Olá, pessoal! Aqui é a Nati e essa oneshot faz parte do projeto de autoras RKverso 2022, onde nos propomos a unir os personagens da Kristen Stewart e do Robert Pattinson em possíveis casais e colocá-los num universo totalmente novo pra vocês! O meu casal escolhido foi a Snow White (Branca de Neve e o Caçador) e o Louis - Delfim (O Rei).

Essa é a primeira fic que eu escrevo e foi feita com muito carinho e dedicação, espero que vocês gostem das loucuras desses dois tanto quanto eu!

Boa leitura!

P.S.: Os personagens não me pertencem mas o enredo da história é 100% de minha autoria. Plágio é crime!


Correr. Correr até que seus pés não aguentassem mais e as pernas parassem de responder aos seus comandos. Correr até que o ar se esvaísse completamente de seus pulmões e ela já não pudesse mais respirar. Correr para poder viver. Este era o único pensamento que ecoava em sua mente naquele momento, impedindo-a de prestar atenção à floresta que a rodeava enquanto adentrava mais e mais na mata fechada.

Quase não podia mais ver o céu, pois os galhos das copas das árvores se emaranhavam, formando uma espécie de véu acima de sua cabeça que se prolongava pelo caminho à sua frente — e este ficava cada vez mais estreito. Uma pequena parte de seu cérebro registrou os tons alaranjados que conseguiam passar pelas frestas das folhas marcando o início do crepúsculo, e isso a preocupou ao pensar em como iria conseguir fugir no escuro quando finalmente anoitecesse, mas logo o som de algo se movendo ao redor e os galhos se quebrando sob seus pés voltaram a tomar sua atenção. Focou novamente em seu objetivo principal: só precisava despistá-los e se distanciar mais da fronteira entre os reinos da França e de Tabor, cujos limites tinha atravessado algumas horas atrás, e depois disso ficaria mais fácil decidir o que faria dali pra frente — ou ao menos era isso o que ela esperava.

Ouviu passos acelerados atrás de si e gemeu, a adrenalina lhe dando o impulso necessário para ir ainda mais rápido. Se não fosse pela maior preocupação que tinha agora — ficar viva —, ela teria parado para pensar sobre como tudo aquilo tinha acontecido a ponto de sua vida ter tomado esse rumo em menos de vinte e quatro horas. Havia, na verdade, duas perguntas importantes que precisavam ser respondidas: porquê e quem, mas naquele momento tudo ainda estava muito confuso em meio ao turbilhão de pensamentos. De qualquer forma, não podia perder tempo se concentrando nisso agora. Um problema de cada vez, repetiu mentalmente com fervor.

Para seu desespero, os barulhos e passos estavam agora acompanhados de risadas, e uma em particular chamou sua atenção. Não era uma risada acalorada ou doce, mas sim fria e cheia de escárnio, que fazia sua espinha gelar e todos os pelos de seus braços se arrepiarem de medo.

— Correr só vai fazer você se cansar mais rápido, Alteza! — gritou o dono da risada, o tom de voz arrastado vindo de algum ponto entre as árvores. — Melhor desistir logo desse joguinho bobo, você sabe que não pode fugir de nós por muito tempo!

Ela olhou rapidamente a sua volta, buscando algum lugar onde pudesse se esconder antes que a alcançassem. Suspirou aliviada ao avistar uma espécie de buraco perto do tronco grosso de um carvalho antigo; parecia ser a toca de algum animal e era grande o suficiente para que ela coubesse ali. Correu para dentro dele, se encolhendo o máximo que pode entre as raízes e folhas ao redor — sua figura pequena era uma vantagem nesse momento. Rezou para que a escuridão na qual a Floresta Negra agora se encontrava fosse o suficiente para que passasse despercebida em seu esconderijo.

Aguçou os ouvidos, atenta a qualquer som nas proximidades. Ao perceber que os perseguidores pareciam estar cada vez mais distantes, o alívio foi preenchendo-a lentamente, mas não o suficiente para que baixasse a guarda. Ofegante da corrida, ela tentava segurar até mesmo a respiração, receosa que o menor barulho ou movimento entregasse a sua localização. Após certo tempo, a ameaça finalmente pareceu desaparecer por completo, e tudo o que ela conseguia ouvir consistia no farfalhar das folhas nas árvores e nos sons dos animais que habitavam a floresta.

Enquanto esperava até que fosse seguro sair, flashbacks do dia vieram à sua mente. Ela havia saído de Tabor no final da manhã em um pequeno grupo a caminho da propriedade do duque de Hammond para uma visita diplomática informal. Havia recebido alguns dias antes uma carta de William, filho do duque e quem considerava como seu melhor amigo — se conheciam desde a infância — e, aparentemente, alguns assuntos urgentes precisavam ser discutidos pessoalmente. Já dentro do território francês, entretanto, ela e os poucos homens da Guarda Real que a acompanhavam foram abordados no meio do trajeto por um grupo de homens desconhecidos, e então tudo se transformou em caos e confusão. Quando se deu conta, ela já estava correndo para dentro da Floresta Negra e se separando de seu grupo na tentativa de não ser capturada. Uma mistura de dor, remorso e culpa lhe invadiu ao lembrar dos que ficaram para trás; rezou para que todos tivessem conseguido escapar com vida.

Ela não sabia dizer precisamente por quanto tempo esteve escondida ali, mas sentiu seus braços e pernas começarem a ficar rígidos e doloridos por conta da posição, e sua garganta incomodar de sede. A escuridão do local indicava ser tarde da noite e ela resolveu arriscar, se levantando com cautela para continuar seu caminho. Por alguns minutos tudo o que ouviu foi o silêncio, e a temperatura havia caído consideravelmente, fazendo-a tremer de frio. Mesmo sem ter uma noção exata de qual direção tomar, optou por seguir em frente até que achasse uma forma de sair da floresta.

— Se eu tiver sorte — refletiu consigo mesma — acabarei encontrando uma estalagem ou pequeno estabelecimento para me abrigar, e depois pensarei com calma no que fazer.

Após caminhar por alguns metros, entretanto, percebeu que esse plano não era tão bom quanto pensava, uma vez que a floresta estava escura demais e ela tinha dificuldade de enxergar o caminho, além de não conseguir ver as estrelas com nitidez para se orientar sobre as direções corretas. Já estava quase desistindo, com medo de acabar andando em círculos, e considerando dormir por ali mesmo quando avistou uma pequena clareira mais à frente. Correu ansiosa até lá e decidiu que, na melhor das hipóteses, era o lugar ideal para passar a noite já que o risco de cair ou ser atacada por algum animal seria menor. Se acomodou para deitar no espaço mais confortável que conseguiu, apoiou a cabeça nas mãos e fechou os olhos, suas pálpebras ficando cada vez mais pesadas enquanto caía rapidamente em um sono profundo.

# # #

Ela estava em um longo corredor localizado no piso superior do castelo, e as paredes cobertas por tapeçarias e pinturas eram um grande borrão de cores e formas enquanto ela corria em direção ao aposento principal, tamanha era a sua velocidade. Virou numa curva à esquerda e desacelerou ao se deparar com as enormes portas duplas de madeira, adornadas com relevos intrincados. Parou por um instante em frente a elas, inspirou profundamente para recuperar o fôlego e poder estabilizar os batimentos cardíacos antes de, finalmente, empurrá-las e entrar no quarto.

Deitada em uma enorme cama perto das janelas, em meio aos travesseiros e às cobertas de linho, estava sua adorada mãe. Ao avistá-la, esta gesticulou para que a filha fosse ao seu encontro e um leve sorriso surgiu em seus lábios despidos de cor.

— Snow, querida, que bom que veio. Estava ansiosa para que chegasse logo, venha e sente-se aqui comigo, ma princesse, por favor.

Ela se aproximou e então pôde observá-la melhor; suas feições ainda jovens estavam abatidas e a pele mais pálida em comparação à última vez que haviam se visto. Sob os olhos verdes, que costumavam brilhar como esmeraldas, olheiras profundas faziam com que eles perdessem o característico brilho e vivacidade.

— Oi, mamãe — falou baixinho. — Desculpe ter demorado tanto, papai e eu estávamos… em uma reunião. Como está se sentindo hoje? Conseguiu dormir bem?

Eleanor estreitou um pouco os olhos e então suspirou antes de responder. O simples gesto pareceu exigir um grande esforço de sua parte.

— Você e seu pai são parecidos demais para o seu próprio bem… ambos são péssimos em disfarçar quando estão mentindo — um pequeno acesso de tosse a interrompeu, mas ela logo se recuperou e continuou. — Eu estou tão bem quanto poderia estar e consigo descansar sempre que possível, não se preocupe. E não é sobre isso que eu gostaria de falar com você agora, filha. Seu aniversário de quinze anos está chegando…

Snow se controlou para não revirar os olhos e acabar contrariando a mãe no estado delicado em que ela se encontrava, então limitou-se a sorrir e segurar suas mãos frias, apertando-as levemente e entrelaçando cuidadosamente os dedos de ambas.

— Sabe que essa não é uma prioridade para mim agora, maman. Precisamos focar em cuidar de você e em sua…

— Ah… Eu ainda me lembro do inverno no ano anterior ao que você nasceu — a mãe a interrompeu, olhando melancolicamente pela janela. A princesa riu levemente; conhecia aquela história porque já a tinha ouvido várias vezes e era a sua favorita, uma vez que era também a favorita de sua mãe. A rainha continuou.

— O chão estava coberto pela neve mais branca que se pode imaginar, exatamente como agora. Era o inverno mais rigoroso pelo qual já havíamos passado e eu estava caminhando pelos jardins quando algo pequeno chamou minha atenção: em uma de nossas roseiras, um único botão de rosa havia florescido em meio à neve e aos galhos secos. Era um cenário tão incomum para aquela época do ano e ao mesmo tempo tão incrível… Eu não pude resistir tamanha beleza e, ao tentar tirá-lo dali, acabei espetando meus dedos nos espinhos, o que fez com que o sangue escorresse e manchasse a neve clara com gotas de um vermelho profundo. Naquele momento, eu tive um desejo.

A mãe voltou a olhá-la diretamente nos olhos e a garota sentiu suas lágrimas começarem a se acumular.

— Seu pai e eu estávamos tentando ter um bebê há tempos mas eu não conseguia engravidar, então desejei ter uma menina e que ela nascesse com a pele tão branca quanto a neve, os lábios tão vermelhos quanto o sangue, os cabelos negros como as asas de um corvo e, principalmente, que ela tivesse o coração tão forte e corajoso quanto o daquela rosa que resistia bravamente ao inverno rigoroso. Quando no ano seguinte você finalmente veio ao mundo e eu te segurei em meus braços, eu soube que havia ganhado muito mais do que havia desejado. Você é o meu milagre, filha, e está destinada a grandes coisas!

O momento foi interrompido por um novo acesso de tosse de Eleanor, dessa vez mais forte, mas ela se esforçou para concluir.

— Nunca se esqueça de quem você realmente é, ma princesse. Seja forte, justa e corajosa, pois é capaz de muito mais do que imagina…

Snow abriu os olhos subitamente, o susto e a escuridão ao redor fazendo com que tivesse dificuldade de assimilar onde estava e, principalmente, o que era real e o que ainda era sonho. Sua confusão, porém, durou apenas alguns segundos porque um terror tomou conta de cada parte de seu corpo ao perceber que não estava sozinha. Uma mão cobria sua boca com firmeza, impedindo-a até de respirar direito enquanto uma lâmina fria era pressionada contra sua garganta.

— Olá, Alteza — uma voz arrastada sussurrou em seu ouvido, e o pânico a dominou quando se deu conta de que era voz de seu perseguidor. — Espero que não tenha se esquecido de mim em tão pouco tempo; afinal, eu disse que não poderia fugir para sempre.

Suas tentativas de gritar foram abafadas e ela se debateu, em vão, para sair debaixo do homem que se debruçava sobre seu corpo, mas ele era bem maior e mais forte e apenas riu debochadamente de seus esforços.

— Ah não, princesa, não faça isso ou vai acabar se machucando… e seria muito, muito triste se eu acabasse perfurando sem querer esse pescoço tão lindo, não é?

Ele se inclinou mais em sua direção, seu hálito forte de tabaco e álcool lhe causando náuseas e tontura quando ele retirou a mão de sua boca apenas para segurar com força a mandíbula e impedi-la de gritar. Ele passou a deslizar o nariz por seu pescoço e ela sentiu que iria vomitar ali mesmo.

— O que você quer comigo? Quem lhe pagou para vir atrás de mim? — ela conseguiu dizer entredentes, o aperto forte dele já começando a deixá-la dolorida, porém ele nem se deu ao trabalho de responder enquanto cheirava seu cabelo, deixando-a ainda mais enojada.

— Hmmm… és um prêmio realmente precioso, tão tentadora que mal consigo resistir. Agora entendo o porquê dele nos oferecer uma quantia tão alta pelo serviço… e pelo visto vai valer cada centavo.

Lentamente, o homem deslizou a mão que ainda segurava a lâmina por seu pescoço e foi descendo-a em direção aos seios, passando pela barriga até parar na altura da cintura, apertando-a com força. Um alerta acendeu no canto da mente dela, que tentou se acalmar para raciocinar.

— É realmente uma pena ter que matá-la… mas acho que não vai ter problema algum me divertir um pouco antes disso, não é?

Ele largou a faca de lado por um instante e usou a mão livre para tentar se livrar do vestido dela. Snow percebeu que aquela seria sua única chance de escapar e, aproveitando a distração dele, conseguiu soltar uma de suas pernas e dar uma joelhada na virilha do homem; ele se curvou de dor enquanto ela se levantava aos tropeços e corria em direção à floresta, mas havia avançado poucos metros antes dele agarrar seu tornozelo e derrubá-la no chão. O golpe a deixou sem ar enquanto era arrastada por ele pela grama.

— Por favor, não… — ela pediu quando ele puxou seu cabelo de forma agressiva e voltou a pressionar a faca em sua garganta com tanta força que um pequeno corte se abriu, suficiente para escorrer um pouco de sangue. Fechou os olhos quando sentiu algumas lágrimas escaparem, mas a vontade de lutar não cessou. Não iria desistir e deixar que esse homem — ou qualquer outro — tivesse algum tipo de controle sobre o seu destino.

O que aconteceu em seguida foi tão rápido e estranho que ela mal conseguiu compreender. Um som ecoou pela noite como se algo macio estivesse sendo perfurado, acompanhado de gemidos entrecortados e ofegantes de alguém que engasgava ao tentar respirar, puxando o ar com força para os pulmões. Ela sentiu o corpo de seu agressor cair sobre o seu, esmagando-a com seu peso, mas ele logo rolou para o lado e pousou na grama com um baque surdo. Percebeu, com horror, que ele estava morto.

Teve poucos segundos para se recuperar do choque, pois ao olhar para cima, viu uma figura que se erguia próximo a eles, o rosto oculto pelas sombras. O estranho deu um passo lento em sua direção e se agachou ao seu lado; ela rapidamente agarrou a faca da mão do agressor morto e empunhou na direção do homem desconhecido para se proteger. Nesse momento, ele retirou o capuz e a luz do luar iluminou suas feições, tornando possível reconhecer quem era.

— Você.

— Boa noite, Snow White. É um prazer vê-la novamente.

# # #

Durante o trajeto até seu castelo, Louis tentou de várias formas iniciar uma conversa, porém não obteve sucesso em nenhuma delas. Simplesmente não conseguia encontrar as palavras adequadas e isso era incomum para ele, ainda mais se tratando dela. Em outras circunstâncias, refletiu, teria sido fácil fazer observações ácidas em seu costumeiro tom desdenhoso apenas para provocá-la, mas eles agora estavam enfrentando uma situação delicada. Ele a odiava, é claro, mas não era insensível a esse ponto.

— Chegaremos dentro de alguns minutos — ele tentou por fim. — Vou mandar preparar um quarto para você.

Ela não fez menção alguma de tê-lo ouvido e continuou a olhar pela janela sem dizer nada. Ele soltou um suspiro frustrado. Às vezes, o silêncio arrogante dela conseguia ser ainda mais irritante do que o som de sua voz.

Louis fechou os olhos e encostou a cabeça no banco da carruagem. Estava cansado e sua mente foi invadida por imagens daquela tarde. Seus homens haviam solicitado sua presença em um trecho da estrada que cortava a Floresta Negra para investigar um incidente; ao que parecia, um grupo vindo do reino vizinho havia sofrido uma emboscada e todos os integrantes da comitiva haviam sido mortos. Foi só quando chegou ao local, entretanto, que se deu conta da real gravidade da situação: os corpos estirados no chão eram de membros da Guarda Real de Tabor, e ele reconheceu de imediato os símbolos encravados na lateral do veículo tombado — o minúsculo botão de rosa florescendo delicadamente na neve abaixo da macieira dourada que representava o brasão da família real. Era a carruagem dela.

Olhou novamente para os mortos e respirou aliviado por ela não estar entre eles. Os rastros deixados ao redor indicavam que alguém havia tentado fugir para dentro da floresta, e que a pessoa havia sido seguida por pelo menos outras duas. Ele engoliu em seco.

Um de seus homens chamou sua atenção, lhe entregando um pedaço de tecido que tinha encontrado preso em uma das árvores e que parecia ser de um vestido. Louis imediatamente ordenou que saíssem à procura da princesa, enquanto ele e outros dois cavaleiros de sua confiança pegaram um caminho alternativo numa trilha mais fechada e pouco conhecida, mas que lhe daria mais chances de encontrá-la. Felizmente conseguiram chegar até ela a tempo, seus homens eliminando silenciosamente os bandidos enquanto ele matava o agressor dela antes que o filho da puta tivesse a chance de…

Ele abriu os olhos para encará-la novamente e notou que sua postura rígida não havia relaxado nem um pouco nos últimos minutos. Como ela ainda parecia alheia à sua presença, sem nunca voltar o olhar em sua direção, ele se permitiu observá-la com mais atenção.

Os cabelos negros estavam completamente desgrenhados, e várias mechas que haviam se soltado do elegante penteado estavam cobertas de grama e folhas. A pele, que sempre fora pálida, parecia ainda mais translúcida agora, lhe conferindo um aspecto assustadoramente fantasmagórico. Quando examinou seu rosto, percebeu vários arranhões e cortes que cobriam principalmente a testa e as bochechas, e seus lábios vermelhos estavam levemente inchados. O sangue que havia escorrido do ferimento em seu pescoço já havia estancado, mas as marcas ainda estavam ali.

Foi descendo o olhar à medida que continuava a avaliação silenciosa. O que antes havia sido um belo vestido agora não passava de farrapos; botões haviam sido arrancados e os rasgos deixavam à mostra as muitas escoriações espalhadas em seu corpo. Certos pontos chamaram a atenção dele por estarem cobertos de hematomas que agora começavam a ganhar um tom arroxeado, contrastando com o tom de sua pele. Alguns pareciam ser marcas de dedos grandes e longos.

Aquilo despertou nele uma fúria inexplicável e teve que controlar a vontade de socar algo — ou alguém — porque isso com certeza a assustaria, mas não impediu que as palavras pouco amigáveis saíssem de sua boca.

— Sabe, foi extremamente irresponsável da sua parte ter entrado na floresta daquele jeito, saindo da trilha ao anoitecer e sem ao menos conhecer a área. Não é à toa que acabou encurralada naquela clareira. Francamente, no que estava pensando?!

Ela continuou em silêncio, então ele prosseguiu.

— Ah, claro, eu esqueci com quem estou falando. Vossa Alteza Real Snow White! — ele disparou irritado, fazendo um floreio debochado com a mão na direção dela. — Você é tão teimosa e arrogante! Mesmo depois de tudo, não consegue nem ao menos descer do seu pedestal e me agradecer por…

— Eu nunca pedi a sua ajuda! — ela finalmente se virou para olhá-lo.

— E ainda assim precisou! Ou vai continuar ignorando o fato de que, se eu não tivesse chegado a tempo de resgatá-la, você teria sido… merda, como consegue ser tão estúpida?

— Não me chame de estúpida! — ela disparou, os olhos brilhando de fúria. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, os nós dos dedos brancos tamanha a força com a qual se abraçava, e ela continuou em um só fôlego. — Você tem noção de que o mundo não gira ao seu redor? Você pode ser o futuro rei da França, mas se acha que vou me humilhar por sua gratidão é porque realmente não me conhece. Eu sei o que ele pretendia, eu fiz o que foi necessário para sobreviver! Não ouse dizer como eu devo ou não reagir porque você nunca vai estar no meu lugar. Como se um dia você, ou qualquer homem, fosse sequer entender como é ser mulher.

Ambos ficaram se encarando por alguns minutos, mas nenhum dos dois teve coragem de continuar a discussão. O momento foi interrompido quando a carruagem enfim parou com um solavanco, e ela mal esperou a ajuda do lacaio para abrir a porta e descer do veículo. Louis respirou fundo algumas vezes antes de fazer o mesmo.

Pararam diante da enorme construção e ele subiu rapidamente os degraus da escada que levava até as portas principais, enquanto Snow ficou para trás e admirou o local por alguns instantes. Era cercado por muros altos com grandes tijolos de pedra, intercalados por torres sentinelas em cada ponta e onde homens na guarita estavam sempre vigilantes. Uma vez atravessado os muros, finalmente se podia ver o belo castelo — era todo circundado por um grande lago cujas margens eram conectadas ao outro lado por três largas pontes. Ela tinha acabado de cruzar a que ficava no centro e dava de frente para a escadaria da entrada; daquele ponto ela conseguia ver algumas das altas torres que se erguiam para o céu e todas eram revestidas de vitrais coloridos. Deveriam ser ainda mais belos durante o dia, ela pensou, quando estivessem iluminados pela luz natural.

Com um suspiro pesado, ela endireitou a postura e seguiu o mesmo caminho que ele havia feito até chegar ao hall principal, onde os empregados parados à porta a receberam com uma reverência. O ambiente lá dentro era quente e agradável, e ela sentiu seu corpo começar a relaxar. A sensação, porém, não durou muito tempo porque Louis surgiu logo em seguida, acompanhado por duas jovens moças.

— Já mandei fazer os preparativos para lhe receber, logo tudo ficará pronto e você poderá se acomodar. Estas são Marie e Louise — ele apontou na direção das mulheres, que fizeram uma cortesia ao serem apresentadas —, elas vão cuidar de você e atender todas as suas necessidades enquanto estiver aqui.

— Se não se importar, milorde — ela falou em um tom calmo porém cheio de autoridade —, eu gostaria apenas de me trocar e depois conseguir uma carruagem, ou mesmo um cavalo, para voltar a Tabor.

— Ficou completamente louca? Não há a menor possibilidade de você sair por aí desacompanhada e a essa hora da noite, não é seguro. Você vai ficar aqui, já está decidido.

— E isso por acaso é uma ordem? — ela disparou quando ele fez menção de sair do saguão.

Ele revirou os olhos e passou as mãos pelo rosto antes de responder, já sem paciência; ela realmente conseguia tirá-lo do sério como ninguém. Tentando controlar o tom de voz, porém sem muito sucesso, ele resmungou:

— Estou apenas tentando colocar um pouco de bom senso em sua cabeça, Alteza, já que isso lhe parece ser um feito muito difícil de alcançar por conta própria. Além do mais, se partir agora não poderá interrogar o suspeito, e imagino que gostaria de fazê-lo, não?

Ele sorriu vitorioso ao ver o olhar de surpresa estampar o rosto dela, e respondeu triunfante à sua pergunta não verbalizada.

— Nós o capturamos quando tentava fugir na floresta mais cedo; todos os outros foram mortos. Ele já foi levado para uma cela nas masmorras, onde passará a noite totalmente vigiado. Amanhã o faremos contar tudo o que sabe sobre o seu ataque, e depois decidimos o que fazer com ele.

Ela analisou a situação por alguns minutos, e odiou que ele tivesse razão — é claro que ela nunca admitiria em voz alta; o ego dele já era gigante sem que fizesse isso. Resignada, ela viu que não tinha outra alternativa a não ser ficar, então se empertigou e lançou o seu olhar mais indiferente antes de falar.

— Neste caso, os encontrarei no local indicado amanhã cedo para o interrogatório. Agora, se me der licença, eu gostaria de comer algo e depois descansar — ela acenou levemente com a cabeça antes de se retirar na direção indicada pelas criadas.

Assim que ela se foi, Louis soltou um grito alto e frustrado que ecoou pelo ambiente, ao mesmo tempo em que atirava na parede o primeiro objeto em que conseguiu pôr as mãos. Por sorte não havia ninguém por perto para presenciar o seu pequeno ataque de fúria; ele não costumava agir assim na frente dos outros, mas era tudo culpa dela. Aquela mulher era o demônio, e o ódio que nutria por ela fazia com que perdesse o controle às vezes.

— ADRIEN! — ele berrou enquanto seguia até uma das salas que ficava no térreo, seus passos firmes ecoando pelo longo corredor. Entrou no aposento em um rompante, onde um homem de meia idade e feições sérias examinava alguns papéis; o mesmo levantou o olhar para cumprimentá-lo silenciosamente quando o delfim andou em sua direção e ordenou:

— Quero os seus melhores homens montando guarda a noite inteira em frente ao quarto onde a princesa Snow White está hospedada. Pelo menos dois à porta e o restante vigiando o corredor e as janelas. Espero um relatório completo sobre este assunto amanhã cedo.

— Senhor? — Adrien parecia levemente confuso.

— Em hipótese alguma aquela ala deve ficar sem vigilância: ninguém entra ou sai dali sem autorização, entendeu?

A autoridade em sua voz não deixava dúvidas ou espaço para questionamentos. Adrien assentiu antes de sair para cumprir as novas ordens e Louis caminhou até a jarra de vinho mais próxima; naquela noite só muitas doses de álcool seriam capazes de acalmá-lo.

# # #

Snow levantou-se cedo na manhã seguinte e caminhou até a janela do quarto, de onde era possível ver as águas do lago refletindo à luz dos primeiros raios de sol do dia. Também conseguia vislumbrar parte dos jardins que ficavam aos fundos da propriedade, cujas folhas e flores ainda estavam com os tons alaranjados do outono. Era um cenário belíssimo, mas ela simplesmente não conseguia apreciar a vista.

Mal tinha conseguido dormir devido aos eventos recentes. Seus machucados ainda eram visíveis e muitos estavam mais doloridos do que ela se lembrava, provavelmente porque agora a adrenalina do momento já tinha passado. Ela se surpreendeu consigo mesma por não ter entrado em choque devido a tudo o que aconteceu.

Fechou os olhos e suspirou, encostando a cabeça na janela. Seu sono tinha sido agitado e cheio de pesadelos vívidos, onde seu perseguidor conseguia concluir o que tinha planejado para ela, a risada dele ecoando em sua mente. Havia despertado tantas vezes durante a madrugada que, em certo ponto, simplesmente desistiu de tentar dormir, abraçando seus joelhos e se permitindo chorar de forma que raramente fazia.

Sentou-se no parapeito da janela e observou o quarto, cujos detalhes haviam passado despercebidos até então. O ambiente parecia saído de um livro de conto de fadas, com a decoração delicada e as paredes azuis adornadas com desenhos dourados representando uma floresta encantada. Os móveis eram de madeira com detalhes em ouro e até a cama havia sido entalhada na base de uma árvore antiga, com galhos e flores verdadeiras formando uma cortina que pendia do dossel. Mas a parte mais fascinante, na opinião dela, era a área de banho adjacente ao quarto, que tinha uma linda banheira minuciosamente decorada nas bordas, tão grande que parecia um lago particular — possuía até uma fonte de água que caia semelhante a uma cascata.

Um sorriso triste surgiu em seus lábios. Por mais que quisesse ficar ali, fingindo ser a heroína de uma história com final feliz, aquela era a vida real e os problemas e responsabilidades estavam esperando por ela. Resignada, se levantou e caminhou até a porta; ao abri-la, porém, estancou na soleira, surpresa com o que encontrou do lado de fora.

Pelo menos quinze homens estavam a postos em frente ao seu quarto e ao longo do corredor, como se vigiassem algo — ou alguém. De alguma forma isso fez com que se sentisse encurralada e a visão foi ficando cada vez mais vermelha à medida que a raiva crescia: sabia exatamente quem era o responsável por tudo aquilo. Antes que pudesse ir até ele e machucá-lo das formas mais dolorosas possíveis, entretanto, um homem alto e de semblante sério se aproximou.

— Alteza — ele a cumprimentou respeitosamente — Meu nome é Adrien e trago um recado do príncipe Louis. Ele está resolvendo alguns assuntos urgentes essa manhã e infelizmente não poderá encontrá-la, mas me incumbiu de acompanhá-la às masmorras para interrogar o suspeito capturado ontem. Posso garantir que a senhorita estará segura o tempo inteiro comigo, e dessa forma não precisa se preocupar.

— Tenho certeza que sim — ela respondeu, a irritação mal disfarçada em sua voz. — Bem, de qualquer forma acho que será melhor assim. Prefiro mesmo falar com ele a sós e o seu senhor só iria me atrapalhar. Podemos ir agora, por favor?

Adrien assentiu e discretamente dispensou os outros homens no corredor antes de mostrar o caminho a ela, que o seguiu em silêncio. Durante todo o trajeto sua mente estava totalmente focada em quais perguntas faria quando chegasse o momento; precisava de respostas, mas será que iria gostar do que estava por vir?

Depois do que lhe pareceu vários minutos finalmente desceram um lance estreito de escadas e caminharam por um corredor mal iluminado e úmido, repleto de celas vazias e de onde exalava um forte mau cheiro. Adrien abriu uma porta e a conduziu para dentro de uma sala pequena, onde um homem magro e de silhueta esguia estava sentado em um banco, com as mãos e pés acorrentados. Ele levantou o olhar para encará-la de forma inexpressiva enquanto a princesa se posicionava à sua frente e Adrien à porta.

— Como se chama, senhor?

O homem não disse uma palavra sequer, ainda sem desviar os olhos dela. Isso não seria nada fácil, mas ela continuou calmamente.

— Quero que me diga quem você é e por qual razão seus companheiros atacaram a mim e a meus homens ontem à tarde. O que aconteceu com os meus guardas?

Ele continuou em silêncio e ela se virou para Adrien, a pergunta ainda em seu olhar, mas este apenas respondeu negativamente com a cabeça. Snow engoliu em seco e se voltou para o suspeito, a expressão agora dura e pesarosa.

— Você assassinou homens inocentes que estavam apenas cumprindo seu dever com honra e bravura, e que mal tiveram a chance de se defender. Eu jamais irei perdoá-lo por isso. Porém, se você colaborar e responder honestamente a todas as perguntas, garanto que farei o que estiver ao meu alcance para que tenha um julgamento e destino justo. O senhor tem a minha palavra.

O homem riu com escárnio e levantou as mãos algemadas para afastar os cabelos longos e sujos do rosto, o movimento fazendo com que as algemas deixassem seus pulsos à mostra, revelando uma pequena tatuagem azul de uma flor-de-lis parcialmente escondida por duas espadas cruzadas. Ela voltou sua atenção para o rosto do homem, dessa vez falando mais alto.

— O seu comparsa mencionou naquela noite uma alta quantia oferecida por um homem pelo serviço. Quem mandou vocês até mim e com que intuito?

— Qual é o nosso propósito neste mundo, Alteza? Será que sabemos quem realmente somos, e que tudo é o que parece ser? Será que temos controle sobre o nosso destino, ou já está tudo escolhido para nós? Se eu responder suas perguntas, você terá mais respostas ou mais dúvidas, huh?

O homem começou a rir descontroladamente e ela se virou para sair da sala; não conseguiria nada hoje. Antes que pudesse ir embora, entretanto, ele se dirigiu novamente a ela:

— As respostas que você busca não sou eu quem posso dar, princesa, mas elas estão mais próximas do que você imagina. Procure-as naquele que você menos espera, pergunte a ele. Às vezes precisamos olhar de perto para poder enxergar o todo.

Enquanto acompanhava Adrien de volta ao quarto, minutos depois, ela ainda repassava a conversa em sua cabeça. Nada tinha sido como esperava, e as palavras dele a deixaram inesperadamente confusa e desconfiada. Não conseguia afastar a sensação de que estava deixando algo muito óbvio passar despercebido bem debaixo de seu nariz.

# # #

Quando Louis finalmente se viu livre de todos os seus compromissos agendados para aquela manhã, percebeu que já havia passado da hora do almoço, o que contribuiu para piorar ainda mais o seu humor. Não pretendia demorar tanto, mas quando se tratava de seu pai era sempre assim; mesmo moribundo, o velho fazia de tudo para atrapalhar sua vida. Bastardo de merda, pensou com amargura.

Em geral, as refeições eram feitas no salão principal junto com os outros membros da corte, mas hoje ele havia solicitado aos empregados que preparassem uma pequena ceia em sua sala de uso pessoal para poder conversar melhor com Snow. Não que a ideia de ficar a sós com ela mais do que o minimamente necessário lhe agradasse, mas não tinha conseguido acompanhá-la ao interrogatório e precisava saber sobre como tinha sido. Esperava que o destino do desgraçado fosse algo muito doloroso.

Entrou na sala e encontrou-a já sentada à mesa. Seu semblante parecia distraído, perdido em pensamentos, tanto que nem percebeu sua chegada. Somente quando ele puxou a cadeira para sentar-se ela se sobressaltou e levantou a cabeça na direção dele.

— Desculpe a demora, tive alguns assuntos importantes para resolver e acabou levando mais tempo do que imaginei.

Ele começou a se servir das diversas opções disponíveis e encheu uma grande taça de vinho, enquanto o prato dela permaneceu intocado.

— Imagino. Você deve ser muito requisitado agora que está assumindo as responsabilidades de seu pai. Se precisar de conselhos sobre como lidar diplomaticamente com pessoas, eu posso lhe ajudar, e nem vou cobrar nada pelo favor — ela comentou debochada, como se estivesse fazendo um grande esforço só para manter um diálogo normal com ele.

Louis apertou os talheres com força para mantê-los seguros em suas mãos; a vontade de arremessá-los na direção dela era tentadora demais.

— Até onde eu me lembro, não lhe devo satisfações sobre como lido com os meus afazeres, mas agradeço a preocupação. Se alguma vez precisar de um conselho, prefiro perguntar aos meus cachorros do que ter que ouvir alguma insensatez vinda de sua boca.

— Com certeza eles serão capazes de tomar decisões mais inteligentes do que você.

Ele a ignorou e voltou a atenção para sua refeição. Por alguns minutos o ambiente caiu em um silêncio tranquilo, mas o momento de paz não durou mais do que quinze minutos.

— Como foi o interrogatório? Conseguiu alguma informação útil?

— Infelizmente não. Ele apenas falou coisas enigmáticas, mas eu lhe prometi um julgamento justo caso decidisse colaborar.

— Não acredito que irá funcionar, pessoas assim sabem bem as consequências de seus atos. É o seu destino, e nada o fará mudar de ideia. É assim para todos, e só o que podemos fazer é aceitar o nosso papel nesse mundo e cumpri-lo sem questionamentos.

O barulho de talheres caindo no chão no minuto seguinte o impediu de continuar a comer. Quando olhou para ela, viu que o encarava com uma expressão séria.

— Como você sabia onde me encontrar? — ela perguntou, os olhos desconfiados.

— Como disse?

— Como você sabia onde eu estava ontem a noite?

A voz dela era cortante como uma lâmina e o tom acusatório lhe desagradou profundamente.

— Eu sou o delfim da França. Preciso estar informado de tudo o que acontece dentro do meu território!

— É muita coincidência, não acha? Você conseguiu me encontrar no meio de uma floresta imensa e fora da trilha, à noite… me parece que alguém que tinha todas as informações necessárias.

Ele se levantou tão rápido que a cadeira caiu com um baque surdo no chão. Ela espelhou seus movimentos antes de ir de encontro a ele, e ambos se encararam com fúria.

— Eu realmente espero ter entendido errado e que você não esteja insinuando o que estou pensando.

— O prisioneiro disse que um homem o contratou, alguém que está mais perto do que eu imagino e que só ele poderia responder às minhas perguntas. Agora me diga, quem mais nessa sala teria motivos para atentar contra mim?

— Eu salvei a porra da sua vida! Por que eu faria isso se quisesse acabar com você? E acha mesmo que eu seria tão burro a ponto de trazer até aqui um informante que supostamente trabalha para mim e deixá-lo conversar á sós com você? Eu sabia que você era densa, mas não esperava que fosse tão idiota!

O som do estalo da mão dela indo de encontro com a pele de seu rosto ecoou pela sala, e ela ofegava enquanto fulminava-o com os olhos cheios de fúria.

— Eu tenho todos os motivos do mundo para desconfiar de você, não é? Afinal, essa não é a primeira vez que você tenta me matar, lembra?

Ele a encurralou contra a parede, seus braços fortes apoiados de forma a impedi-la de fugir. Seus rostos agora estavam a centímetros de distância um do outro, e no fundo dos olhos frios e duros dele, ela encontrou algo mais: ressentimento.

— Não importam as evidências mais claras, você sempre vai acreditar no que quer. Por que eu deveria me esforçar para me defender se você já escolheu sempre duvidar de mim, não importa o que eu faça? Sua arrogância e soberba ainda vão lhe causar muitos problemas, e um dia você vai ter tudo o que merece. Se um dia precisar de ajuda outra vez... não conte comigo pra nada!

Ele se afastou em direção à porta, seu corpo inteiro tremendo de fúria, porém ela se colocou em seu caminho para impedir sua passagem.

— Exijo que me leve de volta a Tabor agora mesmo!

— Você não vai a lugar algum! Não quer a verdade? Então é isso que terá. Vai ficar aqui até descobrirmos tudo, e fora desse castelo você não pisa! Eu sou o futuro rei da França e estou acima de qualquer coisa; não vai ser uma princesinha mimada e de um reinozinho insignificante como você que vai me controlar.

— Você não pode fazer isso! Não pode me manter prisioneira aqui, isso é um crime!

— Eu serei exatamente tudo o que pensa de mim, então bem-vinda ao seu inferno particular.

Ele desviou do bloqueio dela em seguida e saiu da sala batendo a porta atrás de si. Iria agora mesmo às masmorras — estava na hora de ele mesmo ter uma conversa com o sujeito, e iria arrancar a verdade a todo custo. Nada lhe daria mais prazer do que quando chegasse o momento de vê-la cuspir todas as palavras que havia dito.

# # #

Já fazia uma semana desde que ela tinha virado refém naquele castelo, embora suas únicas privações fossem conseguir voltar para casa e se comunicar com alguém de fora do reino. Ainda tinha liberdade para circular dentro da propriedade, não tinha horários ou refeições limitadas, e nem aposentos insalubres para ficar — seu quarto continuava o mesmo e, como ela percebeu com bastante alívio, em uma ala diferente da dele.

Os dois não haviam se cruzado desde a troca de acusações no fatídico almoço, mas ela sabia que todos os serviçais que a acompanhavam — desde as damas de companhia até os homens que montavam guarda em frente ao seu quarto — eram obrigados a passar para ele relatórios diários sobre o dia-a-dia dela. E para onde ela fosse, nunca estava desacompanhada. Então, sim: era uma prisão de luxo, mas ainda assim uma prisão.

Se o governo de Tabor soubesse o que estava acontecendo, certamente geraria um incidente diplomático sem tamanho, talvez até mesmo uma guerra. Apesar de querer ser resgatada, ela sabia que isso não seria bom para o seu povo, pois seus exércitos e recursos eram infinitamente menores que os da França. Tabor era um território importante e muito cobiçado devido às minas de exploração de metais e pedras preciosas, especialmente diamantes. Por ser muito pequeno, entretanto, não tinha condições militares de se defender e precisava da proteção de um reino maior como a França. Assim havia sido durante séculos, os dois reinos aliados se protegendo e se beneficiando mutuamente.

Era estranho, porém, que ninguém tivesse tentado descobrir o seu paradeiro — certamente a notícia do sumiço de uma princesa teria se espalhado pelos territórios vizinhos. Mas a verdade era que isso era culpa sua. Devido à urgência com a qual havia sido requisitada em Hammond, ela optou por não anunciar sua partida e chegar lá de surpresa. Havia respondido a Will que iria em breve, mas por uma questão de sigilo não informou a data exata. Como a sua visita não era oficial e a sua minúscula comitiva havia sido abatida, ninguém sabia de seu paradeiro. Não saberia quanto tempo levaria até que fosse dada como morta ou desaparecida e seu paradeiro fosse enfim esclarecido.

Estava andando pelos jardins naquele dia acompanhada de Adrien e mais dois guardas. O cenário tinha mudado bastante em uma semana; o tom alaranjado havia desaparecido junto com as folhas, dando lugar à neve branca do início do inverno. Apesar da temperatura ter caído consideravelmente, andar pelos jardins ao menos aliviava a claustrofobia de sua prisão.

Pensativa, ela observou o homem à sua frente. Ele era alto e forte, com ombros largos que sustentavam braços que, sem dúvida, poderiam quebrar qualquer coisa com facilidade. A cabeça completamente raspada e a barba grossa lhe conferiam o ar sempre sério; certamente não era alguém com quem gostaria de se indispor. Com a curiosidade falando mais alto, ela tentou puxar assunto.

— Adrien, a quanto tempo você serve o delfim?

— Desde que ele fez dezoito anos. O meu pai serviu o pai dele, e depois que a saúde do rei Carlos ficou debilitada, Louis passou a ser o príncipe regente e eu assumi a sua guarda.

— Entendo. E sendo alguém próximo a ele, você o consideraria um governante digno, justo? O que eu quero dizer é, acha que ele pode ser inescrupuloso para conseguir o que quer, indo até a consequências… extremas?

Adrien não respondeu de imediato e manteve o semblante sério enquanto caminhavam. Depois de um tempo, o silêncio começou a ficar desconfortável e ela se repreendeu por ter sido tão insensível.

— Me desculpe, eu não quis ser invasiva e nem colocá-lo em uma posição difícil. Admiro a sua lealdade para com o seu senhor.

Quando ele finalmente falou, algo em seu tom de voz a surpreendeu. Não havia hesitação, mas sim respeito e admiração.

— Tudo o que o delfim faz é para que a França prospere e se torne uma grande potência. Ele foi criado para isso, esse sempre foi o seu destino, antes mesmo de ele nascer. Tudo o que ele faz é para conseguir honrar com o seu objetivo e propósito nesse mundo, e ele sempre procurou fazer o que considerou ser justo. Nunca desonrou um compromisso ou aliança, ou faltou com a sua palavra.

Ela parou de andar e quando ele a olhou, parecia conseguir ver dentro de sua alma.

— Eu sei o que está pensando, princesa, e não cabe a mim interferir em suas opiniões. Mas, se me permite um conselho, deve tomar cuidado com as informações que chegam até você. Um soberano justo sabe filtrar os pensamentos e equilibrar razão e emoção, e não toma decisões com base em pré-julgamentos.

Ela ficou sem palavras. Será mesmo que o havia julgado errado? Admitia que tinha exagerado ao confrontá-lo e que não lhe havia dado o benefício da dúvida. Mas o que mais ela poderia fazer? Ele tinha motivos, e também não seria a primeira vez, ela se lembrou com ressentimento. Mas agora, sendo honesta consigo mesma, já não tinha tanta certeza no que acreditava.

Uma rajada forte de vento passou por eles e ela apertou mais a capa ao redor de seu corpo. Estavam se preparando para voltar ao castelo quando Adrien a surpreendeu, lhe oferecendo as próprias luvas de couro para que seus dedos não congelassem.

— Obrigada — ela agradeceu timidamente, e um detalhe no pulso do homem chamou sua atenção.

— Adrien, qual o significado dessa tatuagem? — tocou o braço dele e se aproximou para examinar com mais atenção os pequenos símbolos feitos com tinta azul, representando duas espadas estavam cruzadas na frente de uma intrincada coroa, como se a protegessem. A imagem lhe pareceu estranhamente familiar e ela buscou no fundo da memória, mas não conseguia se lembrar com clareza onde poderia ter visto algo semelhante antes.

— Esse é o símbolo da guarda pessoal da família real francesa. Existe a Guarda Real, assim como nas outras famílias da realeza, mas essa é um pouco mais exclusiva, por assim dizer. Os membros são escolhidos minuciosamente para um trabalho mais próximo com os membros da família e passam por um treinamento muito rígido. A lealdade e o juramento são vitalícios. Em outras palavras, funciona como uma guarda secreta, extremamente restrita.

— Nossa, eu nunca tinha ouvido falar de algo assim. Parece ser um cargo de confiança e muito importante, tenho certeza de que deve se sentir honrado por tal oportunidade. Qualquer nobre ficaria orgulhoso por ter alguém leal como você ao seu lado.

— Obrigado.

— Espero que o delfim saiba reconhecer de forma justa os esforços de todos vocês, e que seja muito grato por isso. Imagino que um cargo tão íntimo e de tamanha responsabilidade não deve ser oferecido a qualquer pessoa.

— A guarda secreta tem um número bastante restrito de membros, de fato. Uma parte deve servir ao rei e aos respectivos príncipes, que são representados pela coroa na tatuagem — ele apontou para os desenhos em seu pulso — enquanto a outra parte serve à rainha e às princesas, mas no caso delas as espadas protegem a flor-de-lis ao invés da coroa, por ser o símbolo da família real.

Snow parou no mesmo momento, o choque e a surpresa preenchendo cada célula de seu corpo de modo que seus pés pareciam fincados no chão, e ela foi incapaz de se mover.

— Alteza? Está tudo bem?

Ela não conseguiu respondê-lo. Algo se encaixou em sua mente enquanto se lembrava o porquê dos símbolos na tatuagem lhe parecerem tão familiares. Já havia visto algo parecido antes, exatamente uma semana atrás; a flor-de-lis oculta pelas espadas cruzadas no pulso do prisioneiro responsável por seu ataque era feita com a mesma tinta azul da tatuagem de Adrien.

Se o que ele havia acabado de lhe contar sobre as tatuagens era verdade — e ela não tinha motivos para duvidar de sua palavra — então o sujeito era membro da guarda real que protegia a princesa da França. Um cargo vitalício e de lealdade eterna, como Adrien havia dito, permaneceria até depois que essa não fosse mais a nobre daquele país, especificamente. Continuaria mesmo que ela fosse a rainha governante de outro reino…

Seus pés finalmente pareceram responder aos seus comandos e ela não esperou pelos demais quando voltou apressada para o castelo, quase correndo de uma forma deselegante e inadequada para uma princesa. Que se explodisse a etiqueta agora! Ouviu Adrien chamá-la atrás de si enquanto corria para acompanhá-la, mas só parou quando já estavam no hall do saguão principal do castelo.

— Onde está o delfim? — ela perguntou, quase eufórica.

— Ele provavelmente está na sala de reuniões agora, tem alguns compromissos importantes hoje.

— Me leve até lá. Preciso falar com ele imediatamente.

— Mas Alteza…

— Agora, Adrien! — ela disse com o tom firme. Dane-se o fato de não ter direito algum de exigir aquilo ou falar com ele naquele tom; sabia que não tinha poder algum ali, mas precisava falar com ele e não poderia esperar mais nenhum minuto.

Contrariado, Adrien pediu para que ela o seguisse, e caminharam por um longo corredor até chegarem ao local em questão. Ele abriu a porta e apesar de seu corpo bloquear parcialmente a visão dela, conseguiu enxergar que os nobres lá dentro estavam sentados em volta de uma grande mesa, Louis ao centro. Ele parecia aborrecido com algo, olhando com raiva para ver quem os havia interrompido, mas sua expressão mudou quando Adrien deu um passo para o lado e revelou a figura dela parada embaixo do portal.

— Saiam todos — Louis ordenou.

— Mas Alteza, nós ainda não terminamos de discutir…

— Eu disse saiam! Agora — ele elevou o tom de voz, e imediatamente os que estavam presentes se levantaram. Um a um eles saíram pela porta, que Adrien fechou deixando os dois a sós.

A tensão que pairou no ambiente era quase palpável, mas nenhum dos dois falou nada por um momento; apenas se encararam até que ela tomou coragem e se aproximou. Não seria nada fácil, mas precisava continuar.

Parou de frente para ele, que se recostou na cadeira e apenas a olhou, a expressão indiferente quando ela o questionou:

— Quando foi a última vez que falou com a sua irmã?

— Por que a pergunta?

— Pelo que me lembro, vocês nunca foram próximos ou afetuosos um com o outro, e por algum motivo que agora não me interessa, sempre tiveram desavenças. Mas preciso saber que tipo de relacionamento vocês têm hoje em dia.

Ele riu, porém sem humor algum assim que entendeu aonde ela queria chegar.

— Por acaso está me perguntando se eu armei junto com ela para assassinar você? Uau, isso é realmente diferente. Estou honrado por ter saído de principal suspeito para mero cúmplice, certamente é um avanço. Mas me diga, o que aconteceu para que mudasse de ideia e resolvesse vir conversar civilizadamente comigo agora, ao invés de simplesmente atirar as suas verdades e conclusões na minha cara como da última vez?

— Será que poderia não ser sarcástico agora, por favor? Não vim aqui para isso, preciso saber a verdade.

— Agora você quer a verdade? Pensei que a sua versão era a única que importava

Ela se limitou a olhá-lo com desdém, então ele bufou antes de continuar.

— Está bem. Eu não falo com Ravenna há anos, desde que ela se casou com o seu pai. Não temos nenhum tipo de relação, todos os assuntos relacionados ao seu reino são discutidos através de terceiros. Ela não significa nada para mim e não tenho consideração alguma por ela.

Ela assentiu e considerou as palavras dele por um instante, até que ele a despertou de seus pensamentos.

— Mas me diga, o que lhe fez suspeitar dela assim tão de repente?

— Adrien comentou comigo sobre a sua guarda secreta e os símbolos das tatuagens. Era a mesma do suspeito... Eu apenas conectei os pontos e, bem, vim falar com você.

— Ah, claro. Quando se trata da palavra de qualquer outra pessoa, você obviamente vai acreditar logo de primeira. Típico.

— Se você já sabia que tinha sido Ravenna quem havia atentado contra mim, por que não me contou nada?

Ele ergueu uma sobrancelha de forma arrogante para ela, que revirou os olhos.

— Escute, eu sei que fui precipitada e que nossa última conversa não foi das melhores, mas eu sou capaz de admitir quando erro. Estou aqui para consertar as coisas, então será que pode baixar esse tom para conversarmos civilizadamente?

— Bem, e o que quer eu faça, agora que já sabe da verdade? Se veio para me pedir desculpas e implorar meu perdão, posso detalhar algumas ideias que tenho em mente sobre o que pode fazer por mim — o olhar dele recaiu sobre sua figura e ela lhe deu as costas, indignada.

— Estou tentando entender as motivações dela. O que ganharia com isso? De que formas meu assassinato poderia beneficia-la?

— É óbvio, não vê? Você vai ser rainha quando completar vinte e um anos, é a lei de Tabor. Ela perderá todos os poderes quando você assumir o trono, não será mais a governante.

— Isso faz sentido, admito, mas algo ainda não parece certo, não se encaixa… eu não havia considerado essa possibilidade antes, mas o ataque não poderia ter acontecido sem muito planejamento prévio. Nem mesmo você teria como saber onde eu estaria naquele dia.

— O que quer dizer?

— Quando resolvi visitar Will, não informei a ninguém a data da viagem. Seria algo informal e nem mesmo ele sabia que eu estava indo; ninguém além da minha comitiva tinha conhecimento dessa excursão. Eram todos homens de minha confiança então Ravenna, obviamente, também não teria como saber.

— A não ser que alguém tenha lhe traído.

— Você acha que ela teria conseguido infiltrar alguém em minha guarda pessoal?

— Pelo que conheço de Ravenna, tudo é possível — ele disse enquanto se levantava e ia até a porta. Falou algo para Adrien que ela não conseguiu ouvir e depois voltou para a sala, agora ficando de pé ao lado dela enquanto tomava um gole de vinho.

— O rapaz que me atacou não parecia ser alguém da guarda dela. Ele mencionou um homem, disse que ele tinha lhes oferecido uma alta quantia pelo serviço. Sendo assim, se os soldados da guarda secreta de Ravenna são tão leais a ponto de seguirem as suas ordens independente das consequências e da forma como Adrien me explicou que funcionam os votos dos soldados, por que eles iriam precisar de recompensa?

— Ravenna obviamente não iria se expor, nem deixar rastros de sua participação em qualquer coisa que planejasse. Ela é extremamente ardilosa, deve ter agido através de outra pessoa, se escondendo atrás dos movimentos dele. Com certeza mandou alguém contratar os assassinos e infiltrou o espião que capturamos entre eles para ter certeza de que não iriam desistir e completassem o serviço.

— Meu Deus — Snow precisou se apoiar na cadeira para se sustentar; eram informações demais de uma só vez, e por mais estranho que parecesse as coisas pareciam começar a fazer algum sentido.

— Além disso — continuou Louis — a nada secreta inimizade entre nós dois facilitaria muito para que você desconfiasse de mim logo de cara. Você teria sido morta em meu território e sem nenhuma testemunha viva. Ela poderia me acusar de ter armado uma emboscada contra a princesa de Tabor, o que me traria muitos benefícios caso conseguisse controlar o reino…

— E ela teria fortes motivos para declarar guerra contra a França! — ela completou a frase dele, seguindo a mesma linha de raciocínio. Não foi difícil já que ela mesma tinha pensado em algo parecido mais cedo naquela tarde.

— Mesmo que Tabor seja militarmente mais fraco, o assassinato de uma princesa, ainda mais uma tão bem quista aos olhos do povo, causaria uma forte comoção e ela conseguiria muitos aliados. Ela finalmente iria me destruir… como sempre quis.

Ela não entendeu a última frase, mas ele não tocou novamente no assunto, e foram interrompidos por Adrien, que entrou na sala até parar ao lado deles. Louis o encarou.

— E então?

— Fiz o que me pediu, Alteza. Falei com os monges responsáveis por cuidar dos corpos dos membros da guarda de Tabor mortos no ataque — ele se virou para a princesa quando ela arfou — Nós os enterramos seguindo os protocolos fúnebres e homenagens prestados à nossa guarda real, da forma mais respeitosa possível.

— Obrigada por isso. Eles eram bons homens, e fizeram de tudo para me proteger. Mereciam um fim mais digno e eu infelizmente não pude dar.

— Adrien! — Louis chamou, já impaciente — Encontrou alguma evidência?

— Sim. Infelizmente era como o senhor suspeitava, milorde. Os monges garantiram que um deles era da guarda particular da princesa Ravenna. Encontraram a tatuagem coberta por ataduras, mas sem dúvidas era um deles.

Snow se sentou na cadeira, absorvendo tudo aquilo. Há quanto tempo Ravenna estava articulando para matá-la? Nunca haviam sido próximas, é verdade, mas sempre se trataram bem e com respeito mútuo e empatia. Nunca pensou que ela fosse ser capaz de tamanha maldade e frieza. Sabia que o casamento dela com seu pai, pouco tempo após o falecimento de sua mãe, tinha sido arranjado para cumprir um antigo acordo entre as famílias. Não era um casamento por amor para nenhum dos dois: esse tinha sido o último grande sacrifício de seu pai em benefício dela,

Sentiu sua garganta começar a se fechar, mal reconhecendo o toque em sua mão. Louis a encarava com olhos cheios de perguntas não verbalizadas.

— Adrien, obrigada por tudo. Poderia nos deixar a sós agora, por favor?

O homem se retirou após fazer uma reverência, fechando a porta ao sair.

Snow levantou-se e andou lentamente até ficar de frente para a lareira. Uma ideia havia acabado de lhe ocorrer, e essa talvez fosse a coisa mais difícil que já tivera que fazer em sua vida. Respirou fundo antes de se virar para encará-lo novamente, os olhos sérios.

— Quero propor uma aliança.

— Como disse?

— Eu quero assumir o trono de Tabor, como me é de direito, e tirar Ravenna do poder. Já você poderá se livrar de falsas acusações sobre meu assassinato, que certamente não demorarão a surgir caso sua irmã comece a por o plano dela em prática. Ela não sabe que estou viva e aqui com você, e se pensarmos estrategicamente poderemos usar essa vantagem da melhor forma possível.

Louis considerou o que ela havia acabado de dizer por alguns instantes. Entendia a sua lógica e aonde estava querendo chegar, mas ao mesmo tempo sentia que havia algo muito sério nas palavras dela, algo que ela parecia evitar dizer em voz alta. Snow continuou seu discurso, o tom de voz resignado e hesitante.

— Como você sabe, Tabor é um reino pequeno mas importante, e nossas minas garantiriam à França riquezas e poder imensuráveis, enquanto o meu povo contaria eternamente com a sua proteção. Entendo que os custos de emprestar seus exércitos a mim e bancar as despesas de uma guerra seriam altíssimos, e que sacrificar a vida de seus homens apenas para me ajudar não parecem motivos nobres o suficiente, ainda mais se tratando de enfrentar sua própria irmã... Mas posso lhe garantir que estou disposta a tudo pelo bem estar de meu povo, e farei qualquer sacrifício por eles se isso significar que terei o seu apoio.

— Esse discurso é realmente muito comovente, mas será que pode parar de enrolar e chegar logo ao ponto? Você disse que quer formar uma aliança comigo, mas então por que eu sinto que está evitando me dizer algo?

— Louis, delfim da França, eu lhe proponho unir os nossos reinos através de um casamento. O nosso casamento.

Louis a encarou como se ela tivesse acabado de ganhar uma segunda cabeça e três pares de olhos. Tinha realmente ouvido certo? Ela não tinha acabado de propor aquilo, tinha? Ele não conseguiu verbalizar suas perguntas tamanho o choque.

— Sei que parece loucura, e acredite: eu não estou nem um pouco feliz com essa ideia. Mas você tem que admitir que é a forma de aliança mais incontestável de todas, e que não levantará nenhum tipo de questionamento entre os membros de sua corte e súditos. Sugiro resgatarmos o antigo acordo entre nossas famílias, de quando ainda éramos crianças. Meu pai se sacrificou por mim, se casando com a sua irmã para que eu não fosse obrigada a me casar com você e ainda conseguir manter a união entre os nossos reinos. Agora, eu quero fazer o mesmo.

— Ora, por essa eu realmente não esperava. É uma proposta interessante… Vossa Alteza tem certeza de que está disposta a tudo mesmo? — um sorriso começou a surgir em seus lábios.

— Tem a minha palavra, mas eu tiraria esse sorriso convencido do rosto se fosse você. Não facilitarei um minuto sequer para você, milorde.

Ele não se deixou abalar pelo comentário. De fato, a ideia de se aliar a ela nesse ponto não o agradava nem um pouco, e estariam para sempre unidos por algo sagrado e muito maior do que eles mesmos. Mas vê-la implorar por sua ajuda e se humilhar — sabia que uma proposta dessas estava matando-a por dentro — lhe agradava imensamente. Não era necessariamente um pedido desculpas pelas falsas acusações, mas era quase tão bom quanto.

Ele caminhou até onde ela estava e parou em sua frente. Segurou sua mão direita delicadamente, os olhos cheios de malícia presos nos dela enquanto levava sua mão aos lábios e depositava ali um beijo suave.

— Mal posso esperar por isso, minha futura rainha.

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