Ela sorriu ao vislumbrar a ilha há alguns metros de distância do navio. Os longos fios azuis eram bagunçados graças a forte ventania, contudo a princesa Vivi não se importou, limitando-se a colocar uma mecha de seu cabelo atrás da orelha. Debruçada sobre a proa, estava ansiosa para aterrissar em terra firme.

Enquanto planejava a sua fuga perfeita, a futura rainha de Alabasta chegou a considerar a desistir daquele plano absurdo. Muita coisa poderia dar errado, no entanto, para sua felicidade isso não chegou a acontecer e agora estava ali, sem que qualquer um dos guardas imperiais soubessem. Ela devia isso a lealdade inestimável de Rebecca, que a garantiu que ninguém iria encontra-la na ilha Delta, se dependesse da própria.

—Nós já estamos chegando, Karoo. — sorridente, ela abraçou o pato com força e o beijou na touca algumas vezes. Era maravilhosa a sensação de estar em alto mar depois de tanto tempo. Sempre se lembraria com carinho da época em que estava disfarçada como agente da Baroque Works, graças a isso havia conhecido pessoas incríveis e se divertido muito.

Meneou a cabeça, tentando ignorar aqueles pensamentos nostálgicos. Era questão de tempo até reencontrar o seu bando pirata; tinha cem por cento de certeza que Luffy estava naquele festival, então, só lhe restava procura-lo.

Bom, pelo menos depois de ela explorar sozinha a ilha, é claro.

—Eu não acredito nisso. — vibrou, batendo palmas.

Ela seguiu viagem com o navio oficial do país desértico até uma ilha próxima e desembarcou discretamente. Após isso, conseguiu convencer um grupo de piratas a lhe dar uma carona até a Delta.

—Muito obrigada pela carona, Khalil-kun.

—Disponha, princesa. — o capitão dos Piratas Ursos sorriu para ela. — Por falar nisso, não está preocupada que alguém possa reconhece-la nesse lugar? A Ilha está repleta de piratas e de criminosos que escaparam de Impel Down...

Ela gesticulou com a mão, indiferentemente.

—Eu ficarei bem. Tenho amigos incrivelmente fortes que irão me proteger. — replicou, confiantemente. Ela apostava todas as suas fichas nos seus companheiros. Podiam ter se passado alguns anos desde a última vez que se viram, mas ela sabia que eles jamais iriam deixa-la na mão. Eram sua segunda família. — E além disso, eu tenho o Karoo, não é mesmo?

O pato grasniu com pouca confiança e ela limitou-se a rir.

—De qualquer forma, muito obrigada.

—Se precisar de alguma coisa, você pode contar com a gente, Vivi-chan.

Vivi balançou a cabeça afirmativamente e em tom de brincadeira fez uma pequena continência para o capitão pirata que sorriu largamente.

Momentos depois, finalmente os tripulantes – e os passageiros – desembarcavam em Delta. A princesa ajudou Karoo a descer e então montou no pato, desaparecendo da vista dos Ursos.

Ela estava genuinamente deslumbrada. Para todos os lados que olhasse, tinha piratas medindo a força através da queda de braço, jogando dardos ou até mesmo enchendo canecas gigantes com cervejas. Havia muita cantoria e gritaria misturadas ao som inconfundível de gargalhadas histéricas. Era um clima muito bom e agradável.

Vivi passou por uma trilha que estava cheia de motéis com placas exageradas e brilhantes, e diversos bares com música ao vivo e strip-tease. Até aquele momento ela não observou uma câmera que fosse pelas redondezas, mas não ficou surpresa, afinal era um festival de pirata feito para pirata, certo?

Karoo grasniu algumas vezes, igualmente deslumbrado.

Deixou a área dos motéis, chegando até a área dos hotéis e seguiu até o hotel de nove estrelas, descendo do pato em um pulo.

Assim que adentrou o hall, a caminho da recepção, reconheceu alguns piratas famosos: a tripulação do ex-principe Cavendish do Bourgeois Kingdom; o shichibukai Buggy seguido por uma mulher extremamente bela de cabelos escuros...

Os olhos da princesa arregalaram-se. Espera, aquele cara ao lado do Buggy era... O Mr. 3? Ele ainda estava vivo durante todo esse tempo? Questionou-se, incrédula e rapidamente desviou o olhar para não levantar suspeita. Ela sabia que o chapéu pirata espalhafatoso que usava não era necessariamente um ótimo disfarce, então, precisava ser a mais discreta possível.

Virou-se para a recepcionista, uma mulher mal-encarada cheia de tatuagens e piercings no rosto, que tinha os cabelos curtos em estilo militar e pediu a maior suíte que tivesse. Não porque pensava no seu conforto, mas também por Karoo. Ele merecia uma recompensa decente pela maluquice em que ela o havia enfiado. Sabia que o companheiro estava preocupado e tenso desde que deixaram o navio dos Piratas Ursos.

—Está com alguma tripulação pirata? — a recepcionista questionou, mastigando um chiclete.

—Sim. A tripulação dos Piratas Ursos. — apressou-se em dizer nervosamente, estava com um friozinho na barriga e não sabia dizer se isso era bom ou ruim.

A recepcionista anotou algo no computador, em seguida Vivi realizou o pagamento da estadia e seguiu rumo ao elevador, acompanhada por Karoo. Ela pretendia aproveitar a ilha ainda naquela mesma noite e talvez experimentar alguns drinks. Já fazia algum tempo que ela pensava em um barril cheio de hidromel, sempre comentado por Pell e Chaka.

Já no décimo quarto andar, deixou o elevador e caminhou até o seu respectivo cômodo.

—Você não vai querer ir comigo, vai, Karoo? — o pato negou e ela sorriu. — Eu já imaginava.

Sentada na cadeira de frente para o palco, a mulher de luxuosos cabelos azuis bebia um pouco de sakê, assistindo com encanto, a performance de uma famosa cantora do South Blue. Ela tinha uma voz angelical e cantava uma música sobre coração partido.

Vivi podia escutar alguns piratas chorando desesperadamente, cantando o refrão da música acompanhando a artista, que sorria melancolicamente para eles. A melodia era delicada e era simplesmente impossível não se emocionar.

Ela respirou fundo, após outro gole do sakê e então levou um punhado de camarão até a boca. O bar possuía uma decoração simples e aconchegante, divergindo das demais extravagancias da ilha. Vivi sentia-se bastante relaxada ali...

—Esse é o único lugar em que eu esperava encontra-la novamente, princesa Vivi.

Os olhos arregalaram-se em descrença e a mulher deixou alguns camarões caírem sobre a mesa, sentindo um estranho calafrio percorrer seu corpo. Lentamente ela virou o corpo, sentindo a boca entreabrir-se involuntariamente.

—Crocodile?

O ex-shichibukai sorriu cinicamente, com o inseparável charuto entre as mãos.

—Você ainda se lembra do meu nome. Me sinto lisonjeado.

Vociferando a mulher de cabelos azuis ergueu-se subitamente da cadeira, indignada.

—O que quer aqui seu maldito?

—Acredito que sou eu quem deveria lhe perguntar isso — ele fez uma pequena pausa, encarando-a da cabeça aos pés antes de se afastar lentamente. — Não precisa ficar nervosa, princesa, eu não tenho mais nenhum interesse no seu país medíocre.

Ela fechou as mãos em punho e ele virou de costas para ela, caminhando até a parte mais afastada e escura do clube.

—Eu estou aproveitando as minhas férias.

Até porque ele sabia que logo logo a marinha voltaria a caçá-lo.

Vivi o fitou, tremulamente e então voltou a pegar a garrafa de sakê, bebendo um grande gole em meio a suspiros.