2ª TEMPORADA – EPISÓDIOS 22 E 23 – ''ISOLAMENTO''
OS DIÁLOGOS DESTACADOS FORAM RETIRADOS DA OBRA ORIGINAL, RESPEITANDO-SE OS DIREITOS AUTORAIS DE BRUNO HELLER E DA REDE CBS
Jane chegou ao escritório para mais um dia comum de trabalho, indo para a cozinha para fazer seu amado chá. Ultimamente, HighTower estava pegando menos no seu pé, consequentemente, menor aborrecimento para Lisbon. Ela ainda estava afundada na papelada burocrática da aplicação da lei e ele mesmo estava um pouco mais contido, pois da última vez que ele fez de uma de suas acrobacias, Lisbon foi suspensa e quase perdeu o emprego. Ele carregava muita culpa em suas costas, mais uma ele tinha certeza de que não aguentaria. E Lisbon era importante para ele; sua determinação de mantê-lo na linha, de direcionar seu talento nas investigações era adorável e o fazia se sentir um pouco mais vivo em seu mar escuro de desespero e melancolia. Jane simplesmente adorava quando ela fica brava com ele; seus olhos verdes brilhavam de raiva, suas sobrancelhas franziam tanto que praticamente se tornavam uma e seus lábios formavam um biquinho de contrariedade o que levava tudo dele para não pegá-la em seus braços e beijá-la até que o oxigênio fosse sugado dos seus pulmões. Suas mãos coçavam para percorrer o corpo esguio e discretamente musculoso dela. E todas as vezes que esses pensamentos o assolavam, ele sacudia a cabeça com força, pois ele não deveria deixar-se levar por essa fraqueza por Lisbon, por mais sensual e amável que ela fosse. Há algum tempo eles não jantavam ou almoçavam juntos, e ele sinceramente, sentia saudades do tempo deles juntos. Por isso, ele fazia de um tudo para ficar com ela em seu escritório, deitado em seu sofá, ouvindo o tec tec do teclado dela, enquanto Lisbon digitava furiosamente, elaborando seus inúmeros relatórios. Era um som tão agradável, tão calmante que ele acabava dormindo pesadamente, e seus pesadelos eram substituídos por sonhos acalentadores nos quais eles faziam amor e passeavam por campos verdejantes e tranquilos Era tão bom. O inconveniente era quando ele sonhava que estavam fazendo amor, seu pênis manifestava-se desconfortavelmente em sua calça, sendo Jane obrigado a cobrir o volume discretamente com seu paletó, torcendo para que Lisbon não levantasse a cabeça justo naquela hora.
Nas últimas três semanas, Jane era despertado do seu mundo calmante quando ouvia Lisbon ao telefone com alguém, e pelo tom meloso e sussurrante, provavelmente uma companhia masculina para a noite. E invariavelmente, depois desses telefonemas, ela rapidamente desligava o computador e saía apressada, ignorando totalmente sua presença no sofá dela. Então, ele despertava completamente, sentindo o aroma de seu perfume no ar, inspirando-o profundamente. Um furioso dragão mastigava suas entranhas, e, incomodado, ele saía da sala dela, rejeitando estar em um ambiente no qual ela não estava. Nessas oportunidades, nem seu chá trazia conforto. Logo, ele se via perambulando pelo prédio da CBI às escuras, tateando por um pouco de companhia. Em uma de suas andanças, ele subiu até o telhado e descobriu uma sala cujas janelas abriam-se para o parapeito, e ele ficou deslumbrado com a vista da cidade, iluminada como estrelas em um oceano de luzes. O sótão estava abandonado, com uns poucos móveis velhos e capengas. O lugar perfeito para ele se refugiar para pensar, estudar o caso Red John e prosseguir em sua vingança. E claro, um esconderijo para que ele pudesse acalmar o monstro ciumento que apertava seu estomago todas as vezes que Lisbon saía para seu encontro com o homem desconhecido.
Por sua vez, Lisbon estava contente por ter uma vida social como gente normal. Ela não queria que Jane descobrisse a respeito de seu amante secreto. Aliás, não era da conta de ninguém com quem ela estava saindo. Ela permitiu-se essa prerrogativa, um segredo guardado com muito esmero, principalmente de Jane. Lisbon gostava da distração, ela gostava de sentir desejada, adorada. Fora a oportunidade de poder enterrar seus estranhos e crescentes sentimentos que estavam surgindo em seu coração em relação a Jane. Ela não queria se afundar nesse poço inexpugnável de um homem eternamente casado com sua esposa falecida. Nada de bom sairia dali. Lisbon tivera sofrimento o bastante para deixar-se enredar em uma empreitada impossível. Jane nunca corresponderia a qualquer sentimento romântico de outra pessoa que não fosse para sua mulher morta. Era mórbido vê-lo afundando-se em dor e culpa. Nessa areia movediça ela não queria entrar.
Eles estavam em uma época de poucos casos, por isso, todos acabavam saindo do escritório no horário, contentes por não terem que ficar de plantão ou até mais tarde trabalhando. Enquanto isso, Jane estava ficando cada vez mais no sótão, meditando e olhando o brilho artificial das luzes da cidade. Em uma manhã tranquila, o telefone de Lisbon tocou. Ela gemeu ao reconhecer o número da central: um importante membro de uma organização que lutava contra o tráfico humano fora morto no hotel onde ele faria sua palestra. Hector Brava foi assassinado com vários golpes de extintor na cabeça. Jane observava atentamente a cena do crime, notando detalhes que nem Lisbon nem os policiais locais tinham visto. Ele achava que seria mais um caso chato envolvendo pessoas influentes quando soube pelo xerife que Kristina Fryer estava dando consultoria como vidente no caso. Ele abriu um largo sorriso, feliz pela oportunidade de confrontá-la de novo e quem sabe, finalmente, desmascará-la.
'' – Então, está com o xerife na palma da mão.'' – ele disse incisivo a ela à guisa de um cumprimento formal.
'' – O xerife Bakersield é um homem de mente aberta.'' – ela respondeu com muita calma, sorrindo para o xerife que se empavonou com o suposto elogio.
'' – Ah, ele também é um homem que assiste Tv com gato no colo, enquanto a mãe dele faz tricô. Mas isso ele quer manter em segredo.''
'' – Você disse que não era médium.'' – o xerife estava com o rosto torcido em contragosto.
'' – Ele é, só que não está pronto para aceitar.'' – Kristina interveio.
'' – Na verdade, você tem pelo de gato na roupa, tem cara de filhinho da mamãe, porém, se quiser acreditar que seu tio Harry sussurrou no meu ouvido, pode ficar à vontade.'' – Jane estava se divertindo muito em provoca-la, recebendo de Kristina um olhar de desaprovação.
'' – Não fica cansado do seu cinismo?'' – a voz dela apesar de suave, estava carregada de irritação.
'' – Às vezes, fico sim.'' – ele falou alegremente, balançando-se para frente e para trás, aparentemente esquecendo-se de Lisbon e do xerife que assistiam a discussão entre eles com olhares confusos. Lisbon decidiu encerrar o constrangimento do xerife, arrastando-o de lá, deixando os dois conversarem.
'' – Estou achando que você está bem.'' – ele comentou amigavelmente, desarmando Kristina de sua pose defensiva.
'' – Estou sim, obrigada.'' – eles olharam-se por alguns momentos, decidindo se continuariam ou não com a discussão; nesse interim, Jane percebeu que a graça de provocá-la estava acabando. Kristina despertava nele uma curiosidade intensa, de como ela conseguia manter seu negócio vidente por tanto tempo e não fosse uma pessoa vaidosa e arrogante como ele mesmo fora nos seus tempos de vidente. Kristina não, ela simplesmente emanava uma aura de tranquilidade, como se ela possuísse mesmo o dom psíquico . Baixando um pouco a guarda, ele a convidou para que caminhassem pelos jardins do luxuoso hotel.
'' – O que aconteceu Kristina, por que está trabalhando com a polícia? Pensei que fosse uma psicanalista espiritual, os clientes desmascararam você?'' – ele não resistiu a uma última cutucada.
'' – Ainda tenho clientes. Você não quer uma terapeuta?'' – Ela não perdeu o rebolado com as cutucadas dele.
'' – Ah, deixa eu pensar... Não. Ouvi dizer que psicanalistas se apresentam como doenças e suas curas, e além disso, vocês veem fantasmas.'' – ele respondeu melindroso, não deixando seu encantador sorriso sair dos lábios.
'' – Piadas reflexivas, sinal de alma conturbada.'' – ela não se deixou abalar por seu comentário sarcástico.
'' – Ficou entediada? Achou um jeito de ganhar dinheiro fácil?'' – o sorriso fácil saiu momentaneamente de seus lábios e ele olhou sério para ela.
'' – Não. Acho que nosso dom nos obriga a ajudar as pessoas.'' – ela respondeu simplesmente, como se isso fosse uma verdade conhecida por todos.
'' – Ah, gostei. Vou usar isso, ''nosso dom nos obriga a ajudar os outros.'' – Jane desdenhou, o sorriso largo de desdém voltando ao seu rosto.
Eles continuaram sua caminhada em um silêncio confortável. Jane percebeu que Kristina tremia levemente por estar ao seu lado. Ela era intrigante, intensa, insondável, e muito segura de seus ''poderes psíquicos''. Ele ficou impressionado em como ela mantinha-se totalmente crente de que ela realmente podia falar com os mortos. Lisbon os procurou para que pudessem entrevistar Wilza Brava, esposa do falecido; para Jane, era uma ótima oportunidade para afrontá-la com suas ''leituras mediúnicas''. A entrevista fora muito interessante; Jane circulou em todo o ambiente, observando todos os objetos como sempre fazia, enquanto Lisbon fazia as perguntas chatas e Kristina encenava seu contato ''com o outro mundo''. Ele sorriu levemente quando ela disse: '' – Seu marido disse que eu falar algo que fará você sorrir.. flor de cerejeira. Significa algo para você?'' , causando na outra um arregalar de olhos e uma expressão confusa. Ele balançou a cabeça de um lado para outro, resolvendo intervir e fazer pergunta que estava o incomodando: se ela ou se seu marido tinha sido infiel um com outro. Wilza ficou chocada com essa pergunta, colocando-se imediatamente na defensiva; o choque transformou-se em fúria quando Jane a provocou, insinuando que ela na verdade estava contente por seu marido ter morrido. O resultado foi um pires atirado que por pouco não o atingiu. Eles tiveram que sair às pressas, expulsos por Wilza. Kristina não resistiu em sorrir desdenhosamente para ele, contente por sua provocação quase ter causado um ferimento. Ela claramente estava se divertindo com o evidente constrangimento de Jane. E ele também. Era interessante o modo que ela via as coisas e como ela reagia; seu pulso acelerou um pouco quando ele parou para despedir-se dela; os olhos claros de Kristina perfurando-o intensamente, como se estivesse vasculhando sua mente, buscando o sentido dele ser tão descrente. Ele descobriu que era bom olhar para seus olhos, estudar seu rosto pincelado com fios cacheados de seu cabelo loiro, soprados pelo vento. A emoção que ele experimentou era infinitamente menor do que ele sentia em relação à Lisbon, mas em compensação, era um sentimento mais seguro, controlável, menos ameaçador. Durante o desenrolar do caso, Jane começou a prestar mais atenção na figura etérea de Kristina. Ele estava tão centrado em observá-la, que baixou sua guarda a ponto de Hightower ter percebido o explícito interesse dele para Kristina.
'' – Você gosta dela.'' – Hightower caminhava ao seu lado após terem acompanhado o depoimento de um suspeito do caso.
'' – Qual?'' – ele foi surpreendido, confuso de qual mulher que ela estava falando, já que Lisbon e Kristina estavam juntas. De repente, ele percebeu que os sentimentos que alimentava por uma ou pela outra eram totalmente diferentes.
'' – Aquela loira, e você gosta dela.'' – Hightower apontou com a cabeça.
'' – Não sei onde você quer dizer...'' – ele desconversou, aliviado que ela não tenha percebido suas profundas emoções quanto à Lisbon.
'' – Sabe muito bem o que eu quero dizer. Já pensou em namorar de novo?'' – Madeleine falou em um tom irritantemente maternal.
'' – O que? Como é que chegamos aqui tão rápido?'' – Jane rapidamente levantou suas barreiras de volta, um pouco tarde demais.
'' – Eu acho que seria bom...''- Hightower disse didaticamente, como se estivesse explicando a uma criança de sete anos porque 2 + 2 é igual a 4. Ela saiu para conversar com Lisbon, enquanto Jane deu uma desculpa qualquer para fugir da situação. Ele estava aguardando o elevador quando Kristina chegou ao lado dele, dando sinais de que o acompanharia à visita que ele pretendia fazer à Wilza. Eles foram no carro dele, tendo Kristina permanecido calada durante todo o percurso, perdida em pensamentos, olhando a paisagem pela janela, aparentemente alheia à presença dele ao seu lado. Jane, por sua vez, travava uma batalha interna em relação ao que Hightower havia dito; as palavras dela repetiam-se sem parar em sua cabeça : ''já pensou em namorar de novo?'' Desde a morte de sua esposa e filha, ele não se viu capaz de estar um relacionamento íntimo, nem mesmo com Lisbon. Na sua cabeça, ele não acreditava que era merecedor de qualquer tipo de felicidade depois de ter provocado a morte de sua esposa e filha. Como ele ousaria a ser feliz de novo sem ter se vingado da morte delas como havia prometido? Por outro lado, a solidão de tantos anos estava começando a incomodar. Ele estava cercado de pessoas felizes com seus parceiros e ele afundado em sua amargura. Talvez Hightower estivesse certa, talvez fosse mesmo a hora de começar a sair da concha e dar as caras para o mundo. Convencido, ele decidiu tentar viver e convidou Kristina para um café, logo após o caso ter sido encerrado. Ela ficou um pouco surpresa pelo convite, mas o dispensou de imediato, pedindo para que ele ligasse para ela para combinarem a saída.
Jane sentiu um frio na barriga, como se ele tivesse voltado à adolescência, ansioso para que o dia seguinte chegasse logo e então ele poderia ligar para Kristina. No outro dia, ele chegou ao trabalho um pouco aflito, olhando a hora de tempos em tempos, tentando calcular quando seria o melhor momento para telefonar para Kristina. Por fim, lá pelas dez da manhã, ele discou o número dela; no segundo toque, Kristina atendeu:
'' - Olá Patrick.'' - ela cumprimentou com uma voz sorridente, o que diminuiu consideravelmente o nervosismo de Jane.
'' - Olá Kristina, como vai?'' - ele lutou para manter a voz firme, afinal, fazia um bom tempo que ele ensaiava convidar uma mulher para sair.
'' - Vou bem.'' - Kristina manteve a mesma voz amável e acessível, como se estivesse incentivando-o a convidá-la.
'' - Bom, eu estava pensando. O que você acha de nós sairmos para jantar?''
'' - Eu acho uma excelente ideia!'' - Kristina demonstrou estar realmente animada com o convite. '' - Deixe-me ver minha agenda, um momento.'' - por alguns instantes, tudo que ele ouviu foi o farfalhar de papeis e páginas sendo remexidos. Logo ela voltou à linha. '' - Tudo bem se for depois de amanhã?''
'' - Sim, claro, com certeza...'' ele gaguejou um pouco. '' - Pego você na sua casa às 20, ok?''
'' - Combinado. Até lá Patrick.'' - ela mantinha o mesmo tom alegre e afável durante toda a ligação.
'' - Até mais.'' - Jane finalizou a ligação, sentindo um alívio e uma tensão ao mesmo tempo. A realidade do que acabara de fazer o chocou completamente. Ele, um viúvo solitário e amargurado, convidou alguém para um encontro. Um encontro. Imediatamente, ele pensou o que Lisbon acharia disto. Ele supunha que ela veria como uma boa coisa, uma chance dele deixar de ser obcecado por sua vingança. Porém, ele estava pronto para abrir mão de sua jornada? Ele conseguiria levar essa vida dupla, de envolvimento com uma mulher e sua busca implacável por Red John? Muitos fatores estavam em jogo, e nenhum deles poderia ser controlado por ele. Portanto, no dia acertado, Jane apareceu na casa de Kristina um pouco antes das 20 para pegá-la. Ele respirou fundo quando a viu: ela estava magnífica em um vestido de viscose estampado, um discreto xale para cobrir seus braços expostos por causa das alças finas do vestido. Ela havia prendido o cabelo em um coque deliberadamente frouxo, sendo que alguns fios de seu lindo cabelo loiro cacheado estavam seguros por pequenas presilhas com um toque de brilho. Jane teve que dar o braço a torcer que Kristina estava linda. Galante, ele deu o braço para acompanhá-la até o carro; ele escolheu um bom restaurante italiano, que tinha mesas no pátio exterior do estabelecimento, um lugar apropriado para casais conversarem mais à vontade. Liberto da preocupação inicial, Jane pode engatar uma conversa agradável com Kristina durante todo o jantar, fazendo-a rir abertamente com sua história de prisão por ter grampeado ilegalmente Bosco e sua consequente fuga da cadeia. Estava tudo indo bem, quando uma sombra de culpa pousou em sua mente. Jane fitava Kristina exultante de alegria e de repente, um familiar peso na consciência surgiu; sua respiração estava começando a ficar difícil e curta e antes que tivesse um ataque de pânico na frene dela, ele saiu rapidamente da mesa, anunciando que iria até o banheiro.
Dentro do toalete masculino, ele se permitiu soltar a respiração ofegante, percebendo que seu coração estava batendo muito rápido. Aflito, ele andou de um lado para outro, martelando o porquê ele estava ali, em um encontro com uma mulher, da qual ele estava começando a gostar, enquanto Red John estava solto. No que ele estava pensando? Nem por um minuto ele parou para refletir as consequências de manter um relacionamento romântico com Kristina, com Red John aficionado por ele. Certamente ela estaria em perigo real; convidando-a para sair, toda essa coisa de encontro e de namorar de novo fora um erro gigantesco, uma falta de responsabilidade. Por que ele se deixou levar por essa leviandade? Como ele achou por um minuto que era merecedor de algum tipo de felicidade?
Ele saiu do banheiro decidido a esclarecer as coisas com Kristina, dizer a ela que ele não era um homem disponível, pois seu passado sangrento o perseguia. Contudo, antes mesmo dele começar a falar, recebeu uma ligação de Van Pelt, pedindo para que ele voltasse ao escritório o mais rápido possível. Raramente era pedido para ele voltar, então isso só poderia significar uma coisa: Red John matou de novo. Calado por motivos totalmente diferentes do que quando ele foi buscar Kristina, ele digiriu à CBI transtornado e profundamente preocupado. Ele não queria nem começar a imaginar o que acontecera desta vez. Na sede da CBI, ele encontrou Lisbon, Rigsby e Van Pelt em volta do computador de Van Pelt, assistindo embasbacados um vídeo aterrorizando de uma jovem sendo morta em sua cama e o símbolo de Red John pintado na parede, o que serviu para confirmar seus medos: relacionar-se com Kristina a poria em um perigo desnecessário. Portanto, quando ele notou os sinais dela de que queria participar do caso, ele puxou Hightower de lado, ameaçando demissão caso ela autorizasse Kristina de colaborar no caso. Ele não se preocupou em ser sutil, evidentemente falando em um tom de voz para que Kristina pudesse ouvir; seu plano deu certo, pois ela educadamente retirou-se da CBI e do caso, despedindo-se dele no elevador com doçura, dando-lhe um beijo no canto de sua boca, mostrando que ela não guardava ressentimentos por ele ter manejado os fatos de modo que ela estivesse envolvida no caso.
Aliviado por Kristina ter saído da investigação, ele acompanhou Lisbon na manhã seguinte na visita à universidade onde Marley Sparow estudava, em cujo dormitório ela fora morta tão brutalmente. Apesar de todos os sinais clássicos de uma cena de crime de Red John, ele pressentia que algo não estava certo, como se estivesse faltando uma peça do quebra-cabeça que ele conhecia tão bem. Jane não disse nada à Lisbon, para não afligi-la sem necessidade. Primeiro, ele reuniria todos os pedaços para depois dar a ela uma suspeita mais viável do que um simples palpite. Tratar com Red John exigia esse tipo de cuidado. Eles estavam no O'Malleys, tomando uma bebida após o expediente e comentando sobre o caso, quando a aparição de Kristina na TV, dando uma entrevista sobre Red John, chamou-lhe a atenção. Depois de tudo que ele fizera, lá estava ela colocando-se na mira de Red John, assim como ele fizera há tantos anos atrás. Um pavor aterrorizante e cortante tomou conta dele, fazendo-o sair da mesa sem se despedir dos outros.
No dia seguinte, na sala de Hightower, ele não escondeu seu desassossego pelo que Kristina havia feito; o que mais o irritava era que ela agia como se não tivesse feito nada além de atender a um velho cliente. Ela não enxergava as terríveis consequências de que seus atos poderiam trazer. Ela ignorou todos os avisos desesperados de Jane, dispensando qualquer tipo de segurança policial; por insistência de Jane, Hightower providenciou uma vigilância com a equipe de Lisbon e alguns policiais da SACdp. O caso Marley continuava se desenvolvendo, apesar de Jane no momento estar pouco concentrado; tudo o que ele queria era proteger Kristina a qualquer custo. Acabaram os risos fáceis, a sensação de bem-estar de estar ao lado dela. Só o que sobrara era um medo imenso de que a cena que ele vira há tantos anos fosse se repetir com Kristina. Ele mal conseguia disfarçar seu receio, não escondendo seu aborrecimento com que ela havia feito. Como ela podia ter sido tão imprudente? Conhecendo a história pessoal dele, e mesmo assim, acreditou que aconselhar um serial killer na TV, em horário nobre, não causaria nenhum problema. Vendo a serenidade dela, Jane começou a pensar se não estava mesmo exagerando, que Red John não se ofenderia com o discurso dela na televisão; porém essa frágil esperança caiu por terra quando Lisbon recebeu um telefonema do FBI, relatando a morte estilo Red John da reporter que entrevistara Kristina na noite anterior.
E aí estava; ele tinha razão. Por um maldito momento, Jane desejou estar errado desta vez, porém a verdade o esbofeteou seu rosto sem piedade, sem trégua. A magnitude disso tudo estava causando-lhe arritmia e seu temperamento fugira totalmente do controle, a ponto dele discutir muito seriamente com Kristina, mesmo não querendo ofendê-la, mas protegê-la. A noite depois que ele saiu da casa dela depois da briga foi passada praticamente em claro. Desta vez, não eram seus velhos pesadelos com esposa e filha mortas, tampouco com os mais recentes de Lisbon ser encontrada estripada sob o símbolo de Red John em sua cama, eram sonhos atormentados por imagens de Kristina sendo retirada por uma força invisível da segurança de sua casa e ele ser incapaz de impedir. Os dedos dela escorregavam de sua mão e ela era sugada para um vórtice de sangue e morte, pedindo desesperadamente que ele a salvasse.
No dia seguinte, ele estava péssimo, a roupa um pouco amassada, os cabelos porcamente penteados e barba por fazer. Agora que ele tinha esfriado um pouco a cabeça, se arrependia de ter gritado com Kristina, de ter saído da casa dela de maneira tão bruta e insensível. Era claro que ela estava com medo, contudo, ela tinha que manter a pose de forte, por que senão, como ela poderia continuar vivendo olhando pelo ombro todas as vezes que saía de casa. No fundo, ela era mais corajosa do que ele próprio. Por isso, quando Lisbon o aconselhou a ligar, ele não teve dúvidas, discando ansiosamente o número dela, para ser atendido pelo outro lado da linha por uma Van Pelt com voz de cansada. Todavia, seu mundo desabou completamente quando descobriram que Kristina não estava em casa, que havia sumido. O que ele mais temia aconteceu: Red John a levou. Ele só não sabia se fora por causa do que ela disse na TV ou por que eles haviam saido juntos para jantar e de alguma forma, Red John descobrira; contudo, o motivo não importava realmente. O fato era que Kristina estava nas mãos de um serial killer, sofrendo sabe-se lá que tipo de tortura ou sofrimento.
E seu encontro com Red John em um hotel abandonado, onde uma dupla de estudantes sádicos e idiotas queriam encenar seu filme macabro, manipulando o pobre Wesley para matar Jane, em uma reverência deturpada ao assassinio em série mais perigoso e cruel da Califórnia. Jane ouviu estarrecido os tiros que soaram pelo ambiente, um atingindo Wesley na perna, outro ferindo mortalmente Dylan no peito e o último, incapacitando Ruth, permitindo que Red John se aproximasse e a matasse do modo que ele mais gostava: estripando-a com várias facadas. Para encerrar essa reunião apavorante, Red John aproximou-se de Jane, recitando a estrofe de um poema:
'' - Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?''
Sua voz era fria e cruel; mesmo usando máscara, Jane podia sentir em seu rosto as baforadas de seu hálito perverso, um tom horripilante de divertimento ao dizer:
'' - Kristina mandou lembranças. Apesar de suas diferenças, ela tem um grande por você.''
Ali estava a terrível confirmação: a doce e meiga Kristina estava nas mãos desse louco homicida que tirara tantas vidas. Mais uma vez, Jane foi responsável por causar sofrimento e morte: sua esposa e filha; Bosco e sua equipe e agora, Kristina. Que assustadora sina recaía sobre ele? Será que nunca mais ele poderia ter uma vida normal? Será que ao menos ele merecia viver depois de ser a causa de tanta dor? Certamente que não, ele não era digno sequer de estar no mesmo ambiente de pessoas boas, como Lisbon e sua equipe. Seu mau agouro poderia contaminar essas pessoas que tornaram-se tão importantes e queridas por ele. De agora em diante, ele manteria distância deles, ajudaria eventualmente nos casos, mas sua prioridade seria buscar e matar Red John a qualquer custo, mesmo que fosse sua vida.
