interrompeu deliberadamente uma audiência, quase anulando a sessão, agrediu um promotor público com o propósito de confrontá-lo para que confessasse o crime?''

'' – É...foi isso.'' – Jane, como sempre, permaneceu em sua pose de arrogância e desdém.

'' – Certo, ok. Podem ir.''

'' – Senhora?''

'' – A CBI esclareceu um crime contra um dos nossos, retirou de circulação um promotor corrupto. O Procurador Geral em pessoa acompanhará o julgamento dos Draybers. A CBI ganhou pontos, e a justiça foi feita.'' – ela levantou-se para ir embora, virando-se antes de sair da sala – '' – Ah, Patrick, o escrivão ligou; você deve 16 mil dólares em multas. É bom fazer um cheque.'' – ela disse divertida antes de sair porta afora. HighTower deixou o prédio da CBI satisfeita e esperançosa de que Jane finalmente tivesse aprendido a lição e colocasse a carreira de Lisbon em primeiro lugar. Era o mínimo que ela esperava dele.

x-x-x-x-x-x-xx-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x-x

Madeleine HighTower estava animada; pelo que ela havia notado, o último sacode que Jane levou ao provocar a suspensão de Lisbon surtiu algum efeito. Ele continuava a fazer suas peripécias, porém, com um pouco mais de tato e cuidado. Bem, ele irritou Bred Stilles da Visualize, contudo, o homem era um tanto intragável e presunçoso. Chegar no escritório dela com ameaças veladas sobre ele ter contato com um senador estadual só para tentar amedrontá-la não iria fazê-la mudar de posicionamento ou aplicar uma punição para quem quer que fosse. Ela conhecia os meandros da política, sabia muito bem como se defender e como se esquivar de um golpe como esse. Ademais, ela não vira nada de insultante no comportamento de Jane, pelo menos, não nesse caso. Ele apenas pressionou Stilles para que ele revelasse o paradeiro de sua seguidora que plantou uma bomba na casa de um importante empresário da mídia. Sinceramente falando, ela faria o mesmo, bom, com um pouco mais de tato e dissimuladamente do que Jane, mas ela agiria do mesmo modo.

E quinze dias depois, houve o caso do pobre Noah Valiket, gênio da matemática, assassinado por sua esposa Dafne por não querer entregar um aparelho de hacker universal. A mulher estava cega de ganância e queria receber o dinheiro a qualquer custo, inclusive a vida de seu marido. HighTower ficara impressionada como Jane auxiliou na investigação de Lisbon sem provocar qualquer confusão, exceto claro, pela quebra do aparelho que mostrou-se funcional e perigoso antes de devolvê-lo a Toman Butler que solicitou a criação do objeto para os maiores gênios da matemática.

No que concerne aos relacionamentos pessoais da equipe de Crimes Graves, Hightower estava tranquila; aparentemente, Rigsby e Van Pelt, mesmo tendo terminado seu caso amoroso, conseguiam trabalhar juntos e manter a produtividade em relação ao esclarecimento dos casos, investigação de campo e entrevistas com as partes envolvidas nos casos. Cho permanecia discreto quanto a envolvimento amoroso, mas HighTower achava que ele havia terminado um namoro há pouco tempo e estava solteiro. Jane estava sozinho, chafurdando em sua poça de tristeza e culpa; ele estava viúvo há pelo menos 7 anos e não dava sinais de querer seguir em frente, apesar de HighTower perceber que ele alimentava um carinho especial e profundo por Lisbon ao mesmo tempo que ele lutava para disfarçar seus olhares em direção a ela quando achava que ninguém estava olhando. E Lisbon, enfim, HighTower notou que pelo duas noites por semana, um sedã escuro com vidros escurecidos vinha busca-la e geralmente, no dia seguinte, Lisbon estava mais animada e com um brilho delicado em sua pele. Talvez ela estivesse saindo com alguém e com certeza, não era ninguém da CBI.