Nota: Decidi traduzir este fic porque sim. Foi feito no contexto de um evento 'Darker Oneshots Halloween Challenge 2020' criado por Seth's Kiss e NekoPantera. A ideia do fic em si foi dada por Seth's Kiss e pedi ajuda e opiniões a 4 colegas de trabalho.
Há uma referência à 'Morte' de Neil Gaiman. O cocktail 'Aunt Roberta' é real e escolhi-o por causa da sua história e porque parece ser bué de forte. O nome de um dos clubes é um sítio na minha cidade, outro é do Silent HIll Shattered Memories.
Por fim, recomendo algumas músicas de ambiente se quiserem. Como o album 'Corpo mente' album ('Eqqus' para o começo e a música de fundo do bar), 'Maigre' EP ('Alain' e 'Biquette' para a parte seguinte/também música de fundo), e a música 'Scarlet' da banda sonora do Silent Hill (cuidado com esta)
Avisos: Este fic contém blasfémia e no geral é suposto ser terror psicológico.
Disclaimer: Obviously don't own Kuroshitsuji, and this AU scenario isn't technically my own making either as the prompt was given by Seth's Kiss.
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As noites de sexta-feira eram sempre agradáveis.
O Diabo Sebastian soltou um suspiro cansado. Já fazia algum tempo desde que se aventurara por esta parte da cidade, e apesar de saudosa e apreciativa, estava também bastante preenchida de oportunidades. E oportunidades ele providenciava: algumas tentações aqui e ali, uns empurrõezinhos na direcção certa, alguma ajuda a instigar pessoas à acção e tomada de decisões que iriam mudar as suas vidas; se era uma decisão 'má' ou não, isso era discutível. Quem podia dizer que os seus conselhos eram exclusivamente para piorar o que fosse? Providenciava e sugeria soluções. As pessoas só as aceitavam porque queriam. Com certeza que o faziam a ele sentir-se óptimo, e talvez algumas das pessoas cujas almas eventualmente descansassem no Inferno fossem partilhar do seu sentimento. Aquelas duas almas que devorara de imediato provavelmente não concordariam.
Sebastian adorava o seu trabalho, mas por muito que gostasse dele, também gostava de descansar e relaxar na companhia de si próprio. Daí este passeio nocturno por entre multidões tão propensas a serem colhidas, mas que ele ignorou em prol de placas clássicas ou com luzes néon de pubs e clubes nocturnos. O tempo estava a esfriar, ameaçando um habitual aguaceiro, e Sebastian expirou uma nuvem de fumo quente para a noite ao olhar além das pessoas na rua à procura de um lugar que parecesse remotamente atraente.
Alguns eram só ofensivamente espalhafatosos, como o clube de strip Pussy Queen. Nyctophilia, Photus Club, tudo clubes nocturnos cujo tipo de clientela ele estava familiarizado e decididamente não eram o tipo de lugar que procurava esta noite. Todos lugares muito promissores para visitar numa outra ocasião, mas por hoje, Sebastian só queria uma bebida, pouca atenção e alguma paz e sossego. Talvez também um pouco de música agradável.
Continuou a sua demanda, alternando entre pasmado, divertido e aborrecido perante os nomes de alguns estabelecimentos e respectivas placas: Bros' Cave, Good Old Days, Seven, alguns mais cheios, outros mais vazios, uns barulhentos e outros tranquilos, de clubes nocturos a discotecas a tabernas, e Sebastian estava pronto a entrar no próximo que lhe aparecesse apenas por tédio absoluto e para escapar da chuva que começara a cair quando apanhou um relance de um néon azul com Phantom's Hive em escrita cursiva. Decidindo que o sinal néon era demasiado ambíguo para denunciar o seu interior e o tipo de clientela apenas pelo nome, Sebastian arriscou entrar.
Não haviam luzes a piscar ou música agressiva. Era um bar lounge, um espacinho confortável com apenas uma dúzia de mesas ou assim, iluminado ténua mas agradavelmente por candeeiros ornamentados nas paredes, pintados em tons de azul que contrastavam com os candelabros nas mesas. As velas que suportavam deveriam ser mais para decoração do que para iluminação, mas contra as paredes azuis mais pálidas e frias, as mesas tornavam-se ventres de luz e calor confortável, convidando os clientes a sentarem-se a beber e conversar. Sentiu um toque estranhamente feminino na decoração, embora não conseguisse apontar exactamente a fonte concreta de tal impressão. Uma música baixa de jazz tocava de fundo.
Agradado com a estética da sua escolha e por preencher tantos dos critérios, Sebastian olhou para as velas nas mesas com um sorriso; independentemente do quão elegantes fossem e de quanto ambiente íntimo criavam, tinha sempre aquele impulso de desejar que um bêbedo esbarrasse contra uma mesa, atirasse as velas ao chão e ateasse fogo a todo o bar, espalhando caos e pânico. Afastando esse pensamento, Sebastian inspeccionou a clientela, procurando por algum possível candidato. Só estavam cerca de cinco pessoas, tanto quanto ele pudesse ver: um grupo de três amigos, dois homens e uma mulher, ainda com roupas de trabalho em vez de fatos de noite mais elegantes, barulhentos e alegremente intoxicados, sim, mas aparentemente inofensivos; e um jovem casal (ou possivelmente amigos? irmãos, até?), asiáticos, envergando roupas estranhamente tradicionais, fumando o que era um inconfundível cachimbo de ópio. Sebastian era o sexto cliente.
Irónico.
Nenhum dos clientes prestou muita atenção a Sebastian enquanto estava à porta, o que foi agradável. Este parecia ser um tipo de bar mais íntimo em vez de uma taberna, e quaisquer novos clientes iriam imediatamente chamar a atenção de clientes habituais, mas decidindo dar uma chance ao lugar, Sebastian retirou o casaco molhado dos ombros, dobrando-o cuidadosamente sobre o braço e preparando-se para se sentar numa mesa ao fundo quando os olhos passaram pelo balcão. Ou antes, pelo bartender.
O bartender era um homem jovem que, honestamente, parecia demasiado novo para estar a trabalhar, quando mais ter idade legal para estar dentro de um bar. Com certeza aquele aspecto era enganadoramente jovem, mas era ligeiramente espantoso por si só. Havia algo nele; Sebastian não sabia honestamente o que era. Nunca vira o homem (rapaz) antes, portanto não podia estar a reconhecê-lo. Não parecia miserável e ansioso por queimar o mundo, não parecia presunçosamente privilegiado e digno de uma doce destruição, mas havia algo, uma aura ou um desejo, um aroma ou uma intenção, e esse algo cerrou-se no cerne de Sebastian e atraiu-o, talvez tivesse sido o verdadeiro motivador para cada decisão que tomara esta noite.
O Diabo pressente estas coisas. Sebastian sentiu-se imediatamente atraído por ele.
- Boa noite, senhor. - Bem, não tinha voz de uma criança, ao menos isso, mas com certeza se parecia com uma. Tinha olhos azuis enormes e o cabelo parecia ser parte azul, parte cinzento, graças aos tons contrastantes das luzes. Parecia ser educado e não excessivamente entediado. - O que vai tomar?
- Boa noite - cumprimentou Sebastian, ajustando o colarinho e o cabelo por força do hábito ou para ficar mais apresentável, como se fosse uma reunião de negócios (e que bem poderia revelar-se ser, certo?), intrigado consigo próprio tanto quanto com o bartender; o que estava a pressentir no rapaz? - Preciso mesmo de uma bebida para afastar este frio. Qual é o cocktail mais forte que tem?
- Já provou um Aunt Roberta? Todos os clientes dizem que é forte como o raio.
Sebastian sorriu. - Adoraria.
O bartender assentiu, voltando-se e começando a reunir algumas das bebidas álcoolicas mais fortes que alguém alguma vez imaginara misturar numa só (oh, mas como os humanos tentam). Sebastian estudou-o com ajuda quer das velas, quer das luzes azuis, não querendo parecer evidentemente predatório - mas também, não era como se alguém estivesse a observá-lo, e o próprio bartender não estava a olhar. Ele era jovem; dezoito no máximo, mas claramente profissional o suficiente para possuir a destreza e controlo trazidos pela experiência - e estava a misturar a receita tradicional, portanto estudara a sua lição. Era um rapaz bonito também, algo que um jovem poderia querer tirar partido para chamar a atenção de algumas moças num trabalho nocturno como este, e embora estivessem de facto duas senhoras no lounge, não estava exactamente a babar-se sobre o balcão ao bartender quase menor de idade. Ele parecia educado e não excessivamente entediado com o trabalho, sim - mas havia algo ali.
- Que lugar agradável - começou por força do hábito, embora não fosse mentira.
- Obrigado. Ainda bem que gosta.
- Mestre Ciel! Traga-nos uma nova rodada, se faz favor! - o homem mais velho do grupo barulhento berrou da mesa deles, de forma completamente desnecessária pois não havia nenhuma música alta que requeresse gritos para se fazer ouvir. O bartender pediu um minuto enquanto terminava o cocktail e o entregou a Sebastian a provar. Aguardou a reacção, que Sebastian lhe deu de bom grado; era uma mistura inacreditavelmente forte, e Sebastian bebeu o ardente inferno liquidificado sem sequer estremecer.
- Bem, isso é qualquer coisa - disse o bartender em voz baixa, mas longe de ser silencioso, e Sebastian teve de sorrir quando o rapaz se desculpou por um segundo e colocou três cervejas de pressão num tabuleiro, levando-o à mesa onde foi recebido estridentemente pelo grupo (já que, aparentemente, aquele era o único volume em que aqueles três sabiam fazer o que quer que fosse.) Sebastian mal se importou com o seu histerismo, no entanto, focado em vez disso no bartender cujo nome agora sabia, e na impressão positiva que já deixara no rapaz graças àquela simples performance de bebida. Até podia usar a barulheira do grupo para encobrir a conversa deles - porque oh, eles iam conversar, uma simples conversa inofensiva, e haveria de descobrir tudo sobre o rapaz.
A música jazz de fundo continuou numa nova faixa. Olhou de relance pelo bar enquanto aguardava que Ciel regressasse, apanhando o casal asiático de novo numa conversa baixa, e sob olhar mais atento, reparou que na verdade havia mais um cliente em quem não reparara quando olhara da primeira vez, mais um cavalheiro solitário numa mesa. Usava uma cartola, se é que pode acreditar, e uma franja cinzenta cobria os seus olhos de uma maneira ridiculamente pouco prática, vestido da cabeça aos pés de preto e parecendo estranho no ventre de luz que as velas emanavam. Embora por norma Sebastian fosse sempre atraído por almas solitárias (muito mais fáceis de se conversar, aconselhar, persuadir), o cavalheiro não provocava qualquer atracção, nenhum fascínio, especialmente quando comparado com o jovem bartender, e Sebastian estava satisfeito com a sua decisão de perseguir Ciel, independentemente do facto de que não fora uma decisão consciente de todo. O homem reparou no olhar de Sebastian e retribuiu-lho com um pequeno aceno com o seu copo. Sebastian imitou o gesto por cortesia com a sua bebida.
- Então, Ciel - sorriu ele quando o rapaz regressou finalmente. - Este cocktail é excelente.
- Obrigado. Mas, hã, Ciel é o meu irmão - corrigiu o bartender casualmente, acrescentando um sorriso mais acanhado perante o sobrolho intrigado de Sebastian; afinal, acabara de ouvir o homem barulhento chamá-lo e não houvera qualquer tentativa de o corrigir. Isso não fazia muito sentido, a menos... - Somos gémeos. Era o turno dele hoje, mas trocámos, por isso é mais do que normal que nos confundam.
- Gémeos? - repetiu Sebastian, divertido. - E trabalham no mesmo bar? Isso deve ter sido uma entrevista interessante. Candidataram-se juntos, ou-
- Oh, é o nosso negócio de família - respondeu o gémeo-Não-Ciel. - De três gerações, quase cinquenta anos. É o legado da minha avó. Pode imaginar o quão difícil era na altura uma mulher pôr um lugar destes a funcionar, mas aqui estamos.
- Impressionante - respondeu Sebastian, quase incapaz de impedir que o sorriso se alastrasse ao ponto de se tornar definitivamente sinistro e revelador; não era que não estivesse impressionado. Estava deveras, apenas não devido ao feito de uma mulher há décadas atrás, mas sim por este jovem Quisera paz e sossego, uma pequena pausa do seu trabalho, mas sinceramente, o trabalho nunca era uma obrigação. Não, isto era um prazer. Como poderia ele resistir? Era mais forte do que ele. Era um daqueles poucos abençoados (ah) que sentiam prazer a trabalhar.
Adorava-o.
- Deve ser um peso e tanto nos teus ombros.
- Hm? Não diria isso. Gosto do que faço.
- Isso é maravilhoso, e como eu disse, este espaço é muito agradável. - Sebastian beberricou a bebida de novo enfaticamente. - Eu próprio tenho um percurso de vida semelhante.
- Ai sim?
- Sim. No entanto, não fui tão forte como tu.
- Desculpe? - resfolegou o Não-Ciel, sorrindo. - Não conheço muitas pessoas que bebam uma Aunt Roberta sem sequer pestanejar.
Sebastian soltou um riso agradado. - Oh, não me refiro algo tão trivial como tolerância álcoolica. Não, refiro-me a manter um negócio de família, carregar a tocha, de certa forma. Esperado seguir o legado, independentemente das próprias ambições.
- A sério?
Sebastian assentiu enquanto planeava a sua fábula manipuladora, mas apercebeu-se de súbito que não estava tecnicamente a fabricar uma história. A ironia tornou o seu sorriso muito mais genuíno.
- Negócios de família são legados, heranças - pressionou Sebastian. - É esperado que obedeças a alguma regra pré-estabelecida, que a sigas como a tua família antes de ti e em sua honra. Tu e o teu irmão. Afinal, era o grande feito da vossa avó, certo? Seria uma pena se voltasses as costas a tudo isso. Poderia deitá-lo tudo a perder e acabar com tudo.
- Bem, sim.
- Eu próprio não estava talhado para isso, como se diz - Sebastian sorriu de forma mais tímida agora, concedendo um aceno de admiração ao bartender pela sua resistência, por abandonar o desejo próprio em prol do de outrem, uma tão possível fonte de frustração perfeita para ser alimentada. - É preciso muita fibra para se desistir de todos os nossos sonhos pelo desejo de outra pessoa. Sempre quiseste ser um bartender?
- Não propriamente - admitiu ele.
- Vês? Precisamente o que quero dizer. - Conseguia ver tudo desenrolar-se tão depressa e tão perfeito a sua mente: um jovem e bonito rapaz cheio de sonhos, preso a um legado de família que não era inteiramente seu, possivelmente fazendo as vezes do seu irmão Ciel e servindo de seu substituto (bem, estava a trocar com o irmão esta noite, não estava? O gémeo estava a viver a sua vidinha, talvez tivesse uma namorada bonitinha com quem passar a noite de sexta-feira, enquanto este estava aqui a trabalhar), tudo para não desapontar a família, para corresponder às espectativas. Tudo isto era possível, tudo isto podia ser verdade, e tudo isto podia ser a vida do jovem. Ou tudo isto podia ser instigado com o conselho certo, uma voz de razão que colocasse as coisas em perspectiva.
Porque quem podia dizer que os conselhos do Diabo eram exclusivamente para piorar alguma coisa? Providenciava e sugeria soluções. As pessoas só as aceitavam porque queriam. As suas almas seriam estropiadas de uma maneira ou de outra, não era?
- Existem, claro, maneiras para que talvez te libertasses. Então, diz-me, gostarias d-
- Jovem lorde, pode arranjar-me mais um destes? - um dos clientes elevou a voz subitamente, interrompendo Sebastian. Voltou-se ligeiramente para ver o cavalheiro de cartola com o copo erguido, um sorriso no rosto.
- Claro, Undertaker.
Sebastian franziu ligeiramente o rosto. O homem voltou a cumprimentá-lo com o copo como antes, e de novo Sebastian retribuiu o gesto, apesar de se sentir um pouco idiota por repetir o movimento; já para não falar que estava um pouco irritado pela interrupção.
- Undertaker? - perguntou por curiosidade quando o bartender se voltou a aproximar, misturando as bebidas para o cliente. O rapaz parecia distraído, focado na tarefa que Sebastian já vira que ele realizava sem esforço, e Sebastian teve de colocar enfase na palavra de novo para chamar a sua atenção.
- Oh, ele? É um velho cliente habitual, dos velhos tempos. É mesmo bom quando as pessoas se mantém em contacto mesmo passado tanto tempo.
- De facto é - respondeu Sebastian distraidamente.
O rapaz sorriu de novo quando algo lhe atravessou a mente. Sebastian fitou-o atentamente, deixando o rapaz um pouco constrangido ao abanar a cabeça. - Desculpe, estava só a pensar... sobre bebidas fortes. Quando ela abriu o bar, a minha avó ainda não sabia muitas receitas, e o Undertaker foi um dos primeiros clientes. Ela contou-me que teve de investigar por cocktails como a Aunt Roberta para tentar atender o pedido dele, mas ele nunca ficava satisfeito. Por isso a minha avó disse-me que teve de inventar algo ainda mais forte sozinha, e teve de fazer tantas experiências que foi assim que acabou por ficar tão boa no que fazia.
- Então tens algo mais forte? - perguntou Sebastian num tom de brincadeira, espreitando casualmente à mistura em questão. O Não-Ciel (qual era o nome dele, afinal?), resfolegou.
- Oh, é melhor não experimentar esta. Não quero nenhum cadáver no meu bar esta noite.
Sebastian riu de forma leviana. - Bem, dificilmente penso que-
- Entããão~? - ecoou a voz mesmo sobre o seu ombro direito e Sebastian saltou, surpreendido pelo facto de o homem estar literalmente ao seu lado. Nem sequer o sentira mover ou aproximar-se. - Já está pronto, lorde? Estou sequíssimo.
- Vá, Undertaker, não me chateeis. Como se eu não soubesse quantas já bebeste. Estás longe de seco.
O homem riu-se; ou antes, cacarejou. - Posso ter mais um dos meus cubinhos de gelo, por favor~?
O rapaz soltou um pesado suspiro mas voltou-se para o congelador, não para o balde de gelo que tinha no balcão, e tirou um pequeno tabuleiro. Sebastian ouviu o cubo de gelo embater contra o vidro.
- Muito obrigado. O seu irmão não é nem de perto tão simpático, sabe.
- Bem, não me testes. - Apesar do tom de repreensão, o rapaz tinha uma expressão leve no rosto, e toda a troca entre os dois mostrava familiaridade suficiente para que fosse uma brincadeira.
Sebastian foi descartado como mero espectador durante esses segundos, sentindo como se a música e a conversa em voz alta do grupo de amigos estavissem a troçar de si, ajudando a exilá-lo. Até o casal silencioso o irritou por ignorar a sua presença. A sua carranca tornou-se numa expressão desagradada ao olhar para a real fonte da irritação: este homem intrometido. Era bastante excêntrico; desde o traje (uma cartola, por amor do inferno) aos maneirismos (ele esparramou-se sobre o balcão como uma criança. A sério), ao aspecto desgrenhado (a franja sobre os olhos tinha sido a primeira coisa a chamar-lhe a atenção, mas agora viu o quão comprido o cabelo cinzento na verdade era, e era bastante), Sebastian não estava de todo impressionado. Além disso, havia algo estranho nele, embora Sebastian não conseguisse identificar o quê. Tudo isto agravou o desagrado de Sebastian com o facto de o homem não ter regressado à sua mesa, permanecendo no balcão em vez disso, embora felizmente sentando-se direito no banco. Uma distracção, afastando a atenção, uma audiência indesejada para bisbilhotar, tudo ao mesmo tempo.
Não, não ia aceitar aquilo. Não quando tinha estado tão ansiosamente a preparar o jovem bartender.
- Então - disse. Quer o bartender e o cliente voltaram-se para ele, mas Sebastian estava a dirigir-se ao homem com um afiado sorriso educado, decidido a enxotá-lo de volta para o seu lugar o mais depressa possível. - Undertaker, ouvi dizer? Alcunha ou profissão?
- Ambos - respondeu o homem também com um sorriso, uma coisa larga excêntrica que se fechou na mais ténue das linhas com uma rapidez assombrosa. O homem tinha uma cicatriz extensa no rosto, o que ajudava a torná-lo ligeiramente mais desconcertante. - Nunca o vi por aqui antes.
Não deves ter visto muita coisa com esse cabelo à frente da cara, pensou Sebastian secamente para si próprio, refinando o sorriso ainda mais. - De facto. Estou só de passagem.
- Trabalho ou lazer?
- Ambos - ecoou Sebastian. - Estava na verdade-
- Oooh, o que faz?
- Sou apenas um diabo de um... vendedor de seguros. - Sebastian sorriu para si próprio. Bem, não era bem uma mentira. - Na verdade-
- Oh, isso é mesmo o trabalho do diabo, digo eu.
Sentindo a sobrancelha tremer ligeiramente, Sebastian inspirou silenciosamente para lidar com as constantes interrupções, nem reparando muito no comentário irónico. - Bem, não diria isso, eu-
- Tem seguro aqui, não tem, pequeno lorde? - corta de novo o homem, a cabeça pendendo de lado na direcção do rapaz. Talvez o homem estivesse consideravelmente intoxicado, o que explicaria a falta generalizada e infantil de compostura. Mas o jovem bartender esboçou um sorriso em resposta ao comentário, fazendo Sebastian sentir-se de novo posto de lado; pior, estava a começar a sentir que estavam propositadamente a troçar dele com alguma piada privada que não lhe tinham explicado.
Isso ele não gostava.
- Bem, senhor Undertaker-
- Ah, não há necessidade disso! Já sou velho o suficiente sem o tratamento de 'senhor'.
- Seja como for. Está interessado em fazer um seguro?
Ele soltou mais um daqueles cacarejos irritantes, a cabeça de novo pendurada de lado. - Oooh, não acho que preciso de nenhum, não.
Sebastian desejou que aquela cartola lhe saltasse da cabeça; se levasse a cabeça junto, isso seria agradável. O som do riso era particularmente enervante, e juntando-se com aquele grupo barulhento, Sebastian estava a começar sinceramente a detestar a clientela do sítio. Etiqueta básica não parecia ser algo que valorizassem, e Sebastian apreciava-la muitíssimo. Talvez deixar aquelas velas cair e incendiar o lugar não fosse uma ideia assim tão má afinal.
- Bem, nunca se sabe. Um seguro de vida poderá ser algo digno de procurar - resmoneou em irritação, perdoando a sua própria falha de etiqueta devido às circunstâncias. - Nesse caso, poderia fazer o obséquio de me permitir trabalhar. Estava a ter uma conversa maravilhosa com-
- Oh, eu sei.
Sebastian fixou-o. O Undertaker sorriu.
- Você sabe - repetiu Sebastian, a sobrancelha arqueada. O homem não estava claramente a apanhar a deixa.
- Sei. - Voltou-se para a sua bebida, deixada esquecida nos momentos anteriores, e beberricou o líquido preto, estalando os lábios suavemente de satisfação. Ao baixar o copo, Sebastian olhou para o seu interior; havia um pequeno cubo de gelo com o formato de uma caveira espreitando pelas ondas negras.
Sebastian sentiu o seu nível de irritação atingir um novo pícaro e revirou os olhos visivelmente. Estaria este homem a esforçar-se propositadamente demais para se comportar como um tipo de gótico alegre, ou seria tudo isto só uma piada estúpida? Tinha de certeza idade suficiente para ter mais noção de si próprio (embora, estranho. Falando de idade...) mas apesar de Sebastian normalmente não julgar... não, ele julgava, e não gostava.
-...estava a ter a mais maravilhosa das noites...
Não ouviu o que o homem estava a palrar. O pior era que o seu jovem bartender também não estava ali a aturar o cliente irritante; devia ter saído do balcão sem Sebastian reparar, talvez fazendo uma curta pausa. Sentiu-se ligeiramente birrento; sabia que o rapaz era perfeito para ser colhido, e não queria desperdiçar aquela alma.
-...bar agradável, e vejo...
Sebastian suspirou discretamente, olhando de forma casual pelo bar de novo. Talvez isso fosse uma deixa clara o suficiente para este Undertaker perceber que ele não tinha o mais ínfimo interesse e se retirasse. Isso, ou quem sabe se aborrecesse de falar e se retirasse de igual forma. Sebastian procurou o casal tranquilo, considerando estudar os padrões complexos das suas roupas tradicionais para se distrair enquanto aguardava que o homem se calasse, mas não os encontrou a fumar o seu ópio. A sua mesa estava vazia. Suspirando de novo, Sebastian olhou para a outra mesa onde o grupo de amigos estava. Tinham desaparecido.
Sebastian pestanejou. Não reparara que nenhum deles saíra nem na sua ausência, e certamente não reparara na falta de som. O silêncio que tinham deixado era ensurdecedor e sentiu-se atordoado de repente. Na verdade, estava tudo em silêncio. Movendo de novo a cabeça, apercebeu-se que a música jazz suave também parara.
Espera.
Um punho gelado pareceu cerrar-se em torno do seu estômago. Um arrepio percorreu-lhe a espinha e ele estremeceu.
O Diabo não estremece.
Sebastian atirou a cabeça de novo para o balcão onde o Undertaker estivera - não, ele ainda ali estava, olhando directamente para Sebastian. Não conseguia ver o olhos atrás do cabelo que os cobria, e no entanto viu algo, um brilho, sentiu o olhar penetrante. As velas bruxuleantes cintilaram contra os fios de cabelo prateados que se despentearam quando ele removeu a cartola devagar, colocando-a sobre o balcão. Estava a sorrir.
- Agora que estás a prestar atenção - disse ele calmamente, movendo a mão para afastar o cabelo da cara. - Vamos ter uma conversa.
Sebastian ficou de queixo caído, desorientado. O corpo estava gelado. O que se estava a passar aqui?
- O que é isto?
- Uma simples conversa - respondeu o Undertaker casualmente, a voz grave, não estridente e aguda como antes, embora mantivesse uma amostra de um sorriso que teria irritado Sebastian caso ele não estivesse totalmente alerta e cauteloso.
Não podia não ter reparado todos saírem, aquela ausência de som, ser deixado sozinho com esta pessoa excêntrica. O que quer que isto fosse, não era normal.
Voltou a fitar o homem, estudando-o apressadamente, juntando a informação que conseguia sobre ele, o seu aspecto, as cicatrizes, rosto, olhos. O gentil cintilar das velas lançava sombras que faziam com que os olhos parecessem brilhar, nem verdes nem amarelos, emoldurados por pestanas prateadas e escuridão, penetrando nos de Sebastian de uma forma que não podia ser natural. Já não parecia distraído ou idiota, a abanar-se como um bêbedo ou uma ridícula criança em ponto grande; apenas calmo, a aguardar, terrivelmente tranquilo. Nervoso, Sebastian abriu a boca para falar, mas em vez disso as palavras secaram na sua garganta.
O sorriso do Undertaker aumentou.
- Vamos lá, criança. Eu sei que gostas de falar. Faz-me a vontade.
O peito de Sebastian ardeu com uma pontada de raiva. 'Criança'? Mas quem se atreve a dirigir-se ao Diabo como 'criança'? Por entre aquele flash de emoção, Sebastian conseguiu na verdade aperceber-se o que estranhara antes.
A idade.
Quando ela abriu o bar, a minha avó ainda não sabia muitas receitas, e o Undertaker foi um dos primeiros clientes.
O homem não parecia velho.
Havia algo errado. Sebastian podia não ter tido interesse no homem excêntrico antes, mas recordava-se dos comentários do bartender acerca dele: um velho cliente habitual, aparentemente um dos primeiros clientes. Só que ele não podia ser muito mais velho do que a manifestação física do próprio Sebastian neste momento. Mesmo que fosse dez anos mais velho, não poderia ter idade suficiente para ser um cliente habitual de há meio século. Era impossível.
Como se pudesse ser ainda mais óbvio agora que o homem não era humano, Sebastian fitou os seus olhos de novo, uma gota de suor frio deslizando pela têmpora. Eles brilhavam. Não era um truque de luz, uma ilusão de sombras. Eles eram florescentes.
O Undertaker. Alcunha e profissão.
Oh.
De repente, compreendeu. Nunca vira aqueles olhos antes, mas sabia o que significavam.
O Diabo estremeceu.
- Que Deus me ajude. É este o dia do meu julgamento?
O Undertaker riu, um som muito diferente daquele cacarejar ridículo de antes. Era grave, arrepiante, como um trovão distante.
- Não creio que o Senhor esteja muito interessado em te ajudar, Diabo.
Sebastian soltou um riso. Ouvi-a um pânico perturbador na sua voz.
- Não, Ele não está. A que devo a honra de ter a própria Morte prestar-me uma visita pessoal?
- Não sejas tão convencido - respondeu o Undertaker com mais um daqueles risos calmos. - Se tivesses ouvido uma palavra do que disse, saberias. Estava apenas a passar um tempo de qualidade, a tomar uma boa bebida neste lugar tão agradável, quando vejo o Diabo atravessar a ombreira. Um susto e tanto, devo dizer. Quais são as hipóteses?
Sebastian pestanejou. Era suposto acreditar naquilo? A personificação da própria Morte estava só casualmente a beber num bar aleatório, e simplesmente se tinham cruzado por puro acaso? Por mais improvável que aquilo soasse a Sebastian, receber aquela mentira como resposta foi ainda assim absurdo o suficiente para o fazer rir agora.
- A sério? Estás a dizer-me que a Morte gosta de vir ao mundo dos humanos de vez em quando só para tomar uns cocktails? Isso parece bastante ridículo.
- Estás aqui também, não estás? As bebidas são óptimas.
Sebastian resfolegou. Se ele estivesse a mentir, então tudo isto era uma charada para o apanhar a ele, e esse era o cenário mais lógico a assumir. Se não estivesse a mentir...
- É como uma daqueles histórias? A Morte encarna forma humana para caminhar por entre os humanos de tempos a tempos?
- Vou deixar isso à tua imaginação. - O Undertaker deixou-o pendente, beberricando lentamente a sua bebida.
Concedendo-se um momento para pensar em toda a informação que recebera antes do bartender, hesitou ligeiramente. Teria tudo aquilo sido fabricado? Se isto tivesse sido planeado do começo, então... mas como poderia ter sido, se Sebastian fora quem escolhera este bar sem nenhuma intenção anterior? Teria de facto encontrado algo que não era suposto? Alguém que não era suposto?
O que o atraíra a este lugar, afinal?
- E o que é isto, então? - repetiu Sebastian, acenando ao bar vazio.
- Já te disse.
- Uma conversa - ecoou, sentindo o seu anterior choque dar lugar a entusiasmo. Já se passara tanto tempo desde que sentira o menor medo; o menor desafio. Estava frente a frente com a Morte, quão excitante era isso? - Então? Se não estás aqui para me matar, se isto é apenas um acaso do destino, o que desejas dizer-me?
O Undertaker pousou o copo devagar no balcão, uma das unhas muito longas traçando círculos no rebordo. - Tendo em conta a oportunidade, talvez queira apenas relembrar-te a seres mais cauteloso. Não acho que sejas vigiado muitas vezes, pois não.
Sebastian resfolegou. - Que tipo de ameaça é essa? Assumia que terias algo melhor para me dizer. Mais intimidante.
- Não disse que era uma ameaça. Disse que era um lembrete.
- Para ser 'mais cauteloso'? Por favor. Sou o Diabo.
- Precisamente. Tentações têm consequências para ambos os lados.
- Não provoquei nenhuma tentação a ninguém, eu... - porque fui interrompido.
Sebastian pestanejou quando percebeu. Fora essa a razão pela qual o Underraker se aproximara para começar, tentara falar, se intrometera na conversa que ele já estava a ter. Era isso, não era?
- As pessoas já têm tantos problemas nas suas vidas - divagou o Undertaker, sem erguer os olhos para ver Sebastian começar a sorrir, compreendendo o que se passava. - Porque não dar um descanso de vez em quando e não instigar as coisas para o pior?
- Quem diz que eu traria algo mau? Posso ter a solução para os seus problemas.
- Podes ter um tipo de solução, sim.
- Então e tu? A Morte não é suposto ser neutra? Imparcial?
- Quem diz que não sou?
- Não creio que sejas, não.
Sebastian encarou os olhos do Undertaker com um sorriso sabedor.
- É isso que se passa aqui? Estás deliberadamente a proteger alguns humanos face a outros? Bem, toda a gente já sabe disso, mas ainda assim é diferente ver a pose, a superioridade, ser desmanchada de forma tão deplorável.
- Oh?
- A Morte é hipócrita.
- Eu não-
- Oh, tu sabes - foi a vez de Sebastian o interromper, e sentiu um prazer desproporcional em fazê-lo. O Undertaker inclinou ligeiramente a cabeça, aguardando que ele continuasse. Não parecia irritado ou nervoso, mas Sebastian sabia como afectar as pessoas. Até a Morte. O seu sorriso estava a tornar-se diabólico. - Tu mesmo o disseste, não foi? Sabias que eu estava a falar com o jovem bartender, que o estava a tentar ajudar (o Undertaker resfolegou perante o uso da palavra) a ver os problemas que tem na vida, e tu interrompeste-me. Como é que isso é ser imparcial?
As velas atrás do Undertaker estremeceram quando o ar se moveu; a forma humana de Sebastian começou a mudar.
- Ages com superioridade, afirmas ser imparcial quando eu vi que protegeste aquele humano deliberadamente. Portanto todos aqueles rogos que ouvimos os vivos fazer, chamando-o 'injustiça', ' errado', 'cedo demais', são todos verdade. Poderias dar-lhes mais tempo se quisesses, mas não queres. Não te importas com eles, mas importas-te com alguns que consideras dignos. Enquanto que eu? Eu trato todos de forma igual. Ocasião e oportunidade, sem preconceitos.
O Undertaker olhou de relance para as sombras que se contorciam pelas paredes. Cobriram as lâmpadas azuis, afogando a luz, vertendo sobre as mesas e engolindo as velas sobre elas, apagando-as. Apenas restavam as velas atrás dele, tremendo e estremecendo em terror. Ele ainda não parecia incomodado, mas oh o Diabo podia tratar disso.
- Agiste como se fosses superior a mim. Como se fosses mais forte do que eu. Mas és apenas um hipócrita. Não és melhor do que eu, pois não? Estás abaixo de mim.
As sombras apanharam a cartola do Undertaker, atirando a coisa ridícula ao chão. Tomaram o copo dele, lambendo-o, empurrando-o para a ponta do balcão. O Undertaker pegou no copo e segurou-o nas mãos, esfregando-o ligeiramente com a manga antes de beberricar o líquido. Uma bela imagem; beberricar, beber, devorar. Sebastian lambeu os lábios em antecipação.
- Talvez simplesmente te devore e me torne a Morte. Pelo menos eu serei mais justo. - As mãos estenderam-se; já não eram mãos, mas garras. Lambeu de novo os lábios, mas já não os tinha; apenas um buraco negro cheio de línguas e dentes e lâminas e cuspo. Os seus muitos olhos esbugalharam-se em excitação. - Vês? Isto é uma ameaça.
Em vez de hesitar ou se encolher ou reagir, o Undertaker riu baixinho. - Gostas mesmo de falar, não gostas.
- Sabes com quem estás a falar. Sabes quem eu sou. O que eu sou. - Uma parte de si estava ciente do quão infantil soava ao proclamar aquilo perante quem, perante o que, estava na presença, mas Sebastian nunca se importara muito com autoridade além da sua. - Eu estou acima de todos vocês. Deus, anjos virtuosos, a própria Morte. Posso acabar com todos vós.
O Undertaker sorriu.
- Não me podes matar, criança.
- Podemos testar isso. Ver se Deus está disposto a ajudar-te a ti.
O Undertaker terminou a sua bebida. Pousou o copo silenciosamente no balcão escurecido e trémulo. As sombras reagiram como manchas de tinta revertidas e recuaram.
- O que tu e o Senhor são, pequeno Diabo, são apenas possibilidades. Eu sou uma certeza.
Foi isso.
Apenas isso.
Nenhuns gritos ou rugidos. Nenhuma ameaça. Foi apenas isso.
Então, ouviu-se um som estridente. Os seus ouvidos começaram a zumbir, muito alto, de forma ensurdecedora. Como vidro a cair, a quebrar e a ecoar, e então um baque surdo, retumbante. Ficou tudo escuro.
Ou talvez não. Conseguia ver, mas não compreendia o que estava a ver. Desfocadas, tremeluzentes, coisas estranhas que adquiriram lentamente forma e sentido.
Sentido. Dor. Uma dor latejante na cabeça, nos ouvidos. A cabeça de Sebastian estava a latejar e dolorida ao ponto de o fazer querer vomitar. Abriu a boca, mas nada saíu.
-bem?
Sebastian pestanejou lentamente. Um gemido escapou dos seus lábios contra qualquer controlo da sua parte. Tentou olhar à volta, mas tudo o que viu foi uma floresta de pernas negras rodeando e erguendo-se sobre si, nauseando-o. Quando se tentou mover, apercebeu-se que estava deitado; estendido no chão do bar. Olhou para cima e viu vários conjuntos de cabeças e olhos fitando-o de cima.
- Eu disse-lhe que não queria cadáveres no meu bar - disse o jovem bartender num tom descontraído, embora o sobrolho estivesse franzido. - Lá se vai a tolerância ao álcool, hã. Talvez não se devesse exibir tanto.
- O quê? - arrastou Sebastian. Tinha um sabor horrível na boca, algo seco e frio e sujo.
- O senhor está bem?! Está? - a mulher do grupo barulhento de amigos perguntou numa voz estridente.
- Que susto nos pregou, senhor! - o homem mais velho do grupo suspirou de alívio e esfregou o antebraço contra a testa como se estivesse a limpar suor. - Oof, mas que noite de sexta!
- Vá, toca a levantar-! - o terceiro amigo, um jovem loiro, prendendo um braço à volta de Sebastian e içando-o tão depressa e abruptamente que todo o mundo de Sebastian pareceu oscilar junto. - Oh, desculpe!
- Finny, por amor de Deus - repreendeu o jovem bartender. Apontou para uma das cadeiras quando Sebastian cerrou os dentes quer de dor, vertigem e raiva tudo ao mesmo tempo. - Precisa de se sentar?
Sebastian olhou à sua volta, completamente desorientado. Toda a gente no bar se reunira à sua volta como se estivessem a ver um espectáculo; o casal asiático até tinha ópio para acrescentar ao cenário decadente. Desembaraçou-se do aperto do homem loiro e arrependeu-se de imediato; as suas pernas pareciam gelatina e ainda estava tonto. Estava a transpirar, mas sentia frio ao ponto de o corpo estar a tremer. A cabeça latejava e o coração martelava-lhe nos tímpanos.
Olhou para cima. Não haviam sombras rastejantes, nenhum espectáculo sanguinário, nada. As luzes estavam ligadas, as velas acesas. O bar estava exactamente como antes. A música jazz tocava de fundo.
Mas o que-
Sebastian chicoteou a cabeça, apoiando-se de imediato no homem loiro para se aguentar de pé.
O Undertaker estava simplesmente ali sentado em silêncio ao balcão, sorrindo, o rosto apoiado na palma da mão enquanto observava - ou o que quer que ele conseguisse fazer com o cabelo tapando e escondendo completamente os seus olhos - a cena. A cartola estava de volta aninhada no lugar.
- Oh, o cavalheiro já está de saída. Não está?
Sebastian ficou sem voz. Os olhos saltaram para o balcão; o seu copo tinha caído e partira-se no chão. O banco onde estivera sentado antes também estava tombado. Tinha claramente caído de alguma forma sem se aperceber, sem saber como-
- Sim, bem, provavelmente é melhor - disse o homem mais velho do grupo barulhento. - Vá descansar devidamente, hã?
Sebastian olhou par ele, para o bartender, para o Undertaker.
O quê? Tudo aquilo fora...?
Não, fora real. Tudo aquilo fora real. A morte simplesmente-
- Pode ir agora, senhor vendedor de seguros - disse o Undertaker, trespassando pelos pensamentos de Sebastian antes que eles pudessem divagar. As suas pernas tremeram por uma razão completamente diferente agora. Isto também era real agora? Seria isto a realidade suspensa e distorcida que a Morte dominava? Ainda estava vivo? Podia mesmo ir embora?
- S... sim. É melhor ir.
O homem mais velho esboçou-lhe um sorriso sabedor e puxou-o para debaixo do braço num terrível abraço improvisado. - As tentações são uma treta, hã?
Uma nova gota de suor deslizou pelo seu sobrolho. Sebastian olhou de relance para o Undertaker de novo, para aquela constante nota de satisfação no seu rosto.
Será que todos eles sabiam? Cada um destes clientes, o rapaz bartender? Todos eles saberiam? Ou simplesmente acreditavam que ele era apenas uma pessoa comum? Seria tudo isto...
Mas porquê? Porquê este rapaz? Porquê este bar, durante cinquenta anos? Por que razão a personificação da Morte escolhera este lugar em particular por entre todos os outros? E se-
Não podia fazer isto. Não agora. Talvez não durante muito tempo. Talvez não devesse fazer isto de todo.
Sebastian recompôs-se o melhor que pôde e moveu-se. Ninguém o ajudou quando ele tropeçou contra as mesas num passo apressado.
- Senhor vendedor de seguros?
Sebastian ficou pregado ao chão e olhou sobre o ombro. O Undertaker apontou com um dedo para o chão.
- Não se esqueça do seu casaco. Está a chover lá fora, sabe~
Sebastian olhou para o monte preto no chão, o seu casaco que ele tão cuidadosamente dobrara ao colo antes. Engolindo em seco, cambaleou de volta para o bar, fitando cautelosamente o Undertaker enquanto se curvava devagar.
- Obrigado pelo lembrete.
- De nada, criança.
O bar regressou rapidamente à sua anterior disposição; os três amigos com as suas cervejas, o casal na sua mesa, o rapaz bartender cujo nome Sebastian não conseguira descobrir atrás do balcão. A figura negra do Undertaker pairava junto dele, bebendo um novo copo do seu cocktail com uma caveirinha de gelo a flutuar. Trocaram algumas palavras e o Undertaker desatou a rir naquele cacarejar estridente, engasgando-se ridiculamente na bebida enquanto o bartender ria de uma maneira muito mais contida, mas soava igualmente genuíno e confortável.
Sebastian foi ignorado. A sua presença não era bem-vinda, não era temida.
- Oh, Ran-Mao! - Quando voltou a tentar sair, apanhou o homem asiático a dizer à mulher consigo. O homem expirou uma grande nuvem de fumo para o tecto. - Imagina isto: 'O Diabo e a Morte têm uma conversa num bar'. O que achas que acontece?
- Não sei - respondeu ela suavemente. - Talvez o Diabo morra.
Sebastian tropeçou para o exterior, sendo recebido pelo ar gelado e chuvoso como se fosse o abraço mais quente e seguro que alguma vez sentira. Só voltou a olhar para o sinal azul néon do Phantom's Hive quando já estava a uma distância de segurança considerável.
Nunca saberia o que tinha acontecido ali dentro - ou antes, porque acontecera. Conseguia sentir tudo no seu cerne exigindo que lutasse, que descobrisse mais, que escavasse e desenterrasse quaisquer segredos que pudessem envolver aquele lugar, mas o seu lado racional mandou-o parar. Não. Tentações podiam ter consequências para si também. Havia algo, definitivamente, mas evadia-o, deixava-o às escuras. Como alguma piada privada que não lhe tinham explicado.
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fim
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Obrigado por lerem, se acharem erros por favor digam.
