Meu Anjo Negro, Sexy e Drogado

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Capítulo Vinte e Oito

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Home Sweet Home

Parte II

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Normalmente nós pensamos que as coisas irão se esclarecer, que tudo se tornará límpido como água. Porém, devo salientar que dificilmente a vida parece ser racional. Simplesmente esquecemos que antes de sermos humanos, somos meros animais.

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01 de Abril de 2009

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- Você está bem? – Sai perguntou, a entonação aguda da sua voz não parecia normal. – Faz três dias que você não vem à escola, isso não me parece certo, Sakura.

O que eu podia lhe dizer? Minha mãe havia acabado de morrer, eu estou em casa sozinha com uma criança e grávida de outra. Tenho total fé de que alguém quer o meu pescoço e nada do que eu faça parece ser suficiente para me proteger do mundo e de mim mesma. Eu gostaria de dizer ao Sai que tudo está muito bem, e que foi um grande mal entendido. Akane não estava morta, tampouco Mikoto, eu apenas tinha dormido e acordado em um universo paralelo.

De qualquer forma, eu não posso. Por mais que minha imaginação seja fértil, eu não vejo nenhuma saída além de fugir. E não obstante de todas as coisas que eu vi e senti, nada parece real. Eu não consigo assimilar, ou chorar quando olho para um bebê de poucos dias que acabou de sair do hospital e que agora está brincando com seu cobertor na minha cama. A coisa em si é grande demais para mim.

Touya não deu nenhum sinal de vida até então. Eu tenho o número do tão famoso Lucca e estou sem ideias do que fazer sobre ele. Possivelmente era o apocalipse acontecendo, porque eu não posso estar grávida. Grávida e com uma corda no pescoço. Eu estou tão, tão ferrada e Sai, do outro lado da linha, está aflito com o meu desaparecimento e tentando me dar suporte. Eu gostaria que somente isso bastasse.

- Eu estou bem, Sai. Não se preocupe. – Menti. – Você, melhor que ninguém, sabe que eu me recupero rápido.

- Certo. – Ele suspirou. – Sei que não quer falar sobre isso, mas eu estou aqui.

- Ok.

Depois disso ele desligou e eu fiquei olhando embasbacada para o teto do meu quarto. Dizem que negação é um dos sete estágios da morte, e me pergunto se incredulidade também está entre eles. É completamente estúpido da minha parte, mas eu não deixo de me questionar sobre isso. Todas as pessoas tem aquele desejo de ter sua vida escrita e relembrada como algo importante. Desde sempre, eu encarei minha própria vida como uma aventura, para que assim eu não me desesperasse e continuasse a procura do meu final feliz. O que quero saber é se isso tudo valeu a pena, ou valerá a pena? Eu não estou mais sozinha nos delírios de aventura da minha mente. Há meu irmão, e por Deus, há também... Meu filho.

Mikoto disse em sua carta de despedida que Mai é bipolar. Ao contrário da minha mãe biológica eu não tenho esse complexo, todavia, isso não me impede de tê-lo alguns anos no futuro. A biologia me ensinou que nem todas às doenças mentais são passadas de pai para filho. Uma parte de mim borbulhava querendo saber se foi a bipolaridade que fez Mai surtar e falar coisas horríveis para mim em Veneza, ou então tentar se aproximar de mim quando voltou. A resposta é obvia, mas não quero aceitá-la.

Estava acontecendo o mesmo que Sasuke encadeou. Ele fez coisas estúpidas, houve o tempo distante e depois a reaproximação, ele se redimiu. Por mais que eu negue, eu quero que Mai também faça isso. E Touya. Às vezes é melhor não ter pais a ter pais como eles, contudo essa coisa humana de pensar positivo mesmo estando no fundo do poço parece nunca acabar.

Hiro começou a chorar. Rolei na cama e o puxei para um abraço. Ele deveria estar com fome. A pediatra me prescreveu um leite especial, já que ele não teria uma mãe para amamentá-lo. Essas são nossas primeiras horas sozinhos, e levando em consideração que eu provavelmente serei a pessoa que cuidará dele pelo resto da vida, seria interessante que eu aprendesse como fazer isso a partir de agora.

Peguei-o no colo e me arrastei para fora da cama. Kakashi estava passando mais tempo na casa da sua namorada do que no apartamento. Para ser sincera parecia que apenas Sasuke e eu vivemos aqui. Isso era outra coisa que me assustava. Sendo pessoas que fugiram a vida inteira de compromissos, e com plenos dezoito anos estar supostamente se unindo com a bênção de Deus, ou o que quer que seja, a situação tinha ficado mais séria do que eu imaginei ser possível.

Ele havia me pedido em casamento. O mesmo pirralho que vivia enchendo o meu saco e me chamando de irritante. Eu sempre odiei a forma como as pessoas vêm duas crianças brigando e dizem que eles vão se casar um dia. Pelos céus, isso está acontecendo comigo agora. Quem quer que tenha sido louco o suficiente para criar a humanidade deveria ter uma mente insanamente criativa ao gerar cada mera coincidência.

Coloquei o bebê no carrinho e o deixei perto da pia, enquanto esquentava o leite e fazia algo para comer. Eu tive uma conversa com Sarutobi-sama e ele concordou em me mandar o conteúdo das aulas por e-mail, e como meu trabalho de conclusão já estava praticamente finalizado, eu irei terminá-lo e mandá-lo para que eu ganhe meu diploma. Tente conciliar isso com seus planos de se manter inteira.

- Hei, não chore. – Falei para Hiro. – Você quer que eu te conte uma história? Okaa-san sempre disse que eu tenho imaginação fértil.

Os olhos verdes e brilhantes dele pareceram se iluminar, então eu o peguei nos meus braços colocando o bico da mamadeira em sua boca. Pergunto-me se ele sente falta de Akane, afinal, ela é a única pessoa que ele conhece de verdade. Algumas mulheres dizem que o bebê compreende quem é a mãe desde que se forma no seu útero. Gostaria de saber se ele sentiu todas as coisas que ela sentiu nesses últimos nove meses. E como era estar no braço de uma completa estranha agora.

- Okaa-san era muito corajosa. – Murmurei para ele. – Ela protegeu a gente até a sua morte, isso é grande Hiro. Ela é quase uma super-heroína. Quando você crescer vai ter muito, mas muito orgulho de ser filho dela.

Foi aí que os malditos hormônios me fizeram chorar. Meu irmão parecia querer dizer alguma coisa, suas mãos minúsculas encostadas no meu seio e os jades dos seus olhos direcionados aos meus. Era a coisa mais fofa do mundo e eu sabia que tinha que me manter inteira por ele. Essa é a primeira vez na minha vida que eu tento ser forte por alguém que não sou eu.

- Nee-chan vai cuidar de você, eu prometo. – Esfreguei meu nariz no seu, em um pequeno beijo de esquimó.

Eu suspirei, vendo-o sorrir. Talvez existisse meia dúzia de coisas boas nesse mar de infelicidade. Poucos minutos depois de eu ter alimentado Hiro e ele estar dormindo no seu carrinho, comigo deitada no sofá quase dormindo, a porta da frente se abriu. Levou pouco tempo para reconhecer às vozes de Sasuke, Naruto, Hinata e Madara.

A primeira coisa que Hinata fez quando me viu, foi me abraçar. Não conseguimos nos ver direito nos últimos dias. Havia muitas pessoas correndo atrás de todos nós por informação. Além disso, eu ainda estou com medo de que algo aconteça com ela e Naruto caso se envolvam. Meu amigo já levou um tiro, e no fundo eu acho que tenho culpa nisso, não diretamente, mas ainda chega a afetá-lo. Eu nunca tinha sentido tanto medo com tanta frequência.

- Diga-me o que descobriu. – Madara disse sério, sem qualquer cumprimento. Eu sabia o que ele estava sentindo. Depois de tanto tempo, ele tinha uma verdadeira pista sobre o assassinato da sua irmã.

- A história da união das quatro famílias, a origem das empresas H&U. – Falei. – Mikoto sempre dizia que o primeiro lar dos Uchiha foi à Ala 18, Bloco 14, Casa 46. Ela e Akane escreveram uma coisa em comum para mim: 18a 14b 46c. Não pode ser uma mera coincidência.

- A casa foi destruída um ano antes de você... – O Uchiha mais velho deu de ombros, um tanto evasivo sobre meu passado.

- Eu sei, lembro que vocês dois ficaram indignados quando ela foi demolida.

- Qual motivo eles usaram para colocar tudo abaixo? – Naruto perguntou. O loiro pediu permissão para segurar meu irmão em seus braços, a qual foi rapidamente concedida.

- A casa dava muito trabalho e estava velha, hoje tem uma série de galpões lá. – Hinata o respondeu, seus dedos delicados traçando o rosto de Hiro.

Olhei para Sasuke, levantando-me para sentar ao seu lado. Nós dois andávamos bem desgastados agora. O fato de que o assassino da sua mãe é provavelmente um conhecido estava acabando com todos nós. Eu sabia que por dentro ele estava acusando Fugaku. Ao mesmo tempo em que isso parecia óbvio, também precisava ser impossível. A chave era achar as pessoas que eu vi atirando nela, eles nos levariam até o mandante.

- Quando eu vi Hidan, ele disse que estaria me protegendo. – Minha voz era um sussurro, o silêncio fez parecer com gritos. – Ele pode saber sobre quem estava me ameaçando.

Madara bagunçou os cabelos frustrado, e Sasuke escondeu o rosto nas mãos. Aqui estamos, tentando arduamente ligar todos os pontos, mesmo tudo parecendo tão impossível. Com todo o meu ser eu queria saber quem fez o que fez com Akane e Mikoto, entretanto tudo em mim dizia que isso não mudaria nada. Não se pode ressuscitar aos mortos e eu já estou cansada de enterros. Só resta uma coisa a fazer.

- Amanhã pela manhã, quero vocês dois, Uchiha e Haruno, pegando um voo. Irão levar Hiro com vocês, e deixar a empresa nas mãos dos seus pais. Fiquem o mais distante disso possível.

Madara olhou diretamente nos meus olhos, e eu soube que ele estava certo. Ele só disse o que eu já estava pensando. Não iríamos fugir, tecnicamente. Deveria estar nítido para as pessoas o quão conturbada eu estou. Querer ficar distante do meu país depois da morte da minha mãe não parece ser algo absurdo. Uma ação razoável. E quando o meu ventre ficar do tamanho de uma bola de basquete, aí sim, haverá uma razão aceitável para qualquer um.

- Eu não posso. – Sasuke disse.

- Como não pode? – Perguntei surpresa. – Você estava de acordo até ontem.

- Eu não tinha ligado os pontos ainda, Sakura.

- E com isso você quer dizer?

- Emiko e Mai foram só distrações. – Ele soou rude, e eu senti que tínhamos voltado para época em que eu namorava Itachi e vivíamos brigando por besteira. – Quem está por trás disso não se importa com que duas vadias tontas fazem. As duas só tem um ponto em comum, e eu estou surpreso que você não tenha percebido até agora.

Não diga. Não diga. Não diga.

Mordi meu lábio, desembaraçando meus cabelos com os dedos. Eu não queria saber. Ou simplesmente eu já sei, eu já tinha chego àquela conclusão. Talvez ele não tenha entendido que eu não quero estar dentro disso novamente. Se eu entrar nisso, se eu admitir o motivo por trás de tudo, eu vou afundar de novo. E uma parte de mim diz que eu não vou ter um anjo negro para me resgatar do fundo do poço mais uma vez.

Sasuke não poderia estragar com tudo agora. Eu faço coisas estúpidas, não ele. Se ele falar, tudo vai se tornar real de novo.

- Você. – O Uchiha bufou. – Emiko é uma bruxa, mas o hobby dela é fazer com que meu pai te odeie. Mai, não é preciso explicar, se ela fez algo de útil nesse ano foi te tirar do sério. Elas precisam atingir você, te tirar do controle de novo, e eu preciso saber o por quê.

- Cala a boca. – Murmurei.

- Minha mãe era amiga das duas, e você sabia. – Ele estava com raiva, e eu não saberia dizer se era mais por mim ou por ele. – O que mais descobriu e não está me contando?

Eu estava gelada. O sangue não bombeava mais por minhas veias, e minha cabeça se mostrava pesada. Naruto e Hinata estavam nervosos, no fundo Madara também. Todos sabem que eu minto, e que sou campeã em guardar segredos. Quem sabe eu estivesse escondendo um plano bem elaborado, ou talvez eu já tenha todas as respostas. Eles estão esperando que eu diga alguma coisa, mas não há necessidade.

- Eu não descobri nada, Uchiha. – Cuspi. - Só fiz suposições. Como estou fazendo agora.

Fiquei de pé. Oh, eu sei que Sasuke está ferido e com tanto medo quanto eu. Ele é só um garoto por trás desses músculos. Machucava pensar que eu ainda continuava escondendo coisas deles. Minha cabeça dura sempre guardou sentimentos que pudessem ser usados contra mim. Ele conseguiu, pouco a pouco, derrubar o muro que tinha a minha volta. Isso deveria ser o suficiente para se dar mais crédito quando tentava ler minha atitudes.

- Quer saber o que eu suponho? – Agora é minha vez de ficar enfurecida. – Eu suponho que nunca vamos achar as duas pessoas que atiraram na sua mãe. Já devem ter se livrado deles. Eu também suponho que se você quer ficar vivo tanto quanto eu quero, deve sair fora disso. Essa história de herdeiros, as bobagens que viemos escutando desde criança, tudo isso está acima de nós. Existe certo tipo de gente que não se deve lidar diretamente. Eu já vi duas pessoas morrerem diante de mim. E eu não vou deixar que isso aconteça de novo.

Aproximei-me dele, passo por passo até que tivéssemos centímetros nos distanciando. Minhas mãos em punhos e meus olhos lacrimejando. Tudo que eu consigo pensar é no medo. Engoli em seco, minha voz mais dura do que eu gostaria. Espalmei meus dedos em sua camiseta, segurando o tecido como eu sempre fiz quando o nervosismo preenche meu corpo.

- Se você me ama, se amou sua mãe e a minha, apenas considere. – Chorei. – Vale a pena ficar aqui e lutar, sendo que o único prêmio que você vai conseguir é uma provável morte?

Soltei-o. Virei de costas, sequei as lágrimas e deixei que meus olhos corressem pela janela.

- Desculpe-me, mas eu não posso continuar aqui.

Eu estou cansada de ceder. Ele nunca cede, continua com sua teimosia e orgulho. Eu não quero mais perder pessoas. Além do mais, há duas crianças, uma delas ainda nem sequer formada, com que eu tenho que me preocupar. Sasuke tinha me pedido em casamento, e dito que deveríamos fugir para proteger nosso filho, porém estas foram apenas palavras ou algo mais?

Depois que Mikoto morreu, eu soube que seríamos somente Sasuke e eu. Eu não podia ficar sozinha de novo. Eu não queria vê-lo se perder, ou me perder novamente. Eu quero que a morte das minhas duas mães seja solucionada, mas prefiro que isso nunca aconteça a ver mais e mais mortes serem planejadas por motivos que eu desconheço.

- Escutem. – Madara disse. – Vocês dois estão nervosos e discutir sobre isso não é bom para ninguém, principalmente para você, Sakura.

- O que você vai fazer? – Naruto perguntou para ele. – Hinata e eu estamos aqui para ajudar. E Teme, Sakura-chan está certa. É melhor vocês ficarem longe, nem que seja apenas por algumas semanas.

Ninguém aqui está bem. Nenhum de nós vem se sentindo como si mesmo. Tudo se mostrava errado. Eu havia prometido para mim alguns meses atrás que não fugiria mais dos problemas, que os encararia, mas isso também parecia não estar mais funcionando. O que fazer? A certeza que eu tinha era também a necessidade de encontrar um equilíbrio nisso tudo. Fazer com que as coisas se esclarecessem sem que ninguém mais acabasse machucado. Contudo, não foi possível achar uma resposta.

Reassumindo uma postura séria, eliminei qualquer vestígio de lágrimas e de insegurança. Certo, eu preciso ser honesta. O que eu sei que não contei para eles ainda? Antes eu estava convencida que Sasuke precisava saber de tudo que eu sabia, agora eu tenho a chance de colocar minhas palavras à prova.

Respirando fundo, fui atrás de um lápis e um bloco de notas. Sentei-me no carpete, ao lado da mesa de centro e me coloquei a desenhar o que poderia ser a melhor forma de explica-los o que eu sabia.

Nesses últimos meses trabalhando na empresa, eu aprendi diversas coisas. Aprimorei meus conhecimentos sobre administração e marketing, mas a situação foi bem mais além. Houve um seminário três meses atrás sobre empreendedorismo. Lá, eu conheci uma pessoa demasiadamente importante na vida de Akane, alguém que eu pensei que jamais iria ser capaz encontrar.

Apesar do passar dos anos, ele se mostrou muito mais bonito do que nas fotos. A pele levemente bronzeada e os olhos verdes combinavam perfeitamente com seu sorriso de orelha a orelha. O amor de Akane, Lucca, poderia ser fisicamente parecido com meu pai, todavia espiritualmente aquele homem irradiava luz. Ele me mostrou como agir com astúcia e passar despercebida quando preciso. Acredito que ele nos ajudaria, custe o que custasse, para achar o assassino de Akane. E o mais importante de tudo, ele protegeria Hiro e a mim.

- Madara, você se lembra daquele russo com quem eu estava conversando na Conferência Internacional de Expansão e Empreendimento?

Naruto, Sasuke e Madara pareciam estar em alguma discussão quando eu os interrompi. Eu esperava que minha seriedade tivesse sido mais que suficiente para trazê-los de volta ao que interessava de verdade.

- Lucca. – Ele murmurou.

- Pois bem. – Enrolei meus cabelos, e os joguei para trás. – Você sabe por que o pai de Akane, Hirome, os quis separados?

- O padrasto dele não é o que pode chamar de decente.

- Quando o padrasto dele morreu, Lucca herdou os negócios. – Falei. – Se existe uma pessoa capaz de encontrar quem causou todos esses danos, com toda certeza é ele.

- Certo. – Madara suspirou e segurou meus ombros. – Escute Sakura. Nós iremos manter o plano principal, eu cuido das coisas e vocês vão para longe. Se algo acontecer, se eu descobrir alguma coisa, vocês serão os primeiros que ficarão sabendo.

Havia tantas possibilidades, tantas pessoas, inúmeros rostos. A verdade é que eu quero saber. Por favor, nós estávamos falando de um ser humano sem coração que não matou uma, mas duas mulheres que eu considerei como mães. Não era curiosidade, o senso de justiça queria se manifestar sobre mim. Eu estava impotente, pois não deveria fazer nada. Eu tinha que convencer Sasuke disso também. Não impostava qual fosse minha vontade, ela iria ficar de lado agora.

- Eles não querem só o nosso pescoço. – Sasuke disse. – Naruto e Hinata também estão em perigo.

Ninguém pôde discutir. A coisa ficava cada vez mais difícil. Como nós esconderíamos não dois, mas quatro adolescentes e um bebê? Foi aí que a grande pergunta saiu por meus lábios. Foi automático, e eu não me aguentava mais de ansiedade. Todos queriam saber o motivo das mortes e das ameaças, e para que isso acontecesse, precisávamos reunir todas as peças do quebra-cabeça.

- Eu presenciei um assassinato. – Falei olhando de rosto em rosto. – Mas vocês três, o que fizeram de tão grave?

Chame-me de idiota, eu posso sempre ter pensado que Sasuke estava ali para me proteger, e ele realmente estava, só que isso não é o suficiente para ser um alvo. Não é o suficiente para Naruto levar um tiro ou Hinata se sentir culpada. Eu não era a única guardando segredos e mais do que nunca eu vi isso nos seus rostos.

- Vocês sabem todo e qualquer segredo sujo meu. – Suspirei. – Na situação que estamos ficarem calados não é uma boa ideia.

Naruto olhou para baixo, seus ombros pesaram, seu maxilar trincou. Sasuke estava do mesmo jeito e Hinata, bem, ela era o pior de todos. Lágrimas escorriam pelo seu rosto e ela soluçava com força. Para minha surpresa, Madara estava tão curioso quanto eu. Ele também não sabia de nada, e no fundo essa questão o incomodou da mesma forma que a mim.

Arfante, a Hyuuga passou as costas das mãos pelo rosto, com movimentos graciosos começou a caminhar pela sala. Oh, certo. Eu era a única que não fazia parte disso. Os três conheciam os mesmos fatos, e o inesperado aconteceu. Eu sou aquela que está no escuro, não eles. Todo esse tempo eu me vi como o mostro, aquela que escondia muito bem o que estava sentindo. Porém, o troféu sem dúvida alguma vai para os outros três herdeiros.

- Nós queríamos te contar. – Hinata disse chorando. – Até pouco tempo atrás não sabíamos que você viu Mikoto-san sendo... sendo...

- O que vocês sabem? – Perguntei cautelosa.

- Naruto e Hinata estavam comigo quando eu encontrei o corpo da minha mãe.

Estaquei em choque. De todas as coisas, essa foi definitivamente a mais surreal. Eu estive esperando por algo menos audacioso. Eles poderiam ter descoberto um desvio de ações por exemplo. Ou então saberem sobre Mai bem antes de mim. Isso? Que eles sabiam o tempo todo que a morte de Mikoto foi planejada, terem visto os tiros ao invés de acreditarem que foi um mero assalto nesses três anos? Bem, poderia ser exagero de minha parte, mas me parecia demais.

- E o que mais? – Tentei me manter calma, mesmo não o estando.

- Eles escreveram com sangue dela nas paredes. – Naruto grunhiu em raiva. – "Este é apenas um lembrete".

Madara caiu para trás, literalmente. Ele se apoiou no arco da porta, seu rosto tinha se tornado tão pálido quanto o de um cadáver. Foco, Sakura, respire fundo e não grite, de modo algum. Minhas mãos poderiam estar doloridas, e minhas unhas cravadas na palma, contudo eu não faria uma cena. Não importava se por dentro eu quisesse pular no pescoço deles.

- Vocês não viram nada acontecendo. – Falei. – Por que Sasame atirou em você, Naruto? Eu a conhecia superficialmente, mas não acho que ela tenha atirado por causa de um amor não correspondido. Ela era inteligente e bonita, podia sair com qualquer sênior, me diga por que justamente você?

- Você lembra como éramos antes. – Naruto estava cheio de remorso, declarando uma nítida raiva de si mesmo.

- Sim. Completos cretinos.

- Sakura. – Sasuke me lançou uma repreensão. – Só está piorando as coisas.

Eu queria murmurar um pedido de desculpas, apesar disso, não o fiz. Aquela voz cheia de mágoa resignada estava falando mais alto. Eu tinha acabado de perder minha mãe, de descobrir que estava grávida e saber que se eu me metesse em busca da verdade acabaria prejudicando duas crianças inocentes. Sim, eu estava sendo mesquinha, mas eu preciso colocar as coisas para fora agora. Não quero ser uma bomba relógio novamente.

- Foi quando você começou a sair com Sasori. – O loiro continuou. – O cara era o maior idiota, e Sasame a sua protegida. Teme e eu fizemos uma aposta. O primeiro que atingisse seu ponto fraco vencia.

- Como nos velhos tempos. – Não pude impedir a tirada sarcástica. Revirei os olhos, pegando o Hiro que começava a chorar novamente. – Qual foi o motivo do tiro, só me diga isso.

Nada parecia suficiente para mim. Chame-me de hipócrita, já tentei me matar, e não foi apenas uma vez. Só que agora eu tenho uma visão diferente de mundo. Nela não existe um motivo palpável para tirar uma vida. Uma pena que eu só tenha percebido isso quando Mikoto e Akane morreram. Impressionante a maneira que mudamos do dia para à noite.

- Karin espalhou pela rede imagens e vídeos... Indecentes. – Lá estava, o arrependimento e o ódio dentro de si.

No fim das contas somos todos iguais. Com um passado extremamente sujo e desrespeitoso não somente com nós mesmos, também atingimos aqueles que nos cercavam. Esse é o tipo de momento em que você simplesmente não crê nas coisas que fez.

Sasuke parecia menos furioso comigo, e talvez eu estivesse mais calma. Mesmo essa não sendo a palavra certa para me descrever agora. O moreno me puxou para sentar do seu lado e tirou Hiro dos meus braços. Em questão de minutos meu irmão tinha parado de chorar, e lentamente entrou no mundo dos sonhos. Eu tinha que ser relevante. Nós nos amamos e o Uchiha geralmente é o mais maduro de nós dois. Eu iria ceder um pouco. Seu desconforto e ressentimento existem pela mesma causa que os meus.

- Então isso não teve nada relacionado com minha mãe morrendo.

- Não. – Sasuke afirmou. – Naruto e Hinata estão em risco porque ficaram sabendo que okaa-san foi propositalmente assassinada.

- Ok. – Suspirei resignada. – Se nós vamos partir, temos que decidir logo.

Quando terminamos nossa discussão, já havia passado das oito da noite. Madara foi embora e Naruto e Hinata aproveitaram a brecha para partirem também. Eu estava cansada, todos estavam, isso é algo que ninguém pode negar. Sasuke disse que ia cuidar de Hiro e pedir algo para comermos. Depois que tomei banho o encontrei deitado na minha cama, com meu irmão deitado no seu tórax.

- Nunca pensei que iria vê-lo tão íntimo de uma criança. – Comentei, tentando esconder o pequeno sorriso que se formava no meu rosto.

Ele estendeu a mão para mim, e, mais do que ansiosa, aceitei sua oferta. Não iríamos nos desculpar pelo incidente de hoje à tarde. Ambos acreditavam estar certos. E no fundo o fazíamos, cada um de sua singela maneira. É difícil de associar que estamos por conta própria. Eu só tive Akane ao meu lado nesses últimos nove meses, antes disso eu sempre me senti sem família.

Claro, sempre houve Tsunade protegendo e cuidando de mim, e Mikoto. Mas a relação que eu tinha estabelecido com a irmã mais nova de Uchiha Fugaku foi algo completamente diferente. Eu pude chamá-la de okaa-san. Parecia correto quando eu o fazia. Akane fez parte da minha vida desde que eu nasci. Pessoas mudam, disso eu tenho certeza, e não foi fácil de esquecer dezessete anos de vida sem que ela e eu tivéssemos uma conversa considerável. Ao contrário do esperado, eu o fiz. Tornamo-nos mãe e filha. Algo que Mai e eu jamais seríamos.

O que mais doía era saber que eu nunca mais iria vê-la. O cara que disse que deveríamos aproveitar cada momento como se fosse o último deve ter tido muitas perdas consideráveis. Não irei me chamar de forte agora, ou que já havia aprendido a lição. Não, eu pensei isso por três anos e não teve efeito algum.

Eu tentei convencer a mim mesma que eu não podia fazer nada. Que se eu me machucasse, céus, eu poderia perder um filho. Ninguém mais podia morrer diante de mim. Sasuke queria fazer alguma coisa, qualquer coisa, porém ele estava pensando além. Tínhamos deixado às coisas nas mãos de Madara, e eu gostaria de saber se isso seria o suficiente. Nada pode reparar o dano da morte, no entanto aprendemos como lidar com isso. Madara jogou sua vida fora para descobrir o mistério da morte de sua irmã, e até então, todos os seus esforços foram insuficientes.

- Em um de seus diários, você escreveu sobre uma conversa na casa dos Uzumaki. Que não estávamos prontos para algo. – Seus dedos corriam pelo meu braço. – Sobre o que se tratava Sakura?

- Não entendi muito bem. – Admiti. – Perguntei sobre isso para minha avó, mas ela se desviou do assunto.

- O que você acha que forçou Akane a se casar com seu pai? – Através do seu tom sério, eu pude ver uma hesitação em falar dos meus pais. – O que ela e minha mãe descobriram?

Suspirei. Eu tinha saído do controle uma vez e ele me colocou de volta a estabilidade. Provavelmente esta era minha vez de retribuir. Como Hiro estava dormindo, eu o coloquei no berço, voltando para cama. Abracei seu torço e distribui pequenos beijos na sua bochecha. Meus dedos brincando com seus cabelos, e um aperto irritante no meu peito gritava para não deixá-lo ir.

- Madara vai cuidar disso. Assim como prometido. – Sussurrei no seu ouvido. – Amanhã vamos colocar um ponto final em tudo, Sasuke. Já parou para pensar que jamais saberemos o que aconteceu com elas, e o porquê disto?

- Eu não posso viver com isso. – Seus olhos fixaram-se no teto e um vermelho tingiu seu rosto.

- Nenhum de nós pode. – Disse. – Lembre-se, apesar de tudo, temos que ser maduros agora. Se Madara não descobrir nada até o bebê nascer, nós dois damos um jeito.

Ele se virou rapidamente, rolou na cama e me segurou com força em seus braços. Assim como anos atrás, eu estava vendo só nós dois no mundo. Essa era a hora do destino estar à prova. Tsunade e Kakashi tinham sua própria vida, assim como Naruto e Hinata. Estas são pessoas que amamos, entretanto ninguém pode interferir nas nossas decisões. Eu me sinto imatura demais, ingênua demais, além disso, sei que estamos presos em um caminho escuro quando se trata de ser responsável pela vida de outro alguém.

Não temos mais um lar, e não somos nada mais que duas crianças perdidas a partir de amanhã. Então, suponho que a hora de crescer é agora. Não importa o quê. Estávamos deixando o único lugar familiar que conhecíamos, e um grupo de amigos e parentes. Mas se isso fosse necessário para nos proteger, eu o faria.

Sasuke disse apenas três palavras que davam significado a tudo.

- Eu estou aqui.

To Be Continued...


Notas: A fic está em reta final, e eu não posso deixar de amar cada capitulo que ando escrevendo. Sinceramente meninas, eu sou apaixonada por essa fic. E talvez seja porque ela não tem muito haver com a minha vida real. Desculpem-me por não estar respondendo as reviews, eu só não consigo agora. Estou lendo-as com todo o carinho do mundo e agradeço imensamente pelas coisas maravilhosas que vocês me escrevem. No último capitulo eu não escrevi uma n/a, deixei para Bela fazer a n/b e esperar suas reações. Cara, eu não imaginei as respostas que eu recebi, sério, vocês são demais. Meu Anjo não deve ter muitos capítulos, então aproveitem o momento para chutar quem é o assassino e quais são os próximos passos.

Obrigada por lerem.

Milhões de sinceros beijos de uma ficwriter inspirada.

Sami.

(Os dois últimos capítulos se chamaram "Home Sweet Home" ou "Lar Doce Lar" por uma resposta sarcástica quando nossos heróis se notaram sozinhos.).

N/b:

Heyyy people! E então o que acharam do capítulo... as coisas esquentaram bastante para o nosso casal preferido... os dados foram jogados, agora façam suas apostas nos possíveis mandantes dos crimes que aconteceram...

Comentem, pleaseeee!

Beijos

Bela