Crepúsculo não me pertence, Batman não me pertence. Só essa história doida.
Um mês se passou antes que eu visse o senhor Cullen de novo. Nesse um mês, fiz muitas pesquisas e coletas de dados de assuntos bastante estranhos. Nunca questionei (como se alguém fosse me responder se eu questionasse), mas ficava absurdamente curiosa. Todas as tarefas vinham acompanhadas por um pedido de Alfred para que eu não fizesse pesquisa de campo novamente. Cheguei até a receber ligações dele coincidentemente quando me afastava do meu bairro para dar uma volta. Na quinta vez que isso aconteceu, fiz uma brincadeira sobre ele estar me espionando. O homem desconversou, apenas disse que tinha um sexto sentido apurado, e que se eu realmente não estava em um lugar seguro deveria voltar para casa imediatamente.
Fiquei com raiva por ser repreendida novamente.
"Eu sei me defender, caramba!"
Fui enrolada por Alfred e tive que prometer não me aventurar mais.
Eu prometi.
Mas não cumpri.
O que fiz não foi nada demais.
Assim pensava.
Eu simplesmente estava passando na rua, voltando do trabalho, quando um ladrão correu com uma bolsa roubada na minha direção. Ao invés de sair da frente como ele ordenou, dei um soco no nariz dele, e depois o imobilizei até a chegada da polícia.
Qualquer um faria aquilo.
Achei ter visto uma figura de preto no alto de um prédio, mas era muito cedo para ele estar pela rua, não passava muito das cinco da tarde. Eu quis muito levantar o dedo do meio para ele, mas fiquei com medo de alguém ver e interpretar errado.
Longe de mim ser repreendida por caçoar do grande super-herói queridinho da cidade.
A repreensão pela aventura daquele dia não chegou de Alfred, mas de Cullen. Assim que eu cheguei em casa recebi uma ligação dele com o costumeiro sermão de não colocar minha vida em risco. A notícia do meu feito correu pelos corredores da empresa até chegar a ele. Cidade de fofoqueiros. Como eles sabiam?
Eu me derretia toda vez que falávamos pelo telefone. Definitivamente deveria haver alguém no mundo para proibir um homem com aquela voz de falar comigo. Quando estávamos no trabalho, era fácil me concentrar e ignorar. Mas estando em casa? Eu não tinha certeza do que respondi exatamente na ligação. Sabia que ouvira uma repreensão por estar no lugar errado na hora errada, e lembro de ter prometido alguma coisa. Se foi que não sonharia com aquele homem e aquela voz cochichando no ouvido em momentos íntimos, eu definitivamente quebrei mais uma promessa.
No dia seguinte foi quando ele apareceu na empresa depois de um mês. Cheguei do almoço e o encontrei apoiado em minha mesa aguardando.
"Ótimo, ele vai me demitir." Pensei.
Comecei a lembrar dos sonhos que tive com ele e senti meu rosto corar. Como pude esquecer o quão bonito esse ser humano era? Enquanto ele acompanhava meus passos até a mesa com concentração, meus batimentos disparavam.
– A senhorita está passando mal?
– Não. – Respondi com dificuldade.
– Tem certeza?
– Absoluta. – Respirei fundo. – Posso fazer alguma coisa pelo senhor?
Antes que ele tivesse tempo de responder, vi Jacob se aproximar, ver Cullen perto, e dar meia volta.
– Seu amigo tem medo de mim.
– Ele não é meu amigo.
Passei por ele e me sentei. Cullen teve que levantar da mesa para me olhar.
– Pois deveria ser. A senhorita trabalha demais. Deveria se divertir mais. – Qual é a dele vindo com isso agora? Medo de uma denúncia no Ministério do Trabalho?
– Eu me divirto o suficiente, obrigada pela preocupação.
– Acertar bandidos na rua não é diversão.
– Para algumas pessoas é.
Minha mente gritava para que eu calasse a boca. Eu precisava me defender. Eu não podia contar para ele tudo o que eu fazia com o meu computador, e não podia explicar que estar em Gothan tinha despertado em mim essa vontade de ser uma justiceira na rua. Ele com certeza me encaminharia para uma psicóloga.
Cullen apenas levantou uma sobrancelha e se virou para entrar na sala.
– Senhor Cullen, será que nós poderíamos desinstalar o interfone? Ele nem é usado. – Finalmente tive oportunidade de falar sobre esse aparelho inútil na minha mesa.
– Lembro de ter usado algum tempo atrás.
– É mesmo? – Fiz-me de inocente. – Não me recordo.
– Uma sexta-feira que a senhorita queria ficar até tarde trabalhando.
– Todas? – Tentei fazer uma piada. O homem não achou graça nenhuma. Acho que o medo do da denúncia era real.
– Deixe-o aí. – E entrou na sala.
Eu ainda estava irritada quando Jacob se aproximou novamente.
– Uow, alguém não está feliz.
– Jacob... não. – Apenas saia.
– Hora ruim?
– Péssima!
O interfone apitou.
– Senhorita Swan? – Qual é o problema desse homem?
Eu respirei fundo três vezes antes de apertar o botão para falar.
– Pois não?
– Só para lembrá-la de não desinstalar o interfone. Ele pode nos ser útil. – Soquei o botão para responder como se estivesse socando meu chefe.
– Tenho minhas dúvidas. Mas se o senhor insiste, ele fica. Posso ajudar em alguma coisa?
– Por enquanto não.
Alguns segundos se passaram.
– Senhorita Swan?
Jurei que se ouvisse 'senhorita Swan' mais uma vez hoje ia matar um!
– Pois não? – Esperava estar irritando-o na mesma medida com meus simpáticos 'pois não'.
– Poderia me trazer um daqueles cafés do Starbucks?
Quis gritar para ele tomar o café da empresa como todo mundo, que eu havia acabado de voltar do almoço e não queria ter que sair novamente. Quis desabafar que ele estava me irritando, que Jacob estava me irritando parado como se estivesse se divertindo com tudo... Mas o que respondi foi completamente diferente.
– Pois não. Vou agora mesmo buscar. – Peguei minha bolsa e saí correndo do escritório, deixando Jacob parado no lugar.
Queria ter tido coragem de colocar sal no café dele, mas entreguei uma bebida tão boa quanto em qualquer outro dia.
– Senhorita Swan, a senhorita cuspiu no meu café?
Eu quase cuspi foi na cara dele depois do comentário.
– Claro que não! – Respondi ofendida. Pensar em colocar sal era uma coisa, cuspir era nojento.
– Senhorita Swan, eu estou brincando. – Ah, que engraçado. Agora ele encontra o humor dele? – Eu sei que não.
Se ele não fosse tão bonito, e pagasse tão bem, eu já teria... Não teria feito nada. Com certeza eu somente rolaria os olhos e aguardaria que ele voltasse a falar mesmo se fosse feio, e pagasse mal.
– A senhorita está utilizando os recursos do TI em seus trabalhos? – Cullen perguntou, envolvendo os lábios no copo do café em seguida.
– Não. – Foi minha simples resposta, distraída demais pela cena na minha frente.
– Por que não? – Percebi que foi a resposta errada quando ele parou de beber e largou o copo na mesa, acabando com minha felicidade de admirá-lo.
– Porque não é necessário.
– Como não, senhorita Swan?
– Eles não têm nada a me oferecer que eu já não tenha.
Um pequeno e raro sorriso se formou nos lábios dele. Ele hoje não veio me demitir, mas o humor estranho dele estava me deixando cismada.
– Era realmente o cargo de minha assistente que almejava? – Estreitou os olhos.
Como se ele realmente me desse trabalhos de uma assistente. Ah, não, espera, eu pegava o seu café e atendia o interfone na mesa.
– Sim, senhor. Por que a pergunta? Não estou sendo eficiente em minhas tarefas?
Eu sabia que deveria acenar de boca fechada, ou responder o que ele queria ouvir, mas era demais para a minha pessoa ser instigada e ficar quieta. E se ele respondesse de forma negativa agora... Bem, pelo menos eu saberia que devia mudar minha estratégia. Seria difícil, isso seria.
– Está. – Foi a simples resposta que ouvi.
Estou o que? Sendo eficiente? Ou não estou sendo eficiente?
Esperei por mais. E esperei. E esperei.
– Ok.
– Leve esses arquivos até Laurent, se não estiver ocupada.
E voltamos ao normal.
BAT
– Ei, Bella! – Continuei a andar como se não tivesse ouvido.
Não tive sorte, Jacob correu até conseguir me alcançar. Sabia que não era justo ignorar o rapaz que nada havia feito, mas a última coisa que eu queria era alguém me repreendendo quando eu quisesse fazer minhas... investigações. E Jacob parecia animado demais para ter algum tipo de relacionamento comigo.
– Oi, Jacob!
– Saindo para um café novamente?
– Entregar documentos. – Mostrei os envelopes que segurava.
– Temos alguém para fazer isso, não temos?
– Do senhor Cullen para Laurent? Não mesmo.
– Esqueci para quem trabalha. – Jacob deu uma piscadinha para mim. – Eu não lembro de ver a assistente anterior andar tanto pela empresa como você faz. Aliás, eu não me lembro de ter conhecido qualquer assistente dele.
– Você não é o único com essa impressão.
– Mas, eu também quase não via o Cullen por aqui. Só o víamos mesmo fazendo suas aparições nas colunas sociais.
– Sério? – Dessa vez parei para ouvi-lo.
Sabia que havia algum motivo para eu não o ignorar completamente.
– Não mesmo! Laurent sempre foi mais firme no comando, enquanto o Cullen fazia... você sabe o que.
Eu não sabia desse detalhe sobre meu patrão, isso as colunas sociais nas quais ele saía não contavam. Mas era de se imaginar quando Laurent representava a empresa na maioria dos compromissos. Por que agora ele contratara uma assistente e marcava presença na empresa? O que estava acontecendo?
Eu não conseguiria minhas respostas agora, preferi seguir com a tarefa que tinha para fazer e me lembrar de me preocupar com isso mais tarde.
– Vamos mudar de assunto, Jacob. Não quero falar sobre a vida pessoal do meu chefe.
– Mas ela está em todos os jornais.
- Jacob, não.
- Tudo bem, tudo bem. Eu não posso seguir adiante mesmo. – Mostrou a placa com o aviso de acesso restrito na parede. – Você tem permissão?
Mostrei os documentos e me despedi.
Sempre me chocava com o tanto de papel que eu encontrava pela sala de Laurent quando o visitava. Cullen tinha uma mesa meticulosamente arrumada, ele ficaria louco se visse uma bagunça desse tipo nas coisas dele.
Antes que eu tivesse ideias que me deixariam mal com o senhor arrumadinho, encontrei Laurent mexendo em um bastão roxo próximo a janela e me aproximei.
- Com o que a gente não trabalha? – Eu perguntei, notando que o bastão se abria em dois e virava um nunchaku. – Estamos nos preparando para a guerra?
Coloquei os envelopes na mesa e estiquei a mão pedindo autorização para mexer no equipamento. Laurent olhou para a mão esticada por alguns segundos, se perguntando se deveria entregar uma arma na mão da louca, depois o entregou para mim. Eu me diverti fazendo vários movimentos rápidos.
- Estamos nos preparando para a guerra? – Laurent devolveu a pergunta.
- Desculpa. – Ofereci o nunchaku a ele, que recusou.
- Pode ficar. – Abri um sorriso enorme enquanto pegava de volta. – Nossa, menina, parece que eu te dei um anel de brilhantes.
- Eu não teria ficado assim com um anel. – Dei de ombros enquanto examinava o objeto. – É protótipo, ou produto final?
- Produto final.
Era impressionante o número de áreas que a Cullen dominava. Eu ficava embasbacada cada vez que ia ao mercado e encontrava o emblema da empresa. Desde minha comida, até o remédio para dor de cabeça.
- Ele é... roxo. – Laurent fez uma careta. – Não temos muitas pessoas dispostas a usar equipamentos dessa cor.
Pensei em dizer que sabia de algumas pessoas que escolheriam roxo como sua cor, mas optei por dizer apenas:
- Roxo é legal.
- Então fique com ele. Como se fosse um presente pelo seu bom desempenho na empresa.
Rolei o bastão fechado não mão pensativa.
- Quais as chances do senhor Cullen não gostar? – Pensei alto.
- Vai depender do que a senhorita vai fazer com isso.
Virei assustada com a voz dele vindo da porta atrás de mim.
- Obrigada pelo aviso. – Cochichei para Laurent.
- Aonde aprendeu a usá-los?
Arregalei os olhos, me perguntando há quanto tempo ele estava parado me observando. Laurent não podia ter me avisado? Resolvi provocá-lo.
- Nas noites de sexta-feira, quando saio para me divertir. – Pisquei para ele com o comentário.
E quis me enfiar em um buraco em seguida.
Para a minha sorte, ele não demonstrou o que estava pensando. Eu tinha certeza que não gostaria do que veria ou ouviria. E antes que ele pudesse pensar em demonstrar qualquer coisa, falei de novo. Não esperei que ele se recuperasse de uma provocação antes de jogar outra.
- Senhor Cullen, uma vez que o senhor concordou que eu sei usar o nunchaku, será que eu poderia acompanhá-lo na visita ao Presídio de Gotham na próxima semana?
- Não. – O rosto dele se fechou com a resposta.
- Nem se Laurent tiver outros brinquedinhos roxos abandonados para me dar?
Cullen se virou para Laurent ao ouvir minha pergunta.
- Você tem?
- Tenho. – O homem respondeu ao patrão, desviando os olhos por um segundo quando viu a jovem à sua esquerda quase partir o rosto com um sorriso. A jovem era eu!
- Posso ver? – Minha voz saiu mais fina do que eu esperava, tive que disfarçar com uma tosse.
- A resposta continua sendo não. – Cullen foi firme.
- Mas eu ainda posso ver? – Insisti.
- Senhorita Swan, não são brinquedos, são armas. Volte ao trabalho e deixe Laurent em paz.
Guardei o bastão nas costas, arrumei a roupa sob o olhar impressionado dos dois homens no recinto e fiz meu caminho para a saída.
- Antes da visita ao presídio eu volto. – Falei para quem quisesse ouvir. – Até lá, Laurent!
- A senhorita não vai a lugar nenhum.
Será que ela vai?
