Sinopse: [UNIVERSO ALTERNATIVO] Que beber e dirigir é proibido, todo mundo sabe; mas por que beber e enviar mensagens, também não era? Era o que Hermione Granger se perguntava após uma terrível manhã de ressaca, quando descobriu que na noite anterior enviara várias mensagens para seu chefe que não faria o Rh nem pestanejar em encerrar seu contrato de estágio na Snape Associados Assessoria Jurídica. Porém, quando o próprio Severo Snape a chama em seu escritório exigindo explicações, ela se vê quebrando sua promessa de Ano Novo: tirá-lo de sua mente. E agora, aparentemente, suas improváveis fantasias seriam enfim realizadas com seu terrível – e sedutor – chefe.

Aviso legal: Os personagens e o universo ficcional de Harry Potter não me pertencem. Eles são propriedade exclusiva de J.K. Rowling. Esta é apenas uma estória feita por uma fã e para fãs, sem fins lucrativos.

Notas iniciais: Como esta estória se passa em um universo alternativo, usei da liberdade de escrita para alterar a data de nascimento dos personagens para condizer com alguns elementos aqui apresentados, mas mantendo a diferença de idade entre o casal principal. Nesta fanfic, Hermione Granger nasceu em 1994 e Severo Snape em 1975. Outros personagens secundários para esta estória também tiveram suas datas de nascimento e destinos alterados, mas suas personalidade mantidas.

Já estamos em 2022 há 21 dias, mas por que não publicar uma fanfic sobre Ano Novo? A ideia me surgiu no primeiro dia do ano, e era para ser apenas uma oneshot, mas como estava ficando longa demais, resolvi dividi-la em – provavelmente – 3 capítulos, e que será concluída até o dia 31 de janeiro (essa foi a data que estipulei, mas imprevistos podem acontecer). Esta é minha primeira fanfic do gênero universo alternativo, e já deixo avisado que não é um romance como as minhas outras estórias que vocês estão acostumados.

Espero que vocês se divirtam assim como minhas betas-readers, Jay e Sú, se divertiram lendo. Obrigada, meninas, por embarcarem nas minhas loucuras, amo vocês


CAPÍTULO 1 - RESOLUÇÃO DE ANO NOVO

O seu celular tocou e, na tela, o nome de Gina indicava a terceira ligação dela naquele dia; as duas anteriores Hermione não atendera, pois estava ocupada, mas a amiga ficaria deveras chateada se ela novamente a ignorasse.

Apertando o botão verde, aceitou finalmente a chamada: — Alô. — cumprimentou em um murmúrio para que ninguém a ouvisse.

— Ah, oi, Hermione. Finalmente, hein! — Hermione quase podia visualizar a amiga zangada, com as mãos na cintura em uma clara imitação de sua mãe. — Por que está sussurrando?

— Oi, Gina, como está? — desviou ela da pergunta.

— Estou bem. E você? Onde você está? E por que não atendeu as minhas ligações? E por que, novamente, você está sussurrando? — Gina lançou uma indagação atrás da outra como em um interrogatório.

— Gina, eu estava ocupada. Estou, na verdade. Ainda não saí do escritório. — ela sussurrou ao celular.

— Hermione, é sério? O que você está fazendo trabalhando às vésperas do Ano Novo?

— Eu tinha algumas pendências imprescindíveis a serem resolvidas até hoje. — "Não é bem verdade. Por ser sempre solícita, eu acabo fazendo o meu trabalho e o dos outros, que deveriam ter sido feitos há muito tempo. E não ganho a mais por isso", ela arrependia-se de mostrar-se tão proativa nos primeiros meses em que estava na empresa, pois deixou seus colegas mal acostumados e acomodados confiando que ela sempre daria um jeito de ajudá-los.

Gina bufou do outro lado da linha. — Sei. Seu chefe está explorando você de novo, Hermione.

— Ele não-

A amiga a interrompeu: — E você deixa, porque está caidinha por ele. Eu sei que você bem que gostaria que ele lhe explorasse de outras formas. — ela riu maliciosamente.

— Gina! — Hermione imediatamente a repreendeu, ficando escarlate enquanto olhava em volta com medo que alguém aparecesse no escritório vazio e ouvisse a conversa. Mas com exceção dela, apenas seu chefe estava trabalhando naquele dia 31 de dezembro.

— Você sabe que é verdade, amiga. Admita. — Hermione suspirou em resposta, apertando o nariz. — Enfim, esperamos logo mais por você, para começarmos nossa pequena comemoração. Não demore. Não toleraremos atrasos, Mione. A menos que você me diga que pegou o seu chefe em cima da mesa e de todos aqueles papéis burocráticos que você passa preenchendo o dia todo. É a única desculpa que aceitarei. — Gina riu e dessa vez foi Hermione que bufou, soando como "Quem dera. Duvido que isso aconteça".

— Não se preocupe, estarei lá. — confirmou. — Precisam que eu leve alguma coisa? Um vinho ou talvez um espumante? — perguntou ela, prestativa.

— Somente seu bom humor. — Gina respondeu.

— Ah, sendo assim, vou passar o Ano Novo em meu apartamento, sozinha, acompanhada do meu gato gordo e da minha melancolia, bebendo uma taça de vinho barato enquanto choro assistindo "O Diário de Bridget Jones".

— Que horror! Esses eram mesmo os seus planos para a virada de ano antes de a convidarmos?

— Fico grata que vocês tenham insistido. — Hermione sorriu.

Ao ver uma sombra passar pelo corredor, ela rapidamente despediu-se da amiga com a promessa de que iria para a pequena festa de Ano Novo, e desligou, com medo que seu chefe a pegasse em uma ligação particular em horário de trabalho. "Bem, não era horário de trabalho", corrigiu-se. Ela nem sabia se legalmente aquilo contava como horas extras. De todos os mais de trinta funcionários do escritório, somente Hermione estava trabalhando. Respondendo os e-mails acumulados na caixa de entrada e cartões de felicitação de Ano Novo que seu chefe recebera de amigos e familiares e que ele nem ao menos havia se dado ao trabalho de ler.

Hermione Granger havia conseguido um estágio na Snape Associados Assessoria Jurídica há pouco mais de um ano e meio e havia uma grande chance dela ser efetivada na empresa quando seu programa de estágio chegasse ao fim no início do próximo ano, que era quando ela também se graduaria na faculdade de direito. Antes do curso de direito, ela havia tentando literatura inglesa comparada na University College London por quase quatro semestres, mas se deu conta de que, apesar de amar literatura, era, para ela, um passatempo prazeroso, e que não gostaria de transformá-lo em algo que poderia se tornar extenuante em um futuro emprego. De qualquer forma, Hermione achava que poderia fazer mais pelo mundo na área de direito. Mas no momento, tudo o que ela estava fazendo com o conhecimento adquirido era buscar o café, entregar a correspondência e recusar as ligações da ex-esposa do seu chefe dizendo que ele estava em reunião quando Severo Snape claramente não queria discutir sobre o mau comportamento do filho do casal.

Aquela vaga fora concorrida, pois todos queriam estagiar para o grande Severo Snape, que fizera fama e fortuna com seu sócio começando com um pequeno escritório de advocacia ao lado de uma barbearia no inóspito bairro de East End. Vinte anos depois, a companhia ocupava todo um andar de um magnífico prédio corporativo no centro financeiro e empresarial de City of London, com vista para a London Tower a leste, a London Bridge a oeste e o rio Tâmisa se estendendo logo à frente. A companhia pagava um bom salário até mesmo para os estagiários e, Hermione ficou extasiada ao ter seu contrato assinado após um longo e cansativo processo seletivo. Ela só não imaginava que a delegariam para trabalhar diretamente para o sócio-mor da empresa como sua assistente.

Ficou honrada, é claro, e bastante excitada com a premissa de aprender com uns dos melhores advogados da área de direito comercial. Mas, na prática, ela não passava de uma secretária para ele: "Srta. Granger, cancele minha reunião", "Granger, busque meu café", "Srta. Granger, mande lavar o meu carro". Contudo, assim como sentia-se desmotivada por suas funções, ela também queria mostrar serviço para provar seu valor e capacidade de fazer mais. "E é por isso que estou trabalhando na véspera de Ano Novo", pensou com irritação, ao mesmo tempo em que uma vozinha irritante no fundo da sua mente dizia que existia algo mais por trás disso. Totalmente compenetrada em agradecer os votos da mãe do Sr. Snape em nome dele, não viu que seu chefe se aproximara, só se dando conta quando ele atirou uma sacola da Barros sobre sua mesa, fazendo papéis e cartões voarem para todos os lados e ela pular de susto.

— Granger, preciso que troque o presente de Natal que comprou para o meu filho. Não sei quando Harry foi do tamanho 8 para 14 anos. — não sabia se aquilo fora um comentário para ela ou um pensamento dito em voz alta, mas ainda assim assentiu. — E aparentemente ele agora possui um estilo bem… distinto. Não compre nada estampado, colorido ou qualquer coisa minimamente alegre. — "Bom, posso ver quem ele puxou", pensou Hermione. Em todo aquele tempo que trabalhava ali, nunca vira o homem usar nada além de preto, chumbo ou um marinho profundo, "Que não desse pra discernir que fosse azul".

— Tudo bem, trocarei quando voltarmos do recesso. — respondeu ela, enquanto guardava a sacola e arrumava a mesa. — Ah, falando nisso, sua ex-esposa ligou novamente para confirmar se o senhor realmente não gostaria de ir ao jantar que ela e marido oferecerão esta noite.

— O que você disse a Lílian?

— Disse que o senhor já tinha planos para o Ano Novo. — Hermione o olhou em expectativa, buscando sua aprovação.

— Ótimo. — Snape aquiesceu-se. — Não suportaria passar a noite com ela o pomposo do Tiago Potter falando sobre futebol. — ele crispou os lábios expressando seu desgosto pelo padrasto de seu filho.

Lílian seguira em frente e se casara novamente após se divorciar de Severo Snape anos atrás, bem antes de Hermione ingressar na empresa. Ela sempre ouvira pelos corredores da companhia que eles se separaram porque seu chefe trabalhava praticamente 24 horas por dia, sete dias por semana; o que não era nenhuma surpresa para ela. O pouco que sabia sobre a vida pessoal de seu patrão, é que ele tinha uma origem humilde e se esforçara muito para chegar onde chegou, mas sacrificou sua família no caminho. Ele enriquecera, enquanto Lílian gastava incessantemente o seu dinheiro passando seu cartão de crédito em lojas de sapatos e roupas de grife. Quem sofrera nesse processo todo fora Harry, jovem demais para entender as discussões constantes em casa e o distanciamento do pai. Todavia, atualmente Snape não era um pai mais ou menos presente do que era quando ainda estava casado com a mãe do menino. "Na verdade, ele é um péssimo pai", refletiu Hermione, "Péssimo caráter mas um grande gostoso", comparou em um suspiro, mas logo em seguida censurou-se, com medo de deixar escapar qualquer coisa nesse sentido em frente a ele.

— E você, Srta. Granger, tem planos para o Ano Novo? — Snape perguntou despretensiosamente, mal sabendo o poder que aquela sobrancelha arqueada e aquela voz profunda exercia sobre sua calcinha.

Ela hesitou, buscando se concentrar para formular uma frase, e não nos tentadores atributos dele: — Eu.. hm.. vou comemorar com uns amigos. Mas estarei na cidade, caso precise de mim. — "Não para o trabalho, é claro", disse a sua voz interior em um tom muito malicioso.

— Obrigada, senhorita. Seus esforços serão recompensados. — "Ah, eu espero que sim", ela respondeu mentalmente. — Agora… — ele fez uma pausa, afastando o punho de seu paletó com o indicador para olhar as horas no relógio Rolex. — Já é tarde. Ande, Granger, ou vai se atrasar para sua comemoração.

— Eu vou só termin-

Snape a interrompeu: — Deixe isso aí. Termino eu mesmo de responder os cartões. Tenho algumas coisas a dizer a alguns desses remetentes. — comentou com escárnio. — Além do mais, você não pode exceder a carga horária do seu estágio. — "Não mais do que já excedi, você quer dizer", sua mente rapidamente acrescentou.

Ela assentiu, mas então perguntou: — O senhor vai continuar aqui, trabalhando?

— Sim, tenho muito a fazer. Alguns contratos de clientes importantes para revisar.

— Não vai comemorar a virada de ano? — não precisou dizer nada para Hermione entender que ele não tinha com quem comemorar, e seu coração apertou-se ao imaginá-lo sozinho na empresa, trabalhando enquanto todos comemoravam.

— Esse é o preço de se sacrificar trabalhando para dar tudo para sua família, para no final, sua esposa trocá-lo por um personal trainer. — ela deve ter feito uma expressão triste e de empatia pois o Snape logo acrescentou: — Não fique pesarosa, Granger. Eu também não fui santo. — ele deu a ela um sorriso de lado, e se outrora ela expressara tristeza com a história contada por ele sobre seu casamento, agora Hermione estava boquiaberta. — Além do mais, temos uma vista privilegiada da Tower Bridge e da London Eye, posso ver os fogos de camarote. E depois retornarei ao trabalho… — completou com um suspiro cansado.

— Tem certeza que não quer que eu fique para ajudá-lo com as revisões? — "E outras coisas mais?", uma mão prestativa era sempre bem-vinda, afinal.

— Tenho, sim. Agora suma das minhas vistas, Granger. — ele fez um gesto com a mão, a dispensando. — Antes que eu tenha que chutá-la porta afora. Vá passar a virada de ano com seu namorado ou sei lá quem…

Hermione sorriu timidamente. — Não se preocupe, não tenho nenhum namorado. — "E é bom que isso fique claro, caso você queira... bem... de repente, me chamar qualquer dia desses para um jantar depois do trabalho. Onde, evidentemente, eu seria a janta".

— Uma namorada, talvez? — ele ergueu novamente a sobrancelha e Hermione soltou uma lufada de ar pelas narinas para não rir. "Por que esse repentino interesse na minha vida amorosa?", perguntou-se. Ele passou seis meses a chamando de Helena, Helen, Emma, Emily, Amy – qualquer outro equivalente com o som da letra E – antes de acertar seu nome; e pelos menos, mais outros seis, sem trocar mais palavras do que o necessário com ela. Por que, de repente, estava lhe dizendo coisas sobre sua vida íntima e fazendo perguntas sobre a dela?

— Também não, senhor.

— Nunca se sabe. — Ele deu de ombros, indiferente. Depois de uma pausa, disse: — Se me permite, tenho um compromisso com meus contratos. Até mais, Srta. Granger. Tenha uma boa festa com seus amigos.

— Obrigada, senhor. Tenha um feliz Ano Novo!

— Sim, sim. Para você também, Granger. — desejou sem ânimo, de costas para ela, enquanto voltava a sua sala. — Vejo você daqui a seis dias!

Rapidamente ela organizou sua mesa, guardando alguns materiais de escritório na gaveta, desligou o computador, agarrou sua bolsa e sobretudo e saiu para o ar gélido da movimentada avenida. Eram apenas 16 horas, mas as ruas já começavam a encher de turistas na South Bank, que buscavam um bom lugar para assistir a queima de fogos e garantir boas fotos para o Instagram, além de londrinos que, assim como ela, haviam trabalhado naquela fria terça-feira e agora finalizavam o expediente. Quando já estava no Uber, enviou uma mensagem a Gina a avisando que estava indo para casa e logo mais apareceria na festa.

Enquanto Hermione se banhava e escolhia uma roupa confortável e quente para a virada do ano, sua mente estava a quilômetros dali, no prédio de fachada espelhada, precisamente na sala do fim do corredor com modernos e requintados móveis de cedro, e em seu ocupante: o austero Sr. Severo Snape. O homem de quase 1,90 de altura, de ombros largos e cintura estreita, com olhos de turmalina negra e cabelos longos tão escuros quanto – que em meses de trabalho árduo poderia facilmente alcançar suas clavículas se não fossem aparados –, e que mantinha sempre sua barba feita, a fazendo imaginar como seria esfregar-se no maxilar liso dele.

Ele era um completo bastardo, é verdade, sempre irônico e com um sorriso de escárnio no rosto, e tinha um certo prazer em humilhar seus aprendizes, "Neville Longbottom que o diga", ela arfou em um lamento, pensando no colega de estágio que ficava tão nervoso na presença de Snape que mal conseguia formar uma frase sem gaguejar. Severo Snape queria sempre testar seus estagiários levando-os ao limite. Certa vez, o mandara no almoxarifado buscar um "envelope redondo para carta circular" e "papel carbono com pauta". Obviamente, Neville não os encontrou, e nenhum funcionário teve a decência – ou coragem – para desmentir o chefe; após uma busca de mais de duas horas, Neville foi encontrado chorando no banheiro, com medo de ser demitido por desapontar Snape. Uma semana depois, Snape voltou a pregar mais uma peça no novato, pedindo que ele fosse na cafeteira do térreo e lhe buscasse água em um copo hidrossolúvel. Felizmente, os garçons já conheciam as táticas do dono da empresa, e avisaram Neville, que ficou furioso com a pegadinha de mau gosto. Ele também tentara com Hermione, é claro, mas ela era inteligente suficiente para saber que não existia "tinta colorida para fax".

Ele tinha um humor ácido, de fato. Era austero, impassível, insociável e de pouca – "Ou nenhuma" – simpatia. E era exigente – ele tinha um nível tão alto de exigência para seus assistentes, que fazia a vaga estar constantemente aberta, pois muitos não conseguiam alcançar a competência irreal que Snape buscava. Contudo, apesar dele tentar fazer do estágio de Hermione uma verdadeira prova de fogo, ele consternou-se que ela não sairia correndo em prantos como outros tantos antes fizeram. Ele jamais sorria ou dizia "Isso aí, bom trabalho", sempre dando a impressão que mesmo que seu funcionário fizesse um esforço hercúleo, para ele, ainda era como se estivesse fazendo o mínimo. "Não me surpreenderia se ele, tal qual o rei Euristeus, pedisse que um de nós matasse um leão de Neméia. Ele daria um sorriso de lado e diria: — Você ainda tem mais onze tarefas, se apresse", fez ela a analogia. E, por mais que, nos primeiros meses, Hermione dava a língua para as suas costas e o xingava mentalmente, imaginando cinco tipos de dolorosos de acidentes que poderiam ocorrer com ele toda manhã – "Em minha defesa, eu não sou a única que faz isso na empresa. Até mesmo o porteiro, que não convive com Snape, não gosta dele", deu de ombros – algo mudara para ela nos últimos meses, a fazendo enxergar seu chefe com outros olhos.

Já eram quase vinte horas quando o Uber que Hermione chamara chegara ao seu destino. Na festa de Gina, uma playlist tocava alto, taças e copos eram constantemente enchidos e um burburinho de conversas de variados assuntos preenchia a casa no bairro de Chelsea, onde sua amiga fixara residência após deixar a casa de campo dos pais em Devon para estudar em Londres. Foi na universidade que as duas se conheceram, e desde então, a ruiva se tornara melhor amiga de Hermione. E, por mais que Gina fosse dois anos mais nova que ela, sempre dava os melhores conselhos e tinha um ar maternal, que contrastava com seu jeito descolado e extrovertido que chamava a atenção de homens e mulheres. Era difícil acompanhar a vida amorosa de Gina, ela nunca estava sozinha e, tampouco, nunca a vira sofrer por ninguém, fazendo Hermione invejá-la nesse quesito. Gina era sua maior incentivadora sobre "pegar seu chefe". A amiga já havia arquitetado mil planos para que Hermione pudesse realizar seu desejo e pôr um sorriso no rosto sempre mal-humorado de Snape:

— Ah, Hermione, qual é? Você não vai ganhar mais do que um "não" do Sr. Rickman. — era como a amiga se referia ao Sr. Snape, sempre dizendo o quanto seu chefe era parecido fisicamente com o ator Alan Rickman quando jovem. — A não ser uma demissão. Mas não se preocupe, existem outros escritórios de advocacia em Londres. Você não ficaria desempregada. — ela dizia.

O que Gina não aceitava era que Hermione se prestasse a ter sua mão-de-obra explorada de forma tão humilhante "Só porque você quer dar para o seu chefe", ela frisava. "O quanto antes vocês balançaram as gavetas da mesa dele, mais cedo poderei ter minha amiga de volta em pubs nas sextas à noite." Hermione não duvidava que se a amiga encontrasse com seu chefe por aí, com certeza diria a ele algumas boas verdades. A própria ruiva a tirou de suas lembranças quando a engoliu em um abraço apertado assim que a avistou:

— Hermione! Achei que você não viesse mais!

— Eu prometi que viria, não prometi? — Hermione sorriu para a amiga e devolveu o abraço.

— Trabalhou até que horas? — Gina perguntou quando a afastou, franzindo os lábios por ela ter ido ao escritório às vésperas do Ano Novo.

— Saí logo após ter desligado sua ligação. — a amiga lançou-lhe um olhar de desconfiança. — Eu juro! Mas o trânsito — ela bufou —, estava um completo caos! Por isso a demora. Desculpe! Espero não ter perdido muita coisa.

— A festa mal começou, Hermione. A noite é uma criança! — a ruiva riu e a puxou para o interior da casa, em busca de uma bebida para a amiga. Mas Hermione apenas aceitou vinho quente, para aquecer o corpo. Ela tinha limitação a álcool, e estava de estômago vazio, então era melhor ir devagar com a bebida.

— E então, cadê o Miguel? — Hermione indagou alto, fazendo sua voz ser ouvida por sobre a música depois de vasculhar o ambiente atrás dele e não encontrá-lo.

— Miguel Corner? — Gina franziu o cenho e riu. — Você está desatualizada, amiga. Agora estou com Dino Thomas. — ela acenou ao longe para um rapaz alto e negro, que Hermione supunha ser o novo affair de Gina. — Se não estivesse trabalhando tanto e saísse mais com sua melhor amiga, saberia disso.

— Oh Gina, desculpe. Tenho sido uma péssima amiga, não é? Ando tão ocupada.

— Acho engraçado que Neville — ela apontou para ele, sentado a alguns metros com a namorada Ana Abbott, a quem elas apresentaram a Neville um ano antes — estagia na mesmíssima empresa que você, e ele ainda tem tempo de socializar.

— É porque ele não trabalha diretamente para o Sr. Snape. — sentiu seu celular vibrar no bolso traseiro da calça jeans, e ao pegá-lo, viu na tela de bloqueio uma notificação de mensagem de WhatsApp do seu chefe. Gina, é claro, não perdeu a notificação, e imediatamente cruzou os braços e ergueu-lhe uma sobrancelha, a lembrando imediatamente de Snape.

— Hermione, você não vai responder, não é? — era mais uma advertência do que uma pergunta, mas ela não estava prestando atenção à amiga.

— Desculpe, eu preciso… pode realmente ser importante. — ela gaguejou uma desculpa, digitando a senha para desbloquear o celular.

— Mas que droga, é noite de Ano Novo! — Gina tentou tirá-lo de sua mão, fazendo um cabo de guerra com o aparelho antes de se dar por vencida e desistir de impedir a amiga de responder a mensagem. — Tudo bem! — a ruiva fez sinal de rendição. — Quando você quiser deixar de ser trouxa, pode se juntar a nós. Tenho alguém para lhe apresentar: Córmaco McLaggen… — Hermione não a estava ouvindo, pois já tinha lhe dado as costas, pronta para ir para um cômodo mais silencioso para ler a mensagem. — Ok, ótima conversa, Hermione! — Gina gritou irônica. — Mande um beijo para o S r. Rickman e o mande para o inferno, por fazê-la trabalhar na noite de hoje.

Hermione subiu as escadas rumo ao quarto da amiga, enquanto abria o aplicativo de mensagem para ler e respondê-lo.

Severo Snape:

"Granger, você cancelou o meu encontro de amanhã com o Sr. Zhao? Você não sabia que os chineses não comemoram o Ano Novo no dia 31 de dezembro ou achou que eles simplesmente gostam de trabalhar no feriado?" – 20:28

Revirou os olhos ao ler a mensagem, respondendo-o em seguida.

Hermione Granger:

"Senhor" – 20:32

"Eu cancelei o encontro" – 20:33

"Remarquei para quando você voltar do recesso" – 20:33

Severo Snape:

"E por que o nome dele ainda está na minha agenda de amanhã?" – 20:34

Ela cerrou os dentes e gemeu com o erro, mas rapidamente digitou uma resposta.

Hermione Granger:

"Desculpe" – 20:34

"Esqueci de atualizar sua agenda" – 20:35

"Mas garanto que a reunião foi cancelada" – 20:35

A confirmação de leitura ficou azul no mesmo instante. Ela aguardou, mas Snape não enviou mais nenhuma mensagem, então ela bloqueou a tela, guardou o celular no bolso e voltou para a festa, tentando esquecer dele por pelo menos uma noite.

— E então, o que ele queria dessa vez? — Gina a abordou ao pé da escada. — Não conseguia achar o próprio pau na cueca? — ela insistia em dizer que Snape não tinha a mínima capacidade de fazer nada sem Hermione.

— Gina! — a repreendeu, horrorizada com o quão longe a amiga foi dessa vez.

— Aposto que você ficaria muito contente em poder ajudá-lo com isso. Afinal, você é sempre tão prestativa. — a ruiva fez uma mesura, debochando da solicitude da estagiária.

— O quanto você já bebeu?

— Não o suficiente. E você, com certeza, precisa de uma bebida mais do que eu. Precisa se soltar. — ela empurrou sua própria taça de vinho branco para as mãos de Hermione. — Já que, provavelmente, você se esqueceu de como socializar após tantos meses trancada no escritório trabalhando e em seu apartamento preparando seu TCC. Nunca vou perdoar o Sr. Rickman por sugar sua jovialidade e tirá-la de mim.

— Isso se chama estágio. — elas sorriam uma para a outra, e Hermione concordou com a mais nova. "Faz tanto tempo que não saio, que sinto como se eu tivesse vinte anos a mais e minha juventude tivesse ficado em um passado longínquo", riu amargamente com o pensamento.

Gina rapidamente a incluiu em círculos de conversas com amigos e desconhecidos, e ela deixou-se levar por aquela sensação revigorante de ter apenas vinte e cinco anos e poder curtir uma festa como tal. Reviu a caloura da faculdade, Luna Lovegood, e matou a saudade de seu jeito excêntrico e despretensioso, conheceu Dino Thomas e seu amigo Simas Finnigan, reencontrou Parvati Patil e sua irmã gêmea Padma – com quem estudou nos dois primeiros semestres – e elas lhe contaram que Lilá Brown – outra ex-colega – estava saindo com Rony Weasley, o irmão grudento de Gina, que durante meses correu atrás de Hermione. Esquivou-se de Córmaco McLaggen – o cara que Gina queria lhe apresentar, "Só para dar uns amassos", a ruiva disse – e até deu de cara com Draco Malfoy, um almofadinha metido a besta que era filho de um dos clientes da Snape Associados Assessoria Jurídica, e que herdaria uma grande empresa e um título nobiliárquico de Lord de Alguma-Coisa-Que-Não-Importava-Mais-No-Século-XXI. "O que ele está fazendo em uma festa no subúrbio de Chelsea é que é uma grande incógnita", pensou, até se dar conta de que ele não tirava os olhos de cima de Gina, "E que ela estava retribuindo as suas atenções", Hermione concluiu chocada. "Preciso de mais uma bebida depois disso".

Àquela altura, entre um Yorkshire pudding e outro Scotch egg, ela esvaziava mais uma taça de vinho, até o champanhe começar a ser servido conforme a meia-noite se aproximava. Respondeu às felicitações e desejos de próspero Ano Novo que seus familiares enviaram – até mesmo àquelas imagens cafonas de mensagens prontas que sua mãe costumava enviar –, até ver-se em uma roda de conversa sobre realizações para o ano que se iniciava em poucas horas.

— Eu gostaria de perder dez quilos. — disse Lilá, que aparecera no decorrer da noite com Ronald Weasley a tiracolo.

— Você não precisa, Lilá. Está linda assim! — afirmou Rony e a namorada corou ao elogio.

— Own — ela fez um som meloso —, obrigada, Uon-Uon. — "Que porra é Uon-Uon?", Hermione se perguntava ao franzir o nariz para a cena patética do casal.

— Quero um outro emprego. — desejou Neville, meio deprimido, fazendo Hermione se compadecer pelo colega de trabalho.

— Eu também. — concordou Gina com Neville. — Em 2020, vou estar trabalhando para a coluna esportiva do The Guardian. — afirmou a ruiva com otimismo.

— É isso aí! Gostei dessa positividade, hein, Gina! — Dino a apoiou, e todos entraram em coro de admiração pelo otimismo dela. — Eu quero um carro novo, a minha lata-velha só está me dando prejuízos.

— Você diz isso porque não tem um Ford Anglia 1959. — Gina riu do carro do irmão.

— Ei, meu carro é um clássico, ok? Melhor do que andar de metrô. — Rony alfinetou a caçula.

— Eu gostaria de ir para uma expedição na Antártica para salvar pinguins que estão em extinção. — interrompeu Luna com seu ar sonhador. Alguns soltaram exclamações de contemplação com a meta de ativismo ambiental dela. — Vocês sabiam que dois terços das colônias de pinguins imperadores estarão extintas em 2050? E que 98% não existirão mais em 2100? — o fato trazido pela jovem de cabelos longos e loiros, com roupa de paetês fez Hermione sentir-se mal por ir para o trabalho de carro por não usar ecobags. "Minha resolução de Ano Novo deveria ser diminuir minha emissão de CO. Que droga, Luna está tentando salvar uma espécie da extinção e eu só penso em dar para o meu chefe", ela deu um longo gole em sua bebida.

Ronald quebrou o silêncio, depois do pequeno discurso de Luna, que deixou todos meio desconfortáveis: — Gostaria de ver o Torquay ganhando a primeira divisão e jogando na liga dos campeões da UEFA. — disse Rony esperançoso por seu time de futebol do coração. Gina e alguns rapazes riram.

— Só por um milagre. — Gina disse.

— O Torquay não está, tipo, na quarta divisão?

— Quinta, na verdade. — Gina corrigiu Dino e ambos riram.

— Não custa sonhar. — Rony gemeu chateado.

— E você, Mione? Algum desejo ou resolução para 2020? — indagou Neville.

Todos viraram para prestar atenção em Hermione, e Gina lançou-lhe um olhar de cumplicidade quando o silêncio se instaurou ao aguardarem uma resposta dela.

— Ah, bem, você sabe… o mesmo de sempre. — "Transar com meu chefe até não poder mais andar". — Felicidade, saúde, prosperidade…

…amor. — Gina completou.

— Está apaixonada, Mione? — Neville gentilmente perguntou. — Nós o conhecemos?

— Neville, se você soubesse… — Gina deixou no ar com um sorriso, ignorando as sobrancelhas apertadas e o maxilar cerrado de Hermione em uma clara advertência de "Cale a boca ou eu mato você".

Ainda estava confusa sobre seus sentimentos quanto à Snape, tinha quase certeza de que não era amor, mas o desejo físico talvez tenha acendido uma centelha de algo a mais. Tudo o que sabia era que seu corpo queimava de vontade pelo dele, por seus lábios e mãos vagando por sob a sua saia até encontrar a fonte de sua umidade. E, bem, ela já tinha criado mil fantasias e probabilidades – ela já os tinha fantasiado sobre a mesa larga da sala de reuniões e até, "Por Deus", arquejou, sobre copiadora – para algo que ela sabia que era impossível de acontecer. E depois de muito refletir, tomou aquela situação como resolução de Ano Novo: tirá-lo de sua mente. Era errado. Proibido. Ela podia ser demitida, e ele acusado de assédio. "Hermione Certinha-Granger, que nunca na escola colou, nunca recebeu uma multa de trânsito e jamais se dignou a olhar seus ex-patrões dessa forma, agora, só queria transar loucamente em cima da copiadora com seu atual chefe", ela riu nervosamente sem humor.

Ela se lembrava muito bem de como aquela obsessão pelo homem de olhos de turmalina começara. Fora repentino, mas avassalador: certa vez, tarde da noite, ela batera na porta de sua casa, para entregar-lhe contratos assinados que ele imprescindivelmente precisaria para a manhã seguinte, e, depois de tocar a campainha inúmeras vezes e não ser atendida, espiara pela cortina entreaberta da janela fechada e teve um vislumbre de Snape passando pela sala, usando nada mais que uma toalha de banho enrolada na cintura. Hermione nunca mais se esquecera de seus cabelos molhados, pingando gotas de água que escorriam sorrateiramente e se acumulava nos cachos pretos de seu peito nu; e ela não pôde culpar seus olhos de descer por aquela trilha de pelos ralos em seu torço, que contornavam o umbigo e escondiam-se por trás da toalha felpuda, que pendia perigosamente em seus quadris, deixando pouco para imaginação. Hermione salivou com aquela lembrança, tamanha era sua vontade de arranhar seus ombros e beijar seu peitoral. Quando Snape atendera a porta, envolto em um roupão negro de cetim – que ela suspeitava esconder sua completa nudez, pois ele rapidamente atendera porta –, Hermione estava tão vermelha quanto um tomate, e apenas empurrara a papelada para ele antes de sair correndo, sem dizer mais do que um "Boa noite".

Desde então, Snape não saíra de sua mente. Primariamente, invadindo seus sonhos: o primeiro que teve, acordou sentindo-se horrorizada e estranhamente atraída, segundo sua calcinha. Depois, eles se tornaram uma constante crescente, cada vez mais libidinosos e reais, e ela mal podia esperar por encontrá-lo em seus sonhos todas as noites, "E pela manhã, um banho frio e muita meditação, para poder olhar em seus olhos e não me entregar, ficando totalmente corada", acrescentou. A princípio, ela achou que aquela atração era somente desejo sexual reprimido, afinal, fazia meses – "Ok, anos", admitiu para si – que ela não transava. Mas depois de alguns encontros marcados pelo Tinder para sexo casual, percebeu que não era simplesmente sua libido despertando após tanto tempo adormecida, mas desejo por um homem específico: Severo Snape. Porque nenhum outro tinha suas mãos largas, sua voz de barítono e aquele olhar, que ao mesmo tempo eram frios e quentes, queimando sob sua pele. E então, imaginá-lo gemendo em seu ouvido enquanto seu bullet deslizava entre suas dobras, virou sua única e frequente companhia.

A conversa sobre resoluções de Ano Novo se dissipou quando mince pies e minis pork pies foram servidas e mais garrafas de diversas bebidas alcoólicas foram abertas. E então alguém teve a brilhante ideia de jogar um jogo — um jogo que Hermione considerava perigoso e um tanto imaturo. Ora, a última vez que ela tinha jogado "Eu nunca" estava no ensino médio, e mal havia dado uns amassos desajeitados. Mas agora, era uma mulher adulta, e desde então, ela havia tido experiências bastante diversificadas. Por sorte, esse jogo seria uma variação do tradicional "Eu nunca": seria apenas válido as coisas feitas no ano que estava acabando, o que limitava suas respostas.

— Eu começo! — disse Lilá animada. — Em 2019 eu não criei um perfil falso para stalkear nas redes sociais. — ela deu uma olhada conspiratória para as irmãs Patil, que beberam em seguida.

Dino Thomas, que ficou responsável por manter os copos cheios de vodca a cada rodada, completou os shots das gêmeas.

— Ok, sou o próximo? — perguntou Rony, e quando todos assentiram, ele tomou um tempo para pensar antes de dizer: — Em 2019 eu não fiquei bêbado, mas tão bêbado — intensificou ele —, que acordei sem saber onde estava.

Com alguns bufos de "Óbvio" e "Pergunte alguma coisa que talvez ninguém aqui tenha feito" todos beberam, com exceção de Luna, Neville e sua namorada. A pequena dose de vodca desceu queimando pela garganta de Hermione, que bebeu, pois, após a pequena comemoração de seu aniversário, acordara na casa de Gina sem fazer a mínima ideia de como havia chegado lá. Dino encheu os copos de todos que beberam e, o amigo de Gina, Córmaco McLaggen, foi o próximo:

— Em 2019 eu não acordei sem lembrar do nome da pessoa com quem fiquei na noite anterior. — ele disse com um sorriso bobo, talvez até presunçoso, bebendo em seguida, juntamente com Gina, Dino, Simas e Draco Malfoy, que se juntou à roda para a brincadeira.

Parvati Patil, que estava ao lado do Córmaco, se adiantou: — Em 2019 eu não fiquei com ex de amigo ou amiga.

Aparentemente, aquela fora uma indireta para a irmã, que virou sua dose junto com Draco, Simas e Córmaco. E como forma de vingança, Padma disse:

— Em 2019 eu não troquei o nome de crush ou namorado.

Bom, não fora somente Parvati que esvaziou o copo; Córmaco e Rony também beberam, fazendo Lilá fechar a cara — Hermione suspeitava que Rony tivesse trocado o nome dela —, e, lembrando-se de quando chamara aquele cara"Como era mesmo o nome dele?", ela perguntou-se — do seu último encontro de "Severo", Hermione também obrigou-se a beber.

— Em 2019 eu não mexi escondida no celular do meu namorado. — disse a tímida Ana Abbott, namorada de Neville, sem nem imaginar a discussão que iria se suceder quando Lilá tomou sua dose. No fim, Rony e Lilá abandonaram o jogo e saíram para o quintal para conversarem a sós. — Desculpem, não queria causar essa situação.

— Está tudo bem, Ana. — Parvati a tranquilizou. — Os dois vivem discutindo, mas sempre se resolvem.

— E é bom mesmo que meu irmão não esteja aqui para ouvir minhas respostas. — Gina sorriu. — Vamos aumentar o nível desse jogo.

— Ou baixar, você quis dizer. — corrigiu Hermione.

— Sua vez, Neville! — Gina apontou, e enquanto Neville pensava, ela se virou para Hermione e a fez beber mais um shot, com a intenção fazê-la se soltar e se divertir.

— Tudo bem, eu tenho uma! — exclamou Neville. — Em 2019 eu não enviei uma mensagem comprometedora para a pessoa errada.

Parvati, Luna e Neville beberam, enquanto ele contava que enviou uma mensagem picante – que era destinada a sua namorada – para sua avó, arrancando risadas de todos. Hermione ficou pensando em quantas vezes trocara mensagens sobre Snape com Gina, e como seria vergonhoso se, por um acidente, encaminhasse a ele próprio. "Com certeza eu seria demitida antes mesmo que pudesse apagar as mensagens", ela concluiu aquela hipótese, agradecendo por nunca ter acontecido nada minimamente parecido com ela.

— Hey, Hermione, acorda. É sua vez. — Neville a chamou, tirando de seu transe. Ela levou um minuto pensando e disse:

— Em 2019 eu não enviei nudes.

Absolutamente todos beberam, menos ela. Ana Abbott ficou corada no canto e cochichou no ouvido do namorado, arrancando um sorriso dele.

— Ah, Hermione, é sério? Nenhuma? — Gina indagou, e ela balançou a cabeça negativamente. — Ok, então a próxima rodada vale dois shots, hein! — a ruiva informou a todos, e Hermione a olhou desconfiada, com medo do que ela diria a seguir: — Em 2019 eu não quis transar com alguém que trabalha comigo.

Gina ergueu uma sobrancelha debochada em resposta aos olhos cerrados da amiga, que virou as duas doses do líquido ardente, sem prestar atenção se mais alguém se juntou a ela. Até ali, Hermione havia bebido quatro doses de vodca, duas canecas de vinho quente, talvez três taças de vinho branco… "Ou foram quatro?", ela havia perdido as contas. Tinha baixa tolerância alcoólica, e qualquer garrafa de cerveja fazia seu mundo girar. Obviamente, Hermione já estava sentindo os efeitos do álcool em seu sangue: euforia, fala desinibida e arrastada – como se tivesse tomado uma anestesia, dessas, que seus pais usam no consultório de odontologia –, reação lenta – fazendo seus olhos piscarem devagar. Com certeza, havia bebido mais do que era costume, e não queria acordar na casa de outro amigo sem saber como foi parar lá, mas ao mesmo tempo, ela pensou "Foda-se, é noite de Ano Novo, preciso me divertir. Não é como se as coisas pudessem sair do controle, afinal, estou rodeada de amigos que não me deixarão fazer besteira. Nada vai dar errado", confiou ela.

— Em 2019 eu não enviei a mesma nude para duas pessoas diferentes. — Draco Malfoy disse com um sorriso de lado.

Ele, Gina, Simas, Padma e Córmaco beberam, confirmando que mantinham os tais "contatinhos". Hermione não sabia se sua mente alcoolizada estava delirando, mas Draco e Gina trocaram um olhar que pareceu ter um significado maior, que foi quebrado por Simas quando anunciou:

— Em 2019 eu não fiquei com alguém do mesmo gênero que eu.

Gina e Dino beberam, assim como Luna, surpreendendo Hermione com a revelação.

— Hey Simas, você não vai beber? — Parvati perguntou rindo, deixando Simas envergonhado.

— Se for no sigilo, vale dois shots. — avisou Gina.

— Bebe, amigo, todo mundo aqui sabe que você ficou com Lino Jordan naquela festa.

Após Dino entregar o melhor amigo, Simas virou os dois shots de vodca, ficando com as bochechas vermelhas – ela não sabia dizer se de vergonha ou da bebida.

— Em 2019 eu não fiz ménage à trois. — jogou Dino.

Mais gente do que Hermione imaginou bebeu: Gina, Dino, Simas, Draco, Luna e até mesmo as gêmeas Patil, trazendo um pensamento absurdo a mente de Hermione "Espero que não juntas, isso seria muito esquisito!".

— Gina, você já fez a três? — perguntou Córmaco, parecendo interessado e ao mesmo tempo deprimido, talvez por ninguém o convidar para uma aventura assim.

— Ménage? Ah sim. — confirmou ela, bebendo um gole de sua água. Olhando para Draco por cima da garrafa, ela acrescentou: — Mas swing, não.

"Ok, definitivamente tem algo rolando aqui!", concluiu Hermione. Sempre aleatória ao que estava acontecendo ao seu redor, Luna – a última a jogar – disse:

— Em 2019 eu não fiz sexo em um iglu. — muito lentamente, Luna bebeu sua vodca, e completou distraída: — Não? — a loira olhou para a roda. — É bastante interessante.

Agora, quem estava alheia era Hermione, que virou seu copo, captando a atenção de todos, que viraram-se rapidamente para ela.

— Granger, você já transou em um iglu? — Draco perguntou incrédulo, com o cenho franzido.

— Eu- o quê? Em um iglu? Não! Que absurdo!

— Então por que você bebeu? — Hermione riu, dando de ombros, já completamente confusa pelo álcool.

Logo, a contagem regressiva para a meia-noite começou, com todos se juntando para brindar quando o Novo Ano chegasse. Ela usou aquele breve momento para refletir sobre sua vida e as coisas que tinha passado nos últimos doze meses e mentalizando coisas boas para 2020.

"10… 9… 8…" contaram em uma só voz. Hermione pediu paz e esperança ao mundo, felicidade e saúde para ela e para todos que amava.

"7... 6... 5…" torceu por sucesso em sua carreira e por amor em sua vida.

"4… 3… 2…" e prometeu a si mesma que esqueceria Severo Snape.

"Feliz Ano Novo!" gritaram todos sob comemorações, abraços, beijos e rolhas de champanhe sendo estouradas. Com um brinde, deram boas-vindas a 2020.

E isso era tudo o que Hermione Granger se lembrava da virada de ano. O resto da noite era um completo borrão em sua mente embriagada.


Notas finais:

Acho que alguém entrou em coma alcoólico. É sempre bom lembrar ao leitor para não fazer como a minha Hermione e beber com moderação, hein, pois álcool pode causar dependência e outros problemas à saúde.

Esta estória se passa em 2019/2020 pois não queria trazer o triste cenário de uma doença epidemiológica, e não queremos distanciamento social entre os personagens principais, não é? — a autora sorri maliciosamente.

Há uma referência nessa fanfic para a oneshot da minha amiga Sú, "Um conto de gelo e fogo", você a encontrou?

Um agradecimento especial a Joana, que foi minha fonte de informações da culinária e cultura britânica.

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Glossário:

• Na mitologia grega, Euristeu foi um rei de Tirinto e de Micenas e, ele foi o encarregado pelo Oráculo de Delfos a exigir de Hércules os Doze Trabalhos como expiação pelo assassinato de seus filhos. Euristeu era neto de Perseu.

• O vinho quente (mulled wine) é uma versão do nosso quentão brasileiro, e é encontrado nos pubs do Reino Unido durante todo o inverno, sendo comum nas festas de fim de ano.

• Yorkshire pudding apesar de ser chamado de pudim, não é doce. É uma massinha crocante, feita de farinha de trigo, leite e ovos que são assados com a gordura da carne.

• Scotch egg (ovos escoceses) consiste de um ovo cozido mole, envolvido em carne de linguiça e depois empanado na farinha de pão. Ele é então assado ou frito. Pode ser servido com uma fatia de queijo cheddar e picles de cebola.

• Mince pie é uma tortinha doce que combina carne moída, frutas, frutas secas e temperos como canela, cravo e noz-moscada. Quando Rony interrompe Harry e Gina n'A Toca no filme Enigma do Príncipe, está segurando uma bandeja de mince pie.

• Pork pie (torta de porco) é uma torta de carne, servida em temperatura ambiente ou fria.

• A estimativa sobre a extinção de pinguins imperadores foi feita em um estudo publicado pela revista Global Change Biology.