Aviso legal: Os personagens e o universo ficcional de Harry Potter não me pertencem. Eles são propriedade exclusiva de J.K. Rowling. Esta é apenas uma estória feita por uma fã e para fãs, sem fins lucrativos.

Notas iniciais: Obrigada a todos que comentaram e favoritaram essa fanfic. Hoje é meu aniversário, mas quem ganha o presente são vocês! Espero que possam me retribuir comentando, mas se você for um daqueles leitores fantasmas/tímidos, deixe, pelo menos, um emoji de bolo "" para que eu saiba que você esteve por aqui comemorando comigo.

Lembrando que esta estória tem classificação indicativa para maiores de 18 anos por um motivo, e alguns personagens podem ser bastante bocas sujas.

Ao grupo Severo Snape Fanfictions, esse capítulo é todo dedicado a vocês.


CAPÍTULO 2 ‐ FELIZ RESSACA NOVA

Hermione Granger imediatamente se arrependeu de ter abertos seus olhos, pois eles doeram com a luz que entrava pela janela, fazendo sua cabeça latejar em uma dor lancinante. Quando moveu seu rosto para o lado a fim de fugir da claridade que irritava suas pupilas, absolutamente tudo girou; e mesmo quando fechou novamente os olhos, ela ainda tinha a sensação de estar em um carrossel que girava muito – muito – rápido. Seu estômago nauseou, e ela controlou-se para não vomitar no… "Onde é mesmo que estou?", perguntou-se. Dando uma rápida espiada, reconheceu a sala de estar em estilo industrial da casa que Gina dividia com Luna, Lilá e as irmãs Patil. Ela estava deitada no sofá de suede cinza, e seus olhos foram acostumando-se pouco a pouco a claridade, observou que haviam muitas garrafas de vidro, taças e copos vazios em cima da mesinha de centro e na estante da parede adjacente – rastros da festa de ontem.

Lentamente ela se pôs sentada, apoiou seus cotovelos sobre os joelhos e segurou sua cabeça. Ainda estava tonta, e penitenciou-se por ter bebido além de seu limite na noite anterior; e Hermione considerou que devia ter passado muito além do limite, já que nunca antes tivera uma ressaca como aquela: sua cabeça estava doendo, seu estômago queimava, suas mãos tremiam e ela acabara de notar que sua boca estava seca como se tivesse caminhado por dias no deserto. Hermione foi tirada de sua lamúria quando ouviu o som de passos e de algo plástico – como uma sacola –, e levantou os olhos para encontrar Luna arrumando a bagunça e reunindo as garrafas em um grande saco de lixo. O simples barulho dos vidros se chocando ao serem jogados no saco plástico a incomodava.

— Boa tarde. — cumprimentou Luna em seu tom sempre alegre. "Tarde?", Hermione estranhou, "Que horas eram?", como se lesse seus pensamentos, Luna disse: — São 14 horas. Você dormiu bem?

"No sofá? Claro que não", seu corpo dolorido reclamou e ela gemeu, mas preferiu trocar de assunto: — O que aconteceu? Porque dormi no sofá? — perguntou, dando-se conta de que não lembrava nada da noite de Ano Novo; sua última memória era do brinde.

— Você simplesmente desmaiou no sofá após vomitar nos sapatos de Córmaco McLaggen.

Hermione franziu o nariz expressando nojo e vergonha pelo que fizera. — Droga. Eu não lembro de absolutamente nada disso.

— Então funcionou. — a loira comentou abstraída ao recolher os copos em uma bandeja de inox.

— O quê? — indagou, confusa.

— Você disse que iria beber para esquecer. — Luna declarou, acrescentando em seguida: — Se não se lembra, é porque funcionou. — ela não estava mais elucidada do que antes, contudo, não insistiu no significado por trás daquelas palavras; Luna não costumava ser objetiva ou lógica em suas falas, e as pontadas em sua cabeça a impedia de pensar mais sobre aquilo. — Preparei um chá e fiz torradas, você quer?

— Aceito as torradas, mas tomarei uma boa xícara de café preto, para ajudar com o efeito da ressaca.

— Uma ressaca se cura com outra, Granger. — o tom de voz esnobe de Draco Malfoy a fez saltar, assustando-se com a presença dele.

— Malfoy? — "O que ele ainda está fazendo aqui?"

— Olá para você também.

Ele havia acabado de descer as escadas do segundo andar com Gina a seu encalço. Fechava as abotoaduras prateadas dos pulsos e tinha o blazer dobrado e pendurado em seu braço, em uma postura informal, mas ainda deslocada naquela casa simples de Chelsea. Hermione os encarou, lançando olhares para a amiga em busca de explicações – e sendo deliberadamente ignorada por ela –, contudo, quando o jovem de cabelos platinado despediu-se de Gina com um beijo rápido em seus lábios e com a promessa de "Até logo", ela ficou visivelmente boquiaberta.

— Nós vemos por aí, Granger. — Draco acenou antes de sair, deixando uma Hermione atordoada encarando a porta que se fechara atrás dele.

— Você está com uma cara péssima, Mione. — disse Gina.

— Malfoy dormiu aqui?

— Sim.

— Com você? — Hermione perguntou com as sobrancelhas erguidas para a amiga.

Gina arquejou. — Sim. — respondeu como se dissesse o óbvio, dirigindo-se para a cozinha e sendo seguida por Hermione.

— Mas… — hesitou ela. — E Dino? — indagou confusa e perplexa.

— Nós temos uma relação aberta.

— Eu já estive em um relacionamento aberto. — declarou Luna, chamando sua atenção. — Mas eu não sabia. — ela sempre surpreendia-se com a naturalidade e neutralidade que Luna usava mesmo em assuntos mais sérios.

Luna abandonou a bandeja com os copos na pia e dispôs um prato com torradas, geleia, chá e café em frente à Gina e Hermione na bancada que dividia a pequena cozinha. Gina espalhava geleia em sua torrada e Hermione, com suas mãos trêmulas, servia-se de café quando disse:

— Me chamem de careta, ou como quiserem... Mas não consigo entender esse negócio de poliamor.

— Não é poliamor. — negou Gina. — Não tenho nenhum envolvimento amoroso com ele. É puramente sexual.

Ela ia dizer alguma coisa, mas foi interrompida por Luna: — Ah, Hermione, encontrei isto dentro do liquidificador esta manhã. Acho que pertence a você. — ela entregou-lhe seu celular, completamente intacto, o que Hermione agradeceu.

— Ah, obrigada, Luna. — agradeceu, sentindo-se embaraçada. — Dentro do liquidificador, você disse? — Hermione perguntou confusa e a amiga assentiu.

Apertando o botão na lateral do aparelho, a tela acendeu-se, mostrando dezenas de notificações: curtidas no Instagram, seguidores no Twitter, mensagens no WhatsApp e pelo menos uma ligação perdida de sua mãe. Durante o tempo que Gina tagarelava alguma coisa com Luna, Hermione digitou a senha para desbloqueá-lo e abriu o aplicativo de mensagens, tomando um gole de seu café enquanto seus olhos corriam pelas suas últimas conversas. Seu cenho franziu com o contato de sua conversa mais recente: seu chefe; a última mensagem: uma figurinha. Curiosa, ela abriu a conversa:

Hermione Granger:

"Feliz ano novo" – 00:45

"Ainda está no escritório trabalhando?" – 01:03

"Não quer que eu vá até aí te dar uma mãozinha?" – 01:03

"Para os contratos ou para outras coisas mais" – 01:04

"Se quiser" – 01:04

Todo o café que tomou no último gole foi cuspido na tela do celular e em cima de Gina quando ela leu aquelas mensagens. A ruiva gritou a repreendendo, mas Hermione estava perplexa demais para ouvir as queixas sobre sujar sua blusa nova; ela rapidamente limpou a tela com um guardanapo, sentindo todo o sangue do seu rosto de esvair, não sobrando nada nem para corá-la de vergonha. Seus olhos corriam pela tela absorvendo as constrangedoras palavras ditas por ela:

Hermione Granger:

"Estou usando uma calcinha vermelha" — 01:25

"Dizem que traz amor para o novo ano" – 01:26

"Na verdade" – 01:27

"Nesse momento" – 01:27

"Queria que voce estivesse tirando ela de mim" – 01:28

"Não, eu não disse isso!", ela pensou com um sobressalto. Recusando-se a acreditar. A pontada em suas têmporas, de repente, ficando insuportavelmente mais forte e sentindo a bile subir até sua garganta.

Hermione Granger:

"Ha alguma possibilidade disso acontecer?" – 01:29

"Nao precisa ser hoje" – 01:29

"Se estiver ocupado" – 01:30

Seus olhos se arregalavam e seu queixo caía a cada linha que ela lia. Tapou a boca com uma mão, seu coração disparando à medida que seu polegar rolava a tela para cima.

— Merda. Merda. Merda. Merda. O que foi que eu fiz? — achou que era apenas sua mente esbravejando, mas quando Gina e Luna se viraram para ela, expressando preocupação, percebeu que tinha protestado em voz alta.

— O que houve, Hermione? — Gina deixou de limpar sua blusa quando notou que a amiga estava pálida, trêmula e seus olhos estavam vidrados no celular. — Hermione? — chamou novamente, mas sem captar sua atenção.

Gina pôs-se atrás de Hermione para ler a conversa por sobre seu ombro, de repente a narrando para as três.

Hermione Granger:

"Sabia que com o vale-presente que a empresa me deu" – 01:33

"No meu aniversario" – 01:34

"Comprei" – 01:34

"Pensando em voce" – 01:34

"Uma linda lingerie de renda preta?" – 01:34

"Ainda ta com a etiqueta" – 01:35

"Queria estrear ela com voce" – 01:36

Ouvir aquilo na voz de Gina fazia parecer ainda pior, e real. "Isso deve ser um pesadelo, só pode. Vou acordar a qualquer momento", dizia a si mesma. Mas o nó que se formou em seu estômago era tangível demais para um sonho.

— Hermione! — Gina gritou, retirando sem esforços o celular das mãos da amiga e lendo a conversa. — Você fez isso mesmo? — a morena gemeu em resposta.

— Quem quer estrear uma lingerie com você, Hermione? — Luna perguntou confusa, olhando de uma para a outra em busca de entendimento.

— Não, Luna. Foi Hermione que enviou estas mensagens. Ela mandou para o chefe dela!

A loira ergueu as sobrancelhas quando finalmente teve compreensão. — Para o Sr. Rickman?

As duas assentiram e Hermione gemeu novamente, apoiando o rosto nas mãos e dizendo em uma voz chorosa e abafada: — Estou fodida!

— Você está muito fodida, amiga, e não no bom sentido. — Gina compadeceu-se. — Porque isso só piora, olha o que você mandou em seguida:

Hermione Granger:

"comprei tbm um consolo" – 01:57

Hermione levantou-se com extrema rapidez para quem estava com vertigem – fazendo o banquinho em que estava sentada bambear –, para arrancar o seu celular das mãos de Gina e evitar que ela lesse o restante em voz alta, a constrangendo ainda mais – "Se é que isso era possível", sua mente a lembrou. Caminhou pela pequena cozinha e depois para a sala, tentando fugir das amigas curiosas atrás de si enquanto lia e morria por dentro um pouco mais a cada palavra. Hermione tinha a sensação que as paredes estavam se fechando a sua volta, a deixando angustiadamente claustrofóbica e sem conseguir respirar direito.

Hermione Granger:

"espero que tudo bem eu ter batizado ele com seu nome" – 01:59

"usei na sexta-feira passada" – 01:59

"depois de vc ter me chamado de incompetente" – 02:00

"tem 18cm e brilha no escuro" – 02:03

"faz jus ao real?" – 02:03

"nao a parte que brilha no escuro" – 02:05

"eh claro kkk" – 02:05

— Caralho! Puta merda! Mas que droga! — não havia palavrões suficientes em seu vocabulário para expressar tamanha sua vergonha e sofrimento.

Sentiu um calor se espalhar sobre seu peito, pescoço e face; devia estar escarlate até as pontas das orelhas, e seu estômago torceu-se – como uma ginasta, dando duplo twist carpado – pela combinação da ressaca e do constrangimento.

— O que mais você mandou, Hermione? — Gina perguntou e Hermione pressionou os lábios e meneou negativamente a cabeça, seus olhos enchendo de lágrimas, não querendo que as amigas soubessem o conteúdo restante da conversa.

— Não. É vergonhoso demais. E não dá mais para apagar essas mensagens, já se passou muito tempo. — lamentou, aflita.

A vontade de chorar misturou-se à vontade de rir daquela situação trágica e cômica. Os dedos de uma de suas mãos se embrenharam em seus cabelos em um gesto de desespero.

— E o pior, é que ele já leu. — enfim dando-se conta de que a confirmação de leitura estava azul. — Vou ser demitida! — ela deixou-se rir de seu infortúnio.

E aquelas não foram as últimas mensagens que Hermione enviara, com resquício do que sobrara de sua coragem – e imaginando se aquilo poderia ou não ficar pior –, as leu:

Hermione Granger:

"lembrei de vc" — 02:51

"minha amg Gina acabou de colocar uma playlist" – 02:52

"e agora ta tocando the beatles" – 02:52

"lembrei do cu que eu te dei de presente de amigo secreto" — 02:53

"nao sabia que vc era tao fa deles" – 02:53

"senao, ja teria te dado o cu antes" – 02:53

"CU NAO CD* CD!" – 02:57

"KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK" – 02:57

"quer dizer" — 03:01

"se quiser o cu" – 03:01

"tbm posso te dar " – 03:01

A última mensagem era uma figurinha que representava explicitamente o desejo que ela revelara na última mensagem: um emoji amarelo sorrindo, com bochechas coradas e de costas, expondo seu traseiro com os dizeres "bota devagarin", e arrependeu-se amargamente de ter pego-a em uma conversa com as amigas.

— Quero morrer! — Hermione clamou, deixando-se cair no sofá quando não sentia mais suas pernas, imaginando que aquela era a sensação de sua alma abandonando seu corpo antes da morte. "Mandei mensagens bêbada sobre sexo anal para o meu chefe!" — Isso não pode estar acontecendo!

Gina novamente tomou o celular e compartilhou a leitura das mensagens com Luna, que, em seguida, gargalharam audivelmente e descontroladamente até ter lágrimas nos cantos dos olhos e suas barrigas doerem. Apesar de um sorriso escapar aos lábios de Hermione, contagiada pelo humor das amigas, a expressão foi logo substituída por uma careta enquanto ela se afundava no sofá macio, escondendo o rosto em uma almofada, pedindo para que elas não rissem de sua desgraça.

— Desculpe, Mione, é que isso é muito engraçado! — Gina disse, limpando uma lágrima que fugira aos olhos.

— Eu não me lembro de ter enviado essas mensagens. Como vocês me deixaram fazer isso? — Hermione lamentou, e Gina deu de ombros.

— Ah, você sabe, eu estava com as mãos ocupadas. — declarou a ruiva, ainda rindo.

Hermione se deu conta de que só enviara aquelas mensagens porque estava totalmente fora de si por conta do álcool. Ela sempre teve responsabilidade sobre essa questão, e deixou-se levar por insistência de Gina:

— (...) E você, com certeza, precisa de uma bebida mais do que eu. Precisa se soltar. — lembrou-se das palavras que a amiga usara ontem.

O arrependimento dela misturou-se à raiva de sua perda de controle, e ela redirecionou a culpa à Gina Weasley: — A culpa é toda sua! — Hermione apontou para a mais nova. — Se você não tivesse me incentivado a beber-

— Hey, não desconte sua vergonha em mim! — Gina defendeu-se, a interrompendo. — Não a obriguei a beber e nem a instiguei a dizer para seu chefe que você comprou e deu o nome dele a um consolo.

— Confiei que poderia beber porque estava segura com vocês.

— E você achou que íamos ficar de babá para você?

— Eu a impedi de tirar a roupa duas vezes. — declarou Luna.

— Porque eu fui beber? Eu não devia ter bebido. — ela martirizou-se. Seus olhos se fecharam e seu queixo tremeu; apertou as mãos em ambos os lados da cabeça como se pudesse aliviar as fisgadas que a atingiam. — Minha cabeça vai explodir.

— Vou buscar um analgésico para você. — disse Luna.

— Preciso vomitar.

— ...e um antiácido. — completou Luna quando Hermione correu com a mão sobre a boca para o lavabo.

Mal deu tempo de levantar a tampa do vaso sanitário e Hermione ajoelhou-se no chão, despejando todo o conteúdo de seu estômago. Sentiu Gina atrás de si, segurando seus cabelos para que não ficassem em seu caminho, e enquanto vomitava, lágrimas também corriam de seus olhos.

— Eu vou ser demitida, Gina. — ela chorou, sua voz ecoando de dentro do vaso sanitário. — Demitida por justa causa: assédio. — apoiou um cotovelo na borda do vaso e cobriu seus olhos. Seus ombros subiam e desciam pelo choro copioso, e Gina afagou seus cabelos em empatia, apenas a ouvindo. — Assédio, dá para acreditar? Ninguém nunca mais vai me contratar, isso é inaceitável. — agora ela chorava audivelmente. — Eu me dediquei tanto a esse estágio; tanto tempo e esforço gastos em vão. Estava prestes a ser efetivada pela empresa, e eu faço uma merda dessas?

— Será que, se você se retratar com seu chefe, não teria uma chance? — sugeriu ela.

Hermione olhou séria para Gina por cima do ombro: — Eu disse que daria meu cu para ele. O cu, Gina.

Gina tentou segurar a risada em apoio à amiga, mas não conseguiu, explodindo em riso, e Hermione, em lágrimas.

— E eu nunca dei meu cu para ninguém. — chorou ela. "Eu até daria para ele. Mas ele não precisava saber isso através de uma confissão bêbada no meio da madrugada", pensou com pesar.

— Porra, Hermione. — a ruiva questionou xingou entre risos. — Caralho, você estava muito louca ontem à noite. — Gina pensou por um momento enquanto a morena regurgitava novamente, e então disse em um tom muito sério, que contrastava com o divertimento anterior: — Será que ele respondeu?

Hermione levantou a cabeça rapidamente do vaso, seus olhos fixados na parede quando disse: — Não sei. Não vi. — ela ergueu-se do chão, abaixou a tampa do vaso enquanto dava descarga. — Onde está meu celular?

— Deixei na sala. Vou pegar enquanto você lava seu rosto.

Gina saiu e Hermione lavou seu rosto e boca com o enxaguante bucal que ali encontrou. Quando chegou na sala, tomou os comprimidos de analgésico e antiácido com suco de abacaxi, couve e hortelã que Luna preparara para combater os efeitos da ressaca. Pegou o celular e constatou que ele não a respondera, mas as mensagens haviam sido lidas às 8:15 da manhã. Ela respirou fundo – "Inspire, expire e não pire!", repetia mentalmente como um mantra para tentar manter-se sã –, pensando no que fazer em seguida, agora que a merda já estava feita. "Que beber e dirigir é proibido, todo mundo sabe; mas por que beber e enviar mensagens, também não é?", era o que ela se perguntava.

— Beber e digitar deveria ser ilegal.

— Se fosse, você seria presa. — disse Luna.

— Agora você precisa assumir sua responsabilidade e contornar essa situação. — declarou Gina, e as outras duas concordaram. — E se você disser que, sei lá, seu celular foi roubado?, ou que um amigo quis lhe pregar uma peça e enviou essas mensagens no seu lugar sem seu conhecimento?

— Ou que você mandou para a pessoa errada? — Luna acrescentou mais uma sugestão.

Hermione ponderou as possibilidades, mas excluiu uma por uma: — Um ladrão não saberia do vale-presente da empresa, e um amigo não saberia que eu dei um CD dos The Beatles para ele no nosso amigo secreto. E seria muita coincidência eu ter dado o mesmo CD para outra pessoa. Argh, — ela reclamou com frustração — o que eu vou fazer?

— Você poderia ter contado para alguém sobre o presente de amigo secreto. — Gina disse.

— Ele não vai cair nisso, amiga. Snape é um cara inteligente demais para ser enganado assim. — a voz dele dizendo "Vejo você daqui a seis dias!" soou na sua mente, lembrando que ela ainda tinha um tempo para pensar no que fazer sobre as mensagens.

Pegou o celular e começou a digitar um pedido de desculpas:

Hermione Granger:

"Caro Sr. Snape"

"Não, não. Muito formal depois de eu ter oferecido meu cu para ele", ela pensou e apagou.

Hermione Granger:

"Sr. Snape, queria pedir desculpas pelas mensagens que você recebeu durante a madrugada, eu estava completamente bêbada"

Depois de olhar por dez minutos para a mensagem que digitou mas não enviou, ainda parecia errado, então ela novamente a apagou e começou a escrever outra coisa:

Hermione Granger:

"Chefe, foi engano"

Seus olhos estavam fixos no cursor piscando ao final da palavra, sem saber o que mais dizer. A verdade era que nada que ela dissesse poderia amenizar a vergonha e o arrependimento que ela estava sentindo. Mesmo que conseguisse fazê-lo acreditar que as mensagens teriam outro destinatário, conseguiria olhar para ele depois disso tudo? Hermione Granger digitou mais de vinte pedidos diferentes de desculpas usando todos os argumentos que ela podia pensar, antes de apagar cada uma e tentar novamente, sem encontrar formas de expressar o que acontecera em palavras para aplacar a situação.

O analgésico ainda não tinha surtido efeito e ela estava sonolenta, queria dormir e, quem sabe, quando acordasse, esse caos teria sido apenas um devaneio louco também proveniente do álcool. Por isso, antes de ir para casa, desabilitou as funções de visto por último e confirmação de leitura, com medo de que ele enviasse alguma mensagem, e se assim fosse, ela poderia ignorá-lo até pensar em uma solução melhor para seu – enorme – problema.


Hermione Granger tinha certeza que, quanto mais queria evitar a segunda-feira, mais rápido ela chegava, e os cinco dias até o fim do recesso de Ano Novo passaram como em um piscar de olhos. Ela mal dormira na madrugada anterior, tamanha era sua ansiedade, isso porque Severo Snape não mandara nenhum 'A' em resposta, e ela não sabia qual seria sua reação quando se encontrasse com ele. Na verdade, ela definitivamente não estava pronta, nem agora, e nem nunca, para encará-lo após aquelas confissões absurdas. Ficou tentada a não ir trabalhar naquele dia, mas ela não podia evitá-lo para sempre. Dormira mal e dormira pouco, e muito antes do alarme do despertador tocar, Hermione já estava na cozinha comendo sua tigela de cereal – o nervosismo que se instalou em seu estômago não a deixaria comer um típico café da manhã britânico, como ela, de fato, gostava. Ligou a TV enquanto fazia seu desjejum, tentando distrair-se com as notícias do jornal matutino, mas os boatos sobre a provável mudança do Duque e da Duquesa de Sussex para o Canadá e seu afastamento dos deveres reais não mantiveram sua atenção, pois seus pensamentos estavam muito longe dali.

Fez um rabo de cavalo alto, usou corretivo e pó para disfarçar suas olheiras pela noite mal dormida, jogou seu sobretudo preto de lã batida por cima de seu vestido com estampa de pied de poule, agarrou sua bolsa e dirigiu-se ao metrô – pensando na preservação dos pinguins que Luna mencionara no Ano Novo. Não se dera nem ao trabalho de preparar seu almoço e o levar na bolsa, como habitualmente fazia, pois, era óbvio, para ela, que o Rh da empresa já estaria com os papéis de sua demissão prontos para que ela assinasse assim que chegasse naquela manhã. Olhando em seu relógio de pulso, percebeu que estava muito mais adiantada do que de costume, e o 'tic tac' dos ponteiros pareciam fazer uma contagem regressiva para o humilhante e constrangedor embate com seu chefe. "Sim, humilhante", porque toda vez que imaginava esse cenário, ela estava sendo oprimida pela voz grave e autoritária de Snape dizendo o quanto o seu comportamento fora inadmissível.

Foi a primeira a chegar na empresa instalada no 27 andar, acendeu as luzes e sentou-se a sua mesa, reunindo seus pertences enquanto repassava uma das dezenas de discursos argumentativos que praticara em frente ao espelho nos últimos dias. Ainda faltava, pelo menos, mais quarenta minutos para o início do expediente, e ela estava ansiosa demais para ficar sentada aguardando sua iminente dispensa, então, levantou-se e preparou a cafeteira, para que os demais funcionários ficassem abastecidos do combustível para o dia: café. Pouco a pouco, os primeiros colegas de trabalho foram chegando e a cumprimentando, assim como os efeitos do nervosismo e ansiedade em seu corpo. Suas mãos suavam geladas e estavam trêmulas, e o desconforto no seu estômago descera para o inferior do abdômen, trazendo uma cólica intensa que a faz se arrepender de ter comido cereal com leite na primeira refeição do dia. Os próximos quinze minutos ela passara no banheiro, segurando sua barriga e suando frio com o desconforto intestinal. Quando sentiu-se melhor para deixar o banheiro, encontrou com Neville no corredor, dizendo que Snape estava procurando por ela. Hermione imediatamente sentiu vontade de voltar ao vaso sanitário, dessa vez, para vomitar; mas se conteve e foi ao encontro dele.

Não precisou bater na porta da sala dele, pois seu chefe já a estava aguardando próximo a sua mesa, e Hermione, quando o viu, vacilou, caminhando com pouca confiança sobre seus scarpins. "É agora, ele vai me demitir na frente de todo mundo. Todos vão saber o que fiz na noite da virada. Vai escancarar minha vergonha para toda a empresa. Só se dará por satisfeito e irá parar de gritar quando eu irromper em uma cachoeira de lágrimas", ela pensou, com um nó se formando em sua garganta.

— Granger, onde você estava? — ele perguntou, e a boca dela se moveu, mas nenhum som saiu, como nos filmes mudos de Charlie Chaplin. Naquele momento, tudo o que ela conseguia pensar é que já deveria ter feito um perfil no LinkedIn e disponibilizado seu currículo para poupar tempo. — O gato comeu sua língua, Granger? Preciso da minha agenda do dia atualizada e que confirme o almoço com o Sr. Zhao.

Hermione o encarou como se ele dissesse que era um bruxo e poderia voar. "Ele não me demitiu? Quer que eu olhe a agenda? Por que ele não me demitiu?", perguntava-se confusa. Depois de quase um minuto o olhando aturdida, ele notou sua falta de reação e comentou:

— Você está dormindo? Acorde, Granger! — disse ele uma oitava acima, fazendo-a pular e sair de seu torpor. — E traga-me meu café. Rápido! — a apressou com um grito.

Ele saiu, deixando-a completamente desorientada, e, por um minuto, ela não sabia nem para que lado ficava a cafeteira. "Eu não estou demitida? Ou ainda não estou demitida? Será que ele vai me demitir depois do almoço? Droga, eu nem trouxe almoço", as engrenagens de sua mente giravam rapidamente em busca de entendimento. Seu computador nem fora ligado – porque ela não esperava que iria trabalhar –, então se apressou em ligá-lo enquanto fazia uma chamada para a secretária do empresário chinês a fim de confirmar o almoço de negócios. Dez minutos depois, ela correu para bater à porta do Sr. Snape com seu expresso em uma mão e a agenda na outra.

— Com licença. — pediu ela.

— Entre. — disse ele, tirando os olhos do notebook.

Hermione colocou o copo de isopor com café em cima da mesa, e tentando manter a calma e evitar contato visual, disse: — A secretária do Sr. Zhao confirmou o almoço no restaurante Hakkasan de Mayfair, a reserva foi feita para o meio-dia. — Snape assentiu e ela continuou fazendo uma lista de checagem em seus compromissos do dia: — Lembrando que o senhor tem uma reunião com Lúcio Malfoy às 14:30, sobre recuperação empresarial em gestão de crise, e uma videoconferência às 16 horas, com aquela livraria, Floreios Borrões, que está abrindo rede de franquias.

— Ah, sim, estou a par. Traga-me uma cópia da documentação.

Apesar da aparente deixa para que ela se retirasse, a estagiária se manteve em frente à mesa, e ele a encarou: — Algo mais, Srta. Granger? — perguntou com a sobrancelha arqueada.

— Eu… — ela hesitou, mordendo lábio inferior, pensando em desculpar-se pelo ocorrido, contudo, como Snape não tocou no assunto até então, resolveu que não seria ela a trazer as mensagens à tona. — Hm, nada.

Quando estava prestes a sair, Snape novamente a chamou: — Ah, Granger, você me lembrou… — "Porra, por que não fiquei de bico calado? Agora, com certeza, terei meu contrato de estágio encerrado", ela pensou, antes de soltar um suspiro e se virar para ele. — Preciso que faça o inventário. Quero que contabilize cada caneta, cada grampo e cada clipe desse escritório. Depois disso, peça a Longbottom para ajudá-la a organizar o arquivo de contratos por ordem alfabética. — a estagiária acenou, memorizando as tarefas delegadas. — E não esqueça de fazer a troca do presente de Harry.

— Sim, senhor. Mais alguma coisa? — "Não está esquecendo de nada?, tipo, minha demissão?", a sua voz interior completou.

— Se você conseguir terminar todas essas tarefas, responder todos e-mails e ainda anotar meus recados, esteja na minha sala às 17:40. — disse com seriedade, ao mesmo tempo que bebia seu café e Hermione engolia em seco, apreensiva pelo fim do expediente.

Enquanto entregava papéis e cartas aqui e acolá, respondia e-mails, atendia o telefone, anotava os recados e fazia o enfadonho inventário, Hermione pensava em todas as possibilidades para Snape não ter mencionado as mensagens. "Talvez o celular dele tenha sido roubado, e quem leu as mensagens foi um ladrão. Antes um criminoso desconhecido do que meu chefe", teorizou ela, "Ou quem sabe, algum bug no sistema ou no próprio app que o impediu de ler? Hm, mas ele esteve online nos últimos dias", a perspectiva de defeito caindo por terra com o "visto por último hoje às 9:56" na tela de seu celular. Ao anotar em uma prancheta que, pelo menos, oito grampeadores estavam faltando no almoxarifado, ela pensou: "Mas e se ele perdeu as conversas daquele dia? Talvez ainda haja uma esperança". Passando pela checagem de post-its e envelopes, aquela vozinha pessimista que habitava o fundo da sua mente a lembrou: "Então, por que ele quer vê-la na sala dele às 17:40, hein? Você acha que é para lhe oferecer uma promoção? Claro que não! Ele vai deixar para lhe demitir apenas no final do dia, por isso delegou a você essas tarefas monótonas e cansativas. Como um bastardo burguês que ele é, vai usufruir até o último minuto da sua mão-de-obra".

Não sabia se aquela voz pessimista de sua cabeça estava certa, mas ela com certeza alugou um triplex em seus pensamentos. Tentando manter a maior distância possível da sala de seu chefe e o evitando a todo custo nos corredores, finalizou o inventário perto do horário de almoço, após isso, ela desceu até o restaurante do térreo e Severo Snape saiu para o encontro com o empresário chinês. Ele passaria, pelo menos, um par de horas longe do escritório, o que daria a Hermione algum tempo para acalmar seus nervos. Após terminar de almoçar, ela aproveitou para ir até a loja Harrods para trocar o presente de Natal do filho do Sr. Snape e protelar sua volta à empresa, matando o tempo olhando as vitrines da Brompton Road. Quando regressou à Snape Associados Assessoria Jurídica, o Sr. Snape já estava em reunião com o Lord Lúcio Malfoy, Conde de Wiltshire, então ela se livraria de sua presença por mais algumas horas.

Passou o restante da tarde em um cubículo apertado e cheio de gaveteiros de aço, organizando, como seu chefe pedira, os arquivos com a ajuda de Neville, que falava sobre sua viagem com Ana a Paris durante o recesso de Ano Novo. Distraiu-se tanto com a tarefa e com a conversa amena que, quando olhou no relógio em seu pulso, deu-se conta que já estava dez minutos atrasada e saiu correndo para encontrar com Snape.

— Está atrasada, Granger. — disse ele assim que a estagiária passou ofegante pela porta. — Entre e feche a porta, por favor.

Hermione fechou a porta com lentidão, como se pudesse mandar um sinal subliminar para qualquer outro funcionário que passasse ali por perto para salvá-la de seu calvário. Antes de se virar para ele, tomou um tempo para alisar suas vestes enquanto disfarçadamente respirava fundo a fim de controlar sua ansiedade. "Inspire, expire e não pire", recitou mentalmente.

— Sente-se, — ele indicou a cadeira à frente e abaixou a tela do notebook — acho que temos um assunto a tratar.

Hermione se sentou no que parecia ser a cadeira mais desconfortável que seu traseiro já vira, ou talvez fosse apenas a sensação palpável. Para que suas mãos trêmulas não se torcessem inquietas em seu colo, ela as acomodou sob as coxas e cruzou os tornozelos, seus ombros caíram em uma clara – mas imperceptível a ela – linguagem corporal que transmitia insegurança. Severo Snape sempre a intimidara, para ser sincera, entretanto, nunca antes deixou-se abalar demonstrando isso a ele. Sentada naquela sala – figurativamente – fria em tons de cinza, com o estoico Mestre em direito comercial a encarando como se pudesse ver através de sua alma, ela sentiu-se diminuta; e fugiu de seus olhos penetrantes, buscando concentrar-se nos diplomas pendurados na parede atrás dele, para que não se afogasse no lago negro que era seu olhar. Seu coração batia com tamanha rapidez e força que pensou que ele podia ouvi-lo do outro lado da mesa.

— Senhor, eu… — a sua voz oscilou, trêmula, quando ela tentou falar. — Eu… Queria me desculpar. — Snape franziu as sobrancelhas, provavelmente sem entender as palavras que saíam de sua boca. — Me perdoe… Eu não… As mensagens… Foi Gina… A beber… Quando acordei… No liquidificador… Enviadas… Figurinha... Você...

— Granger, que idioma você está falando? Vou precisar contatar um intérprete. — ele a fez perceber que falara com tamanha rapidez que parecia um locutor de rodeio, por isso estava ofegante.

Tomando uma lufada de ar, ela falou calmamente, controlando sua dicção: — Senhor, me desculpe pelo ocorrido. Eu compreendo o encerramento do meu contrato de estágio.

Sentiu seu olhos sobre si, e depois de uma longa e agonizante pausa, abaixou seus olhos para os dele. — Do que você está falando, Granger? — Snape parecia tão sereno que a irritou, já que dentro dela, seu abdômen novamente se agitava como um vulcão prestes a entrar em erupção.

Foi a vez dela o fitar com o cenho franzido. — Como assim "do que eu estou falando"? Das mensagens, é claro. Por que o senhor me chamou aqui senão por esse motivo?, para tomar explicações?

Ele a mirou com uma falsa surpresa – Hermione notou – e então deu-lhe um sorriso amarelo enquanto deixava-se cair despretensiosamente no encosto da cadeira. — Ah! Aquelas mensagens, sobre me dar o seu cu, se eu quiser? — Hermione arregalou os olhos e se engasgou com a própria saliva, tendo uma crise de tosse em seguida, de tanto que se chocou ao ouvi-lo repetir suas palavras em voz alta e de forma tão… "Sublime?", sua mente completou maliciosa. — Você está bem, Granger? — perguntou ele em com fingida preocupação.

Escarlate de vergonha até a raiz dos cabelos, ela pigarreou e o respondeu: — Acho que essa é uma conversa bastante inapropriada. — disse, desviando de seus olhos.

— E aquela... Como chama? — ele pensou por dois segundos: — Figurinha... Também não era? — "Ele está debochando de mim, o bastardo, somente para assistir meu total colapso".

— É diferente. — Hermione queria que um buraco se abrisse sob seus pés para que pudesse engoli-la.

— Diferente porque não estávamos em um ambiente de trabalho? — a estagiária não o respondeu, e depois de um breve momento de silêncio, ele retomou seu tom formal: — Acho que o que você fez se configura como assédio, não? — Hermione sentiu um arrepio cruzar sua espinha com aquela acusação. — Você já deve ter visto isso no curso de direito. Porém, como sua mente deve viver fantasiando sobre seu chefe tirando sua calcinha enquanto usa um consolo com o nome dele ao invés de memorizar as leis e conceitos da profissão que deseja seguir, — ela foi se encolhendo a cada palavra dita por seu chefe — deixe-me lembrá-la do que exatamente assédio é: constranger com conotação sexual no ambiente de trabalho, com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função; o que eu acho que é o seu caso, Srta. Granger. — Snape citou a lei, segurando o queixo com dois dedos, e finalizou a observando.

Assustada pela forma como ele expôs, ela reagiu com firmeza: — Senhor, eu sei o conceito de assédio, conheço a lei, — rapidamente se pôs a desculpar-se: — e peço perdão pelo inconveniente. Não era minha intenção ofendê-lo. Na verdade, só tive ciência do envio dessas mensagens na manhã seguinte. Eu nunca as enviaria se estivesse sã e sóbria. Não sou uma assediadora. — Hermione afirmou com olhos suplicantes. — Mas, como eu disse anteriormente, entenderei a rescisão do meu contrato.

— Suas desculpas são desnecessárias. — ele disse com um aceno de dispensa, cada palavra que saía de sua boca soando ríspida e cortante. — E não vou rescindir seu contrato, Srta. Granger.

— Não? — indagou ela, um misto de alívio e apreensão invadiu seu corpo e uma expressão de dúvida perpassando em sua face. — Depois de toda a sua aula sobre assédio, não vai me dispensar? Por quê?

— Porque eu sou o chefe. — ele rugiu. — Sou eu quem faz as regras, e sou eu quem decide onde e quando as coisas acontecem.

— Certo, senhor. — Hermione respondeu lentamente, ainda confusa demais com a resolução tão simples dele e essa inesperada não-dispensa do seu cargo de estágio.

Foram seis dias de absoluto terror e ansiedade, apreensiva com a demissão que ela tinha dado como certa, temendo o momento que aquela conversa chegaria para... Nada. É claro que Hermione estava feliz em continuar com seu emprego, afinal de contas, ela tinha faturas de cartão de crédito e boletos para serem pagos, mas agora ela não fazia ideia de como agir. Aquele nem de longe era um dos vários cenários que ela imaginara para a primeira segunda-feira de 2020, então ela definitivamente não sabia o que fazer dali em diante. Teria que se acostumar à ideia de ver Snape todos os dias e lembrar que ele sabia que ela tinha um consolo com o nome de "Severo" na sua mesa de cabeceira. "Vou precisar de muita meditação e terapia depois disso", ela pensou.

— Agora, se me dá licença, preciso dar uma palavrinha sobre o caso do Sr. Malfoy com Alexia Durand, espero que ela ainda não tenha ido embora. — ele fez um movimento típico com o braço para o paletó deslizar e expor seu relógio de pulso. — E você, antes de sair, prepare a sala de reuniões para a apresentação de amanhã de manhã com os contratos e documentação de registro de marca daquela cafeteria, Aroma Café.

— Sim, senhor. — a funcionária assentiu, não querendo lembrá-lo que já passava do horário de expediente e abusar da sorte.

Snape a deixou e Hermione pôs-se a preparar a sala de reuniões com rapidez para poder sair do trabalho o quanto antes. Ela terminou sua tarefa depois de mais de meia hora, quando o escritório do 27 andar já estava vazio, exceto por Hermione, Snape e Alexia Durand, a advogada francesa de aparência esnobe por quem a estagiária não nutria nenhuma simpatia – já que ela tratava todos, com exceção do sócio-mor, com desprezo de superioridade. Coincidentemente, os três pegaram o mesmo elevador lotado para sair do prédio, já que as demais empresas dos andares superiores ainda estavam finalizando o expediente.

Tentou se esquivar, mas quando o elevador parou no andar logo abaixo e mais duas pessoas entraram, Hermione foi empurrada e ficou na frente de Severo Snape, sentindo seu inebriante perfume bem atrás – e muito perto – dela. Não sabia dizer se o elevador parecia menor ou era somente a sensação dos olhos dele colado às suas costas, estudando cada movimento de seu corpo, fazendo o ar a sua volta parecer denso com aquela tensão. Muito lentamente o elevador desceu, abrindo e fechando suas portas para os passageiros entrarem e saírem, e cada vez ela sentia Snape mais próximo a si, até que, em dado momento, o solavanco do elevador a jogou de encontro a seu peito, e ele a segurou pela cintura. Mesmo após ela recuperar o equilíbrio, a mão larga permaneceu lá, espalhando o calor por cima de seu casaco e sentindo a respiração quente na sua nuca.

Ele aproveitou a distração e movimentação dos passageiros quando as portas se abriram no 2 andar para aproximar os lábios de seu ouvido e lhe murmurar: — Eu aceitaria a proposta de comer essa sua bunda. — a voz macia e quente, alta o suficiente só para que ela ouvisse.

Hermione Granger estava tão surpreendida com aquela frase, que ecoava repetidamente povoando seus pensamentos, que nem se dera conta de que enfim chegaram ao térreo, somente tendo essa percepção quando as portas se abriram e todos começaram a deixar a caixa de aço. O elevador ficou praticamente vazio, somente com os dois ocupantes, e Hermione estava prestes a dar um passo para o átrio do prédio sem olhar para trás quando a voz de Snape novamente a atingiu:

— Quer uma carona, Granger?


Notas finais: Os lugares (restaurante Hakkasan, loja de departamento Harrods) e títulos nobiliárquicos (Conde de Wiltshire) são reais. Mas alguns outros são easter eggs que peguei emprestado de outros autores para criar o nosso próprio Snapeverso (Severso, SSFverso... ainda estamos trabalhando num nome), se você os encontrar, comente. Os créditos de propriedade intelectual deles não me pertencem.

Um agradecimento a Cherik Destler por ser minha consulta em termos e questões de direito. Foi ela quem sugestionou que Snape poderia ser um advogato.

As minhas betas, deixou um emoji de coração pulsante – e elas sabem o quanto odeio esse emoji – por quase matarem essa autora de tanto rir no desenvolvimento deste capítulo.

Anotem nas suas agendas: 31/jan vamos pegar carona com Severo e Hermione para o desfecho desta estória!

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