Disclaimer: Card Captor Sakura, bem como os seus respectivos personagens, não me pertence, e sim ao CLAMP. Eu posto esta fic apenas por diversão e entretenimento, e sem nenhuma intenção de lucrar algo com isso.
Esclarecimento: Esta história também não é de minha autoria, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Kathleen E. Woodiwiss (publicado no Brasil em 1980, pela editora Record).
Aviso: Sim, esta adaptação é Rated M já no primeiro capítulo. Não sei qual vai ser a opinião de vocês sobre a cena em questão. Mas, enfim... todos foram avisados.
OBS: Esta adaptação com certeza terá OoC. Muito bem, todos foram avisados...
A CHAMA E A FLOR
Capítulo 1
23 de junho de 1799
Em qualquer parte do mundo o tempo passava voando, veloz, com as asas abertas, mas na campina inglesa seu passo era lento e pesado, quase doloroso, como se andasse nu sobre os sulcados caminhos que se estendiam além dos locais ermos. O ar era sufocante e o pó, ainda suspenso sobre o caminho, recordava a passagem de uma carruagem momentos antes. Uma pequena granja usurpava sombriamente o terreno sob a bruma que cobria o pântano. A pequena construção, com seu teto de palha, sobressaía-se por sua cobertura alta e fina. Com as venezianas abertas e a porta meio fechada, parecia ter o olhar fixo, como se estivesse horrorizada ante uma brincadeira de mau gosto. Ao lado havia um celeiro desmantelado e curvado, em um marco grosseiramente lavrado, e mais à frente, um campo de trigo que lutava em vão por sobreviver naquela região lamacenta.
No interior da casa, Sakura Kinomoto tentava cortar batatas com uma faca velha e sem fio. Estava cansada. Fazia já dois anos que vivia naquele lugar, dois desafortunados anos que tinham entristecido sua vida. Dificilmente conseguia lembrar momentos felizes, anteriores ao fatídico dia em que a tinham levado até ali, aqueles doces dias em que tinha deixado de ser uma menina e se convertera em uma moça. Então, Fujitaka, seu pai, ainda estava vivo e ambos compartilhavam aquela confortável casa londrina, tinham roupa elegante e comida suficiente para comer. Certamente, aquilo era o melhor. Ainda agora, as noites em que seu pai a deixava a sós com os empregados pareciam não assustá-la. Agora podia entender seu sofrimento, a solidão causada, já fazia tempo, pela morte de sua esposa, uma adorável e bela moça irlandesa por quem se apaixonara, com a qual se casara, e a que tinha perdido ao dar à luz a sua única filha. Agora Sakura podia compreender inclusive a necessidade que seu pai tinha de jogar, esse cruel hábito que lhe tinha roubado a vida, o lar e a segurança, deixando-a à mercê de seus únicos familiares, tios vulgares (simples) e antipáticos.
Sakura secou o rosto e pensou em sua tia Natsumi, que repousava na outra habitação; o colchão de palha estaria esmagado sob seu mais que generoso físico. Natsumi não era uma pessoa fácil. Tudo parecia lhe dar desgosto. Não tinha amigos. Ninguém a visitava. Estava convencida de que a irlandesa com quem seu cunhado se casou era de uma classe inferior por culpa de sua gente, uma raça que, segundo ela, sempre estava em guerra contra a coroa, uma vez que lutar fazia parte de sua natureza, e Sakura tornou-se o alvo desse ódio malicioso. Não passava um só dia sem que lhe jogasse na face que era meio estrangeira. E esse preconceito implicava um sentimento ainda mais profundo, que deformava seu raciocínio até convencê-la de que, como a mãe, a filha era meio bruxa.
Provavelmente se tratava de ciúmes. Natsumi Kinomoto nunca tinha sido bonita nem nada que se parecesse com isso, enquanto que a moça, Nadeshiko, possuía encanto e uma beleza deliciosa. Quando entrava em um lugar, todos os homens se voltavam para olhá-la. Sakura tinha herdado a beleza de sua mãe, e com ela, as críticas de sua tia.
As casas de jogo tinham exigido o pagamento das dívidas que Fujitaka Kinomoto tinha contraído e levaram todos os bens materiais que possuía, à exceção de uns poucos objetos pessoais e um pouco de roupa. Natsumi deslocara-se rapidamente a Londres para declarar o legítimo direito de seu marido, ficando com sua sobrinha órfã e a exígua herança desta antes que alguém tivesse tempo de protestar. Queixou-se de que Fujitaka não tinha compartilhado em outros tempos sua riqueza e de que não lhes tinha deixado nada. Tinha vendido todos os objetos menos um, um vestido de noite de cor-de-rosa, que tinha proibido Sakura de usar, e tinha embolsado avidamente o dinheiro.
Sakura endireitou suas doloridas costas e suspirou.
- Sakura Kinomoto ! - gritou sua tia do outro aposento, e a cama rangeu quando se levantou - Inseto molenga, pare já de sonhar acordada e se ponha a trabalhar. Acha que alguém vai fazer suas tarefas enquanto fica por aí como uma alma penada ? Não sei em que colégio de senhoritas esteve. Por acaso não a ensinaram a fazer algo útil em vez de ler e encher a cabeça de idéias pretensiosas ? - a corpulenta mulher cruzou silenciosamente o chão de terra e entrou no aposento. Sakura se preparou mentalmente; sabia o que lhe vinha em cima - Olhe como foi bom viver com a única família que ficou. Seu pai era um imbecil, sim, era, jogando o dinheiro dessa maneira sem se preocupar com ninguém senão consigo mesmo ! E tudo por culpa da irlandesa louca com quem se casou ! - Natsumi cuspia com nojo as palavras - Tentamos preveni-lo para que não se casasse com Nadeshiko, mas ele não nos ouviu.
Sakura deixou de olhar o raio de Sol que entrava pela porta aberta e olhou a sua volumosa tia. Tinha ouvido a mesma história tantas vezes que sabia de cor; apesar disso, as lembranças de sua infância ao lado de seu pai acompanhavam-na o tempo todo.
- Era um bom pai - limitou-se a responder.
- Isso é uma questão de opinião, mocinha - replicou a mulher com uma careta de desprezo - Olhe em que situação a deixou: no mês que vem fará dezoito anos e não tem dote. Nenhum homem quererá casar-se contigo sem dote. Aliás, pode ser que a queiram... mas só para esquentar sua cama. Pus muito empenho em fazer de ti uma pessoa decente. Não quero que comece a encher a casa de bastardos. As pessoas daqui estão esperando isso. Sabem a classe de lixo que era sua mãe.
Ela estremeceu, mas sua tia continuou destrambelhada olhando-a com os olhos entreabertos e ameaçando-a com o dedo.
- O diabo assegurou-se de que fosse igual a ela. Uma bruxa, isso é o que era. É lógico que se pareça a isso. Assim como a sua mãe arruinou a vida de seu pai, você fará o mesmo com qualquer homem que olhe para ti. É a vontade do Senhor que a trouxe até mim. Ele sabia que eu poderia te salvar do fogo e do enxofre aos quais estava predestinada, e cumpri com meu dever ao vender esse vistoso vestido de noite que tinha. Esses velhos vestidos meus ficam muito bem.
Sakura esteve a ponto de voltar a rir, e o teria feito se a realidade não tivesse sido tão triste. A roupa de sua tia, que pesava duas vezes mais do que ela, assentava-lhe pior que um saco. Isso era tudo que lhe permitia vestir, velhos farrapos que ridicularizavam sua figura. Natsumi inclusive a tinha proibido de consertá-los para que lhe assentassem melhor; a única coisa que podia fazer era cortar a bainha para que não tropeçasse ao andar.
A mulher surpreendeu Sakura contemplando os trapos que levava vestidos e lhe dirigiu um olhar depreciativo.
- Pequena mendiga ingrata. Só me diga onde estaria hoje se seu tio e eu não a tivéssemos acolhido. Se seu pai tivesse tido bom senso, teria deixado um bom dote. Mas não, ficou com tudo para ele, pensando que era muito jovem para te casar. Pois agora já é muito velha. Morrerá sendo uma solteirona... e uma virgem. Disso me encarregarei eu.
Natsumi voltou uma vez mais ao único dormitório da casa, mas não sem antes advertir Sakura para que snão demorasse a acabar as tarefas do lar, senão teria de açoitá-la. Já conhecia o aguilhão daquela vara. Era normal que depois de um castigo as costas ficassem cobertas de vergões vermelhos durante dias. Parecia produzir em Natsumi um prazer especial deixar aquelas marcas na pele.
Sakura não se atreveu a soltar outro suspiro de esgotamento por temor de chamar de novo a atenção de sua tia, mas estava exausta. Tinha levantado desde antes do amanhecer, preparando um banquete para a chegada do tão ansiosamente esperado irmão de Natsumi, e duvidava de sua capacidade para resistir muito mais. Dias atrás tinha chegado uma carta informando a Natsumi de que seu irmão chegava nessa noite, e tinha ordenado a Sakura que iniciasse os preparativos imediatamente. Ela mesma se tinha dignado a ajudar para dispor as taças da forma correta.
Sakura sabia que sua tia sentia um verdadeiro carinho por aquele homem. Tinha ouvido histórias maravilhosas a respeito dele, e intuía que o irmão de Natsumi era o único ser, humano ou de outra classe, pelo qual ela se preocupava. O tio Haruhiko tinha confirmado a Sakura suas suspeitas ao contar que não havia nada que Natsumi não estivesse disposta a fazer por esse homem. Era dez anos mais velha que seu único irmão, por isso o tinha criado desde que era somente um bebê. Mas porque tinha decidido visitá-la, era algo muito estranho.
O Sol parecia uma bola enorme, vermelha e incandescente que descia pelo oeste iluminando a terra. Natsumi chegou para dar uma olhada nos preparativos e ordenou a Sakura que dispusesse mais velas para acender mais tarde.
- Cinco verões se passaram desde a última vez que vi meu irmão - disse - , e quero que tudo esteja perfeito para quando vier. Meu Daisuke está acostumado ao melhor de Londres, e não deve achar nada faltando enquanto permanecer aqui. Não gosta de seu tio e tampouco gostava de seu pai. Meu irmão tem muito dinheiro porque sabe usar a cabeça - fez um gesto com sua enorme cabeça e logo completou: - Nunca o verá em uma casa de jogo atirando pela amurada sua riqueza ou sentando mão sobre mão como seu tio. É um homem que se arrisca, sim senhor. Não há melhor loja de moda em Londres que a sua. Inclusive tem um homem que trabalha para ele, sim senhor.
Finalmente deu a Sakura a bendita ordem para ir assear.
- Ponha o vestido que te deu seu pai. Estará muito bem com ele. Quero que a visita de meu irmão seja um feliz acontecimento e seu aspecto com esses trapos que veste pode desiludi-lo.
Sakura virou-se, surpresa, com os olhos arregalados. Seu vestido cor-de-rosa tinha permanecido escondido durante dois anos, ninguém o havia tocado ou levado. Estava encantada, embora fosse unicamente para agradar ao irmão de sua tia. Parecia ter passado uma eternidade desde que tinha vestido algo bonito, e agora sorria esperando o momento de vesti-lo.
- Sim, vejo que está contente - acrescentou sua tia - Sempre pensando como fica encantadora com esses vestidos tão finos - apontou para Sakura e acrescentou: - Satã voltou a andar por aqui. Tome cuidado, o Senhor sabe quão importante é para mim.
Ela suspirou profundamente, como se estivesse cansada da carga que sua tia lhe tinha imposto.
- Seria melhor que estivesse casada e fora de meu alcance - prosseguiu Natsumi - , mas me compadeço do homem que deseje contrair matrimônio contigo, embora... sem dote não tenha nenhuma possibilidade. Precisa de um homem forte que a mantenha nas rédeas e que cada ano te dê um filho para que esteja ocupada. Precisa disso para afugentar o diabo que leva na alma.
Sakura encolheu os ombros e continuou sorrindo. Lamentava não ter coragem suficiente para assustar a tia, fazendo-a acreditar que realmente era uma bruxa. Isso teria implicações atéias e certamente a tentação era enorme para alguém atrevido, mas a idéia se desvaneceu rapidamente de sua mente. As conseqüências seriam muito graves.
- Outra coisa, mocinha - acrescentou Natsumi - , recolha o cabelo em um coque. Ficará bem - sorriu astutamente. Sabia o quanto desgostava a sobrinha que dissessem como tinha que pentear-se.
Sakura deixou de sorrir e se voltou balbuciando uma resposta afirmativa. Sua tia esperava que desaprovasse suavemente suas ordens. Levava muito a sério manter a disciplina com métodos severos.
Sakura cruzou a sala e se dirigiu a seu canto, correndo as cortinas que a separavam do resto do lugar. Ouviu sua tia sair da casa e só então se atreveu a mostrar um gesto de contrariedade. Estava zangada, mas estava mais zangada consigo mesma que com sua tia. Ela sempre tinha sido uma covarde, e continuaria sendo se as coisas não mudassem.
O deprimente cubículo tinha o mínimo indispensável, mas ao menos servia como refúgio de sua tia. Suspirou e se agachou para acender a pequena vela que estava sobre uma mesa suja, junto à cama feita de cordas. "Se pelo menos eu fosse mais valente e mais forte", pensou,"teria me atrevido a lhe dar as costas. Se pelo menos fosse capaz de lhe responder da mesma forma embora só fosse por uma vez". Dobrou seu magro braço e sorriu sarcasticamente. "Eu teria que ser Sansão para enfrentá-la !", disse a si mesma.
Um pouco antes, tinha levado um balde com água quente e uma bacia à sua improvisada habitação e desfrutava pensando no banho que tomaria. Com expressão de desagrado, quase arrancou o odioso vestido que usava. De pé, nua, relaxou e acariciou seu delicado corpo, estremecendo de dor ao roçar alguns dos ferimentos. No dia anterior, tia Narsumi ficou muito furiosa quando Sakura tinha deixado cair acidentalmente ao chão uma taça de café, e antes que pudesse fugir, sua tia pegou a vassoura e a golpeou brutalmente no traseiro.
Ela tirou com supremo cuidado o vestido cor-de-rosa do pacote em que se encontrava e o pendurou em um lugar onde pudesse admirá-lo enquanto se banhava. Esfregou vigorosamente a pele até que esta avermelhou, ressaltando seu brilho juvenil. Esfregou um pano contra uma parte de sabão perfumado que tinha roubado e se ensaboou abundantemente, regozijando-se com a fragrância.
Uma vez asseada, colocou o vestido sobre uma desgastada camiseta. O sutiã tinha sido desenhado para alguém mais jovem do que ela. A malha a apertava na altura do busto, mal cobrindo-a, pois o decote era muito baixo; repensou sobre sua idade e ponderou sobre semelhante atrevimento, logo desprezou o problema encolhendo os ombros. Era seu único vestido e já não havia tempo para contemplar outra alternativa.
Escovou o cabelo com esmero até fazê-lo reluzir sob a luz da vela. Ele tinha sido o orgulho de seu pai, recordou com carinho. Freqüentemente, ao olhá-la, assumia um estado de sonho como se, supunha, estivesse imaginando que se tratava de sua mãe. Mais de uma vez a tinha contemplado longamente e com profunda nostalgia tinha balbuciado o nome de sua esposa antes de despertar e voltar-se com os olhos arrasados de lágrimas.
Tal como tinham ordenado, recolheu o cabelo em um coque, não sem antes deixar uns poucos cachos soltos caindo pelas costas com fingido desleixo e outros dois, provocadores, sobre as têmporas.
Observou-se em um pedaço de vidro quebrado que fazia as vezes de espelho e assentiu com a cabeça. Tinha ficado muito melhor do que esperava, tendo em conta os rudimentares objetos de que dispunha.
Sakura ouviu que alguém entrava na casa; uma tosse seca irrompeu na habitação. Não precisava espiar para saber que se tratava de seu tio. Estava acendendo seu cachimbo com uma brasa da chaminé, e ouviu-o voltar a tossir. Redemoinhos de fumaça encheram a habitação.
Haruhiko Kinomoto se sentia destroçado. Sua vida estava vazia. Nada lhe importava realmente, à exceção da ávida vigilância do dinheiro e a duvidosa companhia de tia Natsumi. Tinha deixado de preocupar-se com seu aspecto. Sua camisa estava coberta de manchas de graxa e tinha as unhas sujas. Tinha perdido o porte de que gozava em sua juventude e agora, ante Sakura, mostrava-se como um homem curvado, estragado e bem entrado nos cinqüenta anos. Seus olhos sem brilho revelavam sonhos quebrados, esperanças minadas e dias cheios de frustração sob as limitações de sua esposa. Suas mãos eram nodosas e retorcidas, fruto dos anos de árduo trabalho tentando tirar rendimento de uma terra pantanosa, e sua pele, curtida pelas inclemências do clima, tinha gravado o passo das estações em profundas linhas que sulcavam seu rosto.
Levantou o olhar e, ao ver a doce beleza de sua sobrinha, uma nova expressão de dor pareceu apoderar-se de suas feições. Sentou-se em sua cadeira preferida e sorriu.
- Está encantadora esta noite, filha. Imagino que é pela visita de seu tio Daisuke...
- Tia Natsumi me deu permissão, tio - explicou Sakura.
Tio Haruhiko deu uma tragada no cachimbo ao mesmo tempo que mordia com força a boquilha.
- Sim, acredito - suspirou - Fará de tudo para agradá-lo, apesar de ser um homem muito frio. Uma vez foi vê-lo em Londres e ele se negou a recebê-la. Agora não se atreve a ir por medo de que se ele zangue, e ele está satisfeito com isso. Tem amigos ricos e nunca lhe ocorreria admitir que ela fosse uma parente sua.
Em um retrato ligeiramente impreciso que tinha sua irmã, Daisuke Sanada era quase tão alto quanto Natsumi, e esta, por sua vez, era uma cabeça mais alta que Sakura. Certamente não era tão obeso quanto ela, mas Sakura supunha que essa diferença diminuiria em poucos anos. Seu rosto era gordinho e corado, com pesadas bochechas, e possuía um protuberante lábio inferior constantemente úmido de saliva. Freqüentemente dava tapinhas sobre o mesmo com um lenço, emitindo ruídos nasais para fazer ver que limpava o nariz. Quando lhe deu a mão para saudá-la, esta estava desagradavelmente flácida, e ao inclinar-se para beijar-lhe, Sakura sentiu náuseas.
Embora a roupa que vestia denotasse bom gosto, sua afetação fazia muito pouco por realçar seu semblante masculino. O traje era de cor cinza pálida, adornado de abundante prata, e a camisa e o colarinho brancos pareciam acentuar suas mãos rosadas e seu rosto avermelhado. Daisuke Sanada podia ser rico, mas, para Sakura, parecia muito pouco atraente. As calças eram muito justas; dava a impressão que inclusive o incomodavam, e suspeitava que fossem confeccionados dessa maneira para mostrar deliberadamente, a quem quer que o olhasse, sua, por outro lado questionável, virilidade.
Chegara em um coche alugado conduzido por um chofer perfeitamente uniformizado que foi enviado para dormir no celeiro, junto aos cavalos. Ela percebeu que o condutor se ofendeu ao ter sido enviado a tão humilde alojamento, pois estava melhor vestido que qualquer dos habitantes da casa. No celeiro só cabiam os animais. Mas apesar disso não protestou, e partiu em silêncio para ocupar-se dos cavalos e da carruagem.
Tia Natsumi, com seu cabelo cinza recolhido por trás de sua enorme cabeça, parecia uma fortaleza imponente coberta por seu vestido engomado e seu avental. Agora já não dizia que os vestidos elegantes eram obra do demônio, e sim se mostrava encantada em ver seu irmão vestido feito um almofadinha, e revoava ao seu redor como uma galinha em torno de seus pintinhos.
Sakura jamais tinha visto a tia mostrar-se tão carinhosa com alguém, e, é obvio, seu irmão Daisuke recebia isso encantado, desfrutando dos cuidados que esta lhe prodigalizava. Sakura não deu atenção aos louvores desmesurados de sua tia e não prestou excessiva atenção à conversa até que durante o jantar, esta foi direcionando-se para as notícias procedentes de Londres. Foi então que começou a escutar atentamente esperando ouvir notícias de seus velhos amigos.
- Napoleão conseguiu escapar e agora todo mundo acredita que se encontra a caminho da França depois de sua derrota no Egito - explicou Daisuke - Nelson lhe deu uma boa lição. Agora pensará duas vezes antes de meter-se de novo com nossos marinheiros ! - exclamou.
Sakura se deu conta de que seu discurso era muito mais instruído que o de sua irmã e se perguntou se ele teria freqüentado a escola.
Tia Natsumi limpou a boca com a mão e grunhiu:
- Pitt não sabia do que falava quando disse que deixássemos os franceses em paz. Agora seu maldito pescoço depende deles e desses irlandeses. Eu digo que os matem a todos !
Sakura mordeu o lábio inferior.
- Irlandeses ! Ora ! São uma manada de animais, isso é o que são ! Nunca sabem o que querem ! - continuou tia Natsumi.
- Pitt está tentando formar um sindicato com eles. Pode ser que no ano que vem já esteja em funcionamento - adicionou tio Daisuke.
- No melhor dos casos também partem o maldito pescoço ! - apontou Natsumi.
Sakura olhou para seu tio com incerteza, inquieta como sempre ante os preconceitos de sua tia. Daisuke baixou a vista e tomou um gole de sua cerveja. Suspirou despejando a jarra que Natsumi guardava zelosamente, deixou a sua e voltou em silencio ao cachimbo.
- E os ianques são iguais ! São capazes de te cortar o pescoço antes de o olhar. Teremos que lutar contra eles outra vez, lembrem-se do que lhes digo ! - voltou a exclamar Natsumi.
Daisuke riu entre dentes.
- Pois se for assim - disse - , não acredito que você goste muito de vir a Londres, querida irmã. Atracam no porto como se fossem os donos do lugar. Alguns entram no caís, mas são precavidos. Quando se aventuram a entrar na cidade, sempre o fazem em grupo. Não gostam da idéia de navegar em navios britânicos. Sim, são gente cuidadosa e alguns têm o atrevimento de acreditar-se cavalheiros. Olhem esse tipo, Washington, por exemplo. E agora têm esse outro idiota, Adams, a quem escolheram como seu rei. É revoltante ! Mas não durará muito. Voltarão gemendo como cães, que é o que são !
Sakura não conhecia nenhum ianque. Simplesmente agradecia à sua tia e ao senhor Sanada que discutissem sobre eles, ao invés de fazê-lo sobre os irlandeses.
Desviou sua atenção da conversa, pois se não falavam da sociedade londrina ou de seus antepassados, não tinha interesse para ela. Sabia que se declarasse sua lealdade ou se interessasse pelas notícias sociais de Londres, sua tia se enfureceria com ela. Deixou divagar seus pensamentos e permaneceu sentada à mesa durante o que lhe pareceu uma eternidade.
Tia Natsumi a tirou de seus pensamentos com um cruel beliscão no braço. Sakura deu um pulo esfregando o incipiente ferimento e olhou a sua tia contendo o pranto.
- Perguntei-te se desejaria dar aulas na escola privada para senhoritas de lady Mashiba. Meu irmão acredita que poderia te encontrar um emprego ali - disse tia Natsumi.
Sakura não podia acreditar no que estava ouvindo.
- Como ? - perguntou.
Daisuke Sanada riu e se explicou:
- Tenho muitos bons contatos na escola e sei que estão procurando uma jovem instruída - explicou - , e você possui excelentes maneiras e boa dicção. Acredito que seria perfeita para o posto, e, pelo que entendi, freqüentou um colégio em Londres, o que nos é de muita ajuda - deu-se uns tapinhas em seus enormes lábios antes de prosseguir: - Provavelmente no futuro eu possa te arrumar um casamento com uma família distinta da cidade. Seria uma lástima esbanjar seu delicioso refinamento com um granjeiro ordinário daqui. É óbvio, o acerto de um contrato assim significaria o fornecimento por minha parte de um dote substancial, o qual seria devolvido quando já estivesse casada. Trata-se de um ligeiro estratagema, mas seria proveitoso para ambos. Você precisa de um dote que eu posso te proporcionar, e em troca pode me favorecer nos interesses do empréstimo, que me devolverá mais tarde. Ninguém tem que conhecer este acerto, e sei que é o suficientemente hábil para obter o dinheiro uma vez desposada. Seria suficiente para ti o posto que te ofereço com lady Mashiba ?
Sakura não estava segura do plano nupcial que lhe propunha Daisuke Sanada, mas poderia escapar daquela granja, de tia Natsumi e de sua aborrecida existência ! Poderia estar de novo perto da sociedade de Londres ! Seria maravilhoso ! Se não fosse pela ardência do braço, teria acreditado que estava sonhando.
- Fale, criatura. Qual é sua resposta ? - apressou-a Daisuke.
Quase incapaz de conter sua alegria, não hesitou por mais tempo e respondeu:
- A oferta é muito generosa, senhor, e eu aceito com gosto.
Daisuke voltou a rir e exclamou:
- Bem ! Bem ! Não te arrependerás da decisão - esfregou as mãos - Amanhã mesmo devemos partir para Londres. Estive afastado de meus negócios por muito tempo e devo retornar para falar com meu assistente. Acho que poderá ter tudo preparado, filha ? - passou um lenço por debaixo do nariz e deu uns tapinhas em seus proeminentes lábios.
- Oh, sim, senhor. Estarei preparada tão logo deseje partir - respondeu a jovem alegremente.
- Bem, bem. Então tudo está decidido - concluiu o senhor Sanada.
Sakura recolheu a mesa, e desta vez o fez com um sentimento diferente ao saber que esses pratos seriam os últimos que esfregaria naquela casa.
Sentia-se muito feliz para falar com sua tia, e ao ficar a sós depois da cortina, pensou em todos os prazeres de que desfrutaria estando longe dela.
Qualquer posto em Londres seria melhor que viver sob o domínio e o abuso daquela mulher. Já não teria que agüentar mais seus insultos, sua raiva, e talvez pudesse encontrar uma pessoa que se preocupasse com ela.
Os preparativos para a viagem seriam breves, pois a única coisa que tinha era o que tinha vestido naquela noite, e o que usaria no dia seguinte. Deslizou nua em sua cama e se cobriu com a áspera manta, morta de frio. Uma vez estirada se regozijou ao pensar que nunca mais teria que lutar com ele. Em menos de doze meses entraria no novo século, e se perguntava o que lhe proporcionaria, agora que tinha uma nova oportunidade de viver e ser feliz.
No dia seguinte empreenderam a viagem a Londres na carruagem de Daisuke Sanada, e Sakura entreteve-se muito com o passeio. Em junho, a paisagem no caminho era verde e exuberante. Não tinha visto essa vegetação quando, dois anos antes, tinha viajado para a casa de seu tio, mas agora que ia para o sul, a caminho de Londres, pensou em sua beleza inigualável.
O senhor Sanada era um anfitrião amável e muito atento. Pelo menos com ele podia-se conversar sobre os acontecimentos mais recentes da sociedade londrina e desfrutar das histórias amenas que contava sobre a corte real. Uma vez, surpreendeu-o observando-a com uma intensidade que não soube decifrar, mas rapidamente desviou o olhar. Por um instante duvidou de que devia viajar a Londres a sós com ele, já que não era seu tutor legal, e sim, só um parente longínquo. Logo o desassossego desapareceu e disse a si mesma que no final estava estudando uma maneira de arrumar-lhe um contrato futuro de matrimônio.
Já era de noite quando chegaram aos subúrbios de Londres. Sakura estava dolorida e cansada pelas constantes sacudidas da carruagem toda vez que encontrava um buraco no caminho. Sentiu-se verdadeiramente aliviada quando por fim entraram na loja.
No interior do estabelecimento havia sedas, musselinas, linhos, veludos e cetins de todas as cores e texturas amontoados em cima das mesas e sobre as estantes; definitivamente, tudo o que uma mulher podia desejar para confeccionar um vestido elegante. Ela estava assombrada diante de uma seleção tão grande. Tocou um tecido, entusiasmada, logo depois examinou outro com atenção, sem se dar conta de que na parte traseira da loja havia um homem sentado em frente de uma escrivaninha.
Daisuke Sanada soltou uma gargalhada ao vê-la brincar de correr pela loja.
- Terá tempo para examinar tudo mais tarde, querida - assegurou-lhe - mas agora deve conhecer meu assistente, o senhor Yamato Shimizu.
Sakura voltou-se para um homem miúdo, com um aspecto muito estranho. Imediatamente decidiu que era a pessoa mais feia que tinha visto em sua vida. De sua cara redonda emergiam olhos frágeis, e o nariz era uma coisa pequena e esmagada com as fossas nasais como sino.
Sacudia constantemente a língua sobre os lábios grossos e coberto de cicatrizes, e Sakura não pôde evitar pensar nos lagartos que tinha visto na granja. Seu corpo grotesco e encurvado estava envolto em uma suntuosa seda escarlate que, assim como a sua camisa, estava coberta de manchas de comida. Seu sorriso era uma careta grotesca. Ela pensou que seria melhor que não tentasse fazê-lo. De fato, não entendia por que Daisuke o tinha na loja. Estava convencida de que ao invés de atrair os clientes, devia assustá-los, e se atraía alguém, essa pessoa tinha que ter problemas mentais.
Como que respondendo à sua pergunta, Daisuke Sanada disse:
- As pessoas estão acostumadas com Yamato. O negócio vai muito bem porque todo mundo sabe que fazemos bem nosso trabalho. Não é mesmo, Yamato ?
Yamato respondeu com um grunhido evasivo.
- Agora, querida - continuou Daisuke - , quero te mostrar meus aposentos no andar de cima. Estou convencido de que serão do seu agrado.
Conduziu-a para a parte de trás da loja, através de uma porta de espessos cortinados que dava para um aposento pequeno onde uma exígua janela proporcionava a única luz da sala. Em um dos lados, uma escada conduziu-os até um corredor estreito com uma única porta de madeira maciça, muito ornamentada em comparação com o deprimente vestíbulo.
Daisuke sorriu abrindo a porta para Sakura, que, ao ver o que se escondia por trás dela, conteve a respiração, muito surpresa. O apartamento estava luxuosamente mobiliado com peças do século XVII. Um sofá de veludo vermelho combinava com duas cadeiras da mesma cor, sobre um esplêndido tapete persa. Das brilhantes e coloridas paredes pendiam pinturas a óleo e ricas tapeçarias, um lustre emitia prismas de luz sobre os cortinados de veludo vermelho e seus cós de borlas douradas. Junto a frágeis estatuetas de porcelana se encontravam, sobre as mesas, candelabros de estanho, e na parte traseira do aposento estava preparada a mesa para o jantar. Cada artigo tinha sido cuidadosamente escolhido e obviamente não tinha se dado importância a gastos.
Daisuke abriu a outra porta que havia na sala, e se afastou para deixar que Sakura entrasse. Em seu interior encontrou uma grande cama com dossel coberta com um veludo azulado. Junto a ela havia uma cômoda pequena, e sobre esta, um enorme candelabro e uma bandeja cheia de frutas frescas e uma faca com a bainha de prata.
- Oh, senhor, é muito elegante - ela observou em voz baixa.
Daisuke aspirou um pouco de rapé e sorriu ao ver que a jovem se olhava no espelho que havia junto da cama.
- Fiz tudo eu mesmo com alguns luxos, querida - falou.
Se Sakura se voltasse nesse instante preciso, teria descoberto o que tão zelosamente Daisuke tinha oculto na carruagem. Seus olhos percorriam a deliciosa figura com o desejo de possuí-la. Mas quando ela se voltou para olhá-lo, ele se virou para ocultar a lascívia.
- Deve estar morta de fome, Sakura - disse-lhe Daisuke amavelmente enquanto se dirigia a um armário e abria as portas de par em par. Uma grande variedade de vestidos de noite estava pendurada no interior. Rebuscou entre eles até encontrar um de cor bege, com diminutas contas cintilantes e forrado com um material de cor vermelha muito apertado. Era um vestido muito caro e belo - Vista isto para jantar, querida - sorriu - Foi confeccionado para uma jovem de sua estatura, mas ela nunca veio buscá-lo. Muitas vezes me perguntei a razão, pois é um dos vestidos mais belos que desenhei, mas suponho que no final se deu conta de que era muito caro para ela - olhou-a com o canto do olho - Ela perde, você ganha. Dou-lhe de presente. Se usá-lo esta noite, me fará muito feliz - dirigiu-se à porta e ao chegar a ela se voltou - Enviei Yamato para dizer à cozinheira que nos prepare o jantar. Chegará logo, assim peço que não me prive de sua doce companhia por muito tempo. Se precisar de qualquer outro objeto, o armário está à sua disposição.
Sakura esboçou um sorriso hesitante, apertando o elegante vestido contra seu corpo, ainda sem acreditar que lhe pertencia. Quando Daisuke fechou a porta, ela se voltou para contemplar sua imagem no espelho, ainda com o vestido na mão.
Em todos os anos que tinha vivido com sua tia, jamais tinha se contemplado em um espelho. Quando muito se viu refletida num pedaço de vidro ou nas poças de água que se formavam ocasionalmente. Tinha esquecido, quase completamente, de sua aparência. Assemelhava-se ao retrato que guardava de sua mãe; de fato, era sua imagem viva. Sempre acreditara que as loiras formosas e esbeltas que freqüentavam a corte e também as que vira em sua infância, constituíam a essência da beleza, e não as baixinhas e de cabelos castanhos como ela.
Sakura limpou a sujeira que tinha acumulado em seu corpo durante todo o dia, e encontrou uma combinação limpa no armário. Era de uma cambraia suave completamente transparente. Ruborizou-se ao pensar na exibição indecente de seu corpo, e ao colocá-la se sentiu indigna. O sutiã mal cobria os seios. Estava acostumada aos ingênuos trajes de menina para sentir-se à vontade dentro daquela combinação, mas também não suportava a idéia de usar a camiseta velha e desfiada sob o maravilhoso vestido.
Riu para si mesma, divertida. "Quem me vai ver ?", pensou. "Só eu poderei contemplar esta criação tão atrevida, ninguém mais".
Pensando em como era absurda a situação, dispôs-se, muito contente, a arrumar o cabelo. Prendeu-o, alisou-o e finalmente sujeitou-o em lustrosas tranças, formando um moderno penteado. Ao invés de um simples coque, preferiu soltar o cabelo em cachos suaves que caíam em forma de cascata nas suas costas. Fazendo uso de suas habilidades artísticas, pegou a faca e começou a cortar mechas finas de cabelo à altura das orelhas, até criar um cacho em cada um deles. Com um sorriso de satisfação, pensou nos gritos de raiva e nos insultos que sua tia proferiria se pudesse vê-la.
Ainda pensava em Natsumi quando acariciou distraidamente a folha da faca com o dedo para comprovar se estava afiada. De repente uma gota de sangue manchou o utensílio. Levou o dedo à boca com uma careta de dor, deixou a faca e disse para si mesma que se no futuro desejasse cortar ou descascar uma fruta, tomaria mais cuidado.
O vestido bege a impressionou da mesma forma que a combinação que usava por baixo. Com ele já não parecia uma menina, mas sim uma mulher feita e adulta. E seu décimo oitavo aniversário, para o qual só faltava um mês, comprovava a impressão.
Mas, além do vestido, havia algo mais que a fazia estranhamente diferente. Assim como a combinação, o vestido apenas cobria o busto e o forro era tão apertado que dava a impressão de que estava nua. Seu aspecto era arrebatador, sedutor, era o de uma mulher versada em matéria de homens e não o de uma donzela imaculada e inocente que ainda era.
Ao sair do quarto, Daisuke estava esperando-a. Ele também se arrumara. Tinha substituído o traje da viagem por um traje mais distinto e elegante e encaracolado umas curtas mechas de sua escassa cabeleira em torno do rosto roliço, dando-lhe um aspecto ainda mais gordo.
- Minha querida e doce Sakura, sua beleza faz com que deseje meus anos de juventude - tratou-a com atenção - Eu tinha ouvido histórias de damas belas como você, mas nunca tinha visto uma com meus próprios olhos.
Sakura respondeu educadamente e logo desviou sua atenção para a comida. Deleitou-se com os aromas tentadores que flutuavam no ar. A mesa estava estranhamente decorada com cristal, porcelana e prata, e no aparador adjacente tinham disposto um verdadeiro festim; ave de caça assada, arroz da Índia, camarões-rosa com manteiga, massas doces e frutas confeitadas. Uma licoreira cheia de um vinho bem leve ocupava convenientemente a cabeceira da mesa.
Daisuke desfrutou de outros prazeres. Dedicou-se a contemplar com calma as suaves linhas do delicioso corpo de Sakura, sem ocultar seu desejo. Seus olhos pararam por alguns segundos no decote, onde as curvas voluptuosas de seus seios se sobressaíam do vestido. Enquanto estudava aquelas formas sinuosas, passou impaciente a língua por seus grossos lábios, antecipando o sabor suculento e tenro da carne.
Indicou-lhe uma cadeira perto da cabeceira da mesa para que tomasse assento e sorriu.
- Sente-se aqui, querida dama, e me permita que comece a servir.
Sakura agradeceu e o observou enquanto servia os pratos.
- A cozinheira é realmente tímida - comentou-o, enchendo seu prato com uma generosa porção de arroz - Serve a comida e nada mais, logo parte sem que quase me dê tempo pra vê-la. Volta a retirar tudo com a mesma eficácia silenciosa e dificilmente me inteiro de que esteve aqui. E como muito em breve poderá comprovar, é uma excelente chef de cuisine.
Começaram a jantar e ela ficou realmente surpresa com a quantidade de comida que o homem era capaz de engolir. Inclusive se perguntou se, após terminar, ele seria capaz de mover-se. Suas mandíbulas protuberantes trabalhavam incessantemente para mastigar a comida. Devorou a deliciosa perdiz e a sobremesa, lambendo-os dedos gordurosos e estalando os lábios repetidas vezes. Arrotou inclusive fortemente em várias ocasiões, sobressaltando a moça.
- Quando começar a trabalhar com lady Mashiba - assegurou-lhe Daisuke - , terá oportunidade de conhecer alguns dos homens mais ricos de Londres, e com sua beleza se converterá rapidamente em uma das mulheres mais desejadas do lugar - riu, esquadrinhando-a com seus olhos frágeis por cima da taça.
- Você é muito generoso, senhor - repôs cortesmente Sakura, certa de que o vinho o tinha atordoado um pouco. Sabia que eram bem poucos os homens que visitavam as escolas de senhoritas e os que o faziam, estavam muito acima da idade de casar ou tinham negócios ali.
- Sim - admitiu-o com um sorriso malicioso - , mas espero ser bem recompensado por meus esforços.
Voltou a olhá-la com luxúria, mas, uma vez mais, ela não percebeu, absorta na taça de vinho que tremia na mão de Daisuke. Ao dar um gole, acabou derramando umas gotas sobre seu colete, e outras escorregaram por seu queixo.
- Comprovará que o estabelecimento de lady Mashiba é um lugar muito diferente daqueles em que já estiveste - comentou arrastando as palavras - Sua proprietária e eu somos sócios, e ambos nos encarregamos de que por sua porta só entrem as donzelas mais distintas. Devemos ser muito exigentes, já que é freqüentado pela classe mais rica. Mas contigo acredito que acertamos.
Sakura decidiu que o pobre homem estava muito bêbado para saber do que falava. Conteve um bocejo, sentindo também os efeitos do vinho, e desejou retirar-se aos seus aposentos.
Daisuke se pôs a rir e apontou:
- Receio que a esgotei com meu bate-papo, querida. Eu esperava que não estivesse muito cansada da viagem para poder manter uma conversação longa e amistosa, mas vejo que nossa conversa deve continuar amanhã.
Sakura tentou protestar, mas Daisuke ergueu sua mão.
- Não fale mais - ordenou - Deve ir dormir. De fato, eu também estou começando a sentir sono. Muito me agradará saber que estará deitada sobre suaves almofadas aveludadas.
Sakura foi como pôde para o dormitório, notando como o calor do vinho relaxava cada nervo de seu corpo. Ouviu Daisuke rindo entre dentes ao fechar a porta. Apoiou-se nela e riu também com a sensação de que tudo estava mudando em sua vida. Dançou em frente do espelho, sentiu-se um pouco enjoada, e fez uma reverência diante dele para logo perguntar:
- Diga-me, lady Mashiba, gosta de meus trajes ? Pois se estes são de seu agrado, espere até ver os de minha tia - começou a girar sobre si mesma rindo às gargalhadas e abriu as portas do armário de par em par para inspecionar a grande variedade de vestidos que havia nele. Decidiu que Daisuke não se importaria que se deleitasse com eles. Afina,l sempre tinha gostado de roupas elegantes e tinha sido um verdadeiro suplício ter que usar os vestidos velhos de sua tia. Selecionou alguns para admirar com maior vagar, agarrou-os e provou-os em frente do espelho, sonhando por um instante que semelhante roupa era dela.
A porta se abriu sem que percebesse. Uma vez aberta, a moça se virou sobressaltada e viu Daisuke com um roupão. As dúvidas cresceram. Subitamente compreendeu por que estava ali, embora num primeiro momento tivesse acreditado que se tratava de tia Natsumi e sua inflexível forma de pensar a respeito dos vestidos elegantes. Ficou olhando, atônita e consciente de que lhe tinham estendido uma armadilha. Tinha caído nela como um cordeiro no matadouro. Os olhos de Daisuke brilhavam ardentes em seu semblante corado e um sorriso repugnante torceu seus grossos lábios. O homem se voltou e fechou a porta com a chave.
Permaneceu vários segundos com a chave na mão em atitude desafiante, até que por fim a deixou cair no bolso. Seus olhos percorreram o corpo de Sakura, desfrutando do terror que marcava seu rosto.
- O que é que pretende ? - inquiriu a jovem com um fio de voz.
Daisuke a olhou com lascívia.
- Vim cobrar o que me deve por tê-la afastado daquela vida deprimente no campo - respondeu - É muito difícil resistir aos seus encantos. E veio tão confiante que não tive grande trabalho para afastá-la de minha pobre irmã. Quando tiver cansado de você, permitirei que se reúna ao grupo de lady Mashiba. Ali não se aborrecerá. E quando chegar o momento, possivelmente permitirei que se case com uma pessoa rica que goste de seus encantos - aproximou-se um pouco mais dela - Não terá com o que se preocupar, pequena. Seu marido se decepcionará um pouquinho quando a levar para a cama, mas não se queixará muito. Vais ser minha, querida - afirmou com ar de posse - , assim é melhor não resistir. Sou um homem muito forte, e me deleito com a violência se tiver de havê-la, embora prefira fazer as coisas sem ela.
Sakura sacudiu a cabeça.
- Não - conseguiu falar, levada pelo medo - Não ! Nunca serei sua ! Nunca !
Daisuke soltou uma gargalhada aterradora, enquanto a moça olhava ao redor procurando uma rota de fuga. Estava ruborizado pela quantidade de vinho que tinha ingerido e o fogo lhe corria pelas veias. Com um olhar penetrante despiu Sakura, que, para tentar detê-lo cobriu o busto com uma mão. Procurou escapar, mas Daisuke, rápido apesar de sua obesidade, alcançou-a e apertou-a contra a mesa. Os lábios, úmidos e pegajosos pelo vinho, percorreram seu pescoço provocando arrepios. Lutou contra ele, sem êxito, pois era muito mais forte do que ela. Os lábios começaram a subir para o rosto. Sakura, muito tensa, tentou separá-lo com um pontapé, mas a pressão de Daisuke sobre ela aumentou, esmagando-lhe as pernas contra a mesa. Quase não podia respirar e pensou que suas costelas se fraturariam se a força desse homem continuasse oprimindo-a. Presa pelo pânico, recordou do candelabro que havia sobre a mesa e o agarrou para defender-se. Quase o tinha alcançado quando caiu ao chão. Sua mão roçou a faca e tratou de agarrá-la com desespero.
Daisuke estava tão obcecado beijando-lhe o pescoço e os seios que não prestou atenção ao que ela fazia até que, de repente, sentiu uma pontada muito aguda na altura das costelas. Virou-se e descobriu a faca. Insultou-a, agarrou-lhe o braço e torceu-lhe os pulsos cruelmente. Sua raiva se transformou em ira ao pensar em como aquela menina se atrevia a enfrentá-lo.
Sakura lutou com todas suas forças, mas o imponente físico de Daisuke a empurrou para trás até quase partir as costas. Ela ficou paralisada ao perceber que Daisuke estava a ponto de lhe arrebatar a arma. Finalmente o conseguiu. A jovem deixou de lutar, e temendo o pior, desabou aos pés de seu agressor, que por sua vez cambaleou e caiu de bruços sobre o chão encerado.
Ela endireitou-se e, antes de fugir, pareceu ver um leve movimento no corpo do ferido. O pequeno punho da faca sobressaía por cima de uma crescente mancha vermelha.
- Tire... a... - balbuciou Daisuke.
Ela se agachou para agarrar a faca, mas de repente estremeceu e se afastou, apavorada, tampando a boca.
- Por favor - suplicou o homem com voz rouca - Ajude-me.
A jovem, horrorizada, levou uma mão à boca e olhou para o quarto com desespero. Daisuke voltou a gemer, com mais força. A confusão perturbou-a profundamente. "E se estivesse morrendo...?", pensou.
- Sakura, me ajude - a voz foi se apagando e o queixo tremeu numa tentativa para respirar.
Sakura sentiu que uma força interior lhe devolvia a integridade e a calma se restabeleceu. Inclinou-se e, tomando fôlego, agarrou a adaga com determinação. Apoiou a outra mão contra o peito do homem e tirou-a. A lâmina resistiu por um instante até que lentamente cedeu. O sangue começou a brotar e Daisuke caiu de costas, inconsciente. Sakura pegou uma toalha da mesa, desabotoou a camisa e a pressionou contra a ferida. Pôs a mão sobre seu peito, mas não detectou movimento algum. Tentou encontrar algum sinal de vida; primeiro comprovou se respirava através de suas fossas nasais, depois colocou um ouvido ao peito e descobriu que o coração não pulsava. Só podia ouvir seu próprio coração. O pânico voltou a apoderar-se dela, já não tinha forças para lutar contra ele.
- Senhor, o que fiz ? - lamentou a moça - Tenho que procurar ajuda - pensou, consternada. Mas quem ia acreditar em uma estranha ? Newgate estava repleta de mulheres que afirmavam ter sido assaltadas. Não acreditariam que tinha sido um acidente. Imaginou um juiz severo com uma peruca longa olhando para baixo com desprezo. De repente viu o rosto de tia Natsumi, que ditava a sentença: "...E, ao amanhecer do dia seguinte, será levada ao Newgate Square e ali..."
Sua mente se paralisou, mas o eco da voz estridente continuou avivando as chamas do terror que lhe consumia a alma. Não percebeu que estava ajoelhada. Permaneceu assim durante um longo momento, com a cabeça encurvada, sem pensar em nada. De repente uma idéia a assaltou: devia fugir dali.
Simples assim. Devia escapar. Não precisava estar ali quando encontrassem o corpo de Daisuke. Devia fugir.
Ainda prisioneira do pânico, obrigou-se a procurar as chaves no bolso de seu assaltante. Tremia, mas tinha que fazê-lo. O medo lhe deu forças.
Envolveu toda sua roupa em um xale e se precipitou para a porta apertando o embrulho contra o corpo. Deteve-se antes de abri-la, lembrando-se da cena.
Uma vez mais o terror se apoderou dela. Abriu a porta de repente e pôs-se a correr tão rápido quanto permitiram suas pernas. Atravessou o salão, o corredor, desceu pelas escadas para a porta que dava à loja. Ao afastar as cortinas seu medo aumentou. Havia alguém atrás dela. Acelerou o passo, aterrorizada. Perseguiam-na. Continuou fugindo, sem atrever-se a olhar para trás. Seu coração pulsava fortemente.
Precipitou-se rua abaixo sem saber para onde ir. Talvez se perdendo conseguisse despistar a pessoa que a perseguia. Mas por que não podia ouvir seu perseguidor ? Eram tão fortes as batidas do seu coração que não permitiam ouvir nada mais ?
Correu pelas ruas de Londres passando diante de lojas, de mansões faustosas que surgiam ameaçadoras na noite e casas mais humildes. Não reparou nas pessoas que paravam para olhá-la.
Após um instante se apoiou contra um muro de pedra, esgotada. Ardiam-lhe os pulmões. Percebeu o penetrante aroma de sal e a fetidez do porto. Uma densa neblina cobria a rua pavimentada e a escuridão a envolveu até quase asfixiá-la. Uma tocha ardia numa esquina longínqua. Sakura procurou sua luz, perdendo-se de novo na imensidão da noite que a rodeava. Não sabia para onde ir. Não havia nenhum sinal que lhe indicasse o caminho.
Podia ouvir as ondas bater contra o molhe, o ranger compassado dos mastros e algumas vozes amortecidas que provinham de toda parte e de nenhuma. Era impossível distinguir algo.
-Ali está. Por Júpiter ! É essa ! Vamos, Yamazaki. Vamos até ela - exclamou um homem.
Sakura se sobressaltou, virou-se e viu que dois marinheiros se aproximavam dela. Sabiam quem era e tinham vindo buscá-la. Tratava-se dos mesmos que a estavam seguindo. Por alguma razão, tinha pensado que se tratasse do senhor Shimizu. Suas pernas estavam imóveis. Não podia fugir. Só podia esperar a que a capturassem.
- Olá, senhorita - disse o marinheiro mais velho sorrindo a seu companheiro - Seguramente é do tipo que o capitão gosta, não é, Yamazaki ?
O outro marinheiro passou a língua pelos lábios e baixou o olhar para os seios da moça.
- Sim. Esta servirá perfeitamente - respondeu.
Sakura estremeceu diante do escrutínio daqueles homens, e soube de repente que daquele momento em diante nunca mais seria livre. A única coisa que podia fazer era enfrentar seu destino com valentia.
- Onde estão me levando ? - conseguiu perguntar. Yamazaki soltou uma gargalhada e bateu nas costelas de seu companheiro.
- Bastante receptiva, não ? Vai encantá-lo. Oxalá eu fosse ele para poder gozar de uma mulher assim.
- Um pouco mais adiante, senhorita - respondeu o velho - A bordo do Fleetwood. Vamos.
Sakura seguiu o homem. O marinheiro mais jovem se pôs atrás dela para impedir-lhe a fuga. A moça se perguntou por que a levavam a um navio. Não importava. Sua vida já não valia nada.
Subiu docilmente pela passarela, atrás do homem mais velho. Conduziu-a através do convés até uma porta, abriu-a, levou-a ao longo de uma escada até outra porta. Chamou.
Ao entrar no camarote do capitão, um homem se levantou de sua escrivaninha. Se não estivesse tão confusa mentalmente teria reparado em sua compleição corpulenta e seus penetrantes olhos cor de âmbar. Vestia calças marrom claras muito justas em seus quadris estreitos, e a camisa branca com botões, aberta até a cintura, revelava um peito largo e musculoso com um arbusto de pêlo negro e encaracolado. Parecia um pirata, ou mesmo o demônio, com os cabelos castanhos ondulados e longas costeletas que acentuavam as feições magras e atraentes de seu rosto. Seu nariz era fino e reto exceto por uma ligeira curva em seu perfil, justamente debaixo da testa. Seu cabelo era castanho e brilhante e sua pele bronzeada. Ao sorrir para Sakura, seus dentes brancos resplandeceram. Aproximou-se dela e a examinou de cima a baixo com atrevimento.
- Sim, fez um bom trabalho esta noite, Kuriyama. Deve ter procurado muito para encontrá-la - felicitou o capitão.
- Nada disso, capitão - respondeu o velho - Nós a encontramos caminhando pelo porto. Veio voluntariamente, capitão.
O homem assentiu e rodeou lentamente à moça estupefata, observando seus atributos visíveis. Uma sensação de frio percorreu o corpo de Sakura, que pressionou o pequeno embrulho contra o peito. Sentia-se nua com aquele vestido tão fino; quem dera estivesse usando um saco negro que a cobrisse por completo. O homem deteve-se à sua frente, sorridente, mas Sakura baixou o olhar, em atitude submissa, esperando algum sinal que lhe indicasse qual ia ser seu destino. Atrás dela os dois homens riam satisfeitos com seu trabalho.
O homem emproado se separou dela e se reuniu com os marinheiros. Yamazaki lhe disse algo em voz baixa. Os olhos de Sakura se moviam incessantemente pelo camarote sem conseguir ver nada. Parecia calma, mas a tensão emocional que fervia em seu íntimo acabou por minar sua fortaleza. Estava exausta, esgotada, confusa. Não entendia o que fazia um juiz em um navio, mas como sabia muito pouco de procedimentos jurídicos, acreditou que iam enviá-la para realizar trabalhos forçados em uma colônia, pois era culpada de assassinato.
"Oh, Senhor", pensou, "Saí de um chiqueiro, tentada por uma vida cheia de comodidades e por meu pecado caí na prisão. Matei um homem e me capturaram. Agora devo aceitar o que o destino me proporcionar". Sua mente se paralisou com estes últimos fatos. Era culpada. Tinha sido detida. A justiça se encarregaria dela e não podia alegar nada em sua defesa. Não ouviu a porta fechar-se atrás de si quando os marinheiros partiram, mas as palavras do homem que estava de pé à sua frente a tiraram de seus pensamentos. Ria suavemente lhe dedicando uma reverência.
- Bem-vinda de novo, milady, e repito: como se chama ? - inquiriu.
- Sakura - respondeu em voz baixa - Sakura Kinomoto, senhor.
- Ah - suspirou ele. - Uma pequena e tentadora flor dos pântanos. É um nome muito belo e apropriado, milady. Meu nome é Shaoran Li. A maioria dos meus amigos me chama de Shaoran. Já jantou ? - perguntou.
Ela assentiu levemente com a cabeça.
- Então talvez goste de um pouco de vinho, um Madeira excelente, por exemplo - propôs o capitão levantando uma das muitas licoreiras que havia sobre a mesa.
Sakura sacudiu lentamente a cabeça.
Ele se pôs a rir e se aproximou dela. Arrebatou-lhe o embrulho dos braços e o deixou cair sobre uma cadeira. Contemplou, assanhado, a beleza daquela jovem e seu vestido deslumbrante apertado ao corpo. A pele de marfim resplandecia sob a luz da vela e diante das douradas chamas, descobriu uma mulher pequena, de talhe gracioso, seios grandes e redondos, ainda mais generosos e tentadores sob o vestido.
Aproximou-se dela e com um rápido movimento deslizou o braço ao redor de sua cintura fina, quase erguendo-a do chão. Beijou-a e, ao fazê-lo, Sakura notou um forte aroma de conhaque que a fez lembrar de seu pai. Sua surpresa foi tamanha que não opôs resistência e se abandonou relaxada em seus braços. De repente pôde se ver fora de seu corpo e sentiu divertida como a língua do atraente marinheiro separava seus lábios, empurrando-os com força para penetrar o interior da boca. Meio consciente, notou que a invadia uma vaga sensação de prazer que começava a crescer e, se as circunstâncias tivessem sido diferentes, certamente teria desfrutado dela. Ainda sorridente, o homem se afastou com um novo fogo ardendo em seus olhos. O vestido da moça caiu ao chão. Atônita, olhou-o fixamente durante alguns instantes e rapidamente se agachou para recolhê-lo, mas as mãos de Shaoran a agarraram pelos ombros e a endireitaram, envolvendo-a de novo entre seus braços. Desta vez lutou, pois tinha compreendido quais eram suas intenções, mas estava em desvantagem e nada podia fazer, pois se sentia muito fraca. Se a força de Daisuke Sanada tinha sido de ferro, a deste homem era de aço temperado. Não podia livrar-se dele. Lutou em vão para afastá-lo, e suas mãos desabotoaram a camisa fazendo com que seu peito ficasse nu, separado do dela unicamente pela fina combinação. Sakura ficava sem fôlego cada vez que o marinheiro a beijava com paixão nos lábios, no rosto, nos seios. Sentiu que as mãos a despojavam bruscamente da roupa íntima. Com os seios nus apoiados contra o torso dele e terrivelmente assustada, empurrou-o conseguindo, por um instante, libertar-se. O capitão Shaoran Li soltou uma gargalhada gutural e, sorrindo maliciosamente, aproveitou a pausa para desfazer-se das botas, da camisa e das calças.
- Boa jogada, milady, mas não duvide de quem vai ser o vencedor - preveniu-a. Ardia em desejo ao observar os encantos desenfreados da moça, muito mais belos do que jamais tinha imaginado.
Sakura permaneceu imóvel e horrorizada diante de visão, pela primeira vez, de um homem nu. Tentou fugir, mas ele voltou a apanhá-la suave, mas firmemente. Ela mordeu-lhe os punhos, empurrou-o e, ao tentar escapar, tropeçou e caiu sobre o beliche. No mesmo instante, ele se colocou sobre ela, tentando imobilizá-la. Cada movimento da jovem aumentava seu desejo de possuí-la.
- Não ! - ela exclamou - Me deixe ! Solte-me !
Shaoran riu entre dentes e murmurou, em seu pescoço:
- Oh, não, minha selvagem mocinha. Oh, não, agora não.
Por um instante Sakura percebeu que ele se afastava e se acomodava sobre seu corpo. De repente sofreu uma forte pressão entre as coxas. Apavorada, tentou escapar sem conseguir. Gemeu, depois gritou e finalmente sentiu uma intensa dor que se estendeu por todo o seu corpo. Shaoran se separou dela, perplexo, e olhou para baixo. Sakura jazia indefesa sobre os travesseiros, movendo sua cabeça de um lado para o outro. Acariciou-lhe o rosto com ternura e lhe sussurrou algo inaudível, mas ela manteve os olhos fechados, sem escutá-lo. O capitão começou a mover-se ritmicamente sobre seu corpo enquanto lhe beijava o cabelo, a testa e acariciava-a. Ela permanecia imóvel. De repente a paixão que durante todo o tempo tinha sido controlada se desatou e Shaoran a penetrou sem poder conter-se por mais tempo. Com cada nova investida a jovem acreditou partir-se pela metade e em pouco tempo seus olhos se encheram de lágrimas.
A tormenta tinha chegado a seu fim. Shaoran fez um movimento longo e silencioso e relaxou sobre ela com doçura. Quando finalmente se retirou, Sakura se voltou para a parede e permaneceu estirada soluçando com a extremidade dos lençóis sobre sua cabeça e seu corpo nu, agora usado, à vista dele.
Shaoran Li, desconcertado, olhou as manchas de sangue nos lençóis de seu beliche. Contemplou o corpo da moça e logo afastou o olhar. Não podia deixar de admirar os quadris bem arredondados e as coxas graciosas que um momento antes havia possuído. Estava a ponto de acariciar-lhe as costas com ternura quando sua mente parou confusa ao pensar no curso dos acontecimentos: a calma inicial da jovem, a reservada aceitação da situação ao entrar no camarote, sua ligeira e brincalhona resistência, a ajuda esporádica e inexperiente que lhe tinha proporcionado na cama e, agora, esse pranto interminável e o sangue nos lençóis. Será que era tão pobre que fora obrigada a desempenhar esse ofício ? Suas roupas e maneiras não o confirmavam, mas suas mãos, embora finas e brancas, não eram suaves como as de uma dama de boa família. Sacudiu a cabeça, encolheu os ombros e serviu-se de uma taça de conhaque.
Depois de tomar um gole generoso, permaneceu pensativo olhando através da vigia pela qual havia visto grande parte do mundo. Era um estrangeiro na terra que tinha sido o lar de seus pais. Estes a tinham abandonado pouco antes do casamento quando seu pai, um aristocrata amante da aventura, tinha posto seus olhos na América. Fazia dez anos que haviam falecido; a mãe de malária e o pai ao cair de um cavalo selvagem, que tanto amava, e quebrar o pescoço. Deixaram dois filhos e uma considerável fortuna. O mais velho, que era ele, herdara a plantação, e o caçula, Eriol, uma parte do dinheiro e um próspero armazém em Charleston, cidade que amava e considerava seu lar. Com um pai obstinado e uma mãe serena, eixo central da família, tinha desfrutado de uma vida rigorosamente repleta de aventuras. Na escola sempre tinha sido o primeiro, mesmo sendo um menino, e diante da insistência de seu pai, engajou-se como grumete às ordens de um velho capitão. Tinha aprendido sobre a natureza do mar, o funcionamento dos navios e do mundo. Mas nem tudo tinha sido sulcar os mares. Antes de embarcar tinha aprendido os trabalhos próprios de uma plantação, do cultivo da terra até à venda de seus produtos, e tinha praticado aquele árduo trabalho durante toda sua infância. Seu principal interesse agora, aos trinta e cinco anos, era estabelecer-se naquela terra e desfrutar das tarefas cotidianas.
Antes de deixar Charleston, tinha prometido que essa seria sua última viagem. Com a França, tão instável politicamente, não era rentável continuar. Assim levaria a sério as responsabilidades da plantação e a tarefa de formar uma família. Assim estaria satisfeito, ou pelo menos acreditava nisso.
Sorriu, pensativo. Era estranho como o carinho por uma terra podia induzir um homem a fazer coisas que detestava. Ia se casar com Meiling Ford, a quem não amava nem considerava uma dama, só porque desejava que lhe devolvesse as terras que uma vez tinham pertencido à família Li. O rei George III tinha concedido a seu pai um terreno para que estabelecesse sua plantação. Mas este se viu obrigado a vender uma parte à família Ford para poder fazê-lo. Tinha rompido todas as relações com a Inglaterra anos depois da guerra, e devido a seu serviço como oficial na luta contra a coroa, tinham-lhe permitido manter suas propriedades. Fazia vários anos que Meiling tinha ficado órfã e, depois disso, tinha descuidado das terras e contraído dívidas importantes. Tinha dilapidado a herança de seu pai e precisou vender tudo à exceção de alguns escravos que a ajudavam a manter seu alto nível de vida, agora pura fachada. Fazia tempo que os comerciantes de Charleston lhe tinham negado crédito, assim estava bastante contente consigo mesma por ter caçado um dos solteiros mais ricos e desejados da cidade. Sabia que o tinha obtido graças a suas posses, pois ele tinha tentado comprá-las várias vezes por uma soma importante de dinheiro que sabia que ela necessitava, sem conseguir convencê-la. Meiling tinha empregado seus atrativos de mulher até suas últimas conseqüências; fez-se passar por uma jovem casta e pura para atraí-lo até seu leito, mas sem conseguir enganá-lo. Ele e seu irmão tinham crescido ouvindo todo tipo de falatórios a respeito dela. Mas sua experiência na cama tinha sido satisfatória e ele não estava aborrecido de todo.
Franziu o cenho. Era verdadeiramente estranho que vindo de uma família tão ciumenta e possessiva, e parecendo-se tanto com seu pai, que possuía ambas as qualidades, não sentisse ciúmes dos homens que tinham compartilhado o leito com sua prometida. Era realmente tão frio e incapaz de amar ou de ser possessivo com a mulher que ia ser sua esposa ? Não o tranqüilizava saber que ela era a mais importante entre todas as mulheres que tinha conhecido. Mas não se tratava de amor. Se pelo menos tivesse ficado com ciúmes ao vê-la olhar para outro homem, teria esperanças em chegar a amá-la. Entretanto, conhecia-a desde que tinha nascido, fazia já trinta e dois anos, e duvidava que seus sentimentos mudassem após o casamento.
Eriol o tinha chamado de louco ao ficar sabendo de seu compromisso. Era provável que estivesse louco, sim, mas tinha sua própria maneira de ver as coisas. Sua determinação e caráter obstinado eram como os de seu pai. Assim, quando seus pais já haviam falecido deixando-lhe uma próspera plantação e uma fortuna que o respaldava, não tinha se contentado em cultivar a terra. Tinha pedido a Eriol que tomasse conta dela e comprou um navio com o qual tinha sulcado os oceanos em busca de mais riqueza para ele e seu irmão.
Olhou o beliche, aproximou-se de Sakura e permaneceu ao seu lado por um instante. O pranto tinha dado passagem ao sono por esgotamento. Inclinou-se para cobrir seu belo corpo com ternura.
A última coisa que esperava era que uma mulher virgem tivesse entrado pela porta de seu camarote. Ele costumava evitá-las; sabia que sempre traziam problemas. Por isso, durante toda a vida ele se dedicou às bem instruídas criaturas de vida alegre e despreocupada, freqüentando bordéis caros e não tão caros. Aquela noite, a primeira em terra depois de uma longa viagem sulcando o oceano, tinha dado permissão a seus homens para que fossem se divertir e ficou a bordo com Yamazaki, seu criado, e com Kuriyama. O desejo despertou e tinha ordenado ao primeiro que saísse em busca de uma mulher limpa e divertida, com a qual passaria a noite. Não, não tinha esperado uma virgem, e muito menos uma tão bela. Era muito estranho tê-la encontrado ali. As jovens inocentes como aquela só pensavam em casar-se, em tentar apanhar um homem com suas paqueras e encantos. De que outra forma teria podido permanecer solteiro se não tivesse conhecido tais ardis e os tivesse evitado ? Mas agora que seu celibato estava prestes a acabar, que estava prestes a desposar uma mulher bem conhecida por outros homens, agora que havia possuído para seu gozo aquela rosa jovem e fresca, as razões ainda eram um mistério.
Sacudiu a cabeça lentamente, despojou-se de seu roupão, apagou as velas e se estirou junto dela. Antes de dormir deleitou-se com seu perfume suave e com o calor de seu corpo.
Os primeiros raios do amanhecer rasgavam o céu pelo leste quando Sakura acordou e percebeu onde se encontrava. Tentou mover-se, mas não conseguiu fazê-lo porque tinha o cabelo preso debaixo de um braço de Shaoran. O outro braço dele descansava sobre seus seios; as pernas estavam entrelaçadas. Tentou libertar-se dele com supremo cuidado, mas só o que conseguiu foi despertá-lo. Virou-se assustada, antes do marinheiro abrir os olhos, e fingiu que dormia.
Shaoran a olhou e estudou-lhe o rosto em silêncio, desfrutando de sua delicada beleza. Contemplou a pele branca e perfeita, as longas e negras pestanas, mas as frágeis pálpebras lhe impediram de gozar dos limpos e profundos olhos cor de esmeralda. Recordava-os muito bem. Ligeiramente rasgados e perfilados por sobrancelhas finas. A boca de delicadas curvas era rosada e apetitosa e suave. O nariz era reto e fino. Meiling morreria de inveja se a visse, o que era realmente improvável.
Sorriu ante o pensamento. Sua prometida era bastante orgulhosa de sua aparência e não acreditava que gostaria de ficar em segundo lugar atrás desta graciosa ninfa. Apesar de haver uma grande quantidade de mulheres belas em Charleston, muita gente tinha proclamado Meiling como a mais formosa da cidade. Ele não tinha pensado nisso, mas supunha que era verdade. Os cabelos negros e os ardentes olhos vermelhos de Meiling atraíam os olhares com facilidade e seu corpo bem contornado era agradável de possuir. Entretanto, estava convencido de que essa mocinha que estava junto a ele, com sua beleza doce e delicada, seria a vencedora.
Aproximou-se dela para lhe beijar a orelha e mordiscar seu lóbulo. No mesmo instante, e antes que pudesse pensar, Sakura abriu os olhos.
- Bom dia, amor - sussurrou Shaoran, colocando-se sobre ela para depositar um beijo em seus lábios.
Sakura permaneceu completamente imóvel, pois temia que qualquer movimento pudesse estimular a paixão daquele homem, mas ele não precisava de nenhum estímulo. O fogo da paixão ardia em seu corpo cada vez com maior intensidade. Shaoran beijou-lhe a boca, os olhos, o pescoço.
Logo mordiscou-lhe os ombros, fazendo com que um calafrio percorresse as costas de Sakura. Quando pressionou seu rosto barbudo contra os seios rosados da jovem para lambê-los, ela o olhou horrorizada.
- Não ! - ofegou - Não faça isso !
O homem levantou o olhar fogoso e sorriu.
- Será melhor que se acostume a minhas carícias, ma petite - aconselhou-a.
Sakura afastou a vista daqueles olhos de expressão zombeteira e lutou para virar-se, suplicando:
- Não. Por favor, não. Outra vez não. Não me volte a fazer mal. Deixe que eu me vá.
- Desta vez não vou fazer lhe mal, querida - sussurrou ele no seu ouvido, dando-lhe suaves beijos.
O corpo do capitão a sujeitava com força. Ela começou a opor resistência. Tratou de manter os joelhos unidos e de arranhá-lo, mas sempre havia uma mão ou um cotovelo para frear sua iniciativa. Shaoran soltou uma gargalhada, como se aquilo o divertisse.
- Parece que nesta manhã você tem muito mais energia, milady - zombou.
Com uma mão, agarrou os braços da moça e os colocou por cima da cabeça com relativa facilidade, enquanto com a outra lhe acariciava os seios. Sakura se retorcia e lutava contra a força poderosa de Shaoran, mas ele obrigou-a a separar as pernas com seu joelho e a fez sentir de novo sua virilidade.
Desta vez não houve lágrimas, mas sim ódio e medo. Logo que ele terminou, a jovem se afastou e permaneceu encolhida na borda do beliche. Seus olhos muito abertos estavam cheios de dor e refletiam o medo de um animal ferido. Shaoran a observou confuso e se sentou a seu lado. Acariciou-a para consolá-la, mas ela se afastou, dando-lhe a entender que o temia. Ele enrugou a testa e deslizou os dedos por seu cabelo, penteando-o e despenteando-o com suavidade.
- Você despertou minha curiosidade, Sakura - murmurou docemente - Poderia ter ganho uma fortuna pelo que acabou de perder comigo há algumas horas e entretanto, perambulava pelas ruas como uma prostituta vulgar. Sei que veio aqui voluntariamente, sem tentar sequer estabelecer um preço, sem avisar que ainda permanecia intacta, que era virgem. O vestido que usa é caro, vale muito mais do que algumas mulheres da rua ganham em um ano, e é, asseguro-lhe isso, completamente diferente, tanto que não posso imaginar por que razão vendeu dessa forma a sua virgindade, arriscando-se a ser violada e a perdê-la sem obter nada em troca.
Sakura ficou olhando, muda, incapaz de entender o que acabava de ouvir.
- Parece de boa família - continuou ele - E não o tipo de mulher que vagabundeia pelas ruas exercendo esta profissão. Sua beleza é incomum, muito poucas mulheres a possuem, veste roupa cara, e mesmo assim - acrescentou agarrando uma mão - , suas mãos levam a marca do trabalho - com um dedo percorreu brandamente a palma de sua mão e a beijou. Ainda olhando-a, prosseguiu com ternura: - Quando chegou ontem à noite estava calma, mas houve um instante em que se defendeu de mim com todas as suas forças, sem deixar que eu fosse atento consigo.
Enquanto ele falava, a mente de Sakura voou para longe daquele lugar. Então ele não era um representante da lei ?, perguntou-se. Deus meu, que preço tinha tido que pagar por seu medo ? Teria sido melhor permanecer ali e enfrentar os homens do governo ao invés de ficar aqui desflorada e envergonhada, ou mesmo seria melhor ter ficado onde estava em vez de ter ido à cidade.
- Mas não deve temer nada, Sakura - continuou Shaoran - Me encarregarei de que não lhe falte nada e viva com comodidade. Cheguei ontem da Carolina do Sul e ficarei em terra por bastante tempo. Você ficará comigo enquanto estiver aqui. Irei providenciar para que te estabeleças em sua própria casa antes que eu...
De repente, uma risada histérica interrompeu suas palavras. Sakura, impressionada pela situação, ria até não mais poder. Gradualmente a risada se foi convertendo em pranto e as lágrimas começaram a sulcar seu rosto. Deixou cair cabeça e o cabelo ocultou seus seios. Continuou soluçando, desesperada diante de sua desgraça, com os braços cruzados sobre o regaço. Finalmente jogou a cabeça para trás e olhou para Shaoran com olhos avermelhados.
- Eu não estava vendendo meu corpo nas ruas - explicou-lhe. - Só estava perdida e não conseguia encontrar o caminho.
Ele ficou olhando-a, atônito, durante um longo momento.
- Mas veio com meus homens - replicou. Sakura sacudiu a cabeça com desespero. Não sabia nada, pensou. Não sabia nada dela. Era um simples marinheiro de outro país. Afogou-se em seu próprio pranto, jurando que esse homem jamais conheceria seu pecado.
- Pensei que os tinham enviado para me buscar. Separei-me de meu primo e me perdi. Achei que seus homens vinham da parte dele - apoiou sua cabeça contra a parede. As lágrimas escorregavam por suas faces e caíam sobre seu busto nu, que tremia como resposta ao pranto silencioso.
Shaoran observou seus seios redondos e pálidos enquanto ponderava as conseqüências de seus atos. Talvez a jovem estivesse aparentada com algum alto cargo. Quase podia sentir o frio fio da tocha sobre seu pescoço. Levantou-se da cama e se sentou de costas para Sakura.
- Quem são seus pais? - interrogou-a - Uma dama tão bela e cuidada como você deve ter muitos amigos na corte ou proceder de uma família influente.
Ela começou a dar golpes na cabeça contra a parede e respondeu, cansada:
- Meus pais morreram faz muitos anos e nunca estive na corte.
Shaoran se aproximou do vestido de Sakura, que estava no chão, recolheu-o e se voltou para ela, sustentando-o no alto.
- Você deve ter dinheiro - assinalou - Este objeto é muito caro.
Ela o olhou e pôs-se a rir.
- Não tenho nem um penny - assegurou - Meu primo me deu esse vestido. Trabalho para sobreviver.
Shaoran observou as contas cintilantes do vestido e inquiriu:
- Não estará seu primo preocupado com você e tentando encontrá-la ?
Ela permaneceu em silêncio. Olhou o corpo nu de Shaoran.
- Não - murmurou - Duvido disso. Meu primo não é dos que se preocupam muito.
Shaoran sorriu aliviado e deixou o vestido no respaldo da cadeira. Dirigiu-se ao lavatório e começou a assear-se. Alguns minutos mais tarde, voltou-se e viu Sakura levantar-se do beliche. Observou seu corpo e deliciou-se com as curvas sedutoras. Sakura notou seu olhar e levou as mãos ao púbis para ocultar sua feminilidade. Ele soltou uma gargalhada e continuou barbeando-se diante do espelho enquanto Sakura se apressava a tirar do fardo sua blusa velha.
- Então, Sakura, não existe nenhuma razão pela qual você não possa permanecer comigo e ser minha amante - concluiu - Encontrarei uma casa para você na cidade, para que viva comodamente, e onde eu possa ir relaxar. Proporcionarei uma boa soma de dinheiro para que não tenha que procurar outros homens, pois isso definitivamente não me agradaria. Haverá momentos no futuro em que desejarei gozar de companhia feminina. Eu gostaria de pensar que esse assunto já esteja solucionado.
O ódio que sentia por aquele homem esteve prestes a dominá-la. Em toda sua vida nunca havia sentido nada semelhante por alguém. A atitude sossegada de Shaoran e toda a situação em geral, estavam-na enfurecendo de tal modo que desejava gritar de raiva, lançar-se sobre ele e reduzir-lhe o rosto a migalhas. Mas pensou que era melhor escapar agora que ele estava de costas. Vestida com a blusa, mordeu o lábio inferior para que deixasse de tremer e agarrou o vestido da cadeira. Apertou-o contra o corpo e, com o coração na boca, deu um passo para a porta, e logo outro.
- Sakura ! - exclamou Shaoran repentinamente, sobressaltando-a e desvanecendo qualquer esperança de escapar.
A jovem se virou assustada e se encontrou com os ferozes olhos cor de âmbar do capitão, que a fulminava com o olhar enquanto afiava tranqüilamente a navalha de barbear. Sakura ficou imóvel.
- Acha que vou deixar que fuja de mim ? - ameaçou-a ele - Você é muito especial para que eu encontre uma substituta e não tenho nenhuma intenção de deixa-la fugir.
A calma espantosa de sua voz era muito mais aterradora que os gritos violentos de tia Natsumi. Permaneceu tremendo frente a ele notando que o calor a abandonava. Shaoran agarrou a navalha, e, com um sorriso diabólico, estalou os dedos e lhe apontou o beliche.
- Agora, volte para lá - ele a ameaçou. A Sakura não custou muito obedecer, pois estava acostumada a acatar todo tipo de ordem e, além disso, temia as conseqüências se não o fizesse. Sentou-se no beliche, ainda com o vestido contra seu peito, e ficou olhando fixamente para Shaoran, esperando que a açoitasse. Ele deixou a navalha sobre a mesa, aproximou-se do beliche e, limpando a face com uma toalha, observou-a. Atirou a toalha sobre uma cadeira e arrebatou-lhe o vestido. Logo apontou a blusa e ordenou:
- Tire isso - Sakura engoliu a saliva com dificuldade. Admirou o corpo de Shaoran. Estava perdendo a inocência com muita rapidez.
- Por favor - rogou.
- Não tenho muita paciência, Sakura - resmungou ele, ameaçador.
Com mãos trêmulas, ela desatou as cintas e começou a desabotoar os diminutos botões da blusa. Tirou-a por cima da cabeça e, ao perceber que ele a contemplava, ruborizou-se.
- Agora deite-se - ordenou Shaoran.
Sakura caiu no beliche, muito assustada pelo que se aproximava. Tentou tampar o corpo nu com as mãos, humilhada e envergonhada por ser tão covarde.
- Não faça isso - implorou.
Shaoran se deitou junto dela atraindo seu corpo trêmulo para ele.
- Por favor - voltou a suplicar-lhe. - Não está satisfeito em ter arrebatado a única coisa que eu tinha ? Tem que me torturar uma vez mais ?
- Deveria aceitar seu destino - ele sugeriu - e aprender a arte da profissão. A primeira coisa que vou ensinar-lhe é que não tem por que ser necessariamente doloroso. Você brigou comigo duas vezes; na última delas, causando sua própria desgraça. Desta vez vai relaxar e me vai deixar fazer sem se opor, embora seja possível que não o desfrute ainda. Verá como o que digo é certo.
- Não ! Não ! - a moça pôs-se a chorar, tentando livrar-se dele.
Shaoran a segurou pela cintura.
- Fique quieta - exigiu.
Uma vez mais, ela obedeceu. Odiava-o com toda a alma, mas seu medo era muito maior. Seu corpo estremeceu violentamente.
- É assim que trata sua mulher ? - perguntou Sakura com tristeza.
Ele sorriu, inclinou-se sobre seus lábios e respondeu:
- Não sou casado, querida.
Quando parou de beijá-la, Sakura permaneceu em silêncio, tensa, esperando. Shaoran não a possuiu imediatamente, mas sim, pelo contrário, começou a brincar suavemente com ela, acariciando-a, excitando-a, beijando-lhe os seios e todo o corpo.
- Relaxe - sussurrou - E não resista. Logo ensinarei o que os homens gostam. Mas agora relaxe e não faça nada.
Sakura não opôs resistência. Enquanto jazia deitada, exposta às carícias de Shaoran, viu sua vida passar diante de seus olhos como se estivesse às portas da morte. Perguntou-se o que tinha feito de mal para que a vida a tratasse com tanta crueldade. Preferia mil vezes os constantes insultos de tia Natsumi a esse homem que a utilizava para seu gozo. Tinha sido apanhada ! Prisioneira ! Capturada como uma ave em uma armadilha, esperando ser cozinhada; servida em uma bandeja, atravessada por um espeto em um banquete. E quando o festim terminasse, o que ocorreria ? A mesma mesa outra vez ? A mesma comida ? Repetidas vezes ? Nem os pobres animais sofriam isso duas vezes.
Ele separou-lhe as pernas e voltou a possuí-la.
- Fique tranqüila, querida - lhe sussurrou.
Sakura fechou os olhos com força, muito assustada. Não podia fazer outra coisa senão esperar que ele acabasse. Finalmente, Shaoran relaxou sobre ela, esgotado, e perguntou em voz baixa:
- Machuquei-a desta vez ? Algum machucado, minha querida ?
- Não - respondeu a moça com um fio de voz. Shaoran pôs-se a rir, afastando-se dela. Sentou-se no beliche e a cobriu com o lençol.
- Você não parece ser uma moça fria, ma petite - observou, acariciando-lhe a perna - , apenas um pouco contrariada no momento. Estou convencido de que logo aprenderá a desfrutar. Mas, por ora, simplesmente aprenda a aceitá-lo.
- Nunca ! - respondeu ela, chorando - Odeio-o ! Detesto-o ! Desprezo-o ! Nem em um milhão de anos o farei !
- Mudará de opinião - contradisse o capitão, rindo antes de levantar-se - Algum dia, você me suplicará por isso.
Ela deu-lhe as costas e puxou bruscamente o lençol para cobrir os ombros.
Ele riu entre dentes e se inclinou para lhe acariciar as nádegas.
- Vamos esperar um pouco, Sakura, e veremos qual dos dois tem razão - ele a desafiou.
A raiva se apoderou dela. Estava tão seguro de si mesmo, dela, do futuro. Tinha tudo perfeitamente planejado. E o que opinava ela sobre o assunto ? Só podia lhe suplicar clemência e, mesmo assim, sabia que não a iria escutar. A única certeza que tinha era de que aproveitaria qualquer oportunidade para escapar.
Alegrou-se pensando nisso e isso a fez sentir-se mais animada. Mais cedo ou mais tarde se apresentaria a oportunidade. Só a idéia de fugir acalmou a irritação, e se abandonou relaxada sobre os travesseiros, ouvindo como Shaoran se movia pelo camarote atrás dela. Sentiu que lhe pesavam as pálpebras e com a chegada do sono todos os pensamentos se afastaram da mente.
Sakura acordou sem fazer nenhum movimento. Como a cabine estava calma, achou que por fim tinha ficado a sós, mas, ao voltar-se, viu Shaoran sentado diante da mesa, pena na mão, lendo seus livros de contabilidade. Já vestido, estava tão absorto em seu trabalho que parecia ter esquecido a presença da jovem. Esta o observou em silêncio. Não podia negar que era atraente, fisicamente perfeito, de fato. Inclusive pensou na possibilidade de ter sonhado com um homem como ele alguma vez. Mas em nenhum desses inocentes sonhos românticos seu amor voava para ela nas asas da violência ou a retinha contra sua vontade para satisfazer seus desejos mais vis.
- Sente-se melhor ? - perguntou ele. Tinha desviado sua atenção para a moça e encontrou-a observando-o. Ficou de pé com um sorriso e acrescentou: - Espero que tenha fome. Estive esperando-a para tomar o café da manhã.
Sakura se sentou no canto da cama cobrindo o busto com os lençóis e com o cabelo despenteado sobre os ombros.
- Devo me vestir - murmurou ao ver que ele se aproximava e se apoiava sobre uma das colunas de madeira do beliche.
- Se isso for o que deve fazer, meu amor... - disse ele em tom carinhoso - Quer que eu a ajude ?
Sakura se sobressaltou ao ouvir seu oferecimento.
- Não me toque ! - exclamou.
- Olha só ! Vejo que minha gatinha tem as garras afiadas. Devo fazê-la ronronar, querida ?
- Se você se aproximar, gritarei - ameaçou-o.
Os dentes brancos de Shaoran brilharam ao agarrá-la pelos pulsos e atraí-la para si. Olhou-a nos olhos.
- Acha que adiantaria algo ? - perguntou-lhe, divertindo-se com a situação - Meus homens sabem que, a menos que eu os chame, não devem me incomodar em meus momentos de descanso. Além disso, querida, posso afogar facilmente seus gritos com meus beijos.
Sakura se separou dele com um estremecimento. Podia notar-lhe o olhar sobre seu corpo nu. Ele voltou a rir e a agarrou pela cintura.
- Você é realmente tentadora, milady - afirmou - , mas ainda não é hora de sua segunda lição. Meu criado está esperando para nos servir a comida - Soltou-a e abriu um armário próximo da cama, de onde tirou um roupão masculino. Ofereceu. - É um pouco grande para você, mas é o melhor que posso lhe oferecer no momento - acrescentou com um sorriso - Esta tarde eu a levarei para comprar alguns vestidos. Se for como as outras mulheres, isso a animará.
Sakura vestiu o roupão rapidamente. Era enorme; as mangas pendiam e tinha que erguê-lo para poder caminhar sem arrastá-lo. Shaoran esboçou um sorriso e seus olhos se iluminaram ao observá-la. Logo a ajudou a arregaçar as mangas.
-Se é possível ter ciúmes de um simples roupão, milady, então eu estou com ciúmes deste, e, se tivesse vida, garanto que eu ajustaria as contas com ele.
Sakura afastou o olhar, nervosa.
- Permite-me ter um pouco de privacidade para que eu possa me assear, senhor ? - ajustou firmemente o roupão ao redor do pescoço e rogou em voz baixa: - Por favor.
Shaoran dedicou-lhe uma afetada reverência e respondeu entre risadas.
- Seus desejos são ordens, milady. Há alguns assuntos concernentes à carga que requerem minha atenção, de modo que dispõem de algum tempo.
Sakura observou de soslaio como ele se dirigia à porta. Antes de abri-la, Shaoran lhe lançou um olhar e voltou a rir com malícia.
Logo que ele saiu, ela suspirou aliviada e se aproximou do lavatório. Verteu um pouco de água e esfregou cada centímetro do corpo até que a pele ficou com um saudável tom rosado. Desejou uma banheira em que pudesse inundar-se e apagar todo os rastros dele. Desejava esquecer a fina capa de suor que umedecia seu corpo e o dela, o tato de suas mãos, seus beijos asfixiantes. Tudo. A mais mínima prova que revelasse que tinha sido dele.
A água fria era reconfortante. A blusa velha e o vestido cor-de-rosa a fizeram sentir-se muito melhor. Penteou-se o melhor que pôde com as mãos e devolveu o roupão ao armário. Ao fazê-lo, deu-se conta da roupa elegante e claramente cara que havia dentro dele. Irritava-a pensar que não podia zombar de seus pertences nem em segredo.
Seus nervos voltaram a distender-se depois do asseio, e com a necessidade de realizar alguma tarefa que ocupasse sua mente, começou a ordenar a roupa que enchia o camarote. Sobre o respaldo de uma cadeira estava a de Shaoran e, sobre outra, seu vestido bege. A combinação rasgada permanecia no mesmo lugar em que tinha a deixado depois que ele a arrancou. Recolheu-a e comprovou que o dano era irreparável. Aquele homem sabia como destruir as coisas, pensou.
Aproximou-se resolutamente do beliche e, com uma raiva renovada, começou a alisar os lençóis até que descobriu as manchas de sangue. Arrancou os lençóis enfurecida e jogou-os no chão.
Ouviu as gargalhadas de Shaoran atrás dela, voltou-se e, com os olhos brilhantes e as faces avermelhadas, olhou-o. Estava no vão da porta; tinha retornado sem fazer ruído. Shaoran desviou sua atenção do rosto furioso da jovem para os lençóis que estavam no chão. Logo ergueu a vista, fechou a porta e se apoiou contra esta com expressão zombeteira. Ela deu-lhe as costas resmungando. Odiava-o por rir dela. Era detestável.
Shaoran se aproximou da jovem por trás, deslizou os braços ao redor de sua cintura e a atraiu para si.
- Realmente acreditava que com esse rosto e esse corpo podia permanecer casta por muito tempo, querida? - perguntou-lhe em voz baixa, apoiado contra seu cabelo - Você foi feita para o amor, e a verdade é que não me sinto nem um pouco entristecido ter profanado sua intimidade antes que outros homens o fizessem. Tampouco me sinto culpado do prazer que me proporcionou. Rogo-lhe que não me culpe por me ter enfeitiçado por sua beleza e desejar você somente para mim. Não fazê-lo seria uma tarefa difícil para qualquer homem. Como vê, milady, eu sou o prisioneiro, encantado sob seu feitiço.
Sakura estremeceu ao sentir seus lábios ardentes no pescoço. Seu coração palpitava fortemente.
- Você não tem consciência ? - declarou com uma voz estrangulada - Será que não se importa por eu não querer estar aqui ? Não sou uma de suas meretrizes nem tenho nenhum desejo de sê-lo.
- Não o deseja agora, meu amor, mas o fará mais adiante - assegurou-lhe ele - Se concordar em deixa-la partir agora, jamais voltarei a vê-la devido ao que aconteceu entre nós. Se nos tivéssemos conhecido em outras circunstâncias, eu teria podido cortejar você com brandura e a teria levado ao meu leito com palavras amáveis. Mas começamos ao reverso. Assustei-a e, assim como um pássaro foge de seu caçador, você foge de mim. Para que deseje ficar ao meu lado, tenho que te demonstrar que não é tão ruim ser minha amante. Você terá tudo o que desejar.
- Eu tinha ouvido histórias a respeito dos ianques - afirmou ela com malícia - , mas nunca tinha acreditado que fossem verdade até que o conheci.
Ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
- É uma mulher totalmente inglesa, milady.
Sakura se afastou bruscamente dele e enfrentou-o.
- Simplesmente me diga: por que eu? - inquiriu e ergueu os braços - Diga por que tenho que ser vítima de seus desejos quando há milhares de mulheres muito mais dispostas do que eu ! Não encontraria muito mais diversão em praticar seus jogos perversos com uma mulher que se deleitasse com isso ao invés de fazê-lo com uma que não suporta a sua presença ?
Shaoran zombou de sua raiva.
- Você tem uma língua muito afiada, milady. Feriu-me profundamente. Mas as razões são muito simples. Olhe-se e se dará conta de que é excepcional; como uma baforada de ar fresco depois de uma noite em um botequim abarrotado - sentou-se atrás da escrivaninha e relaxou observando - Acredito que é muito desejável, Sakura, e realmente vale a pena ter uma jóia enquanto isso é possível. O desafio que supõe conquistá-la me excita. Ninguém tinha me rejeitado antes.
- Pois deveriam tê-lo feito - respondeu ela - Então, provavelmente você teria aprendido a ser um cavalheiro - deu-lhe as costas, frustrada. Não podia falar com aquele descarado, presunçoso e arrogante. Jogava com armadilhas. Não havia suficientes palavras para descrever o que sentia por ele. Tudo o que sabia é que o abandonaria e ao seu miserável camarote mesmo que fosse a última coisa que fizesse na vida.
Após algum tempo, Yamazaki entrou no camarote com uma grande bandeja carregada com o café da manhã. O criado dirigiu um tímido sorriso a Sakura enquanto deixava a comida sobre a mesa, mas a moça lhe deu as costas. Yamazaki olhou confuso para seu capitão, que esboçou um sorriso e assentiu para lhe indicar que continuasse com o que estava fazendo. Quando a mesa estava servida, Shaoran puxou uma cadeira para que Sakura se sentasse.
- Se tiver a bondade - convidou-a com um sorriso zombeteiro - Me é extremamente difícil comer enquanto você permanece de pé fulminando-me com o olhar. Agora se sente e, para variar, seja uma boa garota.
Yamazaki olhou para os dois, cada vez mais perplexo, e serviu o café apressadamente nas taças. Sakura sentou-se a contragosto e colocou furiosa o guardanapo no regaço. Sorveu um pouco de café, apesar de preferir chá, e diante de seu forte sabor, afastou-o com uma careta de desagrado. Ergueu a vista e descobriu que Shaoran a estava observando com expressão divertida.
Silenciosamente, Sakura se dispôs a dar conta de sua pequena porção de vitela. Tinham-na preparado de um modo estranho, pois não estava fervida, nem cortada em pequenos pedaços, como em um guisado, estava simplesmente cozida em seu próprio caldo e quase crua. Provou uma parte pequena e achou-a muito saborosa, mas não tinha apetite, por isso se limitou a beliscar um pouco.
Yamazaki a observou durante uns instantes, indeciso, desejoso de agradá-la, mas sem saber como fazê-lo. Finalmente se virou para partir, e ao ver os lençóis no chão se agachou para recolhê-los. Arregalou os olhos ao ver as manchas de sangue. Lançou um olhar furtivo ao seu capitão, que o estava observando, e depois a Sakura, de costas para ele, para voltar de novo a Shaoran, que assentiu como que respondendo às suas interrogações. Yamazaki, arregalando os olhos ainda mais, agarrou os lençóis e saiu apressadamente.
O capitão observou a exibição de mau gênio de Sakura e cortou uma fatia de carne com indiferença.
- Não tolerarei seu mau humor na minha mesa, Sakura - avisou-a com calma - , nem que seja descortês com meus homens. Na presença deles, você se comportará como uma dama.
O medo petrificou a jovem, que pôs-se a tremer. Empalideceu, apoiou as mãos em seu colo e baixou o olhar, incapaz de fazer frente àquele homem.
Shaoran bebeu um pouco de café enquanto continuava estudando-a, desta vez concentrando-se no vestido que usava. Era um traje feito para uma garota mais jovem que ela, e embora bonito, não gostava de seu ar infantil. Fazia-o sentir-se incomodado, como se tivesse roubado um bebê de seu berço. A única coisa que era bem recebida por ele era o sutiã justo que pressionava seu busto mantendo-o erguido e confirmava que não era uma menina. Mas definitivamente não se tratava do tipo de vestido que desejava que usasse sua amante, como tampouco o era a velha blusa com a qual a vira vestida. Era uma mulher muito formosa para vestir farrapos.
Assim que acabou de comer, Shaoran voltou à sua mesa para trabalhar em seus livros. Sakura, muito inquieta e sem saber o que fazer, começou a caminhar pelo camarote até ele partir. Nesta ocasião, ele esteve fora o necessário para que a jovem reunisse coragem suficiente para tentar escapar. Mas planejou mal sua fuga, pois ao sair deparou-se com ele dando ordens a um membro de sua tripulação. Enfurecida, fechou a porta com uma batida. Shaoran a tinha descoberto e estava zombando dela.
Quando Yamazaki lhes levou a comida ao meio-dia, ela se comportou corretamente, mas sem chegar a ser cortês. Amaldiçoou aquele homem em voz baixa.
Ao cabo de um momento, após satisfazer seu apetite, Shaoran afastou a cadeira da mesa, e examinou a moça uma vez mais. O silêncio encheu o lugar. Sakura engoliu a saliva com dificuldade, fugindo de seu olhar. Sabia que seus desejos se acenderam de novo e não pôde evitar que seu coração se acelerasse.
A voz de Shaoran era grave e cheia de paixão.
- Venha aqui, Sakura - ordenou-lhe.
Ela ficou paralisada na cadeira. Não obedeceria. Ficaria onde estava. Não conseguiria amedrontá-la. Sacudiu a cabeça e conseguiu balbuciar um fraco:
- Não.
Ele entreabriu as pálpebras e esboçou um sorriso.
- Eu realmente admiro sua coragem, ma chérie, mas acha que é inteligente resistir ? – perguntou. - Sabe tão bem como eu que não possui a força suficiente para impedir que eu obtenha o que desejo. Não seria melhor que admitisse a derrota e viesse voluntariamente ?
Ela estremeceu. Estava apavorada. Levantou-se devagar, com pernas trêmulas, e mordendo o lábio inferior, foi até ele. Shaoran sorriu com calma, agarrou-a pelo braço, atraindo-a para si e sentando-a sobre seus joelhos. Sakura permaneceu rígida enquanto ele beijava o seu pescoço.
- Não tema - sussurrou - Não lhe farei mal.
Beijou-a nos lábios trêmulos e, abraçando-a estreitamente, separou-os. Ela se apoiou em seu peito, débil e chorosa. Seus beijos continuaram durante o que lhe pareceu uma eternidade. Ao deslizar a mão sobre sua coxa e subir para seu ventre, a jovem gemeu e tentou afastar-se dele. Não conseguiu romper seu abraço. Shaoran a beijou na comissura dos lábios, no queixo, na orelha.
- Não se oponha - murmurou - Desfrute.
- Não posso - respondeu ela, sufocada.
- Claro que pode - ele contradisse.
Com os lábios úmidos e separados foi do pescoço até as curvas de seus seios por cima do vestido, saboreando o sabor de sua pele. Acariciou seus seios sem pressa, do vale que havia entre ambos até seu topo arrepiado sob o vestido. A respiração de Shaoran se acelerou, e com cada respiração abrasava a pele da moça. Muito excitado, desabotoou-lhe o sutiã e beijou-lhe a pele nua.
De repente alguém bateu na porta do camarote. Shaoran franziu o cenho. Sakura, com uma reação desesperada, apertou a roupa contra o peito, envergonhada, e tentou afastar-se quando ele afrouxou o abraço. Mas ele voltou a estreitá-la com firmeza, forçando-a a ficar onde estava. Sua indignação era evidente quando disse ao intruso que entrasse.
- Maldição, entre ! - exclamou.
Yamazaki abriu a porta. Ao vê-los se ruborizou.
- Peço desculpas, meu capitão - se desculpou - , mas veio um mensageiro de parte de um comerciante que deseja falar com você sobre o carregamento. O homem diz que seu patrão estaria interessado em comprar todo o arroz e o índigo se tivesse um encontro com você e chegassem a um acordo.
- Quer que eu vá ? - perguntou Shaoran, com incredulidade - Por que diabos ele não vem ao Fleetwood como todos os outros ?
- O homem está aleijado, ao menos isso diz o mensageiro, capitão - explicou o criado - Se o senhor estiver de acordo, dará uma olhada no carregamento para calcular o custo aproximado e depois o verá.
Shaoran murmurou umas palavras quase imperceptíveis com uma expressão grave no semblante.
- Disse ao senhor Nagano que dê uma volta, Yamazaki ? - perguntou-lhe. - Quando tiverem acabado, mande o homem até aqui.
Yamazaki deixou-os, fechando a porta atrás de si. A contragosto, Shaoran soltou Sakura, que correu até o assento do banco e vestiu a roupa apressadamente. Shaoran se aproximou da escrivaninha e se sentou em sua cadeira sem afastar o olhar da jovem, que continuava ruborizada.
Pouco tempo depois, chegou o mensageiro. Sakura virou de costas e afundou a cabeça nas almofadas do assento. O fato de que alguém pudesse vê-la no camarote do capitão Shaoran Li deixava-a extremamente envergonhada. Tinha marcada a desonra em seu rosto e desejava morrer. Podia observar através das janelas como a água golpeava os lados do casco de navio mercante atracado junto ao deles e cogitou a possibilidade de deixar que a água acabasse com seus problemas. Mas não tinha a coragem necessária. Aproximou-se das janelas para observar melhor o escuro e agitado rio sem perceber que o mensageiro se fora e que Shaoran estava atrás dela. Ao pousar sua mão no ombro da moça, esta se sobressaltou. O homem pôs-se a rir com ternura e se afundou nas almofadas junto a ela, brincando com um dos cachos que lhe caíam sobre o busto.
- Receio ter que deixá-la por algumas horas, Sakura, mas voltarei logo que me seja possível - informou - Dei instruções a Yamazaki para que a vigie, assim rogo para que você não torne as coisas difíceis. Apesar do que pensou ontem à noite, ele é uma boa alma quando se trata de mulheres. Disse-lhe que a quero aqui quando voltar, assim não tente escapar. Esfolarei-o vivo se você se fugir. Além disso, voltarei a encontrá-la mesmo que tenha de derrubar Londres inteira.
- Não me importa se vai esfolar ou não seus homens - replicou ela - , mas se me for apresentada a oportunidade de escapar, não tenha dúvida de que a aproveitarei.
Shaoran arqueou uma sobrancelha.
- Nesse caso, Sakura, tenho que levá-la comigo.
- Oh, não ! - suplicou ela, alarmada. - Por favor. Suplico-lhe. Morreria de vergonha se o fizesse. Por favor, não. Se quiser, ficarei aqui, lendo. Prometo.
Shaoran ficou olhando-a, surpreso.
- Sabe ler ? - inquiriu.
- Sim - respondeu docemente a jovem.
Ele esboçou um sorriso. Não havia muitas mulheres que soubessem ler. Sentiu um novo respeito pela jovem.
- Muito bem - concordou finalmente. - Fique. Eu pararei pelo caminho em uma loja de roupas para que a possa vestir como uma mulher. Agora fique de pé e deixe-me ver qual é o seu tamanho.
Ela obedeceu-o, inibida, e se virou lentamente segundo as indicações. Seus olhos percorreram o corpo da moça, fazendo uma avaliação.
- Suas medidas são as de uma menina - observou.
- Há pessoas que afirmam que sou muito magra - comentou Sakura, ao recordar os insultos de tia Natsumi.
Ele deu uma gargalhada.
- Posso imaginar as bruxas ciumentas que disseram isso. Provavelmente estariam chafurdando em sua própria graxa.
Um leve sorriso irrompeu no rosto de Sakura ao perceber que Shaoran parecia descrever tia Natsumi, mas se desvaneceu tão rápido como tinha aparecido.
- Aha ! - Shaoran riu - Eu sabia que cedo ou tarde conseguiria fazê-la sorrir.
Sakura se afastou, com a cabeça muito erguida.
- Graças a você, tenho muito poucas coisas para ficar contente - afirmou.
- Lá vamos nós outra vez, não? - disse ele, rindo entre dentes - Seu humor é muito instável, milady - levantou-se e se colocou atrás dela. - Agora vamos comprovar se derreteu um pouco o gelo que cobre seus lábios. Eu gostaria de sentir um pouquinho de calor, para variar. Venha, me beije como o faria uma amante. Não tenho mais tempo.
Sakura suspirou aliviada ao não ter que sofrer de novo a arte de seus deveres amorosos. Decidiu que um pequeno esforço, cedendo a seus protestos, apaziguaria o temor ou a suspeita que pudesse albergar a respeito de deixá-la ali. Voltou-se, e com uma nova determinação, deslizou os braços atrás do seu pescoço e trouxe a cabeça para a sua. As sobrancelhas de Shaoran se arquearam ao pensar nesta nova mudança, mas Sakura, sem querer que se detivesse para pensar neste assunto durante muito tempo, pressionou seus lábios úmidos e quentes sobre os dele. Procurando pela escassa experiência que possuía, beijou-o longa e apaixonadamente, arqueando o corpo.
Shaoran deliciou-se com o doce sabor de seus lábios e da embriaguez de sua presença sem que chegasse a sua mente algum pensamento lógico. Circundou-a com seus braços, estreitando-a fortemente, desfrutando da inesperada calidez de sua resposta. Seu corpo gritava para que continuasse. A pequena dama era muito tentadora. Seus lábios eram muito quentes, seu corpo muito desejável. Afastar-se dela estava tornando-se uma tarefa muito difícil. Diabos ! Finalmente fez um esforço e conseguiu separar-se.
- Se me beijar assim, me será muito difícil partir - murmurou com voz rouca.
Sakura ficou vermelha O beijo também tinha sido uma surpresa para ela, pois não tinha sido tão desagradável, afinal.
- E agora receio que minha partida vá se atrasar um pouco - acrescentou - , pois estas calças são muito justas.
Os inocentes olhos da jovem pousaram em suas calças. Imediatamente lamentou tê-lo feito. Voltou-se, ruborizada, e emitiu um gemido, mortificada.
Shaoran pôs-se a rir. Suspirou ao vestir-se e balbuciou com melancolia:
- Se eu dispusesse de tempo, senhorita...
A jovem começou a empilhar pratos sujos sobre a mesa, furiosa, odiando o homem que estava atrás dela. Decidiu que era mais do que detestável.
Shaoran estava dando o último toque ao colarinho quando Sakura se virou para ele. Não podia negar que estava muito arrumado, apesar de todo o ódio que sentia por ele. Suas roupas imaculadas e muito bem escolhidas estavam à altura dos preceitos da moda, e serviam-lhe à perfeição, ajustando-se esplendidamente à sua estatura e ao físico corpulento. As calças eram tão bem confeccionadas que se aderiam à pele, dissimulando muito pouco a virilidade proeminente.
"É tão atraente que seguramente as mulheres brigam por ele", pensou com amargura.
Shaoran se aproximou calmamente dela, beijou-a e lhe deu um carinhoso tapinha no traseiro.
- Voltarei logo, querida - disse com um sorriso. Sakura desejava externar sua raiva, mas mordeu a língua. Viu-o partir seguro de si, e logo que ouviu o som da porta ao fechar-se, agarrou os pratos que alguns momentos antes tinha empilhado sobre a mesa e jogou-os no chão, furiosa.
P.S.: Não sei o que esperar desta adaptação, eu espero que vocês gostem dela. Pelo que pude ver na internet, há pessoas que gostam muito deste livro, ao passo que outras o detestam. Parece ser um daqueles casos em que é "Ame-o ou odeie-o". Eu só torço para que vocês não odeiem a adaptação...
P.S. 2: Esse foi o capítulo mais longo que já postei de uma adaptação, mas seguramente não será o único. Embora a versão brasileira do livro tenha apenas 10 capítulos, pelo que pude ver, cada capítulo tem mais ou menos esse tamanho. Então, essa adaptação, em número de palavras, muito provavelmente vai ser a maior adaptação que vou fazer.
P. S. 3: Nos vemos no Capítulo 2.
