Sentado próximo ao seu ex-agente mais leal e prestativo da organização, o ex-shichibukai observava, incapaz de desviar os olhos, a princesa Nefertari dançar ao longe. Ela movimentava agilmente os quadris, jogando os fios azulados para os lados e girando com o véu.

Ela usava uma roupa típica de odalisca e tinha a cabeleireira azulada livre do seu inseparável prendedor. Vivi dançava com uma naturalidade fascinante, impossível de se ignorar por ínfimos segundos que fossem.

Crocodile deu outro trago em seu charuto, sorrindo debochadamente ao vê-la parar de dançar subitamente, encarando-o com perplexidade e até certo constrangimento.

Daz Bones, o mr. One, tinha sugerido aquele local para que pudessem conversar privativamente sobre as informações acerca do tesouro do falecido rei dos piratas.

Aquele local era perfeito para a discussão, pois, segundo Daz, os piratas e criminosos ali presentes estavam mais concentrados nas dançarinas do que nas conversas paralelas. Ninguém iria prestar atenção neles ali.

Mas ironicamente era o ex-presidente da Baroque Works que não conseguia se ater inteiramente ao assunto discutido. Ele estava fascinado com a forma que Vivi dançava, tão livre e desinibida.

—Você não está me ouvindo.

Crocodile sentiu o sorriso arrogante em seus lábios alagar-se ainda mais, quando Vivi decidiu, aparentemente desconcertada, dar-lhe as costas para poder dançar à vontade.

—Repita. — seu tom de voz era imperioso, o que não incomodava Bones. Ele já estava acostumado ao ex-chefe e o respeitava.

Os olhos violetas encaravam-no, por cima do ombro, e ele desviou os olhos dela brevemente para fitar Bones.

—Eu escutei um boato de que o tesouro do Roger pode estar nas profundezas da ilha.

—Não ficaria surpreso se isso fosse verdade. Seria a única forma de garantir que o Barba Branca ou qualquer outro usuário de Akuma no Mi não colocassem as mãos sobre ele. — analisou objetivamente a situação.

Roger era um filho da puta inteligentíssimo, isso Crocodile reconhecia abertamente. Diferentemente de Edward Newgate, o falecido rei dos piratas nunca demonstrou interesse em comer uma fruta do diabo, e tampouco precisava disso. O cretino era mesmo incrivelmente forte.

Com uma Akuma no Mi, Roger provavelmente seria muito mais forte e poderoso que o próprio Kaido. Seria invencível.

—Nenhum de nós dois pode mergulhar, então, como você pretende colocar as mãos no tesouro?

— Quanto a isso, não precisa se preocupar. Eu tenho um otário em mente. — afirmou. — Tudo o que você precisa fazer agora é descobrir se existe algum mapa com a localização do maldito tesouro.

—Hai. — assentiu o Mister One, e então voltou sua atenção para o local para que Crocodile tanto encarava. — Aquela ali não é a princesa Vivi de Alabasta?

—É ela mesmo. — confirmou, gesticulando para que um garçom se aproximasse. Pediu duas garrafas de sakê e outra de rum. Os seus olhos procuraram, novamente, o corpo feminino da jovem mulher.

Daz Bones apenas meneou a cabeça, encarando-a com sua habitual inexpressividade.

—O que será que ela está fazendo aqui? Será que está com a tripulação do Chapéu de Palha?

—Acredito que não. Essa pirralha sempre foi meio louca.

Mister One concordou com um aceno de cabeça.

Minutos depois, o garçom retornava trazendo as bebidas para a dupla. A música foi substituída por outra, ainda mais agitada, e as dançarinas direcionaram-se até o meio da pista. Crocodile acabou, para sua lamentação particular, perdendo a princesa Vivi de vista naquele momento.

Após trocar de roupa dentro do banheiro feminino, Vivi deixou o local. Karoo ainda não tinha aparecido, mas ela sabia que ele deveria estar descansando em algum lugar fresco e, portanto, não se preocupou de imediato.

Mas que merda foi aquela, Vivi? Questionava-se mentalmente. Por que você continuou encarando aquele ser desprezível e miserável?! Por que não foi embora de uma vez? Repreendeu-se, entre uma bufada e outra.

Passou em um segundo bar, somente para comprar uma garrafa de sakê e então começou a andar despreocupadamente pela ilha, até avistar um cassino. Sem nada a perder, a princesa decidiu jogar um pouco.

Acabou faturando pouco mais de duzentos mil berries durante as partidas e radiante com as suas sucessivas vitórias, foi as compras novamente.

Ela andou de Yagara Bulls, e quando já estava consideravelmente cansada, retornou para o hotel.

Estava se aproximando do elevador, quando notou, horrorizada, a presença de mais dois ex-agentes da Baroque Works: o Mister Five e a Miss Valentine, os desgraçados responsáveis pelos incidentes na Ilha de Caçadores de Recompensa e depois em Little Garden. Ela engoliu em seco e prendeu a respiração, tornando a esconder os cabelos no chapéu de pirata espalhafatoso que usava. Ela, então, ajeitou a roupa que usava e abaixou a cabeça, caminhando nervosamente em direção ao elevador.

—Isso não vai funcionar. — a voz do maldito ex lorde do mar voltou a assombrá-la, e Vivi manteve inexpressiva, acelerando o ritmo dos seus passos. — Ainda dá para ver o seu rosto, Miss Wednesday.

Será possível que aquele idiota a havia perseguido até ali? Indignada, Vivi deixou de andar e se virou para encará-lo.

—O que você pensa que está fazendo me seguindo até aqui? O que pretende com isso? Achei que tivesse sido clara quando o mandei ficar longe de mim.

—Nós estamos hospedados no mesmo lugar, pirralha. Não fique se achando.

Ela piscou os olhos, encarando-o seriamente e Crocodile sustentou o olhar cínico. Vivi mordeu a boca com força e resmungando, esperou as portas do elevador se fecharem. Ela com certeza não precisava ficar no mesmo cubículo metálico com três assassinos perigosos e altamente procurados pela marinha...

Embora, na verdade... Estivesse mais preocupada com a presença constante do ex-shichibukai. Ela não gostava absolutamente nada do formigamento na pele que sentia quando estava perto do dito cujo.

As portas do elevador se abriram e ela apressou-se, ignorando o desgraçado que seguia atrás de si com um sorrisinho irritantemente bem humorado nos lábios. Ele claramente estava adorando todas aquelas coincidências.

O problema era que, Vivi estava começando a acreditar que talvez não fossem tanta coincidência assim. Aquele ser odioso provavelmente estava planejando alguma coisa maligna.

—Não precisa ter medo, princesa.

—Medo? — as portas do elevador de ouro maciço se fecharam a sua frente. — Quem disse que eu tenho medo de você? — ela mantinha a cabeça erguida para encará-lo.

Isso era admirável.

Incrivelmente insano, mas admirável.

—Eu não tenho medo de você. A única coisa que eu sinto por você é desprezo e nada além disso.

—Não era o que parecia com você dançando daquele jeito no pub árabe...

Vivi arregalou levemente os olhos, surpresa com a insinuação e desviou os olhos, apertando inutilmente o botão do elevador, torcendo para que mesmo fosse magicamente mais rápido.

Crocodile riu antes de desaparecer do elevador, deixando-a sozinha e Vivi praguejou.

—Maldito! Que ódio! — respirando fundo, ela esfregou o rosto entre as mãos.

As portas abriram-se no seu respectivo andar e Vivi apressou os passos até o seu quarto. Para sua surpresa, Karoo estava deitado no sofá, dormindo serenamente.

—Ah, Karoo, não acredito que você voltou para o hotel sem me avisar. — disse em voz baixa, para não acorda-lo.

Ela retirou os sapatos que usava e jogou-se na cama.

—Como aquele maldito se atreve a insinuar que eu estava dançando para seduzi-lo?! — perguntou, trincando os dentes em fúria. — Desgraçado! — ela se virou de um lado para o outro, sem conseguir dormir e agarrou-se aos travesseiros.

Ela jamais seria capaz de sentir algo por aquele homem além do nojo e desprezo. Realmente o abominava de todas as formas. Crocodile era desgraçadamente repulsivo. E nada iria fazê-la pensar diferente.

Ela virou-se para o outro lado, bufando, esperando o sono vir.

Em seguida, puxou a coberta até a altura do seu pescoço e fechou os olhos.