Fink - Yesterday Was Hard On All Of As

Pink – Blow Me (One Last Kiss)


Meu Anjo Negro, Sexy e Drogado

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Capítulo Vinte e Nove

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Finados

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Talvez nunca houvessem existido capítulos ou etapas, algo que marcasse o começo e o fim de algo. Talvez tudo tenha sido somente uma vida, e, independente de tudo, talvez eu deva ficar feliz por ser uma sobrevivente, certo?

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02 de Abril de 2009

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Cá entre nós, eu sempre achei enterros uma coisa fora de questão. Nunca entendi porque todo mundo usava preto, como se estivessem pedindo por mais dor. Mikoto me disse uma vez que quando ela morresse eu deveria usar branco, pois a cor afastaria a entrada de mais energias ruins para dentro de mim. Eu fiz exatamente isso no dia em que ela foi enterrada. Ninguém soube que eu estava realmente lá, e no final da noite eu coloquei as músicas favoritas dela para tocar e comecei a sorrir e dançar. Eu sabia que era aquilo que Mikoto queria, então eu o fiz.

Só que com Akane as coisas são... As coisas foram diferentes.

Aqui estou eu, com uma criança no colo vestindo negro. Tudo tão surreal. Eu não conheci Akane como eu conheci Mikoto e, mesmo assim, ela tinha confiado em mim para cuidar do filho dela. O engraçado é que as duas fizeram isso, apenas de maneiras diferentes.

O que eu tenho de tão especial? Só consigo pensar nos meus defeitos. Manipuladora, egoísta, mentirosa, infantil... Até agora eu só vi isso. Ainda assim, elas tinham arriscado a vida por mim. Alguém que vê claramente seus defeitos e não levanta um dedo para mudá-los. O universo parecia ter errado dessa vez.

Tsunade. Ela está do meu lado, os braços sobre meus ombros e o olhar no rosto de Hiro. Mama tinha criado não só a mim, mas a minha madrasta também. Eu sei que ela está com raiva do meu pai, não só ela, todos que estamos aqui sentimos a mesma coisa. Touya não se dignou a aparecer no enterro da própria esposa. Não há noticias dele desde que Akane foi para o hospital.

O dia de hoje está cheio de anomalias. Eu vejo Uchiha Sasuke - o mesmo jovem homem que me pediu em casamento, o mesmo que me fez querer fugir do Japão, o garoto que correu comigo nos braços quando achou que eu estava tendo problemas – lá está ele, ao lado do seu pai e seu irmão, ignorando sua madrasta e dando total apoio a sua família. Em que mundo estamos? Até parecíamos adultos. Ignorando nossa infantilidade e cuidando de pessoas que realmente precisam de nós.

O que mais me impressiona é o homem sorridente falando sem parar sobre minha mãe. As lágrimas não param de escorrer por seu rosto, mas ele não tem vergonha disso. Apesar de conhecê-lo tão pouco, eu me orgulho dele muito mais do que um dia me orgulhei do meu pai. Acho que todos estão pensando o mesmo que eu: Então esse é Lucca. O amor da vida dela.

- A mulher mais corajosa que eu já conheci. Lembro-me do dia que ela me contou que iria se casar. Eu entrei em desespero, então, Akane me falou que iria criar uma garotinha. Quando eu conheci Sakura entendi porque a mulher que eu amava deixou tudo de lado por ela.

Eu escondi meu rosto no colo de Tsunade e abracei Hiro mais ainda. Cada palavra que sai da boca de Lucca me faz chorar mais. Só que, eu não sabia nada disso, não até o dia de hoje. São tantas coisas. Como Akane foi o ver quando eu tentei me matar e lhe perguntou o que ela tinha feito de errado para que eu fosse por aquele rumo. Nunca pensei que ela se culpasse. E dói pensar que eu a interpretei errado por tanto tempo.

Queriam que alguém fosse falar sobre Akane, e eu não consegui fazer isso. Nunca soube muito sobre ela, por isso sugeri que Lucca o fizesse. Ele veio correndo da Rússia depois que Sasuke ligou para ele. Eu sei que ele amava minha mãe, e ainda a ama. Sem família e inteiramente dedicado aos negócios, ele jamais a esqueceu e eu realmente duvido que o faça agora.

A vida de tantas pessoas gira em torno da empresa. Nossa família é bilionária e só pensa em adquirir mais. Meus tataranetos terão dinheiro para sustentar os netos deles com a herança que herdarão de mim. Eu gosto de negócios, porém, eu quero fechar esse de vez. Minhas malas estão prontas e eu vou partir na manhã seguinte. Para mim chega. Eu vou deixar uma única pessoa cuidando de tudo que é meu, nas mãos da pessoa que eu mais confio no mundo: Tsunade.

Nós contamos para ela nossa decisão de sair do Japão. Eu gostaria de levar mama comigo, mas eu sei que se eu o fizer não serei capaz de crescer. Eu tenho que amadurecer em algum momento. Sempre achei que eu fosse mais madura que Sasuke, e só nesses últimos meses vi que a situação não é bem essa.

Ele esteve em todos os momentos me apoiando, de um jeito que nunca fez antes, e eu o agradeço com tudo que eu tenho por isso. Eu gosto de romantismo como qualquer ser do sexo feminino, e o Uchiha sempre soube que exageros me irritam, porque eu já sou exagerada por natureza. É bom tê-lo comigo. Sua presença é o suficiente, e seu silêncio me conforta. Existem momentos em que palavras são desnecessárias, e eu o aprecio por saber disto melhor que ninguém.

Sasuke não está do meu lado agora, porque ele sabe que eu não quero isso, nesse momento. Vamos deixar todas as pessoas que amamos de lado, e temos o dia de hoje para passarmos o maior tempo possível com elas. Nunca vou ter certeza se esse é o caminho certo, se estou indo atrás da felicidade, todavia, a vontade que me impulsiona é tão grande que a única coisa que posso fazer é segui-la.

- Você deveria dizer algo. – Tsunade murmurou no meu ouvido.

- Eu não sei o que dizer.

- Não pense, apenas diga.

Lucca tinha feito um discurso tão bonito. As palavras eram vívidas e o tom da sua voz tocante. Eu posso ter sido líder do concelho estudantil e ter falado muito em público, mas ter o dom de tocar a alma das pessoas é algo diferente. Nasce-se com isso. Não acredito que serei capaz de chamar a atenção de todos ou transformar essa união de clãs em uma reunião de família e amigos.

Cautelosa, eu fui ao lado de Lucca e segurei com cuidado o meu irmão nos meus braços. Tsunade havia feito um pequeno palco, não é bem isso, está mais para um canto bem destacado da sala, e era lá que as pessoas, com boas lembranças para contar, deveriam se dirigir. É ironicamente engraçado como o meu cabelo se destaca nessa multidão de vestes escuras, me sinto afligindo o sentimento piegas que um velório supostamente tem.

Hiro está agitado e seus dedos se agarram ao meu vestido, o contraste dessa nova vida para uma que a pouco se foi é enorme. Todos estão olhando para mim e eu só consigo encarar meu irmão. Suspiro. Só diga.

- Quase um ano atrás, Akane veio falar comigo. Ela disse que agiu de forma errada comigo por todos os anos que se foram. Que não tinha se aproximado o suficiente, que não fora uma mãe. Talvez aquilo tudo tenha sido verdade, no passado. Agora... Agora eu vejo um abismo entre a pessoa que eu imaginei que ela fosse e quem ela realmente era.

Silêncio.

É bom assim. Nunca fui a melhor em me expressar, no entanto sempre funciona quando eu estou sozinha e converso comigo mesma. Alivia-me colocar tudo isso para fora.

- Quando eu descobri que ela estava grávida, fiquei furiosa. Achei que ela me deixaria de lado. Irônico que tenha acontecido o contrário. – Não me impressiono comigo mesma. Eu sabia que estaria chorando nesse momento, como estou desde que levantei da cama. – Eu a levei em todas as suas consultas, vi todos os ultrassons, e ajudei a escolher todas as tinha a visto tão feliz.

Engoli em seco. Respirei fundo e tirei o cabelo que me cobria o rosto. Eu estava balançando Hiro suavemente, como tenho feito nas últimas noites. Dizem que crianças são sensíveis ao que os outros estão sentindo, sua agitação deveria ser por isso.

- Ela sabia que estava morrendo, e até o final esteve protegendo Hiro e a mim. Ela estava calma e serena, aceitou a morte como uma amiga. Okaa-san estava orgulhosa, e eu não pude acreditar que toda aquela felicidade era por mim. Independente de tudo, sou grata desde o momento em que ela escolheu ser minha mãe.

E foi isso... Eu desabei no choro e fui parar nos braços de Uchiha Sasuke.

...

Não consigo parar de pensar que Haruno Touya é o maior cretino que eu conheço, sinto vergonha de dividir laços de sangue com ele. Nenhum único sinal até agora. São nove horas da noite e Hiro não para de chorar. Sasuke já estava dormindo, como eu não consegui pregar o olho, resolvi assumir o cargo de mãe mais uma vez.

Decidimos passar à noite em um hotel. Kakashi e sua namorada, não mais tão secreta, estavam dividindo uma garrafa de whisky da última vez que o vi. O nome dela é Anko, e ela é uma militar. Quem diria, não? Com a tragédia que ocorrera com minha mãe, parecia que muitos tinham encontrado alguém que os confortasse.

Este é o mesmo hotel onde aconteceu a festa de aniversário de Sasuke, no ano passado. É impressionante como o salão muda a cada evento. Okaa-san quis que eu fizesse minha festa aqui também, mas para esse ano eu preferia algo mais casual, sem muitas pessoas. Fui a primeira herdeira da H&U a se recusar veementemente a fazer parte de sua tradição. Nada de descer uma grande escada acompanhada de um membro da família do sexo oposto, ou dançar valsa para as câmeras. Isso não é comigo, não mais, ao menos. Eu me superei este ano, porque, como nunca antes, eu quis fugir das atenções.

Na última tarde, eu fui chamada para a leitura do testamento de Akane. Ela me deixou uma casa em Dublin. A Irlanda foi um dos poucos lugares que eu não visitei quando estava me recuperando. Tento pensar que ela me deu o lugar para criar boas memórias, nada de pistas ou provas de um assassinato. Quem eu quero enganar? Quais das minhas mães, as quatro delas (Mikoto, Akane, Tsunade e, sim, a Maldita Mai) não são ou foram donas de grandes mentes? Não dá para saber o que está por trás de um simples presente.

Suspirei, andando calmamente de um lado para o outro. Hiro estava começando a cair no sono.

Madara me ligou horas atrás, ele me disse que não havia nada na antiga mansão Uchiha. Eu estava errada. Mikoto e Akane pensaram que eu iria solucionar esse mistério, mas as coisas não são bem assim. Elas depositaram confiança demais em mim. Mesmo se eu estivesse certa antes, como eu vou descobrir o que quer que seja em uma casa que nem existe mais? Ria da modernidade de Tóquio, uma linda casa foi transformada em um mero estacionamento, nada menos estúpido que isso. Tudo que eu sabia sobre a morte de Uchiha Mikoto e Haruno Akane estava me levando a nada, um beco sem saída.

Em algum momento eu parei no quarto, e então coloquei Hiro ao lado de Sasuke, ajeitando os travesseiros na beirada da cama para que ele não caísse. A imagem que se formou foi além do bonito. Ok Sakura, amanhã você vai começar uma nova vida com esses dois, tente relaxar e ficar pronta para isso.

Escutei alguém batendo na porta. O que é ligeiramente estranho. Normalmente ligam da recepção para perguntar se eu quero receber visitas. Talvez fosse exagero, no entanto, Sasuke tinha comprado uma arma. Ela estava na última gaveta da mesa ao lado da porta. Aflita, eu a peguei. Abri uma fresta na porta, deixando que a trava impedisse quem quer que fosse de entrar.

Para a minha grande surpresa, e pura raiva, meu visitante era nada menos que meu pai. Haruno Touya.

- O que você está fazendo aqui? – Perguntei em um sussurro.

- Nós precisamos conversar.

O que eu quero? Fechar a porta na cara dele, com toda certeza. E não só isso. Quero gritar, espernear e chamá-lo de todos os palavrões que eu conheço. Tenho vontade de lhe estapear pelo que fez para minha mãe. Por não ter ficado no hospital junto com ela, por não estar conosco quando ela começou a dar a luz, por não ter o mínimo de ética para ficar do lado da filha dele no enterro da esposa dele.

- Não grite. – Ele disse, já prevendo minha reação.

Minhas mãos ficaram em punhos e meus olhos se estreitaram.

- Eu tenho as respostas sobre Mikoto.

- Do que você está falando? – Meu coração palpitou estrondosamente.

- Sakura. Eu sou o seu pai, abra essa porta e me escute. – Touya está calmo, e eu não, e nessa situação, isso é o que mais me apavora. – Por favor, você precisa me deixar falar.

- Estou te escutando.

- Se você não quer me deixar entrar, ao menos venha para um lugar fechado falar comigo.

- Como eu vou saber que você não está mentindo para mim? – Olhei diretamente em seus olhos, não escondendo minha fúria. – Não é como se você não tivesse feito isso antes.

- Leve Sasuke com você.

Respirei fundo e me pus a pensar. Esse é o meu pai. Ele é um idiota constantemente. Ele traiu Akane durante todo seu casamento e uma única vez me chamou de bastarda. Esse também é o homem que colocou toda a sua fortuna no meu nome, que me apoiou quando eu assumi um grande cargo na sua empresa. Eu não consigo saber o que fazer. Eu preciso achar as respostas sobre Mikoto, mas não posso me colocar em uma situação complicada, porque, além do meu irmão, eu tenho uma criança crescendo dentro de mim.

- Espere aí, eu já volto. – Falei.

Corri até o quarto e me sentei na borda da cama. Gentilmente sacudi seu ombro.

- O que foi rosada? – Sua voz estava sem dúvida rouca, e ele olhou rapidamente para Hiro, dormindo bem ao seu lado.

- Meu pai está aqui. – Disse séria.

- Você o deixou entrar? – Neguei com a cabeça. – O que ele quer?

- Escute calmamente e ponha em mente que temos duas crianças para pensar. – Segurei suas mãos. – Sasuke, meu pai diz saber o que aconteceu com a sua mãe. Ele quer conversar com a gente.

Olhou para mim e passou as mãos pelos cabelos. Eu não queria ficar nessa dinâmica sozinha, e Sasuke não estava muito feliz por entrar nela. Eu estava me corroendo com tanto ódio que não sabia o que fazer. Touya, meu pai, alegando saber a causa da morte da mulher que praticamente me criou no lugar dele. No fundo, eu espero uma explicação sobre como a maldita Mai o enganou, e que ele percebesse que, apesar de tarde demais, ele amava Akane. Uma explicação mirabolante sobre o porquê de ele não ter ido ao funeral da minha mãe.

Infelizmente meu pessimismo me diz que nada disso vai acontecer. Que ele está aqui para pegar Hiro porque Mai o quer. Porque eu não quis aceitá-la de braços abertos, ela roubaria meu irmão. Inferno! Eu não aguento mais pensar no que pode acontecer. No que poderia ser dito.

- Eu vou abrir a porta para ele. – Sasuke disse se levantando da cama.

Quando ele estava quase na porta do quarto, ele virou para mim.

- Onde está o revolver?

Certo. Como se eu não imaginasse que ele está tão paranoico quanto eu. Haruno Touya continua sendo meu pai e, mesmo que seja assustador a ideia de apontar uma arma para ele, eu ainda penso na possibilidade de uma arma sendo apontada para mim.

Tentando esconder o medo na minha voz, eu apenas estendi a mão. Lá estava. Melhor nas mãos de alguém que não esta tremendo.

Tanto Sasuke, quanto eu, desviamos nossa atenção para Hiro. Eu não queria deixá-lo sozinho no quarto, mas não sabia se era seguro levá-lo para sala, onde meu pai estaria dali a alguns minutos.

- O que acha de um lugar público? – Perguntei.

Ele assentiu e começou a tirar a calça do pijama, trocando-a por jeans. Colocou uma camiseta de mangas curtas e tênis. Para minha sorte, eu ainda continuava vestida. Logo depois que chegamos ao hotel, no meio da tarde, eu tinha tomado um banho e colocado uma saia vermelha de algodão, que ia até quase o meu joelho e uma regata branca, nos meus pés, uma simples sapatilha, da mesma cor da saia.

Hesitante, peguei Hiro nos meus braços. Ajeitei-o e peguei minha bolsa e mais uma, azul, onde estavam fraudas, mamadeiras e tudo que Hiro precisava. Meu pai iria, eu suponho, conhecer seu filho hoje, agora. A única coisa que eu tenho em mente é que não posso deixar Touya pegá-lo no colo, muito menos sair da minha vista.

Isso é ridículo, mas, essa não parece a minha vida.

Lentamente, Sasuke abriu a porta, colocando-me atrás dele. Encarou meu pai e, pela forma que um fitava o outro, você não podia dizer que eram sogro e genro, ou tio e sobrinho, como supostamente foram criados. Estavam mais para dois inimigos mortais, um querendo algo que o outro possuía.

Imagino o que meu pai irá dizer quando souber que além de eu estar grávida, Sasuke me pediu em casamento e, eu tinha dito sim. Além disso, como será meu amanhã? Com as coisas que meu pai pretende me contar...

- Vamos à cafeteria do hotel. – Falei, e finalmente meu pai olhou para mim.

Bom, não exatamente para mim – para Hiro. Eu esperei uma cena marcante e um verdadeiro ato de amor, mas não foi isso que aconteceu. Não houve nada no seu olhar, nada que dissesse o quanto ele sentia por não ter estado lá para o meu irmão, ou para mim. Só pude visualizar uma mente distante e cheia de pensamentos profundos. O mesmo olhar que eu vi no rosto de Uchiha Sasuke quando nós estávamos ignorando nosso passado e agindo como desconhecidos. Só uma vastidão de pensamentos, sem qualquer palavra sendo dita.

Touya não encarou Hiro por muito tempo, foram apenas segundos momentâneos. Pergunto-me o que ele sentiu, e o que ele viu de verdade. Sua filha adolescente ignorando sua teimosia e infantilidade para cuidar de alguém que precisava dela? Uma menina-moça tentando se tornar uma mulher? Ou, só a irritante e mimada que era conhecida como Haruno Sakura? Acho que no fundo eu não gostaria de saber o que se passava em sua cabeça. Eu ainda tenho medo disso.

Nós estamos no verão, não é surpreendente que o lugar esteja meio vazio, a maioria das pessoas está na praia. As pessoas neste hotel não pareciam se importam com quem eu era, e o que falam de mim lá fora. Sou só mais uma hóspede, e é por isso que eu gosto daqui. Meu pai deveria saber disso, foi por esse motivo que ele veio me procurar justamente neste lugar.

Nós pegamos uma mesa na parede, distante da entrada e da janela, acho que tanto Sasuke quanto Otou-san imaginaram que essa seria a melhor mesa para nossa conversa sigilosa. Sentamos e tanto Sasuke quanto eu encaramos meu pai com expectativa.

- O que veio nos contar? – Perguntei de forma direta, não aguentando mais o silêncio que nos envolvia.

- Um ano antes da sua overdose, Mikoto descobriu um segredo sujo de família. – Touya olhou nos meus olhos, e as palavras saiam da sua boca sem dó ou piedade. Esse é o homem que eu conheço. Não o capacho de Mai ou o bom pai que ele sempre fingiu ser, esse é o verdadeiro Touya. Seus olhos se moveram para Sasuke. – Seu avô tem um grande dedo nisso.

- Ele matou minha mãe? – Sasuke tinha os cotovelos na mesa, as mãos cruzadas escondendo parcialmente seu rosto. Ele estava tentando se manter calmo, assim como eu.

- Não. – Meu pai riu com escárnio. – Sua mãe descobriu que o seu avô, matou sua avó, mãe de seu pai.

Hiro cochilava nos meus braços, e eu esperava que minhas mãos trêmulas não o acordassem. Nós sempre desconfiamos que Uchiha Hirome fosse um possível culpado, só que ter isso dito em voz alta, em uma afirmação, é algo diferente. Hirome é pai de Fugaku e Akane. A mãe de Fugaku morreu quando ele era criança, aparentemente de falta de ar, ela tinha asma e todas essas coisas. Então alguns anos depois, ele se casou com a mãe de Akane, minha avó, uma mulher bem mais jovem que ele.

- A polícia concluiu que ela morreu por causa de um ataque de asma. Mikoto estava procurando alguma ligação entre Mai e Hirome, ela queria encontrar seu avô, Sakura, o pai de Mai, para que ele pudesse impedir que Akane e eu colocássemos você no reformatório. No meio disso, ela descobriu documentos e fitas de policiais conversando com Hirome sobre a morte de Tomoyo. Acredito que ele pensou que poderia usar a gravação para subornos futuros, se esses se tornassem necessários.

Oh meu Deus! Mikoto sabia de um assassinato cometido quando ela era criança! E, tudo isso porque ela estava, novamente, agindo como minha mãe, para me proteger. Como alguém pode fazer tudo isso por uma pessoa que não é nenhum de seus dois filhos? O que eu não consigo assimilar é o fato do meu pai saber disso. Ele também deve ter em mente que eu vi alguém atirando nela, e que, por todos esses anos, eu guardei tudo só para mim.

Mai sabia disso. Ela sabia que eu estive lá, e, para o meu pai saber também... Eles... Eles... Eles devem estar envolvidos com o que aconteceu com ela. Touya, meu pai, tem um dedo na morte da mulher que mais me protegeu. Essa é a única resposta. O homem que me deu metade dos meus cromossomos é o culpado pelo rapaz que eu amo não ter mais sua mãe com ele.

Kakashi sempre esteve certo. Tudo ligado à aliança H&U é amaldiçoado.

- Como você sabe disso? – Sasuke cerrou os olhos e os punhos.

Eu estava chocada e ele cheio de raiva.

Não podia se esperar menos.

- Mikoto e eu éramos muito próximos antes de eu conhecer Mai. Talvez fosse por isso que ela sempre te tratou como filha dela.

- Você sabe quem a matou? – Perguntei, temendo sua resposta.

Novamente, riu em escárnio. Otou-san descruzou seus braços, seus olhos passaram rapidamente entre Sasuke e eu. Ele se levantou esperando que seguíssemos seu exemplo.

- Você estava certa sobre a fórmula que Mikoto deixou para você. É sim o endereço de uma mansão, só que não da Uchiha. – Ele olhou sobre o ombro. – Venham comigo.

- Espere. – Falei. – Eu não vou a lugar nenhum.

Ambos, meu pai e meu amante, arquearam suas escuras sobrancelhas para mim. Os encarei com descrença. Por favor, onde está toda a nossa conversa sobre pessoas com que se preocupar? Eu quero ir com Touya e quero descobrir se o que ele diz é verdade. Só que, merda, eu estou grávida e não pretendo sofrer um aborto novamente. Além de que, como eu saberia que meu pai não quer Hiro? Mai não deve ser capaz de ter filhos, o que me garante que ela, mais uma vez, não tenha manipulado a mente do meu estúpido pai.

- Não vou sair com você no meio da noite com um destino desconhecido. – Senti meu irmão se mexer.

- Não confia em mim?

A forma que falou foi tão firme, tão intensa, que, por um milésimo de segundo, eu acreditei que ele estava falando sério. Às vezes eu esqueço que herdei dele os meus atos dissimulados.

- Não. – Pontuei. – Se quer me provar algo, que seja a luz do sol.

Ele virou seus pés, os apontando para mim. Lembro que quando eu ajudava Sarutobi fui convidada a ir a uma palestra com ele. Era sobre psicologia e em algum momento o palestrante nos contou que quando a pessoa está com os pés diretamente em nossa direção significa que ela está interessada no que dizemos. Não sei por que me lembrei disto agora, mas ter em mente que Touya estava a todo ouvidos para mim, deixou-me um pouco aflita.

- Você realmente não quer saber o que aconteceu? – Deu um passo para frente e eu um para trás.

- Não é possível reviver os mortos, otou-san.

- Talvez você não precise disso. – Afirmou.

Sasuke que esteve em silêncio até então, encarou meu pai esperando que ele continuasse suas palavras. Diferente do esperado, Haruno Touya nos deu as costas, e foi embora, sem dizer mais nada.

Vendo-o ir embora, eu senti que estava perdendo meu pai. Isso soava estúpido, a única vez que o vi agindo como um típico pai foi quando nós voltamos daquele hotel depois de Sasuke e eu termos tido uma cena deprimente, onde ele me beijou na frente de toda a família. Nesse dia Akane também estava lá por mim, e foi a primeira vez que eu pensei nos meus pais como um casal, não duas unidades que estavam habitando o mesmo lugar.

Ele partiu e eu não acho que o verei de novo tão cedo. Será que isso tudo é amor? Deixar seus filhos que acabaram de perder a mãe lidando sozinhos com o mundo? Não dizer nada reconfortante, só ir, sem demonstrar que irá voltar?

Suspiro, porque me lembro de que esse não é um homem qualquer. É alguém que pertence a uma das mais importantes famílias do Japão, que teve seu destino traçado e não tentou lutar contra ele. Que deixou as pessoas que ele amava de lado por sua ambição e que, agora, tentava ficar junto da única pessoa que ele amou, mesmo que isso signifique deixar seus laços de sangue de lado.

Quando abaixei meus olhos e fitei os verdes brilhantes de Hiro notei que nunca seria capaz de fazer o que ele fez. Pela primeira vez, percebi não estar colocando Haruno Sakura em primeiro lugar.

Acho que, além de todas as coisas que eu escuto com frequência – apoio, carinho, afeto e etecetera – ser uma família significa autosacrifício, sem qualquer arrependimento, porque há pessoas que precisam mais de você do que você mesmo. Talvez meu pai não tenha sentido isso, mas eu sentia.

Ajeitei a bolsa de Hiro nos meus ombros e, sem sequer encará-lo, já começando a andar, eu disse:

- Você pode ir atrás dele se quiser. – Falei. – No final das contas, ela foi sua mãe antes de ser minha.

Escutei um bufo, passadas largas ocorreram depois disso. Uma mão tocou meu ombro e, pouco depois, um braço os envolveu.

- Vamos. Precisamos dormir um pouco.

Senti meu estômago se aquecer ao mesmo tempo em que meu coração se apertou. Certo, esse é outro Sasuke. Nada de um guri de catorze anos com uma mente inconsequente. Esse é um homem e ainda me surpreendo por ele estar de braços abertos para mim. Quase quatro anos atrás em um aeroporto cheio, eu o escutei me pedindo para ficar e eu não o fiz. Eu não poderia obrigá-lo a permanecer. O erro das pessoas é pensar que são donas umas das outras. É como um velho monge me disse uma vez, "a caminhada é solitária, mas não há alegria sem uma união".

Espero que Touya tenha feito à escolha certa, eu sou uma mera criança, talvez algum dia eu entenda o que ele está sentindo. Haruno Touya, o filho primogênito de quem os pais constantemente exigiam disciplina. Meu pai deveria ter sido exemplar sua vida toda, quem sabe tenha descontraído no início da maioridade, independente disso, ele tinha se tornado um grande líder para sua empresa e um péssimo homem para sua casa.

Eu sou sua primogênita e nem por isso vou cometer os mesmos erros que ele. O grande problema do meu pai foi o medo das consequências, e o meu grande erro foi não temê-las. Os resultados podem ser vistos. Em algum ponto eu me deprimi e em outro eu tentei me ajudar. Otou-san estava fazendo isso, sendo egoísta. Quanto a mim só restou o altruísmo.

Sasuke abriu a porta do quarto e eu caminhei para dentro. As luzes da sala estavam apagadas e ele veio atrás de mim acendendo-as. Quando a luz jorrou, ele se movimentou tão rápido quanto uma ave de rapina, apontando a arma para o sofá.

O mundo parou de girar e o oxigênio de entrar nos meus pulmões. A única coisa que me lembrou de que eu ainda estou viva foi o bebê se mexendo nos meus braços. Meu cérebro ligou tudo isso a um fantasma, uma fantasia criada por minha mente conturbada.

Então eu percebi que nunca acreditei em fantasmas.

Lá estava. Tão diferente e tão igual desde a última vez que eu a vi. O cabelo longo se tornou curto e o rosto juvenil agora cansado. Jeans, camiseta e tênis nos pés, as mãos juntas no colo e um olhar sem medo no rosto.

- Sasuke, abaixe isso.

Tão assustado quanto eu, ele disse:

- Mãe?

To Be Continued...


Notas: Como vocês estão, dia lindo esse, não? Já mencionei que meu aniversário é essa quinta, dia nove? Pois é, então, por favor, sem ameaças de morte. ;D Meus filhos que ainda não nasceram agradecem. OKASOAKSOK Sinto pela demora. É como eu digo sempre para Bela, a criatividade às vezes some e não se pode fazer nada. Porém, quando eu estava vindo para casa, no domingo à noite, eu comecei a imaginar e imaginar e imaginar os fatos se esclarecendo e os próximos capítulos começaram a se formar, however, se tudo ocorrer bem, essa fic estará completa no final de agosto, ou começo de setembro

Aliás, postei uma one-short chamada Imutável, é uma one calminha. :D

Agradeço vocês, mesmo depois das reviews cruéis que eu acho que eu vou receber, enfim...

Beijos para vocês coisas lindas.

Fui.

(Comentários mais esclarecedores são com a Bela. Acho que ela entende melhor o que eu escrevo do que eu mesma).

(Às reviews serão respondidas ainda hoje.)

N/b:

Heyyyyy people! Eu sei que todos estavam com saudades e "roendo as unhas de curiosidade", mas nem sempre a inspiração aparece, por isso reviews são tão importantes...rsrsrsrs. Mas então, o que acharam do capítulo? Eu juro que ainda quero matar o Touya, ele é um cretino òó! Nem mesmo uma palavra de consolo... ai ai... mas e o Lucca? Fofo, não? Fez um lindo discurso no funeral da Akane...e mostrou para a Sakura que a mãe sempre tentou ajudá-la. Não deve ter sido fácil para a rosada descobrir tudo isso após a morte da Akane.

Humm, mas e a conversa do Touya? Alguém tem algum palpite do por que ele sabe tudo sobre a morte (ou não tão morte assim) da Mikoto? Ahhhhhh, e esse final? Mandem seus palpites e apostas... reviews ajudam na inspiração!

Beijos

Bela