Esclarecimento: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Kathleen E. Woodiwiss, que foi publicado no Brasil pela editora Record.
Capítulo 2
Faltou tempo para decidir que devia escapar. Sakura sabia que se o capitão Shaoran Li retornasse antes que ela tivesse fugido, suas oportunidades de fazê-lo diminuiriam enormemente. Tentou pensar na melhor maneira de subornar Yamazaki e se perguntou se poderia consegui-lo com dinheiro. Mas o que podia usar em vez desse bem tão escasso para ela ? O vestido bege era a única coisa de valor que possuía, e refletiu se seria o suficiente para convencer o criado. Então pensou no homem que tinha usado seu corpo e a idéia se desvaneceu. O criado seria muito leal a esse descarado presunçoso ou teria muito medo dele para arriscar a vida por um suborno. Não, aquilo não funcionaria. Tinha que pensar em algo melhor.
Passaram-lhe pela cabeça milhares de estratagemas, mas nenhum se concretizava em algo tangível. Não poderia subornar, assim teria que usar a força. Mas o que podia fazer uma simples moça para enfrentar um homem que sem dúvida era muito mais forte do que ela ? Seus músculos poderosos poderiam retê-la com facilidade até que chegasse seu capitão.
Começou a procurar algo que servisse para persuadir o homem a entregar as chaves do camarote. Abriu todas as gavetas da escrivaninha, procurando com desespero entre os papéis e os livros. Inclusive rebuscou no baú de Shaoran. A única coisa que encontrou foi uma bolsa com moedas. Esgotada, sentou-se na cadeira atrás da mesa, e observou com o olhar cada canto, cada esconderijo do camarote.
"Tem que haver uma arma", decidiu, mordendo os lábios contrariada, pois o tempo não estava a seu favor.
Fixou a vista no armário. Levantou-se da cadeira de um salto e atravessou o espaço para abrir as portas. Procurou com desespero entre a roupa pendurada, mas, uma vez mais, não encontrou nada. Extraiu o conteúdo do armário chorando desconsolada, até que descobriu no chão do diminuto compartimento uma caixa envolta em um pano.
"Serão suas jóias ?", pensou, irritada, enquanto a agarrava.
Abriu a caixa. Não estava interessada nas jóias, se isso era o que continha, mas o recipiente em si atraiu sua atenção. Feito de uma pele muito espessa, minuciosamente trabalhada, tinha incrustações de ouro formando um grande S dominando a parte superior. Não se tratava de uma caixa nem muito profunda nem muito grande, mas estava segura de que continha algo de valor. Sua curiosidade aumentou, e sem conter-se abriu o fecho, levantando a tampa.
Sakura ficou boquiaberta e agradeceu a Deus por sua sorte. Ali, sobre um leito de veludo vermelho, descansavam duas pistolas de desenho francês belamente trabalhadas. Sabia muito pouco de armas de fogo, mas seu pai tinha tido uma como essas, só que não tão admirável. As culatras eram feitas de um suave carvalho inglês, lubrificado, brilhante e adornadas por cobre. O cano era de aço azulado. Os gatilhos e as lâminas da culatra eram de fino cobre e os ferrolhos de ferro forjado à mão, bem lubrificados para evitar os estragos do passar do tempo.
Examinou as pistolas sem conseguir entender seu funcionamento. Seu pai não lhe tinha ensinado. Sabia que devia puxar para trás o ferrolho para montá-la, mas carregá-la era para ela um completo mistério. Amaldiçoou sua ignorância em silêncio e fechou a tampa, tentando pensar em outra forma de enfrentar Yamazaki. Procurou por toda parte. Se encontrasse algo para lhe golpear na cabeça... mas compreendeu que só conseguiria aturdi-lo. Devia encontrar outra forma de detê-lo ou não teria tempo de escapar.
Voltou a abrir a caixa, tirou uma das pesadas pistolas e a examinou. Yamazaki perceberia que ela não tinha a menor idéia de como usá-la ? Mesmo assim, podia tentar enganá-lo e assustá-lo o suficiente para dar-lhe a chave da porta.
Reuniu a coragem necessária e se dirigiu à mesa com um sorriso no rosto. Sentou-se na cadeira, tirou papel e lápis e começou a rabiscar uma nota dirigida ao capitão Li. Precisaria de dinheiro, mas não permitiria que a acusassem de vender seu corpo para consegui-lo. Tomaria uma libra da bolsa de dinheiro que tinha encontrado um momento antes e deixaria seu vestido bege em troca. Era um trato mais do que aceitável.
Dobrou a nota e a depositou sobre o vestido. Depois escondeu cuidadosamente uma das pistolas sob um montão de mapas e papéis.
Quando Yamazaki voltasse com o chá, que tinha pedido enquanto recolhia os pratos quebrados do chão, poderia usá-la com facilidade. O criado se mostrou ansioso por agradá-la, apesar da grande desordem que tinha provocado no camarote, e tinha dito que demoraria alguns minutos para trazer o chá, pois tinha que pedir a um homem para fazê-lo. Aquilo tinha caído como uma luva, pois durante sua ausência ela pôde vasculhar o camarote. Escondeu a caixa marcada com o monograma em uma das gavetas da mesa e pôs ordem no camarote para que, ao entrar, o criado não suspeitasse que o tinha descoberto. Depois, sentou-se e começou a ler um livro que tinha encontrado sobre a escrivaninha. Era o mínimo que podia fazer por Shaoran; tinha prometido isso. Demonstraria ao capitão Li que não era o tipo de pessoa que podia ser detida contra a sua vontade. Pôs-se a rir ao imaginar a ira que recairia sobre Yamazaki, por quem ela não sentia mais que ódio. Afinal, era o responsável por ela ter caído em desgraça. A recompensa parecia mais que justa, pensou.
Hamlet acabou não sendo muito tranqüilizador para os seus já agitados nervos. Inquieta pelo atraso de Yamazaki, afastou o livro e pôs-se a caminhar para cima e para baixo pelo camarote. Depois de alguns minutos, obrigou-se a retomar a leitura até que finalmente Yamazaki fez girar a chave na fechadura e bateu na porta. Sakura deixou cair o livro e ficou de pé muito nervosa, depois retornou ao seu assento e pediu que entrasse. O criado entrou com o chá e se virou para fechar a porta.
- Eu trouxe o chá, senhorita - anunciou - É bom e está quente - sorriu e caminhou até ela.
Aquela era a sua oportunidade. Sakura ergueu a pistola e bateu-a.
- Não se mova, Yamazaki, ou terei de atirar em você - ameaçou-o. A voz lhe soou muito estranha.
O criado levantou a vista da bandeja e deu de cara com a imponente arma apontando para si. Não acreditava que uma pistola nas mãos de uma mulher fosse algo para tomar-se como brincadeira. Eram incapazes de entender o verdadeiro perigo que era uma arma. Ele empalideceu.
- Deixe as chaves sobre a mesa, por favor, Yamazaki, e com cuidado - ordenou a jovem. Observou-o enquanto ele obedecia, apoiando suas trêmulas pernas contra a mesa para não cair - Agora, com muito cuidado, vá para o assento da janela - acrescentou sem tirar-lhe os olhos de cima.
Yamazaki cruzou o camarote lentamente. Sabia ser precavido se as circunstâncias o exigissem. Quando chegou à frente da janela, Sakura deu um longo suspiro.
- Sente-se, por favor - indicou sentindo que recuperava um pouco a confiança. Aproximou-se da mesa, agarrou as chaves e, sem tirar os olhos de cima do criado, retrocedeu até a porta. Procurou a fechadura sem voltar-se, introduziu a chave e girou-a. Imediatamente após isso, a sensação de estar na prisão desapareceu - Por favor, entre no armário, Yamazaki - ordenou - E não tente nada porque estou muito nervosa e a pistola pode disparar.
Yamazaki desistiu da idéia de saltar sobre ela. Era verdade, estava muito nervosa; custava-lhe manter a pistola firme e mordia constantemente os lábios. Estava seguro de que, se tentasse detê-la, ela atiraria. Perguntou-se o que seria pior: a ira de seu capitão ou um disparo da pistola. Sabia que a fúria do homem podia chegar a limites insuspeitados se o provocassem. Estava com ele há muito tempo. Tinha-lhe muito carinho e o admirava, mas às vezes também o temia. Duvidava que seu capitão fosse matá-lo, e a pistola podia enviá-lo facilmente à tumba se tentasse arrebatá-la da assustada jovem. Finalmente, caminhou para o armário, entrou no reduzido espaço e fechou a porta atrás de si.
Sakura tinha permanecido de pé observando-o, preparada para sair fugindo diante do menor movimento suspeito. Uma vez encerrado, suspirou aliviada, e se aproximou sem fazer ruído da porta do armário para assegurar-se de que estava bem fechado. O armário não dispunha de fecho por dentro, assim teria o tempo suficiente para escapar antes que Yamazaki pudesse dar a voz de alarme. Foi à escrivaninha e abriu a gaveta onde tinha encontrado a bolsa com o dinheiro. Agarrou uma libra e depositou a pistola descarregada sobre a mesa.
Não demorou muito a chegar à porta. Abriu-a sem pressa. Não havia ninguém na escada que conduzia à cabine, assim se dirigiu até a porta que havia ao fundo. Não tinha pensado na maneira de sair para a coberta e, ao entreabri-la, compreendeu que sua fuga era impossível. Havia muita gente a bordo e sabia que não passaria despercebida. Vários homens muito bem vestidos iam de um lado para o outro, atarefados. Sakura supôs que eram comerciantes que inspecionavam a carga.
Fechou a porta e se apoiou, desesperada, contra a fria parede de madeira. O que aconteceria se tentasse abandonar o navio ?, perguntou-se. Só o capitão e alguns homens sabiam que ela estava a bordo. Aqueles homens não a conheciam. Por que não ser valente para variar ? "Simplesmente saia e misture-se com eles", disse a si mesma.
Ao pensar nisso, abrigou uma nova esperança. Abriu a porta, desta vez sem nenhum traço de hesitação. Seu coração pulsava tão forte que ameaçava estalar no peito. Avançou entre a multidão com o ar próprio de uma rainha, forçando o sorriso. Com a cabeça bem erguida, respondia aos homens que a contemplavam boquiabertos. Estes lhe devolviam o sorriso e avisavam a outros para que se virassem para olhá-la. De repente, o silêncio reinou na coberta do navio. Todos os homens a observavam maravilhados sem que nenhum deles fizesse nada para detê-la. Quando o vento levantou ligeiramente suas saias, todos admiraram seus bonitos tornozelos e seus pés delicados e pequenos. Um homem de meia-idade, alto, de tez morena, cabelo branco e cavanhaque lhe ofereceu a mão. Ela a aceitou com um doce sorriso. Ao afastar-se dele para descer pela passarela, sentiu que a devorava com o olhar. Antes de chegar à extremidade da rampa, voltou-se para lhe dedicar um último sorriso. Este o devolveu cortesmente com uma reverência, chapéu no peito.
Sakura sabia que estava flertando com ele desavergonhadamente, mas a idéia de que o capitão Shaoran Li ia ser informado de sua fuga com todos os detalhes reconfortava-a enormemente. Tinha sido mais esperta do que ele ! Ao descer da rampa, eram muitos os cavalheiros que a esperavam para assisti-la. Pululavam em torno dela com a intenção de lhe estender a mão.
Sakura escolheu o mais atraente, que usava a roupa mais cara e, flertando, pousou sua mão sobre a dele e lhe pediu amavelmente que fosse em busca de uma carruagem; ante seu assombro, o homem obedeceu imediatamente deixando tudo no chão. Alguns minutos depois, retornou oferecendo-se para escoltá-la. Sakura recusou a oferta muito educadamente e, com relutância, o homem lhe estendeu a mão para ajudá-la a subir na carruagem que a aguardava. A moça agradeceu sua amabilidade cortesmente. Perguntou-lhe onde vivia, mas ela permaneceu em silêncio, o que fez o homem dar um suspiro, soltar-lhe a mão e fechar a porta. Já dentro da carruagem, Sakura lhe sorriu de novo, mas ao ver que ele tinha interpretado o sorriso como um convite para que a acompanhasse, e já estava a ponto de pôr-se a correr atrás dela, sacudiu sua cabeça negativamente.
Quando a carruagem dobrou a esquina, Sakura se ajeitou no assento e sorriu. Sentiu vontade de voltar a rir, em parte por histeria, mas também de alívio. Relaxou, fechou os olhos e não voltou a abri-los até chegar às garagens, nos subúrbios de Londres. Ali se apressou a reservar um assento no carro que a levaria de volta à casa de tia Natsumi.
Pouco antes tinha decidido que voltaria. Não tinha nenhum outro lugar para ir. Tia Natsumi e tio Haruhiko só ficariam sabendo do que acontecera com Daisuke depois de muito tempo, se é que algum dia viriam a saber. Depois de ter visto o tipo de vida que Daisuke levava em Londres, duvidava que algum de seus amigos soubesse da existência de uma irmã que vivia em uma granja pequena e aborrecida. E enquanto o capitão Li estivesse atracado no porto, ela devia abandonar a cidade. A granja de seu tio era o lugar mais seguro. Ficaria ali até que encontrasse um posto de trabalho. Estava decidida a ficar independente da mulher cujo irmão tinha assassinado. Era muito duro retornar, mas totalmente impossível permanecer em Londres.
Na carruagem que a levava à granja, atormentou-a a lembrança dos acontecimentos do dia anterior. Tentou, sem êxito, afastar os pensamentos que a acossavam cruelmente. Tratou de convencer-se de que nada do que tinha acontecido era culpa dela, mas não conseguiu acalmar a dor que a embargava por tudo o que havia acontecido. Já não era a mesma pessoa. Já não era a menina inocente que fora a Londres sonhando com todas as coisas maravilhosas que ali lhe esperavam. Agora era totalmente uma mulher, perita nas carícias de um homem.
Prometeu-se com grande determinação que aquilo não ia mudar. O casamento só lhe traria desgraças. Mas se ia ser uma solteirona, pelo menos seria uma solteirona independente. Encontraria trabalho em algum lugar.
Agora o problema consistia no que ia contar aos tios. Precisava de uma razão para retornar. Não podia voltar e dizer que sentira saudades, uma vez que nunca se dera bem com eles. Isso faria com que sua tia suspeitasse. Não, tinha que pensar em algo que fosse crível.
Quando a carruagem chegou ao cruzamento da aldeia que havia perto da granja de seu tio, parou o tempo necessário para deixar que Sakura saísse. Desceu sem olhar para trás e sem recordar de nenhum de seus acompanhantes.
Tomou o caminho do leste, na saída da aldeia. O Sol projetava sombras enormes diante dela. Conforme se aproximava da pequena granja foi diminuindo a marcha de forma inconsciente. Quando finalmente chegou, o céu estava escuro como a boca de um lobo e já fazia algum tempo que a hora do jantar tinha passado. Aproximou-se da porta devagar e bateu nela ligeiramente.
- Tio Haruhiko, sou Sakura. Posso entrar ?
Ouviu um barulho dentro da casa e a porta se abriu bruscamente. Teria desejado encontrar-se primeiro com tio Haruhiko, mas não foi o que aconteceu. Sua tia, de pé na soleira da porta, olhou para ela, surpresa.
- O que você faz aqui ? - inquiriu, perplexa. Era o momento de contar outra mentira. Desde o dia anterior não tinha parado de mentir, e isso a perturbava enormemente.
- Ao chegar a Londres, seu irmão se deu conta de que tinha que partir para Liverpool, para examinar umas sedas que desejava comprar - explicou a moça - Achou que não era apropriado que eu ficasse na cidade sem acompanhante - quase se engasgou com as palavras. A mentira era muito amarga.
- Bom, deve estar um pouco decepcionada - tia Natsumi riu com desdém - Acreditava que uma vez em Londres o mundo estaria aos seus pés, não é ? Merece isso por ser uma arrogante mendiga. Sempre acreditando ser uma rainha; com esses ares que quase acredito que tinha ao partir. Penso que voltará a se encarregar de suas tarefas na casa.
- Se a senhora me permitir isso, tia - respondeu Sakura docilmente, sabendo que agora sua vida com aquela mulher seria ainda mais difícil. Entretanto, seria algo melhor que o que o capitão Shaoran Li tinha pensado para ela.
- Parece-me muito bem, jovenzinha, e vais estar agradecida de ter retornado a casa, sim senhor - disse-lhe tia Natsumi com uma careta de desprezo, querendo demonstrar justamente o contrário.
Sakura entendeu isso perfeitamente, mas não respondeu. Aceitaria sem reclamar a forma que a mulher decidisse tratá-la. Provavelmente o merecia por ter sido tão vaidosa e ter acreditado que tinha nascido para viver comodamente em Londres. A única coisa que podia fazer era comportar-se com humildade e emendar-se.
- Ande, vá para a cama - ordenou tia Natsumi - Quero que esteja acordada e trabalhando ao amanhecer. Seu tio já está deitado.
Sakura não se atreveu a mencionar que tinha fome apesar de saber que a tia tinha ouvido os ruídos que fazia seu estômago. A mulher não comentou nada e Sakura soube que não o faria. Tinha comido muito pouco naquele dia, com o capitão Li sentado à sua frente. Sentia água na boca ao pensar no que teria desfrutado se o louco desalmado não tivesse estado ali.
Sem nada dizer, dirigiu-se ao seu canto atrás da cortina e se despiu. A manta continuava sendo áspera e provavelmente igualmente ineficaz para protegê-la do frio. Tinha que encontrar um trabalho. Isso significava que devia ir ao povoado e procurar na tabuleta de anúncios, pois normalmente havia procura para garotas jovens que queriam trabalhar como donzelas, professoras ou em postos similares. Estava certa de que não seria muito difícil encontrar algo para si.
Apesar da fome que lhe corroía o estômago, caiu profundamente adormecida. A manhã chegou e com ela os insultos severos e cruéis de sua tia, que afastou bruscamente a cortina e lançou o vestido esfarrapado sobre seu rosto adormecido. Aproximou-se e sacudiu-a sem piedade.
- Acorde, malandra. Terá de fazer o que não fez durante os dois dias em que esteve fora. Levante-se agora mesmo - ordenou, bufando.
Sakura acordou sobressaltada e se sentou em seu catre, piscando, tentando despertar. Aquela manhã sua tia se parecia mais do que nunca com uma bruxa, e isso a alarmou. Saltou da cama rapidamente, com o corpo trêmulo, e colocou o velho vestido, ante o olhar atento de sua tia.
Só teve tempo de agarrar um pedaço de pão duro antes que tia Natsumi a enviasse para procurar lenha. Ao sair da casa, encontrou tio Haruhiko absorto em seus pensamentos, sem mostrar especial interesse em ter uma conversa com ela. Estava cortando a lenha e, ao vê-la, desviou o olhar.
Não se podia negar que estava fazendo um verdadeiro esforço para dar a entender que não se importava com sua presença, e isso doía a Sakura profundamente. De repente, um calafrio percorreu seu corpo e, muito inquieta, perguntou-se se ele suspeitaria de algo. Mas como poderia fazê-lo ?
Desde o dia em que a jovem tornara-se mulher, havia algo que preocupava tio Haruhiko. Embora nunca lhe dirigisse a palavra, observava-a com atenção, como se tentasse ler-lhe os pensamentos. Ela, incomodada com tais olhares, procurava evitá-lo. Não conseguia imaginar o que era o que o preocupava, e tampouco se atrevia a perguntar-lhe.
Na hora de deitar-se, caiu exausta em seu catre. Entretanto, sua mente não estava inativa. Podia ver o corpo deitado de Daisuke Sanada como se ainda se encontrasse no quanto, junto a ele. Mas essa visão se desvaneceu rapidamente quando apareceu a visão do rosto do capitão Shaoran Li surgindo da escuridão. Viu seu sorriso zombeteiro, suas mãos fortes e morenas estendendo-se até ela. Uma vez mais, ouviu suas gargalhadas e, com um pranto afogado, enterrou seu rosto no travesseiro para sufocar os soluços que estremeciam seu corpo, recordando muito bem o toque dessas mãos.
O amanhecer encontrou Sakura acordada e trabalhando antes que sua tia levantasse. Depois de passar a noite em claro, a jovem jurou que trabalharia arduamente até que nenhum pensamento ou recordação a atormentasse. Encontraria o prazer de dormir através do cansaço extremo.
Quando tia Natsumi saiu do outro aposento vestindo o vestido de camponesa sobre o amplo busto, Sakura já estava ajoelhada, limpando as cinzas da chaminé. A mulher se aproximou dos fogões, agarrou uma torta de farinha de aveia e olhou para a sobrinha com o cenho franzido.
- Está um pouco pálida esta manhã, jovenzinha - observou com desprezo - Será não te alegra estar aqui ?
Sakura verteu o resto das cinzas em um balde de madeira e se levantou, afastando uma mecha de cabelo do rosto. Suas bochechas estavam manchadas de fuligem e o enorme vestido mostrava os ombros magros e grande parte de seus redondos seios. Limpou as mãos na saia, manchando-a de fuligem.
- Fico muito feliz por estar aqui - murmurou, afastando o olhar da tia.
Tia Natsumi se aproximou dela e lhe deu uma bofetada, machucando a tenra carne de sua sobrinha com suas mãos grossas.
- Seus olhos estão inchados - apontou - Pensei tê-la ouvido chorar em sua cama ontem à noite, e vejo que estava certa. Imagino que te causa pena não estar em Londres.
- Não - sussurrou Sakura - Estou contente.
- Mentira ! - exclamou Natsumi - Odeia estar aqui ! O que você quer é viver muito bem em Londres, porque acha que é o que merece !
Sakura sacudiu a cabeça. Não queria voltar. Ainda não. De maneira nenhuma. Não enquanto o capitão Li estivesse ali, procurando-a por toda a cidade. Ele ainda permaneceria ali por três ou quatro meses, vendendo e comprando o seu carregamento. Não podia retornar.
Tia Natsumi lhe deu um brutal beliscão no braço.
- Não minta, menina ! - gritou.
- Por favor - suplicou Sakura.
- Deixe a menina em paz, Natsumi - interveio tio Haruhiko, de pé junto às cortinas que separavam seu dormitório. Tia Natsumi se voltou para ele com um grunhido.
- Olhe quem está dando ordens tão cedo, esta manhã. Não é melhor que ela, sempre pensando no que não tem, sempre desejando o que perdeu !
- Por favor, Natsumi, não comece outra vez - suspirou ele cansado, sacudindo a cabeça com desespero.
- Outra vez não, você diz ? - inquiriu com sarcasmo - Passa o dia pensando nessa mulher. A única razão pela qual se casou comigo é porque não pôde fazê-lo com ela ! Amava a outro.
O homem se turvou diante de crueldade das palavras de Natsumi e se afastou com os ombros ainda mais arqueados.
Tia Natsumi girou sobre seus tacões e, dirigindo-se até Sakura, deu-lhe um forte empurrão.
- Continue trabalhando e pare de marear a perdiz ! - exclamou.
Com um rápido olhar de compaixão para tio Haruhiko, Sakura levantou o balde do chão e se apressou para a porta. Não suportava ver seu tio com os ombros caídos.
Passou-se uma semana, depois duas, esta última mais lenta que a anterior. Não importava quão duro trabalhasse, não conseguia afastar de sua mente as lembranças desagradáveis. Acossavam-na dia e noite. Muitas vezes se levantava no meio da escuridão, com a testa ensopada por um suor frio, tendo sonhado que o capitão Li estava com ela, aprisionando-a em um abraço apaixonado. Em outros sonhos, ele parecia mesmo o diabo, rindo até não mais poder de seu corpo aterrorizado. Sakura acordava com as mãos nos ouvidos. Os sonhos com Daisuke Sanada eram igualmente horríveis. Sempre aparecia ela, de pé junto a ele, com a faca na mão e o sangue em seus dedos.
Mais duas semanas se passaram sem que Sakura conseguisse descansar, o que começava a afetá-la. Seu apetite era muito variável. Ora estava desinteressada, ora tinha náuseas, ou uma vontade insaciável de comer. Sofria de sonolência, um pecado imperdoável segundo sua tia, que a perseguia continuamente por causa disso. Cometia muitas tolices: deixava os pratos caírem no chão ou queimava os dedos com as chaleiras ardendo. Aquilo era suficiente para fazer com que uma pessoa enlouquecesse. E conseguia deixar frenética a sua tia, especialmente depois de ter quebrado uma de suas terrinas preferidas.
- Mas o que está fazendo com minha casa, pequena cadela viciosa, quebrando tudo o que está ao seu alcance ? - chiou, dando-lhe uma bofetada.
Sakura caiu de joelhos no chão, tremendo violentamente, com o rosto ardendo por causa do golpe, e começou a recolher os pedaços do prato.
- Sinto muito, tia Natsumi - se desculpou com voz rouca e lágrimas nos olhos - Não sei o que está me acontecendo. Não consigo fazer nada bem.
- Como se alguma vez o tivesse feito - acusou-a a mulher em tom depreciativo.
- Venderei meu vestido cor-de-rosa e comprarei outra terrina - prometeu Sakura.
- E o que venderá para me pagar o resto das coisas que tem quebrado ? - inquiriu Natsumi com sarcasmo, sabendo muito bem que o vestido valia muito mais do que todos os objetos quebrados juntos.
- Não tenho mais nada - sussurrou a jovem, ficando de pé. - Só a minha combinação.
- Isso não vale nem um penny, e não permitirei que vá mostrando as tetas por aí.
Ao ouvir isso, a jovem ficou ruborizada e ajustou o decote do volumoso vestido pela enésima vez naquele dia. Cada vez que se agachava, o enorme decote revelava grande parte de sua anatomia. Se não fosse pela corda que tinha atada à cintura, mostraria absolutamente tudo, já que não tinha nada que ficasse por baixo. Devia usar com a combinação, quando fosse ao povoado.
Passou quase um mês até que lhe permitiram ir à pequena aldeia com seu tio. Tinha esperado ansiosamente durante semanas o momento em que sua tia lhe permitisse fazê-lo, e, agora que o momento tinha chegado, receava seu tio. Seguia olhando-a de forma estranha e a deixava muito nervosa. Temia que, uma vez longe de tia Natsumi, sentisse-se tentado de fazer averiguações a respeito de Daisuke Sanada. Perguntava-se se valia a pena ir à aldeia e ficar sabendo que o homem tinha morrido.
Embora tivesse se tratado de um acidente, ela tinha sido a culpada. Mas tinha que ir. Era a única forma de ler a tabuleta de anúncios que havia na praça da aldeia. Quanto antes encontrasse trabalho, melhor. Além disso, sua tia estava esperando um bonito presente em troca do vestido.
Casinhas brancas com coberturas de palha se elevavam agradavelmente ao redor do lago do povoado, e uma estalagem próxima ao cruzamento convidava aos estrangeiros a deter-se e desfrutar da aprazível serenidade do lugar. As flores tardias do verão adornavam as jardineiras e as paredes. Entre as casas se elevavam sebes bem cortadas como cercas. Era muito mais formoso viver aqui do que em Londres, tão suja, cheia de mendigos e de pessoas más.
Ao chegar à aldeia, Sakura e seu tio foram imediatamente ao salão comunitário, uma grande sala coberta e emparedada, em cujo centro se encontrava a tabuleta de anúncios. Tio Haruhiko tinha o hábito de ir primeiro ali.
Era o seu único contato com o mundo além dos limites da aldeia e da granja. Sakura esquadrinhou as notas com discrição. Precisavam de uma faxineira, leu, mas estremeceu só de pensar nisso. Alguém solicitava uma preceptora. Sakura sentiu que o coração pulsava fortemente. Mas continuou lendo a nota. Devia tratar-se de uma senhora de não menos de quarenta anos. Seus olhos repassaram rapidamente todas as notas, rezando com desespero para que houvesse uma que se ajustasse ao seu perfil. Queria trabalhar como faxineira, mas se houvesse algo melhor, aceitaria com gosto. Não havia. Suas esperanças se desvaneceram. Quando seu tio se voltou para partir, seguiu-o com lágrimas nos olhos.
Conduziu-a a uma loja para que comprasse a substituta da terrina quebrada de tia Natsumi. Fez isso muito abatida, quase sem ânimo. Quando o tio parou o pequeno carro na praça, Sakura havia se sentido eufórica, pois ele não lhe tinha perguntado nada. Agora, apesar de continuar agradecida por seu silêncio, desejava chegar a um lugar onde pudesse chorar a sós. Repreendeu a si mesma por ser tão impaciente. Era provável que mais adiante houvesse uma boa oferta. Mas sua tia poucas vezes lhe permitia deslocar-se ao povoado com tio Haruhiko, de modo que passariam séculos até que pudesse voltar, e durante todo esse tempo teria que ficar com ela.
O senhor Wei, o lojista, pegou a terrina que Sakura apontou.
- Deseja algo mais, senhorita ? Um vestido novo, talvez ? - inquiriu o homem.
Ela corou. Não era a primeira vez que o homem mencionava o vestido novo. Sabia que todo mundo a olhava com pena e que as jovens zombavam das roupas que usava. Mas era muito orgulhosa para mostrar-se envergonhada. Enquanto tivesse vida no corpo, seguiria mantendo a cabeça erguida e fingiria que não se importava.
- Não - respondeu - Apenas a terrina.
- É uma bonita terrina, bem vale o seu dinheiro. Serão seis xelins, senhorita Sakura - comentou o lojista.
A jovem tirou o lenço que levava no bolso e o desatou. Contou o dinheiro cuidadosamente e o entregou. Ainda sobravam sete xelins, embora soubesse que iriam parar nas mãos de sua tia. Os olhos da jovem se desviaram até algumas fitas de vivas cores que jaziam em uma mesa próxima a ela, e as olhou com nostalgia.
- A azul cairia bem em seu cabelo, senhorita Sakura - sugeriu o senhor Wei, olhando-a intensamente. Agarrou a cinta e a entregou - Prove-a.
Olhando seu tio com hesitação, Sakura deixou que o lojista depositasse em sua mão a fita. Voltou-se lentamente para o espelho, o único que havia no povoado, e ergueu a vista. Era a primeira vez que se contemplava em um espelho com aquele vestido. Tinha o cabelo castanho bem trançado sobre as orelhas, e estava bem asseada e com a roupa limpa, mas isso não importava. O vestido de sua tia ficava pior que um saco, fazia-a parecer ainda mais magra do que já era.
Não era de estranhar que as pessoas a olhassem e zombassem dela, pensou cansada.
A porta da loja se abriu e Sakura deixou de olhar-se no espelho. Era Yukito Tsukishiro, um jovem alto e magro, de vinte e um anos, que estava há muito tempo apaixonado pela sobrinha de Haruhiko Kinomoto. Embora Sakura nunca o tivesse encorajado a cortejá-la, ele sempre estava por perto quando a jovem ia ao povoado. Contemplava-a com adoração e lhe estreitava a mão sempre que era possível. Gostava dele, mas de forma fraternal. Aproximou-se imediatamente dela e lhe sorriu.
- Vi o carro de seu tio - comentou o jovem - Tinha a esperança de que tivesse vindo com ele.
- Alegra-me que tenha voltado para me ver, Yukito - disse ela com um sorriso.
O jovem corou, encantado.
- Onde esteve ? Senti sua falta.
Sakura encolheu os ombros, afastando o olhar.
- Em lugar nenhum, Yukito. Estive em casa com tia Natsumi - respondeu.
Não queria falar de sua viagem a Londres. Sentiu o olhar de seu tio sobre si, mas não se importou.
A porta voltou a abrir-se. Sakura notou a presença da pessoa que acabava de entrar antes de vê-la. A recém-chegada se dirigiu a Yukito, mas antes de estar junto a ele, deteve-se bruscamente ao perceber a presença da jovem. Sua expressão mudou repentinamente. Fulminou-a com o olhar e Sakura sentiu que um calafrio lhe percorria o corpo.
Não era a primeira vez que Kaori olhava para Sakura com ciúme, devido à atenção que Yukito lhe dedicava. Kaori estava disposta a fazer qualquer coisa para que Yukito se ajoelhasse aos seus pés e a pedisse em casamento. Suas famílias já tinham discutido sobre o dote que ela contribuiria quando se casassem, mas ele se opunha obstinadamente a casar-se. Kaori sabia que o motivo era Sakura. Sabia perfeitamente que, por mais que zombasse com as outras garotas da aldeia das roupas estranhas que Sakura usava, ele a preferia a ela. Até seu próprio pai tinha comentado freqüentemente a beleza extraordinária que possuía a jovem Kinomoto. Todos os homens, jovens e velhos, estavam deslumbrados pela garota irlandesa.
Yukito enrugou a testa ao ver Kaori e se voltou para Sakura.
- Tenho que falar com você - sussurrou em tom categógico, agarrando-a pelo braço - Pode encontrar-se comigo mais tarde, junto ao lago ?
- Não sei, Yukito - respondeu Sakura docemente - Tenho de ficar com meu tio. A minha tia Natsumi não gosta que eu ande sozinha por aí.
- E se ele a vigiar, poderia então falar comigo ? - perguntou ele, esperançoso.
Ela franziu o cenho, confusa.
- Acho que sim, mas não por muito tempo - respondeu.
- Peça-lhe que a leve ao lago antes de irem embora - pediu ele apressadamente - Estarei esperando-a.
Partiu sem dizer nada mais. Ao sair da loja roçou Kaori, que não demorou muito para ir atrás dele.
Ao cabo de um momento, tio Haruhiko deteve o carro perto do lago e Sakura desceu. Caminhou até Yukito, que estava de pé ao lado de uma árvore. O jovem ficou sem fala durante alguns segundos. Contemplou-a pensativo e observou com ternura cada detalhe de seus traços pequenos e perfeitos. Quando finalmente falou, sua voz era trêmula e indecisa, cheia de emoção.
- Sakura - murmurou com voz embargada - , acredita que sua tia me recusaria ? Quero dizer, acredita que não me consideraria bom o bastante para cortejá-la ?
Sakura olhou para ele, surpresa.
- Mas, Yukito, eu não tenho dote - respondeu.
- Ah ! Sakura isso não me preocupa nem um pouco. Quero você, não o que possa contribuir com o casamento.
Não podia acreditar. Ali, diante dela, estava o pretendente que jamais pensou que teria por não possuir um dote. Mas chegara muito tarde. Já não era uma mulher virgem. Nunca poderia casar-se com um homem, manchada como estava.
- Yukito, sabe tão bem como eu que sua família nunca permitiria casar-se comigo sem dote - disse.
- Não me casarei se não for com você, Sakura, e minha família quer que eu tenha filhos. E viriam muito em breve.
Ela baixou o olhar.
- Yukito, eu não posso me casar com você.
O jovem franziu o cenho.
- Por quê ? Você tem medo de deitar-se com um homem ? Se for por isso, não se preocupe. Eu não a tocaria até que estivesse preparada.
Ela sorriu com tristeza. Ofereciam-lhe paciência e amor, e não estava em condições de aceitá-los. Que diferença tão grande havia entre aquele homem e o capitão Shaoran Li. Não podia imaginar o capitão do Fleetwood sendo tão paciente com uma mulher. Era uma verdadeira lástima que não pudesse casar-se com Yukito e levar uma vida tranqüila no povoado. Criar seus filhos aos quais, tinha certeza, ambos amariam. Mas era inútil pensar nisso, porque já não era mais possível.
- Yukito - acrescentou docemente e em voz baixa - , você faria bem em mostrar interesse por Kaori. Ela o ama e seria uma boa esposa.
- Kaori não sabe a quem ama - respondeu Yukito bruscamente - Sempre anda atrás de alguém, e agora está me perseguindo.
- Yukito, isso não é assim - repreendeu ela brandamente - Ela só tem olhos para você. Deseja casar-se com você.
Ele não a escutava.
- Mas eu desejo uma esposa como você, Sakura, não uma mulher ingênua e simples como Kaori.
- Não deveria dizer algo que não é certo, Yukito - replicou da mesma forma suave e reprovadora - Kaori seria uma esposa muito melhor do que eu.
- Por favor, deixe de falar dela ! - exclamou Yukito. Seu rosto mostrava uma expressão de abatimento não muito diferente da que Kaori tinha exibido alguns minutos antes - Só quero olhar para você e pensar em você. Por favor, Sakura, devo conseguir que seu tio me dê permissão para cortejá-la. Não posso esperar mais para que seja minha mulher.
Aí estava. Um pedido de sua mão. Certamente sua tia se mostraria surpreendida. Mas era muito tarde. Agora devia convencer a este jovem de que não podia casar-se com ele. Mas ele não a escutaria. O que que devia fazer, contar-lhe a verdade ? Se o fizesse, ele a repudiaria, e ela se sentiria humilhada.
- Yukito não vou perguntar à minha tia se estaria disposta a permitir - explicou a jovem - Não posso me casar com você. Não seria justo. Eu nunca seria feliz aqui. Não vê, Yukito ? Cresci de uma maneira muito diferente disto. Estou acostumada a que me façam tudo e a me vestir com os trajes mais elegantes. Não posso ser feliz sendo a mulher de um simples sapateiro.
A expressão de Yukito fez com que o coração da jovem se encolhesse. Mas sabia que era muito melhor dessa maneira. Logo ele aceitaria a derrota e perceberia que tinha toda uma vida pela frente sem ela. Observou-o com dor enquanto ele se afastava com passos hesitantes, os olhos alagados de lágrimas.
- Oh, meu Deus ! - gritou - Amei-a desde o primeiro momento em que a vi. Não pensei mais em ninguém durante estes dois últimos anos. E agora me diz que não sou bom o bastante para você. Você é uma mulher perversa, Sakura Kinomoto ! Que Deus tenha piedade de sua alma !
Sakura estendeu a mão para ele em atitude suplicante, mas Yukito partiu. Caminhava tropeçando, caindo e voltando a levantar-se. As lágrimas caíram dos olhos de Sakura e começaram a deslizar pelas suas faces enquanto via Yukito afastar-se.
"Sou cruel", pensou. "Feri-o profundamente e agora ele me despreza".
Voltou-se e caminhou lentamente para o carro. Seu tio estava observando-a. Sempre a observava agora. Nunca mais deixaria de fazê-lo ?
- O que aconteceu com o jovem Yukito ? - perguntou ele, ao descer para ajudá-la a subir.
- Pediu permissão para me cortejar - murmurou, acomodando-se junto a ele no estreito assento. Não desejava discutir esse assunto. Sentia um nó no estômago e começava a sentir-se indisposta.
- E você disse que não? - insistiu Haruhiko. Sakura assentiu lentamente. Se fizesse um movimento brusco, vomitaria. Estremeceu e guardou silêncio. Graças a Deus, tio Haruhiko permaneceu absorto em seus pensamentos, escrutinando o horizonte por cima do velho cavalo que puxava a carruagem.
Primeiro de outubro passou e o tempo ficou mais frio. As folhas caíam, amontoando-se sobre a erva, ainda verde. Podia-se ver os esquilos brincar de correr sobre os ramos das árvores, procurando comida para armazenar para o inverno. Logo chegaria a hora da matança e Sakura revolvia o corpo só de pensar nisso. Não precisava de mais motivos para não sentir-se bem. Todas as manhãs, arrastava-se do catre, doente e abatida, e se perguntava se algum dia ficaria bem. Com as novas tarefas que sua tia lhe tinha encomendado, era-lhe muito difícil dissimular seu estado de saúde. Jurou que a senhora jamais a veria indisposta, mas o juramento estava sendo muito difícil de cumprir. Às vezes se sentia tão fraca que esperava perder a consciência a qualquer momento. Tinha acreditado que as lembranças que a atormentavam acabariam por deixá-la em paz. Mas continuavam ali, assim como a sua dor de estômago e seus nervos crispados.
- Pare de vadiar e termine de lavar esses pratos, jovenzinha - ordenou tia Natsumi.
Sakura tratou de espantar o atordoamento e se apressou a limpar outra terrina de madeira. Em pouco tempo, poderia relaxar com um banho quente e acalmar seu corpo dolorido. Estava cansada e aborrecida, e as costas lhe doíam muito. Estava acordada ao amanhecer e já não tinha forças para nada. Quase tinha desmaiado ao carregar um feixe de lenha.
Guardou os pratos e puxou a terrina para banhar-se. Tia Natsumi, sem parar de observá-la, agarrou outro pedaço de bolo e mordeu um bocado. Sakura estremeceu, perguntando-se como sua tia era capaz de comer tanto. Parecia seu passatempo favorito.
Desejou que sua tia fosse dormir, como tinha feito tio Haruhiko. Preferia banhar-se calmamente. Mas a tia não ia se mover, assim decidiu encher a terrina e provar a água. Estava agradavelmente quente. Desabotoou o vestido e deixou que deslizasse até o chão.
Permaneceu diante da chaminé completamente nua. As chamas faziam resplandecer a suave pele da jovem e seu resplendor perfilava seu corpo magro. Seus seios tinham aumentado consideravelmente de tamanho e estavam muito duros, e seu abdômen parecia ligeiramente volumoso.
De repente, tia Natsumi engasgou com o pedaço de bolo. Ficou de pé de um salto e com um grito. Sua sobrinha, assustada, virou-se imediatamente. Os olhos da mulher estavam totalmente abertos. Observavam a jovem, horrorizada.
Seu rosto, que minutos antes tinha sido de uma cor vermelha intensa, agora estava cinza. Atravessou a sala correndo em direção a Sakura, que recuou pensando que a mulher tinha enlouquecido, e a agarrou brutalmente pelos braços.
- De quem ficou grávida, jovenzinha ? Com que chacal esteve ? - chiou.
Sakura ficou petrificada ao pensar no que sua tia acabava de falar. Seus olhos estavam muito abertos e seu rosto completamente branco. Em sua inocência, não tinha pensado nisso. Não tinha meditado sobre as conseqüências de ter estado com o capitão Shaoran Li. Tinha acreditado que a origem de seus males residia na preocupação por tudo o que acontecera. Mas agora pensava de outro modo. Ia ter um bebê, um filho daquele descarado. Aquele desavergonhado ! Louco ! Lunático ! "Oh, Deus !", pensou. "Por quê ? Por quê ?"
Lívida de raiva, tia Natsumi agarrou-a pelos cabelos e começou a sacudir-lhe a cabeça, ameaçando-a, puxando-a. De repente, a tia ficou com o rosto iluminado, e empurrou Sakura até uma cadeira que estava próxima.
- Quem foi ? Quem é o desgraçado ? - interrogou-a gritando, apertando os braços até que a dor a obrigou a protestar - Diga ou juro que lhe tirarei isso !
Para Sakura, era impossível pensar. Ficou surda, como que inconsciente pelo impacto.
- Por favor, por favor, me deixe em paz - implorou, confusa.
- Yukito; foi ele, não ? Seu tio me contou que foi muito carinhoso consigo e agora sei porque. Ele é o pai do bebê. Se acredita que vai arruinar meu bom nome na aldeia e ficar por isso mesmo, está muito enganado. Disse-lhe que se algum dia pecasse, pagaria por isso, e agora você vai casar com Yukito. Esse inútil obsceno ! Pagará por isso, ele o fará !
Lentamente o bom senso começou a vencer a confusão. Sakura entendeu o que sua tia estava dizendo, o que havia dito a respeito de Yukito. Tremendo, fez um esforço sobre-humano para recuperar a consciência. Não ia deixar que culpassem Yukito. Não podia feri-lo dessa maneira e deixar que a desprezasse ainda mais. Recolheu o vestido do chão e cobriu o corpo.
- Não foi Yukito - replicou brandamente. Sua tia se virou.
- Como ? O que disse, menina ? - inquiriu.
Sakura se sentou imóvel, olhando fixamente para o fogo.
- Não foi Yukito - repetiu.
- E quem foi, se não esse sapateiro ?
- Foi um capitão que veio das colônias - explicou Sakura. Suspirou com apatia, apoiando sua face contra o respaldo alto e tosco da cadeira. As chamas da chaminé iluminavam seu rosto - Seus homens me encontraram e me levaram até ele. Ele me forçou. Isso eu juro por Deus.
Que diferença fazia se aquele homem a tivesse violado ? Todo mundo saberia em poucos meses que estava grávida, a não ser que sua tia decidisse mantê-la em casa e não a deixasse ir à aldeia. Mas nesse caso, como explicariam a presença do bebê, uma vez que tivesse nascido ?
Sua tia franziu o cenho, sobressaltada.
- O que está dizendo? - inquiriu - Que a encontraram ? Quando ? Onde foi isso ?
Sakura não podia contar à tia sobre a morte de Daisuke.
- Perdi-me ao me separar por acidente de seu irmão. Dois marinheiros ianques me encontraram - murmurou. Continuava contemplando o fogo - Entregaram-me ao seu capitão para que se divertisse comigo, e ele não me deixou partir. Só quando ameacei um de seus homens com uma arma, consegui fugir. Vim aqui em seguida.
- Como se separou de Daisuke ? - perguntou Natsumi. Sakura fechou os olhos.
- Fomos a... uma feira... e não sei bem como, mas nos perdemos - mentiu - Não contei antes porque não vi razão para fazê-lo. É filho do ianque, não de Yukito. Mas não se casará comigo. Esse é dos que fazem exatamente o que deseja e não concordará em tomar-me por esposa.
Tia Natsumi esboçou um sorriso ameaçador.
- Isso é o que veremos - replicou - Agora me diga, seu pai não tinha um amigo que era juiz em Londres ? Chamava-se lorde Kerbekos, não é mesmo ? E não era ele quem controlava as investigações de todos os navios suspeitos de contrabando ?
Uma vez mais, a confusão tomou conta da jovem. Seus pensamentos estavam muito emaranhados para poder responder à sua tia. Finalmente lhe respondeu hesitantemente:
- Sim, era lorde Kerbekos, e pelo que sei continua sendo; mas por quê ?
O sorriso de Natsumi tornou-se mais amplo.
- Não se preocupe com as razões - comentou, maliciosa - Quero saber mais a respeito de lorde Kerbekos. Conhecia você ? Era muito amigo de seu pai ?
Uma ruga cruzou a delicada fronte de Sakura.
- Lorde Kerbekos era um dos melhores amigos de meu pai. Estava acostumado a vir freqüentemente à nossa casa. Conhece-me desde que eu era uma garotinha.
- Bem, tudo o que precisa saber no momento é que ele vai ajudá-la a se casar - concluiu tia Natsumi com uma expressão maquiavélica - Agora se banhe e se deite. Amanhã iremos a Londres, portanto teremos que nos levantar muito cedo para não perder a carruagem que sai do povoado. Não ficaria bem ir ver lorde Kerbekos numa carroça. Agora se apresse.
Sakura ficou de pé com grande esforço e completamente desconcertada pela atitude de sua tia. Não entendia por que ela queria saber coisas a respeito de lorde Kerbekos, mas era uma expert na hora de forjar planos ardilosos e não valia a pena perguntar. Meteu-se obedientemente na tina sentindo um peso no ventre. Agora, pela primeira vez, ficou consciente de que estava grávida.
Não havia dúvida disso. Tinha que tê-lo esperado de um touro americano como ele. Forte, potente, de raça pura. Tinha completado as obrigações de um homem com uma facilidade exasperante. Enquanto homens magníficos suavam sobre suas mulheres sem resultado, ela tinha tido a desgraça de ser possuída por um macho tão viril como o capitão.
"É abominável !", gritou para si mesma. "É o demônio".
Um pranto surdo surgiu de sua boca. Estremeceu violentamente ao dar-se conta do que ocorreria se o obrigassem a casar-se com ela. Desposada por um vadio como ele, sua alma e toda sua vida estariam perdidas. Estaria condenada por toda a vida.
Mas pelo menos o bebê teria um nome, e possivelmente tiraria algo bom de tudo isso.
Seus pensamentos centraram-se no filho que estava esperando. Estava destinado a ser moreno, como seus pais, e provavelmente seria atraente se se parecesse com Shaoran. Pobre menino, mais lhe valeria ser feio e não ter um descarado sem vergonha como seu progenitor.
Mas o que aconteceria se fosse uma menina ? Seria um duro golpe na confiança de uma besta varonil como aquela. Se viesse a se casar com ele, pensou Sakura maliciosamente, rezaria para que fosse uma menina.
Antes de terminar seu banho, Sakura ouviu seu tio muito agitado no outro quarto. A mulher não tinha sido capaz de esperar até o amanhecer para contar as novidades ao seu tio.
Ela se levantou da tina e se cobriu com uma toalha ao ver seu tio entrar no diminuto lugar. Parecia ter envelhecido dez anos.
- Sakura, filha, tenho que falar com você, por favor - rogou o homem.
A jovem corou, abraçando-se à toalha para que cobrisse seu corpo nu. O tio não percebeu que ela não tinha roupas.
- Sakura, está dizendo a verdade ? Foi o ianque o que plantou sua semente em você ? - inquiriu.
- Por que quer saber ? - perguntou ela cautelosamente.
Haruhiko Kinomoto esfregou a testa com uma mão trêmula.
- Sakura. Sakura, alguma vez Daisuke a tocou ? Fez mal a você de algum modo, pequena ?
Nesse momento ela compreendeu por que seu tio tinha estado olhando-a daquela forma tão estranha após ter voltado de Londres. Conhecia Daisuke e estava preocupado com ela. Agora não podia fazer outra coisa senão tranqüilizá-lo.
- Não, tio, ele não me fez nenhum mal - mentiu - Nós nos perdemos na feira. Sabe ? Havia uma feira e eu queria ir. Ele foi muito amável e me levou. Mas me perdi e não consegui encontrá-lo. Foi então que esses homens me levaram ao seu capitão. O ianque é o pai.
Haruhiko soltou um suspiro de alívio. Um sorriso tímido apareceu em seu rosto.
- Pensei... não importa. Estava preocupado com você - confessou - , mas agora temos que encontrar o pai. Desta vez não falharei. Não posso falhar à filha de meu irmão.
Sakura conseguiu esboçar um sorriso. Não podia dizer que não valia a pena ir a Londres, pois o capitão Shaoran Li jamais se casaria com ela.
Ela permaneceu em silêncio.
Ao chegarem a Londres, procuraram alojamento em uma estalagem. Tio Haruhiko enviou uma mensagem a lorde Kerbekos pedindo uma entrevista. No dia seguinte foi recebido em sua casa. Sakura e a tia permaneceram na estalagem esperando o resultado do encontro. Apesar de sentir uma enorme curiosidade, a moça não se atreveu a perguntar o que estavam tramando. Nada mais fez senão esperar tio Haruhiko voltar e reunir-se a Natsumi.
Sakura achou que, qualquer que fosse o plano que tinham, estava indo bem, já que seu tio havia voltado muito mais animado do que quando partiu.
Depois de lhe assegurar que lorde Kerbekos os ajudaria a resolver o problema, ordenaram-lhe que se deitasse.
- Você só precisa comprovar que estamos dizendo a verdade e fará o que deve ser feito - explicou tio Haruhiko - E seu ianque não vai se negar a casar com você a não ser que queira perder tudo o que possui e acabar no cárcere.
Ela não entendia nada. Não podiam prender um homem por negar-se a se casar com uma mulher a quem tinha engravidado. Havia muitos bastardos rondando por aí para que algo assim ocorresse.
Não, foram ameaçá-lo com algo mais. Mas ela só era capaz de pensar nas conseqüências que teria o fato de forçá-lo a se casar. Sua vida se tornaria um inferno, não havia palavra que a descrevesse melhor. Tinham arrebatado o assunto de suas mãos. E não sabia nem mesmo o que era pior, se estar casada com o demônio ou ter de criar um bastardo.
Era quase meia-noite quando as mãos enormes de tia Natsumi a sacudiram, tirando-a bruscamente de seu profundo sono.
- Acorde, mocinha endemoniada - gritou - Seu tio quer falar com você.
Sakura se levantou, sonolenta, e ficou olhando para a tia, que estava de pé junto à cama, com uma vela acesa na mão.
- Ande logo. Não temos a noite inteira - apressou-a. Natsumi se virou na penumbra e desapareceu. Sakura ficou procurando-a com o olhar, ainda sonolenta. Afastou a colcha a contragosto, deixando que seu corpo branco reluzisse na escuridão e seu cabelo, caindo pela cintura, se perdesse na noite. Pela primeira vez em muitas semanas tinha conseguido dormir sem pesadelos. O barulho da chuva batendo nas janelas tinha lhe ajudado a esquecer suas preocupações, reduzindo-as a uma calma silenciosa. Deitada na suavidade aveludada de seu leito, tinha caído em uma doce inconsciência. Era absolutamente compreensível que se recusasse a levantar; mas devia obedecer à sua tia ou sofrer as conseqüências.
Acordou e vestiu o vestido velho de sua tia. Não perdeu tempo em apertá-lo. Podia imaginar por que queriam falar com ela. Estava preparada para ouvi-los dizer que o capitão Shaoran Li tinha recusado qualquer tipo de coação que o obrigasse a casar-se com ela. Não seria uma surpresa. Se tivessem perguntado algo sobre o homem, poderiam ter economizado a viagem a Londres. Não levaria muito tempo para contar-lhe o que o capitão lhes tinha dito.
Sakura bateu timidamente na porta. Sua tia abriu bruscamente com um olhar de ódio e fez um gesto para que entrasse. Ao fazê-lo, a jovem percebeu a escuridão que havia no aposento. Um pequeno fogo resplandecia na chaminé e sobre a mesa em que seu tio e outro homem bebiam cerveja de jarras, brilhava uma única vela. O restante do aposento permanecia completamente às escuras. Aproximou-se com cautela para ver quem era o visitante e descobriu que não se tratava de um estranho, mas sim do velho amigo da família, lorde Kerbekos.
Aliviada, ela correu agradecida para os braços que o homem lhe estendia.
- Sakura ! - exclamou lorde Kerbekos com voz abafada - Minha pequena Sakura.
A jovem o abraçou com força. O pranto começou a brotar do mais fundo de sua alma. Depois de seu pai, aquele homem tinha sido a pessoa a quem mais tinha amado durante sua infância. Sempre se tinha dado extremamente bem com ela, e significava, inclusive, mais do que seu próprio tio. Ele e sua mulher tinham desejado que Sakura fosse viver com eles depois da morte de seu pai, mas tia Natsumi tinha insistido em que a menina devia viver com seus únicos parentes.
- Faz muito tempo depois da última vez que a vi, pequena - murmurou lorde Kerbekos, afastando-a dele para contemplá-la melhor. Seus amáveis olhos azuis cintilaram - Ao olhá-la, lembro de quando não era mais que uma garotinha que engatinhava até meus joelhos à procura de caramelos - sorriu abertamente ao levantar o delicado queixo da jovem - E agora é a beleza personificada. Nunca vi antes uma formosura igual, jamais. É inclusive mais bela que sua mãe. É uma pena que eu nunca tenha tido filhos com os quais pudesse casá-la. Teria me agradado enormemente tê-la na família. Como também não tenho filhas, quase poderíamos afirmar que é como se você fosse uma filha.
Ela se levantou para poder beijá-lo no rosto.
- Eu me sentiria muito honrada de ser sua filha - respondeu docemente.
Lorde Kerbekos sorriu feliz e afastou uma cadeira para que a moça se sentasse, mas tia Natsumi a empurrou e sentou-se em seu lugar.
- Deixe que fique de pé. Isso lhe fará bem - disse. Ao ajeitar corpo monstruoso entre os braços da cadeira, esta rangeu em protesto pela tortura à qual estava sendo submetida.
Lorde Kerbekos ficou boquiaberto contemplando Natsumi com os olhos muito abertos. A crueldade daquela mulher o pegara desprevenido. Indicou a Sakura outra cadeira na ponta da mesa.
- Provavelmente ficará mais confortável ali, querida - observou, dirigindo-se para a cadeira para aproximar-se dela.
- Não - falou tia Natsumi, apontando para um canto escuro - Essa cadeira é para ele.
- Não, obrigado, senhora - respondeu o homem lenta e confidencialmente - Eu estou bem aqui.
Sakura levantou a vista, surpresa. Não sabia que havia mais alguém no aposento. O homem se sentara na penumbra e seu silêncio permitiu-lhe continuar no anonimato.
- Aproxime-se e reúna-se a nós, capitão Li - grasnou tia Natsumi - Este é o lugar adequado para um ianque.
O coração de Sakura teve um sobressalto.
- Estou bem aqui.
A voz familiar ecoou em seus ouvidos. Sakura percebeu que seus joelhos fraquejavam, e desmaiou. Lorde Kerbekos soltou um grito e a agarrou a tempo de amortecer a queda.
- Ela sofreu um colapso - afirmou, balançando-a entre seus já envelhecidos braços. Acomodou-a com doçura na cadeira que o capitão Shaoran Li tinha recusado momentos antes e, nervoso, agarrou um lenço, umedeceu-o e o colocou sobre a testa pálida - Você está bem ? - perguntou ansioso, quando a jovem começou a recuperar a consciência.
- Não a deixe mal-acostumada, lorde Kerbekos - sugeriu tia Natsumi, com uma careta de desprezo - Vai se tornar uma preguiçosa graças ao senhor.
- Estou convencido de que ela merece um descanso, depois de ter convivido com você - replicou lorde Kerbekos, furioso pela indiferença daquela mulher.
- Por favor - sussurrou Sakura - Eu estou bem.
Com dedos trêmulos, lorde Kerbekos afastou-lhe o cabelo da testa.
- Você deu um bom susto ao meu velho coração - brincou o ancião.
- Sinto muito - murmurou Sakura - Não era a minha intenção. Já estou melhor - percebeu que os penetrantes olhos seguiam-na observando-a. Ajustou o vestido sobre o busto com a ajuda das mãos ainda trêmulas. Lembrava-se de como o potente olhar era capaz de despi-la e despojá-la de qualquer vestimenta.
- Venha, vamos acabar com este assunto - resmungou tia Natsumi - Ouçamos o que a garota tem a dizer.
Lorde Kerbekos olhou indeciso para a jovem, temendo que voltasse a desmaiar. Sakura esboçou um débil sorriso para tranqüilizá-lo. O homem a deixou, reticente, e voltou ao seu lugar, do outro lado da mesa.
- E agora, mocinha - começou tia Natsumi - , lorde Kerbekos deseja assegurar-se de não cometer uma injustiça com o capitão Li ao afirmar que o filho que você espera é dele.
Sakura olhou para o ancião. Sentia-se muito aturdida para entender o que Natsumi estava dizendo. Lorde Kerbekos se voltou para esta com o cenho franzido.
- Senhora, talvez não tenha percebido que eu tenho língua - disse lorde Kerbekos - Garanto-lhe que é muito mais eloqüente que seu discurso embrulhado. Se não se importar, falarei por mim mesmo.
Tia Natsumi fechou a boca, mal-humorada, e se ajeitou em sua cadeira.
- Obrigado - acrescentou asperamente lorde Kerbekos, voltando a olhar para a jovem - Querida - disse calmamente - , como homem de honra que sou, não posso obrigar o capitão Shaoran Li a reconhecer seu filho, se não estiver completamente seguro de que ele é o pai. Se tiver sofrido abusos por parte de outro homem...
- Não houve mais ninguém - assegurou a moça com calma, olhando as mãos. Relatou os fatos como se os tivesse memorizado um a um - Depois de escapar dele - explicou - , peguei uma carruagem que me conduziu de volta à casa de meu tio. Só há um carro que sai pela manhã e que chega à aldeia. Cheguei ao anoitecer e caminhei o resto do trajeto até à casa. Não me encontrei com ninguém. Minha tia pode confirmar a hora em que cheguei.
- E desde que o fez não a perdi de vista nem por um segundo - assegurou a mulher em tom triunfal.
Lorde Kerbekos olhou para Haruhiko Kinomoto para confirmar que o que sua esposa afirmava era verdade.
- E o que aconteceu antes disso, Sakura ? - insistiu o ancião, hesitante.
A jovem ruborizou-se intensamente e não conseguiu responder. Das sombras, voltou a ouvir a voz confiante.
- O bebê é meu - afirmou Shaoran, categórico. Tia Natsumi soltou uma gargalhada e se virou para lorde Kerbekos com um sorriso vitorioso.
- E agora, o que tem a dizer sobre isso ? Você o fará ? - inquiriu ansiosa.
- Sim - lorde Kerbekos suspirou, cansado - Para corrigir a enorme falta de decoro infligida a Sakura devido à sua lamentável negligência, senhora, devo fazê-lo. Lamento o dia em que permiti que a levasse para viver sob o seu teto. Deveria proteger mais cuidadosamente a esta inestimável jóia - desviou o olhar, cheio de raiva, para tio Haruhiko, que permanecia muito calado, totalmente envergonhado - Vocês, que são do mesmo sangue, não valem nada diante de meus olhos. Eu desprezo-os.
- Bem, e ela ? - gritou tia Natsumi - Foi ela a responsável por isso. Foi ela quem se escancarou na cama desse ianque.
- Não ! - exclamou Sakura involuntariamente. Com um grunhido, tia Natsumi se voltou e deu uma bofetada tão forte que o lábio inferior da moça começou a sangrar e o seu rosto ficou vermelho.
Uma jarra de cerveja estremeceu contra a mesa na escuridão. Sakura viu diante de si, e com lágrimas nos olhos, o capitão Shaoran Li ficar de pé de um salto, inclinando-se para frente, plantando firmemente as mãos sobre a mesa e falando à sua tia em tom ameaçador:
-Senhora, seus atos são da mais vil natureza ! Você tem o comportamento de um bárbaro. Se você fosse um homem, asseguro-lhe que eu exigiria um ajuste de contas pelo que acaba de fazer. Agora, será melhor que Sakura vá se deitar. É evidente que está muito consternada por todo este assunto.
A jovem levantou, pensando que podia retirar-se e se dirigiu para a porta. De repente, tia Natsumi a agarrou pelo vestido e grunhiu:
- Não ! Pelo menos uma vez em sua vida, você vai ficar e ser responsável por seus atos. Nenhuma jovem decente iria para a cama com um homem. Fiz tudo o que pude para incultar em você o medo de Deus, mas você é a faxineira do demônio. Olhem o que lhe aconteceu.
Natsumi arrancou-lhe sem piedade o velho vestido deixando seu belo corpo nu à vista de todos.
Na escuridão, o capitão Shaoran Li, furioso, afastou a cadeira. Irado, cruzou o aposento com grandes passos. Tia Natsumi caiu na cadeira contemplando a figura envolta em uma capa negra e o rosto enfurecido, avermelhado pelo resplendor das chamas. Arregalou os olhos e sentiu que os pés lhe gelavam. Tinha acusado Sakura de ser uma bruxa e agora estava convencida de que o homem que estava diante de si era a encarnação de Satã. Levantou as mãos para defender-se dele, mas Shaoran sacudiu a água de sua capa e estendeu-a a Sakura, que tentava desesperadamente esconder sua nudez. A jovem se cobriu com ela, tremendo violentamente. A proximidade daquele homem corpulento a enchia de terror.
Shaoran lançou um olhar de fúria às três pessoas que o observavam.
- Já basta de tanto palavreado inútil - exigiu friamente - Esta moça carrega meu filho no ventre, e por isso eu sou o responsável por lhe proporcionar o sustento. Atrasarei minha viagem de volta para casa para me certificar de que ficará instalada em uma casa de sua propriedade, com criados que se encarregarão de cuidar dela - olhou para lorde Kerbekos - Dou minha palavra de que tanto ela quanto o bebê terão a melhor educação. Está óbvio que ela não deve viver mais nenhum instante com seus parentes. Não permitirei, sob nenhuma circunstância que meu filho cresça em contato com a malícia dessa mulher que se atreve a chamar a si mesma de tia. Tinha decidido que esta seria minha última viagem a Inglaterra, mas devido às circunstâncias, continuarei vindo todos os anos para me assegurar de seu bem-estar. Amanhã cedo eu irei procurar um alojamento adequado para a jovem, depois virei aqui buscá-la e a levarei a uma costureira, para que a vista adequadamente. Agora, senhor, desejo retornar ao meu navio. Se tiver de dizer algo mais a estas pessoas, esperarei-o na carruagem até que conclua seus assuntos - desviou o olhar para tia Natsumi e lentamente e com muita precisão, acrescentou: - Sugiro-lhe, senhora, que pense bem antes de pôr as mãos em cima desta jovem ou irá lamentar por isso.
Após ter dito isso, dirigiu-se para a porta e partiu com a promessa única de sustentar ao seu filho bastardo e à sua mãe. Ninguém se atreveu a expor o assunto do casamento. Afastava-se com o único propósito de convertê-la em sua amante.
- Quando acabarmos com ele, já não será tão arrogante e poderoso - assegurou tia Natsumi com desprezo. Lorde Kerbekos a olhou friamente.
- Parece que devo satisfazer sua vingativa exigência com considerável desagrado - queixou-se categoricamente - Se não fosse por Sakura, eu daria o assunto por encerrado, mas devo, por sua segurança, levar este homem ao altar. Acautelo-a, senhora, de que o capitão Li tem muito mau gênio. Fará bem em levar suas palavras a sério.
- Não tem nenhum direito de me dizer como devo tratar a menina - respondeu Natsumi.
- Nisso se engana, senhora - replicou lorde Kerbekos asperamente - Ele é o pai de seu filho e em poucas horas será seu marido.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.
