Olá, essa fanfic faz parte do Projeto RKverso 2022 e foi escrita por Jojo ( aelinswan no twitter). Os personagens principais dessa história são Monte Harris (High Life) e Norah Price (Underwater).
Os personagens não me pertencem, mas o enredo é inteiramente meu. Lembrem-se que plágio é crime.
Primam Partem
Aos trinta e dois anos, eu nunca vi o Sol.
Bom, considerando que ninguém que eu conheço - na verdade, ninguém em geral -, vê o Sol há pouco mais de um século, então eu não sou um caso isolado.
Lembro de achar fascinante as fotos de pessoas sentadas a luz solar em praias e parques quando a superfície da Terra ainda era habitável. Costumava imaginar se a sensação das pessoas naquelas fotos era parecida com o que eu sentia quando estava apoiada na beirada da piscina da casa dos meus pais, as lâmpadas artificiais que esquentavam e substituíam o trabalho que, teoricamente, o Sol deveria fazer, esquentando minhas costas.
Naquela época, aos 17 anos, eu costumava fechar os olhos e imaginar que o vento tocando meu rosto não era produzido por máquinas, que eu mesma não tinha configurado as ondas da piscina, que era areia pinicando a pele dos meus braços, ao invés do mármore branco, que aquelas árvores e arbustos estavam plantados na terra, não sido desenvolvidos – ainda que de maneira inteligente – artificialmente, para que não morressem ou saíssem do lugar ao longo do tempo.
Eu imaginava, e sonhava, e desejava, mas então abria os olhos e a realidade me dava um tapa na cara.
A população humana estava a mais de três mil metros da superfície da Terra, há cento e trinta anos. Na escola, aprendemos a história do que levou a humanidade à desgraça. Uma guerra de interesses entre homens que tinham poder demais, riqueza demais e ganância demais, todos guiados pelo desejo de conseguir sempre mais. Nenhum deles se preocupava com as populações que representavam, muito menos com a natureza de onde vivíamos. Também não pensaram nas consequências dos meios usados durante o conflito.
Milhões morreram brigando pelos mesmos homens que se protegiam atrás de palacetes, dinheiro e títulos. Como resultado das bombas e armas biológicas que usaram, a superfície da Terra se tornou tóxica. Doenças novas, desenvolvidas pelas condições nada saudáveis, dizimaram mais ainda. Em pouco tempo o mundo hava ficado irreconhecível. Os sobreviventes tinham sorte ou resistência, os governos diziam que iriam solucionar aquilo e, então, foi naquele momento que uma ideia – antes considerada estúpida – foi posta em prática. Os Bunkers.
Com o passar dos anos e o desenvolvimento de pesquisas no oceano, muito foi descoberto. Os pesquisadores chegaram ao que seria o "chão" com o uso de dispositivos produzidos para aguentar a extrema pressão. Aquela pesquisa tinha acontecido antes do problema ambiental começar a matar pessoas, e foi justamente por esse conhecimento que a ideia dos Bunkers surgiu.
Três estruturas enormes de 270 andares foram construídas para a população dos Estados Unidos, apelidados de Oriri, Spes e Procellas –, segundo os livros da escola, no Bunker onde eu morava, Spes, a construção era do tamanho da cidade de Baltimore, uma das menores cidades dos Estados Unidos da América, e tinha capacidade para abrigar 40% da população do país quando a grande imersão – como ficou conhecida a mudança da população da superfície para os Bunkers – aconteceu.
Isso é o que eles nos contavam na escola. A parte que qualquer professor esquecia de mencionar, era que não tinha espaço suficiente para todos, mesmo considerando os três Bunkers e a população extremamente reduzida por conta das mortes. Entre Oriri, Spes e Procellas, apenas 80% da população dos Estados Unidos de antes da grande imersão poderia ser abrigada, isso, é claro, se pagassem a taxa obrigatória.
Existiam três faixas de preço: a meso – a mais cara de todas, que garantiria um lugar entre os noventa primeiros andares e privilégio de locomoção pelo resto da Spes –, a bathy – que dava lugar entre os noventa andares do meio e também permitia locomoção –, e a hadal – que era a mais barata, e somente autorizava o uso dos últimos noventa andares.
Teoricamente, ficaríamos nos Bunker apenas por um tempo, cinquenta anos no máximo, até a superfície ser habitável de novo, mas já tínhamos ultrapassado oitenta anos daquele prazo e, bem...
Cada andar era composto como se fosse uma cidade do antigo mundo. Construções novas não eram comuns, mas as reformas e atualizações aconteciam com frequência. Os primeiros noventa andares, Meso, como ficou conhecida, era a área que mais... moderna. Hospitais com acesso ao melhor maquinário, casas e apartamentos de luxo, shoppings centers, academias, as melhores escolas, as únicas vinte universidades de todo Bunker também ficavam ali... tudo aquilo destinado ao acesso de poucos: apenas aqueles que a família, centro e trinta anos antes, pagou a taxa exorbitante dos primeiros andares. Os preços dos produtos variavam a cada área – muito mais por conta do status de cada área do que quanto a população podia gastar em si –, o mesmo pacote de maçãs que custava quinze pecúnias, moeda oficial dos Bunkers, custava oito na Bathy e cinco na Hadal.
A área da Bathy era o que as pessoas antes consideravam classe média. Escolas relativamente boas, acesso a faculdade era apenas para aqueles que davam sorte de conseguir uma bolsa em alguma das faculdades da Meso, os hospitais eram mal equipados, e os salários para os empregos disponíveis ali era bem menor, o que não conseguia garantir uma educação universitária sem bolsa. Tinha apenas cinco shoppings para os noventa andares daquela área, que era bem pouco, comparado aos dez da Meso.
Apesar disso, a vida naqueles andares parecia um sonho, se comparada a Hadal.
Não tinha nada lá. Hospitais, shoppings, escolas, qualquer coisa relacionada a saúde, bem-estar ou educação pública não era de acesso àqueles que moravam nos últimos noventa andares do Bunker. As únicas coisas que tinham lá eram as fábricas e fazendas que forneciam alimentação, energia, água, roupas – vida no geral –, para as outras duas áreas. Muito pouco ficava para eles, mesmo que fosse a área mais populosa de todo Bunker. As pessoas viviam miseravelmente ali.
Diferente da Meso e Bathy, a população da Hadal não tinha permissão para se locomover na totalidade dos 270 andares da construção, podia apenas circular nos noventa de sua área. Aquilo era controlado de maneira simples: na idade de cinco anos era feito o registro que daria direito ao trabalho, estudo – a quem fosse permitido – comprar e se locomover. Esse registro era marcado com um chip minúsculo que era introduzido nos braços das crianças naquela idade. Sensores nos attollos, os cinco elevadores gigantes que faziam o transporte no Bunker, identificavam quem era a pessoa que tentava entrar, e autorizavam ou não a locomoção.
Aquilo era feito até os cinco anos porque a prática da barriga de aluguel, adoção e até venda de crianças por pessoas da Meso, e alguns da Bathy, era muito comum. Por isso, aquela idade era o limite para que todo aquele processo acontecesse.
Essa era, basicamente, a única possibilidade de ascenção social para aqueles nascidos de moradores da Hadal. O casamento entre pessoas dos últimos andares e dos primeiros cento e oitenta não era permitido, isso, é claro, fez o óbvio: quem era rico na grande imersão, apenas enriqueceu mais. Os que não tinham acesso, salvo as raras exceções, nunca poderiam melhorar de vida.
Tinha sido assim nos últimos oitenta anos. Acho que ninguém esperava que as coisas mudassem, não de verdade, mas, se existia algo que eu acreditava fielmente e se mostrou verdade, era que bastava uma pessoa para fazer a diferença.
Eu conheci Monte Harris de uma maneira abrupta. Nunca tinha ouvido falar do homem antes, ele tinha ouvido falar de mim.
Isso, é claro, não significava muito. Poucas pessoas não tinham ouvido meu nome naquele Bunker.
Eu era muito privilegiada e sabia disso. Tinha nascido no nono andar da Meso, meus dois pais eram cirurgiões, meu pai era o chefe de cirurgia do principal hospital da primeira área e minha mãe era cirurgiã neurológica do mesmo hospital. Sendo filha única de um casal rico dos primeiros andares, frequentei as melhores escolas e não foi surpresa para ninguém quando segui os passos deles e também virei cirurgiã.
O que surpreendeu e causou choque foi o que fiz depois disso.
Eu ainda lembrava da conversa que tive com meus pais, aos doze anos, quando questionei se poderiam me levar para a Hadal:
-Norah –minha mãe, sentada na cadeira ao meu lado, começou. –A Hadal é um lugar horrível e muito perigoso. Muita coisa ruim pode acontecer lá embaixo, especialmente com você, que é da Meso.
-Mas não tem pessoas boas lá, mamãe?
Ela trocou um olhar com meu pai, sentado na nossa frente.
-Existem algumas pessoas boas lá, mas não são muitas –foi ele quem respondeu. –Nosso parlamento é muito caridoso em deixar que essas pessoas continuem vivendo lá.
-Então se são poucas, por que não deixam elas subirem?
-Querida, vamos comer, sim? Depois continuamos a conversar.
Agora, não vou mentir, até meus dezoito anos eu acreditei nos dois. Nunca tinha visto pessoalmente, mas eram meus pais, para mim a palavra deles era lei. Talvez, se eu não fosse curiosa, consciente e, acima de tudo, orgulhosa, minha vida seria diferente. Para o desagrado dos meus pais, eu era tudo aquilo.
Aos dezoito anos, fiz amizade com alguns alunos mais... rebeldes, da escola em que estudava. Eles estavam envolvidos com todo tipo de coisa que era ilegal, mas que as pessoas viravam o rosto e fingiam que não viam, porque éramos ricos e influentes.
Muitas dessas coisas ilegais aconteciam ou eram comercializadas na Hadal, lugar que eu nunca tinha ido até então, mesmo sendo amiga deles. Mas então, um mês antes da minha formatura, uma das meninas disse o que ia mudar meu plano de vida:
-Ah, Norah –a ruiva revirou os olhos castanhos para mim, parando para expulsar a fumaça do baseado que estávamos passando de mão em mão. –Por favor, todos nós sabemos que você nunca foi na Hadal porque tem medo.
Uma semana depois desci com eles.
O plano era comprar as ervas, bebidas e outras coisinhas para a festa de formatura que daríamos. Eu estava nervosa, mas não admitiria que nenhum deles dissesse que eu tinha medo.
Descemos do attollo no andar 235, era noite, mas o comércio ali estava fervendo. Os arredores de onde tínhamos descido tinha uma beleza caótica, cores demais, pessoas demais, barulho demais. Fiquei encantada, vendo em primeira mão que o que meus pais tinham me dito por tanto tempo era falso.
Porém, o quanto mais andávamos e nos embrenhávamos nas ruas estreitas, indo até o comerciante que fornecia tudo para eles, eu também via a miséria. As casas e prédios pareciam que nunca tinha sido reformados desde a grande imersão, janelas quebradas cobertas por papelão, portas que eu sabia que cederiam com o mais leve dos chutes... era a primeira vez que eu via aquilo.
Olhei para os outros, mas eles pareciam estar acostumados com a visão da tristeza. Na ocasião, pensei que aquilo nunca seria normal para mim, não importa quanto eu tivesse visto, e eu estava certa.
A visão de tudo aquilo me assustou, mas o que me chocou de verdade, foi quando chegamos na casa do comerciante. Tinha a mesma aparência das outras, mas era só pela vista, percebi, quando a porta foi aberta e entramos naquele ambiente decorado o suficiente para se passar por qualquer casa da Bathy ou até mesmo alguém mais discreto da Meso.
Uma mulher apareceu, o cabelo castanho claro estava preso em duas tranças que terminavam em um coque baixo, a pele era clara e os olhos tinham um tom verde deslumbrante. Ela devia ter, no máximo, uns vinte anos, mas seus ombros pareciam carregar a dor de alguém que já tinha passado por muito mais do que deveria.
-Ei, Marie –Bryce, a ruiva estonteante de quem eu era mais próxima, cumprimentou enquanto entrávamos. –Essa é Norah, é aquela nossa amiga que a gente têm comentado com você e o Frank.
Marie lançou um sorriso apertado na minha direção, o que eu retribui.
-Prazer, Norah. O de sempre, Bryce?
-Sim, sim –respondeu, puxando o dispositivo eletrônico que usávamos para fazer as transferências de pecúnia na hora das compras.
Marie assentiu, se movendo através da sala até abrir um pequeno baú, puxando alguns saquinhos transparentes das ervas que iríamos queimar mais tarde. A morena entregou os saquinhos para Bryce em seguida, que dividiu entre todos do grupo até que cada um ficou responsável por um dos saquinhos.
Já tinha enfiado no bolso da calça que eu usava e estava me preparando para ir embora, procurando pelo próximo item em nossa lista, quando Bryce voltou a falar:
-E o Frank? Não quis vir trabalhar hoje?
A expressão de Marie ficou sombria, a dor em seus olhos nítida.
-Frank pegou stultus. A gente pensou que ele tinha melhorado mas... ele faleceu duas semanas atrás.
Meus dedos apertaram o tecido da minha calça enquanto um zumbido crescia nos meus ouvidos.
Stultus era a doença que tinha matado milhões de pessoas na superfície antes da grande imersão. Nos primeiros anos do Bunker, era comum que alguns ainda morressem da doença que, em tradução aberta do latim, se chamava "estúpido", mas a cura – prevenção, na verdade – tinha sido desenvolvida muito rapidamente e logo virou uma gripe fraca.
Isso é, gripe fraca para aqueles que tinham acesso a vacina.
Naquele dia e nos próximos, fiquei pensando na horrível situação. Era tão... maldoso que privassem uma população daquele tamanho a vacina, praticamente condenando aqueles que contraiam a morte. Morte por uma doença tão simples se comparada a nossa tecnologia que, literalmente, se chamava estúpido.
Foi ali que eu mudei.
Fui para a faculdade de medicina já com meu plano em mente. Iria usar aquela influência e aquele poço de dinheiro que eu tinha acesso para ajudar, da maneira que eu poderia, e assim nasceu Spes Clinic pro Omniums, per Norah Price. Clínica Esperança para Todos, por Norah Price, em tradução direta. O nome, Esperança para Todos, tinha sido sugestão de Bryce, que também tinha entrado na faculdade de medicina e se envolveu no projeto uma vez que tive coragem de contar para ela.
Eu e ela dividíamos um apartamento no quarto andar, onde era a universidade, e estávamos deitadas no tapete da sala de estar, os tablets, notebooks e três livros raríssimos – já que papel não era mais algo comumente usado nas primeiras áreas – que tínhamos conseguido pegar emprestado da biblioteca da faculdade. Dois deles eram as constituições que o Bunker já teve desde a grande imersão e o terceiro era a constituição que estava em vigor. Estávamos pesquisando, procurando por brechas em leis que permitissem que clínicas fossem montadas na Hadal.
Estávamos há semanas naquilo, sabendo que se desenvolvêssemos o projeto sem fazer aquilo primeiro, poderia tudo ser tempo perdido no final das contas. Resolvemos parar por um momento, as duas com muita dor de cabeça para ler mais qualquer coisa, e deitamos no chão, lado a lado, olhando para o teto quando ela começou a falar:
-E qual nome vai ser?
Olhei para ela, empurrando meu cabelo loiro, que na época era grande demais, para o lado.
-Eu ainda não pensei nisso.
A ruiva fez uma careta, virando de bruços ao me encarar.
-Como não?
Dei de ombros, não tinha mesmo. Ela bufou, fazendo careta.
-Se você tiver uma sugestão sou toda ouvidos.
Bryce parou um pouco antes que seu rosto brilhasse na expressão que eu já conhecia.
-Sabe aquela frase que tá escrita em cima da entrada do parlamento?
-Sperare merentibus? –perguntei.
O parlamento, que ficava no primeiro andar, era um prédio de quatro andares onde ocorriam as audiências de decisões que afetavam o Bunker como um todo ou uma área inteira. Logo na entrada do prédio, estava escrito Sperare Merentibus, Esperança para os Merecedores, literalmente. Aquele era o lema do Bunker desde a grande imersão, e, além disso, Spes, o nome do Bunker que morávamos, era a tradução para esperança.
Quando criança, achava aquela frase boa. Pensava que significava que as pessoas e famílias que tinham conseguido se salvar na grande imersão eram os merecedores que o lema falava sobre, mas quando cresci... vi as coisas na realidade.
-Sim, essa. E se o nome fosse algo como... Esperança para Todos? Clínica Esperança para Todos. Mas em latim.
- Spes Clinic pro Omniums?
-Sim! É perfeito.
-Não sei, Bryce... isso vai passar uma mensagem.
Um bem óbvia, aliás. A brincadeira com o nome e o lema principal do Bunker era óbvia, ainda mais porque o latim tinha deixado de ser uma língua morta depois da grande imersão e, aqueles que puderam, estudaram e atingiram a fluência durante a escola. Bryce balançou a cabeça negativamente.
-Norah, a clínica poderia chamar Hadal Clinic e ainda mandaria uma mensagem. A mensagem não é o nome, é a ação. Se a gente vai fazer isso, a gente vai fazer do jeito certo.
Passei os anos de faculdade montando, alimentando e planejando aquele projeto. Muitas pessoas se envolveram no caminho, Bryce era, basicamente, a cofundadora da clínica. Porém, quando chegamos no fim, apenas uma pessoa poderia defender o projeto diante do parlamento. Eu reuni a coragem que não tinha e marquei a audiência.
Peguei todos de surpresa. Mesmo com uma quantidade boa de pessoas terem se envolvido no desenvolvimento, poucos sabiam do projeto. Meus pais deram um ataque e disseram que aquilo nunca seria permitido. Acontece que eu era muito persistente e tinha passado tempo demais me preparando e montando tudo aquilo para desistir. Foi quase um ano e meio de discussão e argumentação com o parlamento antes que eu fosse autorizada a dar continuidade.
Dessa maneira, depois de cento e trinta anos, a primeira clínica de assistência médica da Hadal surgiu. Demorou um tempo até que eu e os voluntários que trabalhavam lá ganhássemos a confiança da população, mas, uma vez que aconteceu... as coisas só cresceram.
Consegui, com mais discussão e argumentação, que outras clínicas em outros andares da Hadal surgissem. O atendimento, fornecimento de medicação e qualquer procedimento necessário era gratuito. Inicialmente, o investimento em maquinário, medicação e uniformes para os voluntários saiu do meu bolso e do grupo que desenvolveu o projeto comigo. Na época, eu trabalhava como cirurgiã cardíaca no mesmo hospital que meus pais e como cardiologista em outro hospital para arcar com tudo, mas, com o crescimento exponencial e a minha "boa ação" na boca na população que importava para eles – da Meso e um pouco da Bathy – eles tomaram os gastos com nossos insumos.
Isso tudo me levou até aquele momento. O dia que conheci o homem que queria desafiar as ordens de um século em prol daquela população.
Ann, uma das enfermeiras voluntárias da clínica, tinha ido até o consultório onde eu atendia uma meninha e batido na porta. Achei estanho, eu só era interrompida em atendimentos quando algum paciente cardíaco desse entrada e eu fosse a única cardiologista de plantão, o que não era o caso, já que eu sabia muito bem que Bryce também estava na clínica.
Pedi licença para a mãe dela, rapidamente abrindo a porta e saindo da sala. Ann estava pálida, o que significava muito, porque ela estava constantemente corada.
-O que foi? –perguntei.
-Tem três homens querendo falar com você na emergência.
Franzi ainda mais as sobrancelhas.
-Falar comigo?
-Sim.
Suspirei, mas assenti.
-Ok, avisa que eu estou terminando um atendimento e já vou ver eles.
Nem tinha terminado de falar e já estava virando, totalmente intencionada a entrar na sala e continuar o atendimento.
-Doutora Price, eles pediram atenção imediata.
Parei, com a porta aberta, e virei apenas a cabeça para Ann.
-Algum deles tá sangrando? Tem algum órgão faltando ou tá segurando o intestino com as mãos.
Ann franziu as sobrancelhas.
-Não.
-Então peça que eles esperem até que eu termine o atendimento.
Quinze minutos depois eu entrava na sala de emergência anormalmente silenciosa. Vi as três figuras paradas ali no meio, entre as macas e olhares chocados dos pacientes.
Parei na frente dos três homens com os braços cruzados, observando a postura deles com as sobrancelhas franzidas. O do meio era o mais alto - e mais bonito também - os cabelos ralos combinavam bem demais com a mandíbula bem marcada do homem. Ele tinha olhos claros e uma cicatriz discreta na pálpebra. Estava olhando atentamente para mim, parecendo não reparar no espaço ao nosso redor e como algumas pessoas observavam o trio com hesitação. Não parecia carregar qualquer tipo de arma.
Os outros dois, por outro lado, estavam bem atentos a tudo. Pareciam fazer o papel de… seguranças, talvez? Estavam armados, ou, se não estivessem, precisavam de algum tipo de atendimento médico para resolver a febre que explicaria o uso de casacos dentro da clínica que eu sabia ser quente.
Aquele homem, o do meio, era alguém importante dos últimos andares, conseguia ver aquilo pelo modo como os poucos pacientes – era um daqueles raros dias tranquilos – que ainda esperavam atendimento olhavam pra o trio. Não era medo, exatamente, mas… incerteza e um tipo de esperança, parecia a maneira como as pessoas olhavam para as clínicas quando meu projeto começou. Ele também tinha aquele mesmo olhar de Marie que, mesmo anos depois, ainda me assombrava o quanto aqueles olhos pareciam infinitamente mais velhos que a idade aparentava.
Ele tinha que ser algum tipo de intervencionista do movimento a favor da população dos andares inferiores, apesar de todos aqueles rumores de um grupo contra o governo já estarem circulando por meses e nenhuma ação ter efetivamente acontecido, ou ao menos não a vista de todos. Além disso, todos os rumores tinham dado a entender que o movimento era fraco e pouco abrangente mesmo entre a própria população Hadal, mas não era aquela impressão que todos aqueles olhares, ou os dois seguranças armados, me passavam.
Mas o que alguém como ele iria querer comigo, de todas as pessoas?
-Ah! A infame doutora Norah Price! Que prazer conhecê-la! –o homem do meio disse, sorrindo de maneira fria na minha direção. –Sinto muito ocupar seu precioso tempo, doutora. Posso entender pela demora que você é alguém muito... ocupada.
-Eu estava no meio de um atendimento, você pode ter certeza que não deixaria minha paciente só porque alguém quer conversar comigo –respondi.
-Eu tomaria cuidado com o jeito que fala se fosse você, doutora.
Um arrepio desceu pela minha espinha e meus ombros ficaram tensos automaticamente, mas eu cruzei os braços, ainda encarando o homem.
-Você entra na minha clínica com dois homens armados em seu encalço, exige falar comigo no meio de um atendimento e agora quer ditar a maneira que eu falo ou não?
Acho que ouvi um dos pacientes prender a respiração.
O homem riu, parecendo achar graça da minha resposta.
-Ouvi dizer que a doutora tem algumas garras, mas não acreditei. Sou obrigado a assumir que, realmente, doutora Norah Price, sua reputação lhe precede.
-Gostaria de dizer o mesmo para o senhor, mas não sei nem seu nome.
-Sim, sim, claro, que indelicadeza a minha. Meu nome é Monte Harris.
-E que assunto gostaria de tratar comigo, senhor Monte Harris?
-Ficarei feliz em esclarecer se levar-nos para um lugar mais… privado, talvez?
Passei os olhos por eles mais uma vez antes de assentir lentamente.
-Sim, claro, mas antes preciso avisar que armas não são permitidas dentro da clínica.
O silêncio surgiu imediatamente assim que as palavras saíram da minha boca. Os lábios de Monte formaram um sorriso lentamente, um que avisava que eu estava pisando em território desconhecido e perigoso. Mas eu não estava prestes a deixar aqueles dois homens entrarem com armas e potencial para ferir pacientes internados que já estavam em um estado crítico de saúde. Teriam que passar por cima do meu corpo morto antes que eu autorizasse aquilo.
Ainda sob o silêncio e olhos atentos das pessoas ao nosso redor, rapidamente peguei uma das cestas de lixo mais próximas, tirando, amarrando e descartando o saco antes de estender o balde de alumínio na direção do trio.
Os seguranças, ou o que quer que fossem, olharam para Monte Harris em busca de autorização. O homem ainda me olhava com aquele mesmo sorriso que enviou arrepios pela minha coluna, mas me obriguei a manter minha mão e expressão firmes.
Os olhos dele, verdes - percebia agora - estavam quentes de alguma forma. Pareciam me analisar de maneira intrínseca, sem perder nenhuma característica apesar de eu não ter dito nada sobre mim. Meu pescoço enrijeceu, mas eu devolvi o olhar, sabendo muito bem que não estaríamos tendo aquela conversa nem me seria permitido aquele comportamento se eles não precisassem de algo de mim. Além disso, eu tinha uma proteção relativa pelo fato de que o programa tinha meu nome, e agora eu era obrigada a agradecer ao parlamentar que exigiu que meu nome fosse afiliado a clínica, mesmo que sua intenção fosse me culpar caso tudo desse errado. Eu sabia que, se algo acontecesse comigo, não passaria em branco e causaria algum problema para o culpado.
Monte Harris, felizmente, também parecia saber daquilo.
-Você é uma mulher de coragem, doutora Norah Price.
Dei de ombros, mostrando uma inexpressividade que na verdade eu não sentia.
-Ossos do ofício, senhor Harris.
-Suponho que sim –concordou. -Entreguem as armas.
Os dois homens se desarmaram e travaram as duas pistolas antes de colocar na cesta. As pessoas ainda assistiam a cena.
Olhei as duas pistolas dentro do balde antes de voltar a olhar para Monte com uma sobrancelha erguida. Ele realmente não queria que eu acreditasse que um homem com a importância para andar com dois seguranças em plena área Hadal tinha apenas duas pistolas, certo? O tráfico de armas era prática comum nos últimos andares desde, bom, sempre, e com o aumento na violência nos últimos anos, aquilo piorou. Como, ou o porquê de aquilo começar, eu não sabia, mas era bem difícil achar uma residência dos últimos andares que não tivesse acesso a algum tipo de arma, seja ela mais rústica ou não.
Sabia, inclusive, de alguns servidores do serviço de segurança pública do Bunker que participavam do esquema de tráfico de armas. Na verdade, era desse esquema e também de desvios diretos das fábricas de produção que vinham a maioria das armas que aquela população tinha acesso.
-Tudo, por favor –pedi, a lixeira ainda firmemente na minha mão.
Monte riu, mas assentiu para os dois homens.
-Ouviram a doutora.
No próximo minuto, eu tinha pelo duas pistolas, cinco facas e um aparelhinho que eu já tinha visto sendo empunhado por um dos attollo salus – os seguranças que fiscalizavam a locomoção dos attollos –, dentro do balde. Agradeci Monte com um aceno rápido antes de entregar o cesto nos braços solícitos de Ann.
-Guarde isso com sua vida e não devolva até que eu saia daquela sala, entendeu bem? –sussurrei, a empurrando suavemente na direção do armário que eu sabia que apenas ela tinha a chave.
Ann assentiu de maneira trêmula, puxando o molho de chaves de seu bolso. Virei para o trio mais uma vez, minha boca se apertando em uma fina linha.
–Vamos.
Eles me seguiram pelo mesmo corredor de onde eu tinha vindo antes. Os levei de volta ao consultório que eu atendia antes, sabendo que estava vazio.
Estávamos quase chegando quando passamos pelo balcão da enfermagem, onde Bryce estava encostada conversando com uma das auxiliares. Ela tinha o cabelo ruivo longo e cheio preso em um coque baixo por uma caneta, as mãos dentro do bolso do scrubs que já tinha visto dias melhores.
Ela, minha mais próxima e intima amiga, olhou na minha direção assim que passei, o sorriso em seus lábios caindo assim que seus olhos se conectaram com os meus. A encarei de volta, mesmo sem parar de andar, tentando passar pelo olhar que, se qualquer coisa acontecesse, ela não deveria nem poderia deixar ninguém alertar as autoridades.
O governo não nos dava muito problema, mas eu sabia muito bem que as clínicas só foram mantidas e novas foram inauguradas porque elas eram boas para a visão que as pessoas da Meso tinham do parlamento. O menor desvio – ainda mais uma violência cometida no interior da clínica contra ninguém mais, ninguém menos que a fundadora – daria exatamente a desculpa que eles procuravam com tanto afinco para acabar com tudo.
Acenei rapidamente para ela antes de perder a visão ao virar o corredor, rezando para que entendesse.
Chegamos na porta segundos depois. Abri, pacientemente esperando que entrassem.
-Fiquem aqui, não vamos demorar muito.
Monte passou por mim e não demorei para fechar, deixando os outros dois homens do lado de fora. Cruzei os braços, me virando de frente para ele, que parecia olhar ao redor da pequena sala antes de encostar na maca.
-A doutora tem uma reputação e tanto –começou enquanto eu andava até a mesa, imitando sua posição e sentando na ponta. –Até mesmo minha mãe se impressionou com você, e ela é uma pessoa nada impressionável. Passou por muito pra ser.
-É bom saber que eu tenho uma boa reputação entre meus pacientes, mas isso não esclarece o que o senhor quer comigo, Monte Harris.
-Eu já vou chegar lá –assegurou. –Sua reputação é tão grande que assim que meu problema ficou claro, seu nome surgiu. E mesmo que eu odeie isso, precisei assumir que era uma boa ideia.
Fiquei quieta, apesar de ainda estar tensa e extremamente curiosa com o caminho que aquilo estava tomando.
-Já ouviu falar sobre o movimento intervencionista, doutora Price?
-Apenas rumores –respondi.
Ele fez um som de acordo.
-Eu imaginei, seu tipo não pensa muito nas coisas que acontecem por aqui.
Franzi as sobrancelhas para a última sentença, mas, contra todas as minhas vontades, continuei calada.
-Vou ser direto, doutora, já que eu imagino que, assim como eu, você não seja uma pessoa muito paciente. Nós queremos sua ajuda.
Descruzei os braços, deixando que minhas mãos segurassem a ponta da mesa, e bati as unhas ali distraidamente.
-Minha ajuda com o que, exatamente?
-Assistência médica, é claro.
-As clínicas já oferecem assistência médica, senhor Harris –falei.
-Sim, eu sei. Mas vocês têm que fornecer os dados de todos os pacientes para o governo, certo? E reportar quando acontecem ferimentos mais sérios e que eles considerem como um risco a segurança pública, não é?
-Correto.
-Nós precisamos que esse relatório não aconteça.
Suspirei profundamente, desviando olhar de Monte.
-Senhor Harris, eu vou ser sincera. Desde a inauguração da primeira Spes pro Omniums, o parlamento tenta achar uma brecha para acabar com o projeto sem causar problema com a população da Meso. A gente anda na linha há anos, fugindo de qualquer problema e lidando da melhor maneira possível com os que surgem. Então eu imagino que você compreenda que e preciso de um pouco mais de informação para concordar com algo que não só seria a desculpa perfeita para acabarem com qualquer tipo de assistência médica gratuita, como também resultaria na perda da minha licença médica.
Monte riu amargamente, balançando a cabeça negativamente.
-Claro, tudo sobre vocês da Meso. Mas sim, doutora, vou explicar melhor –disse, se desencostando da maca antes de cruzar os poucos passos que nos separavam. –O movimento revolucionário tem estado na ativa há alguns meses, agora. Nós avançamos mais do que os que tentaram antes, mas agora estamos e um impasse. Nosso próximo passo vai fazer as coisas ficarem mais... físicas. Vamos chamar mais atenção. Mas vamos, com certeza, enfrentar resistência do parlamento e alguns sairão feridos. Então precisamos de assistência médica para dar continuidade, mas, se esses relatórios forem mandados para o parlamento, eles saberão o nome, família e endereço daqueles que foram envolvidos, por isso precisamos que tudo seja por baixo dos panos.
Assenti lentamente, entendendo a situação.
-E como eu sei que não estou ajudando um grupo de pessoas a machucar outras?
Monte riu, parecendo achar graça.
-Você vai ter que confiar em mim doutora –respondeu, simplesmente. –Então? Está disposta a sair da sua bolhazinha de privilégio e ajudar?
Cinco minutos depois de Monte ter saído do consultório, eu ainda estava sentada na ponta da mesa, pensando no que tinha acabado de acontecer, quando Bryce invadiu a sala, ofegante e com alívio pingando em seu rosto quando me viu ali.
-Deus –disse, se jogando na cadeira disponível. –Pensei que encontraria seu corpo aqui e teria que dar um jeito de esconder.
Não sorri para o humor dela como normalmente faria.
-Então –começou –, quem eram aqueles? O parlamento tem feito amigos na Hadal e eu não tava sabendo?
-Eles eram do movimento revolucionário da Hadal –respondi.
-O que? –exclamou, sentando reta na cadeira imediatamente. –E o que eles queriam de você?
-Assistência médica sem rastros.
Bryce, em um momento raro que mostrava o quanto aquilo tudo era sério, ficou em silêncio por alguns segundos. Ela sabia o que aquilo significa e o quanto estaria arriscando se eu tivesse aceito a proposta.
Quando voltou a falar, sua voz não tinha nada da áurea brincalhona característica.
-E o que você respondeu?
Olhei para ela pela primeira vez desde que tinha entrado no consultório, vendo os olhos castanhos nadando em seriedade, apreensão e também em companheirismo. Eu sabia que ela me acompanharia em qualquer coisa, não importava a quão perigosa ou desafiadora fosse, a Spes Clinic pro Omniums era prova daquele companheirismo e confiança incondicional.
-Eu falei que o movimento revolucionário pode contar com toda minha ajuda e de quaisquer esforços que eu conseguir.
{...}
Dias se passaram depois do meu encontro com Monte Harris. Não vi ele nem nenhum dos outros dois capangas que apareceram com ele naquele dia, e ninguém, além de Bryce, ficou sabendo do que me foi pedido. Eu sabia que precisaria de ajuda de algumas pessoas, seria impossível só eu e Bryce atender um grupo pequeno, quanto mais um grande, e já tinha em mente quem possivelmente concordaria em ajudar e ficar quieto sobre.
Fazia quase uma semana do pedido, eu já estava pensando que eles tinham sido pegos de alguma maneira, quando um dos homens que vieram com Monte naquele dia apareceu. Eu estava na sala de emergência da Spes pro Omniums do 234° andar atendendo uma senhora que tinha dado entrada com dor no peito, quando Bryce enfiou a cabeça na cortina que separava as macas umas das outras.
Olhei na direção da ruiva, erguendo uma sobrancelha par seu rosto meio pálido.
-O que foi? -perguntei, tirando o estetoscópio dos ouvidos.
-Aquele paciente da semana passada tá aqui de novo, pedindo por você.
Fiquei confusa por apenas alguns segundos, mas logo entendi. Assenti para a ruiva, que entrava no separatório para tomar meu lugar no atendimento, antes de disparar para fora.
Passei os olhos por ali, procurando a figura imponente de Monte, mas apenas achando um dos homens que fazia segurança dele naquele dia. Sinalizei para o corredor que estava mais ou menos vazio, recebendo apenas um acenar positivo que mostrava que ele tinha entendido, e segui na frente.
Cruzei os braços ao encostar na parede do corredor. Não poderia levá-lo para a nenhuma das salas de consultório, já que todas estavam sendo utilizadas, então precisava me contentar com aquilo.
Uma semana antes, eu e Monte tínhamos combinado que, pelo menos cinco dias antes do ataque, eu seria avisada em qual andar da Hadal aquilo aconteceria, para que eu pudesse preparar uma clínica ou achar um lugar, caso naquele andar especificamente não tivesse uma Spes pro Omniums.
-Olá, doutora.
Olhei para cima assim que a voz soou, acenando em cumprimento para o homem. Ele tinha cabelos escuros e pele escura também, mas o tom de seus olhos era de um azul incessante.
-Alguma notícia para mim? -questionei.
-Vai acontecer daqui a seis dias, à noite. Andar 223.
Assenti, minha mente já correndo.
-O grupo é grande?
Ele apenas me encarou em desconfiança. Suspirei internamente, sabendo que seria um caminho longo até que confiassem em mim.
-Preciso saber se a equipe que juntei e os equipamentos que a Spes pro Omniums do 223° andar serão suficientes –expliquei.
-De quarenta a cinquenta, doutora.
-Média de feridos?
-Entre quinze e vinte.
Assenti lentamente, minha cabeça começando a girar e calcular se as pessoas que juntei seriam suficientes.
-E qual a possibilidade de precisarem de cirurgias? -perguntei em seguida.
A hesitação do homem me respondeu o que eu precisava.
Tive que conter uma careta, tentando lembrar de pessoas que me deviam favores. Praticamente todos os voluntários que eu sabia que concordariam em participar e ficar calado não estavam habilitados para cirurgia e, enquanto eu sabia que eram ótimos em atendimento emergencial, cirurgia era algo grande demais.
-Ok –respondi, de qualquer maneira. -Obrigada.
O homem assentiu rigidamente antes de me dar as costas, seguindo de volta pelo mesmo corredor de onde tínhamos vindo.
Fiquei olhando para as costas dele até de desaparecessem e encostei a cabeça na parede atrás de mim, respirando profundamente e esvaziando meu pulmão em seguida.
-Norah?
Olhei para Bryce no começo do corredor, os braços cruzados e sobrancelhas arqueadas.
-Você ainda tem umas pessoas que te devem um ou dois favores, né?
A ruiva abriu um sorriso lentamente.
-Eu estava esperando por essa oportunidade.
Os próximos dias depois disso foram... intensos. Eu e Bryce começamos a correr atrás das pessoas que deviam favores para nós duas, tudo com muito cuidado e escolhendo a dedo quem sabíamos que não abriria a boca para ninguém da Salutem Custodia, o orgão de fiscalização da saúde do Bunker. Felizmente, não precisamos nos incomodar com os insumos, tínhamos recebido um carregamento poucos dias antes e, desde que pudéssemos manter os gastos os mais discretos possível, não teríamos nenhum problema.
Na noite em que me foi dita, eu e a equipe de quinze pessoas estávamos esperando na parte de trás e inutilizada da clínica do 223° andar. Tínhamos chegado horas mais cedo para montar um pronto-socorro improvisado ali, já que aquela parte tinha sido recentemente adicionada e ainda passava por reformas para entrar em utilização. Por sorte, o mesmo homem que tinha falado comigo antes apareceu, pedindo instruções sobre como aconteceria os atendimentos e pude explicar tudo. Não era o local ideal nem de longe, mas achei melhor do que a alternativa: fechar parte da sala de emergência da clínica e correr o perigo de que alguém esbarasse na movimentação de atendimentos sem relatório.
Conseguimos terminar de preparar a sala já passava da meia-noite, o clima entre os voluntários era tenso, ninguém sabia exatamente o que esperar, até porque ninguém tinha esclarecido exatamente o que aconteceria naquela noite. Faziam quase duas horas e meia que sentávamos ao redor das macas que tínhamos, o mais discretamente possível, trazido da clínica.
Desviei o olhar para o meu colo quando senti uma mão apertando a minha. Apertei a mão de Bryce de volta, entrelaçando nossos dedos. Estávamos nervosas com toda situação, no final das contas, caso a Salutem Custodia descobrisse tudo e caçasse a licença médica de cada um dos cirurgiões, médicos, enfermeiros e auxiliares ali, nós seríamos as responsáveis.
Além disso, todo esquema que montamos poderia desmoronar na menor das intercorrências. Os atendimentos que pudessem ser feitos ali não podiam ser de alta complexidade, mas os pacientes que precisassem de cirurgia... isso seria mais complicado.
Não eram todas Spes pro Omniums que tinham salas de cirurgia, das setenta em toda área Hadal, apenas vinte e cinco eram equipadas com esses tipos de sala, e a do 223° andar não era uma delas.
Quando falei dessa preocupação para Bryce, ela me deu a ideia que, com toda certeza, renderia um processo enorme nas nossas costas caso fosse descoberto:
-Você quer falsificar os relatórios cirúrgicos para o Salutem Custodia?
A ruiva estalou a língua, acenando com a cabeça enquanto empurrava o garfo para dentro da boca.
Estávamos no apartamento dela almoçando e entrando em contato com o máximo de pessoas possíveis para atuar como voluntários.
-Mas e o resto da equipe cirúrgica? -questionei. -A gente não tem nenhum contato de nenhum anestesista e não tem enfermeiros circulantes o suficiente, Bryce.
-A gente vai mentir pra eles também.
Coloquei as mãos no rosto, aquilo seria um caos.
-Quanto mais você acha que vai demorar, doutora Price?
Desviei a atenção para uma das enfermeiras que estava sentada na maca na minha frente, seu joelho saltando nervosamente, da mesma maneira que eu me sentia.
-Eu não...
Nem terminei de responder antes que uma batida nas portas duplas de vidro chamasse a atenção de todos ali e nos colocassem em movimento.
Começamos no ritmo alucinante, o número de feridos era maior do que a média que um dos seguranças de Monte tinha dito, quase o dobro na verdade. Eu e a equipe que tinha reunido trabalhamos incansavelmente e sem pausas, paciente vindo atrás de paciente de maneira eu não dava nem para pensar muito antes de começar o atendimento.
Os casos mais sérios eram estabilizados da melhor maneira possível antes que fossem transferidos para as Spes pro Omniums de outros andares. Por sorte, tinham sido apenas três casos que exigiam intervenção cirúrgica, então toda locomoção dos pacientes para as outras clínicas, diferentes é claro, fosse bem discreta.
Já tinha passado pouco mais de três horas quando conseguimos diminuir o ritmo de atendimentos, apenas mantendo alguns em observação e dando alta para os outros. Tirei as luvas que usei no último atendimento, jogando no lixo e sentindo uma dor de cabeça começando quando vi a lata cheia quase até a boca. Tínhamos usado mais material que eu esperava.
-Norah.
Olhei para trás, vendo uma Bryce de expressão cansada e cabelo caindo desconfortavelmente ao redor do rosto, aquele era uma das razões pela qual eu não sentia falta no cabelo longo.
-Sim?
-Mais duas internações.
Suspirei, meus lábios se apertando em uma linha fina. Internações seriam outro problema, já que não só o relatório para fiscalização seria falso como também o prontuário, o que significava que algum médico ou enfermeiro que foi voluntário nos atendimentos também fosse voluntário na clínica para saber o histórico.
-Manda eles pro 238, eu vou bater plantão lá e fico de olho, ok? -respondi. -Vou fazer os prontuários.
-Não, não. Vai pra casa, você tem que dormir um pouco, você não tem plantão na Meso hoje também?
-Sim –confirmei, fechando os olhos.
Toda minha renda vinha do trabalho no hospital onde meus pais trabalhavam, já que a clínica era totalmente trabalho voluntário para aqueles da Meso e da Bathy, os únicos funcionários pagos eram os que eram da Hadal, que atuavam como auxiliares treinados e na equipe de limpeza.
-Então vai embora, eu cuido do resto.
Assenti, sabendo que nem valeria a pena discutir, e rapidamente fui até a maca do último paciente que tinha atendido, querendo ver se ele também estava estável ou seria a terceira internação.
Suspirei, aliviada, ao ver no monitor que ele não seria um dos casos de internação e logo poderia receber alta. Ainda estava olhando a tela quando uma voz familiar soou atrás de mim:
-Doutora Price.
Virei abruptamente, pegando a visão de Monte Harris totalmente acabado parado em pé atrás de mim.
Ele tinha um corte feio sangrando na têmpora e seu rosto estava sujo com o que parecia fuligem, assim como o resto dos pacientes também tinha. Além do corte feio que ainda sangrava, Monte tinha alguns cortezinhos espalhados no rosto que estavam em um tom avermelhado que eu sabia significar que inflamaria.
-Senhor Harris. Veio checar seu pessoal?
-Sim.
Assenti, me perguntando se devia ou não me oferecer para dar pontos naquele corte, e acabei chegando na conclusão que eu iria me oferecer de querendo ou não.
-Você precisa de pontos, vem.
Não esperei resposta antes de ir até uma das alas vazias. Esperei que Monte entrasse e puxei as cortinas, indo até o carrinho de materiais e puxando um novo par de luvas.
-Eu não sabia que o movimento tinha tantos adeptos assim –comentei. -Na verdade, eu não sabia que o movimento tem tenta força, como mantiveram isso escondido?
-O parlamento é bem talentoso em esconder as coisas dos olhos de vocês da Meso. Mas faz sentido que vocês não saibam, além é claro da arrogância e superioridade que vocês acham que tem, sempre que o movimento começava a crescer, o parlamento reagia com mais violência, muita gente morria porque não tinha atendimento médico e levava meses para que conseguíssemos nos recuperar.
Não respondi, feliz que ele não pudesse ver minha expressão por estar de costas, já que não conseguiria esconder o quanto suas palavras tinham me afetado.
-Mas não se preocupe, doutora, eu sei que mesmo que você soubesse de todo movimento, quem vive e quem morre não faria diferença para você. Assim como não faz para ninguém da Meso. Até porque nenhum de vocês entende o peso dessa situação –Monte finalizou a breve explicação enquanto eu colocava o que precisaria dentro da bandeja metálica.
Franzi as sobrancelhas, ainda de costas para ele.
-Por que você diz isso? E todas essas pessoas que vieram de bom grado e passaram a noite acordadas para ajudar os seus feridos? Elas entendem. Elas podem nunca ter passado por nenhuma situação similar à de vocês, mas elas entendem. Eu entendo.
-Entende mesmo? Você sabe o que é passar fome, Norah Price?
Fiquei quieta diante daquilo. Nunca poderia entender na pele o que qualquer uma daquelas já tinha passado, mas eu poderia me compadecer da situação de cada uma delas e tentar ajudar da maneira que estava ao meu alcance, que foi exatamente o que me fez começar o projeto da Spes pro Omniums.
Não respondi nada para Monte, mesmo ao me virar na direção dele com a bandeja em mãos. Me aproximei do líder da rebelião que, felizmente, entendeu que eu teria que chegar bem perto dele para fazer a sutura no corte em sua testa. Monte nem se mexeu quando me enfiei entre suas pernas, ignorando, assim como eu, a proximidade que a maca em uma altura baixa causou.
Molhei a gaze no líquido antisséptico quase mecanicamente, ignorando o leve estremecimento de Monte quando comecei a limpar o ferimento. Assim que me dei por satisfeita, afastei a gaze suja do rosto dele e peguei a seringa para fazer a anestesia local. Estava prestes a colocar a agulha no vidrinho do medicamento quando ele parou meus movimentos, agarrando meu pulso repentinamente.
Olhei para ele alarmada, ignorando o formigamento que o contato entre a pele dele com a minha causou.
-O que você pensa que está fazendo? –questionou, apontando com o queixo para a seringa.
-Anestesia local.
-Eu não quero.
Suspirei em frustração ao puxar meu braço bruscamente da mão dele.
-Você quer que eu faça os pontos sem anestesia? É só local, isso não vai te dopar –expliquei.
-Não importa, eu não confio em você.
Uma risada saiu da minha boca sem autorização, mas assenti com descrença enquanto voltava a seringa e o medicamento para a bandeja.
-Não confia em mim para alguns pontos, mas para cuidar do seu pessoal e ainda por cima manter tudo em segredo sim?
Ele não respondeu, apenas observando enquanto eu pegava os instrumentos para começar a sutura. Ficamos em um silêncio tenso, minha atenção totalmente voltada para o corte em sua testa, mesmo sentindo os olhos de Monte praticamente me queimando. O corpo dele enrijeceu assim que dei o primeiro ponto, mas nenhuma vírgula de reclamação saiu de sua boca.
Ficamos daquele jeito até quase o final da sutura, Monte continuava me encarando e eu continuava ignorando seus olhos descaradamente. Pensei que ficaríamos daquele jeito até eu dar o último ponto, mas ele me surpreendeu quando voltou a falar:
-Me diga, doutora, quantas pessoas você já conseguiu enganar com sua atuação?
Franzi o cenho, ainda encarando teimosamente meu trabalho.
-O que você quer dizer?
Ele riu, apesar do som não ter nem um pouco de diversão.
-Quando suas clínicas começaram, tudo que eu ouvia eram as pessoas questionando se esse era mais um dos movimentos do parlamento para apaziguar os ânimos e calar nossas bocas por mais alguns cem anos. Mas, então, as pessoas conheceram a incrível e bem-feitora Norah Price, e aí tudo que eu ouvia era como você tinha encarado o desacordo de todos para montar a clínica. No começo era um grupo pequeno, mas aí mais clínicas apareceram na Hadal, repentinamente você virou algum tipo de anjo –sua voz escorria sarcasmo. –Nunca entendi muito bem qual era a sua, mas depois de tantos anos convivendo com alguns mesopothains, eu entendo seu tipinho, doutora. Vocês só fazem algo para ajudar quando recebem algo em troca.
-Eu não ganho nada da clínica –respondi simplesmente.
-Você está errada.
Revirei os olhos, automaticamente colocando um pouquinho mais de força na mão ao dar mais um ponto. Monte se encolheu brevemente.
-As pessoas gostam de te ver como algum tipo de anjo, mas no final do dia você não é nada diferente de ninguém da Meso.
Respirei profundamente, começando a ficar irritada.
-Se eu não fosse diferente de ninguém da Meso, eu não teria ajudado seu movimento –retruquei. –Não vou me dar ao trabalho te tentar te convencer que não recebo nenhuma gratificação financeira do meu projeto das clínicas, assim como os voluntários da Meso e da Bathy. Nenhum de nós recebe nada. Mas eu não ganho nada por ajudar o movimento rebelde, na verdade, eu coloco minha licença médica em risco ao concordar em fazer tudo isso e ainda esconder do Salutem Custodia. E você sabe disso muito bem.
-Eu sei que não.
Contive o suspiro de pura frustração que subiu pelo meu peito. Mordi a parte interna da bochecha, empurrando e abafando o temperamento que queria vir para superfície e começar a gritar com Monte. Me concentrei ao dar o, enfim, penúltimo ponto dele, esperando que ele ficasse calado até o final, mas é claro que não recebi o que queria, e tive uma vontade quase incontrolável de mandar que ele calasse a boca quando a voz dele voltou a preencher a sala.
-Você faz para se sentir bem consigo mesma, doutora.
Minhas mãos se acalmaram ao ouvir o tom severo. Pela primeira vez desde que comecei os pontos, encarei Monte, e quase me arrependi de fazê-lo quando encontrei o olhar duro fixo em mim. Era um olhar que continha anos e anos de rancor – não de mim, não –, mas de uma situação que se arrastava por gerações.
E eu era a representação daquilo.
-Eu... o quê? –questionei, minhas mãos finalmente se movendo quando dei o último ponto.
Monte riu amargamente.
-Nem você percebe, não é?
Engoli a seco, cortando o resto do fio da sutura. Minha cabeça me falava para me afastar. Colocar distância entre nós para que Monte não visse a provável mágoa que viria com as palavras que ele diria em seguida.
-Você faz não porque é boa. Nem porque entende. Você faz o que faz pra não sentir culpa. Para que todo dia, depois de subir os duzentos e trinta andares até o seu apartamentinho de merda, você possa se sentir bem o suficiente para colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquila. É por isso. É isso que você recebe em troca. Uma vida sem culpa. Mas é uma ilusão, você sempre terá culpa pesando seus ombros, Norah Price. Não importa o quanto doe de si mesma, vai continuar lá.
Encarei Monte, minha expressão tão vazia quanto a maneira que meu peito se sentia. Qualquer chama de irritação tinha sido extinguida.
Ele foi o primeiro a se afastar, tanto do meu olhar quanto do meu corpo. Monte desceu da maca, silenciosa e habilidosamente colocando o curativo que eu tinha deixado pronto em cima do corte.
Retirei as luvas no automático, colocando junto com o resto do material que iria para o lixo. Vi pelo canto do olho quando Monte pegou a arma que nem tinha percebido que ele tinha colocado em cima da maca, colocando no cós da calça rapidamente, e virando para cortina apenas para parar repentinamente antes de me olhar por cima do ombro, exibindo um sorriso frio.
-Espero que durma bem, Doutora Price.
Não consegui pregar os olhos naquela noite.
{...}
Toda ação na noite trouxe a superfície mais um problema.
Eu estava parecendo um zumbi, consequência da noite mal dormida pensando nas palavras de Monte. Meus ombros estavam pesando por conta de uma culpa invisível que eu sabia não estar ali até a conversa com o líder da rebelião, mas agora parecia ter o poder de me despencar os 270 andares do Bunker.
Bryce tinha, muito carinhosamente, me cumprimentado naquela manhã quando nos encontramos no corredor do prédio que nós duas morávamos:
-Você parece que morreu e esqueceram de seguir com o deductio.
Revirei os olhos para ela, ignorando a palavra que foi adotada para o procedimento de cremação e descarte dos restos mortais.
-Como se você estivesse incrível, Bryce. Hoje não é meu dia, enche outro, ok?
A ruiva, com nossos anos de amizade e intimidade, sabia muito bem que eu estava falando sério.
Eu tinha passado apenas três horas na clínica do andar 238 quando vi Bryce de novo. Tínhamos combinado que ela ficaria no 223, observando os que ficaram internados lá, então vê-la ali significava que algo tinha dado errado.
Minha mente correu rapidamente, será que tinham descoberto tudo? Não, se fosse o caso o parlamento teria ido atrás de mim primeiro. Um dos pacientes, então...?
-Norah –a ruiva começou, olhando de um lado para o outro no corredor antes de fechar a porta do quarto, deixando nós duas e os outros dois pacientes do movimento que tinham ido para aquele andar sozinhos. -Temos um problema.
Suspirei, esfregando a testa e girando o desbloqueio da medicação do paciente que eu observava. Passei os olhos entre as duas macas, observando brevemente os dois pacientes que dormiam, antes de acenar para as duas cadeiras livres, esperando que Bryce tomasse a dela.
-O que foi? -questionei, já escorregando no móvel em puro estresse.
-A gente usou muito dos insumos da clínica do 223 ontem à noite, os funcionários da manhã repararam na falta.
-O que você disse?
-Que parte do material tinha sido infectado e descartado. Eles acreditaram e a administração já pediu outra leva, mas se o movimento continuar contando com nossa ajuda...
-Não vamos ter mais desculpas.
Bryce concordou comigo silenciosamente.
-Não podemos usar o material da Spes pro Omniums sem chamar atenção. Teríamos que apedir para aumentar o abastecimento se essas... manifestações se tornarem frequentes.
-Não, geraria perguntas que não podemos responder –descartei a ideia.
-Então não sei como podemos proceder. Esse tipo de coisa não é contrabandeado.
Pisquei os olhos em realização quando uma ideia, ou melhor, um nome, brilhou na minha mente.
-Quê? Eu te conheço, Norah, que ideia foi essa.
-Por um acaso você lembra da Olivia? Olivia Yarrow? -perguntei, precisando conter o sorriso quando a ideia começou a surgir.
-A deditus que tem uma overdose por inebriare a cada mês?
Deditus era um nome pejorativo para aqueles que eram viciados em alguma das várias drogas em circulação no Bunker. Quando alguém ganhava aquele título... digamos que as coisas já estavam muito fundo para serem resolvidas de maneira simples. Inebriare era a droga mais potente, perigosa e comercializada em todos os andares, aquilo tinha o poder de tirar totalmente a consciência de alguém por umas boas duas a três horas, quando administrada em uma pessoa de tamanho e peso médio, com apenas dez miligramas em uma seringa.
Era uma viagem, para dizer no mínimo, o efeito era legal e interessante por tempo o suficiente para te tirar do estresse da vida real, mas quando o usuário caia no vício... as coisas ficavam complicadas. As doses para que a droga fizesse efeito passavam de dez para vinte e cinco miligramas rápido demais, e aí... era um caminho sem volta.
-Sim, ela mesma.
-O que tem ela?
-Bryce, você lembra quem é a mãe dela? -questionei.
-Emma Yarrow, parlamentar da fiscalização de distribuição de insumos do Bunker. Ainda não entendi seu ponto.
Suspirei, quase revirando os olhos. Bryce as vezes era lenta demais para o seu próprio bem.
-A Olivia tá pra assumir o cargo da mãe. Emma quer se aposentar até o final desse ano, mas tem aquela uma lei do prlamento que impede que os parlamentares...
-Tenham histórico médico de vício ou overdose de quaisquer entorpecentes –completou, finalmente seguindo meu raciocínio quando seus olhos brilharam na minha direção.
Sorri, triunfante, quando a ruiva finalmente entendeu.
Aquela lei era antiga, mas rigidamente seguida. A política no Bunker era complexa, mas interessante. O parlamento, o que seria nosso governo, era composto por vários parlamentares de cada área. Existiam parlamentares para locomoção, educação, saúde, bem-estar público, decência pública, do trabalho e vários outros. No total, era um grupo de cinquenta pessoas que representavam uma pequena parte de toda organização que era o Bunker. Além desse grupo tinha o parlamentar principal, o que chamávamos de Caput Concilio. As funções dele eram similares a de um presidente, mas as maiores diferenças eram a quantidade de poder decisório que ele tinha e como seu sucessor era definido.
A começar pelo poder, apenas o parlamento, em conjunto, conseguiria decidir contra uma decisão do Caput Concilio. Uma votação teria que acontecer e ter como resultado que, pelo menos, 51% dos votos contra uma decisão do parlamentar principal para que aquilo fosse anulado, caso contrário, não aconteceria. Desde a Grande Imersão não houve nenhum momento em que suas decisões fossem contrariadas.
Já sobre a sucessão, todo esquema era... ridículo. Tanto os parlamentares quanto o Caput Concilio poderiam escolher seus sucessores, que seriam expostos a uma grande investigação seguida de uma votação do parlamento inteiro - incluído o parlamentar principal – para a autorização ou não de posse do cargo. Caso o candidato indicado não passasse pela investigação, o parlamento não entrasse em consenso ou não houvesse indicação antes da idade de aposentadoria obrigatória para os parlamentares – 70 anos – o Caput Concilio indicaria alguém que também teria que se submeter a esses procedimentos.
Olivia Yarrow era a escolha de sua mãe, a parlamentar de distribuição de insumos, para a sucessão.
Não seria problema algum, Olivia era muito inteligente – talvez um pouco fechada demais, ninguém nunca sabia quais exatamente eram suas opiniões -, seria um ótimo encaixe no parlamento atual. Toda sua posso ocorreria sem problemas, todo mundo sabia que Olivia era a escolha óbvia do parlamento. Isso, é claro, porque eles não tinham conhecimento de seu pequeno vício em inebriare. Pequeno apenas para ser legal, porque, desde o final da faculdade, Olivia já tinha dito pelo menos quatro overdoses pelo entorpecente, todas atendidas e abafadas por mim.
-Norah Price –Bryce disse, naquele tom de admiração orgulhosa que, de alguma maneira, sempre me dava a impressão que era o que eu devia ter recebido dos meus pais quando contei sobre a Spes pro Omniums. -Sua vadia inteligente e ardilosa. Suas cartas na manga acabam em algum momento?
Apenas sorri para ela, levantando da cadeira que estava antes.
-Volta pro seu plantão, mais tarde nós vamos fazer uma visitinha a nossa querida amiga.
Fiquei relativamente mais tranquila diante da solução pensada para o problema. O resto dia transcorreu normalmente, um dos pacientes do movimento recebeu alta e, enquanto o outro ainda seguia em observação, seu estado era estável.
Depois, de banho tomado e com nossas roupas comuns, eu e Bryce nos encontrávamos no sexto andar, paradas na sala-de-estar de Olivia Yarrow enquanto esperávamos para que nossa presença fosse anunciada pela senhora que trabalhava como governanta da futura parlamentar.
Eu e a ruiva observávamos a decoração elegante demais, que destoava completamente da pessoa que conhecemos na faculdade, quando a voz que eu já não escutava há algum tempo surgiu do mesmo corredor que a senhora tinha desaparecido.
-A decoração foi insistência da minha mãe, ela pode ser um tanto... exagerada.
Desviamos o olhar para a mulher parada na sala, as mãos enfiadas nos bolsos de um shorts jeans de lavagem escura complementado pela camisa branca. Olivia sempre foi o tipo de pessoa que ficava bonita em tudo, o que fazia muito sentido se levássemos em consideração sua aparência.
Yarrow tinha a pele retinta mais lisa que já vi em qualquer lugar. As tranças já características estavam presas em um coque alto e grosso em cima de sua cabeça e, mesmo sem um pingo de maquiagem ou qualquer arrumação, aquela mulher parecia ter sido tirada diretamente de um dos catálogos de modelos dos designers mais conhecidos do Bunker.
-Quanto tempo, Norah, a que devo sua presença?
Suspirei, sem vontade de colocar Olivia contra a parede como estava prestes a fazer. Eu gostava honestamente dela, independentemente de seu vício em inebriare, e uma parte de mim gostaria de apenas explicar toda situação e contar com sua ajuda, mas Yarrow era alguém cujas opiniões ficavam guardadas à sete chaves, nunca poderia saber se ela denunciaria todo movimento.
-Eu vim cobrar minha dívida, Olivia –respondi, sabendo que ela tinha entendido quando uma sombra passou por seu rosto.
Quase quarenta minutos depois, nós três estávamos no escritório da mulher – e sim, a decoração era muito mais parecida com sua personalidade do que a sala-de-estar - já finalizando nosso acordo.
Minha ameaça tinha sido velada, mas tão clara quanto água: Yarrow iria nos fornecer os insumos por baixo dos panos - já que, com a posse de cargo tão próxima, ela tinha mais e mais funções naquela área -, sem fazer perguntas nem chamar atenção.
Olivia não questionou para o que aqueles insumos seriam destinados, sabendo muito bem que não era algo que poderia ser discutido se não recorremos aos meios legais, e passamos todo aquele tempo entrando em um acordo sobre como aquilo seria entregue e a quantidade necessária. Disse para Yarrow que avisaria onde e quando ela poderia entregar aquilo, sem dar nenhum outro detalhe.
Eu e Bryce estávamos prestes a ir embora, já paradas na porta do escritório, quando a mulher voltou a falar, sem desviar o olhar de sua mesa.
-Se eu fosse você tomaria cuidado com suas ações, Norah –disse, me fazendo travar no mesmo lugar.
Troquei um olhar alarmado com Bryce antes de virar para ela.
-O que?
Ela ergueu os olhos para mim, a íris escura incessante parecendo me olhar através da alma.
-É difícil manter as coisas em segredo por aqui, você sabe bem disso. Eu e mais alguns... simpatizantes mais importantes que eu, se é que você me entende, conseguimos limpar seus rastros na outra noite. Mas se ficar maior... não tenho certeza como poderíamos abafar isso.
Não consegui esconder minha surpresa. Olivia era simpatizante do movimento? E... pessoas mais importantes que ela? Yarrow estava falando do...
-Você está dizendo que existem simpatizantes do movimento entre os parlamentares? -Bryce verbalizou o que eu pensava.
Olivia sorriu, parecendo achar graça da nossa surpresa.
-Sim –respondeu, simplesmente. -Me escutem, é um conselho de amiga, tomem cuidado, o Caput Concilio tem tratado esse assunto como algo pequeno e irrelevante, mas quando as coisas começarem a aumentar, e acreditem, elas vão, é quando o problema começa. Vocês, não, todos nós estamos andando às cegas a partir de agora.
{...}
Se passaram quase quatro meses desde o primeiro ataque do movimento.
Olivia se mostrou uma enorme ajuda desde nossa conversa. Ela e os parlamentares amigáveis a causa, parlamentares esses que eu não conhecia, foram os responsáveis pelos reabastecimentos dos materiais com frequências que com certeza teriam chamado atenção do parlamento.
Vi Monte algumas vezes desde o dia que suturei o corte na testa dele, geralmente passeando entre os feridos e pacientes após cada um dos últimos oito ataques. Não conversamos além de perguntas básicas, geralmente vindas dele, sobre onde algum paciente estava.
Até aquele dia.
-Na usina geotérmica? -perguntei, ainda sem acreditar nas palavras que tinham acabado de sair da boca de Monte.
Ele apenas assentiu em resposta. Suspirei, passando a mão na boca enquanto continuava andando de um lado para o outro no consultório em eu estávamos.
Monte tinha aparecido na Spes pro Omniums do andar 241 de uma maneira mais discreta, se comparado a primeira vez. Estranhei assim que cheguei na recepção e, ao invés de alguém do movimento aleatoriamente escolhido, era o organizador de tudo ali.
Levei Harris até um consultório vazio, onde ele nem me deu tempo para sentar antes de dizer que o próximo ataque seria na usina geotérmica do Bunker.
A usina era a responsável por toda eletricidade do Bunker, ficava no último andar, até por conta da necessidade das incisões no solo para alcançar a temperatura necessária para que toda usina funcionasse. Era também responsável por, pelo menos, vinte e cinco porcento dos empregos na área Hadal.
O que me causava nervosismo era que, obviamente, o ataque seria muito maior e teria muitos mais feridos. Por mais que a equipe de voluntários tivesse aumentado muito, a preocupação era com a infraestrutura da clínica do andar. A Spes pro Omniums do 270 era muito mal equipada, considerando o tamanho daquele ataque a provável quantidade de feridos. Para piorar a situação, a clínica mais próxima que tinha salas de cirurgia ficava quinze andares acima e, apesar da velocidade que os attollos trabalhavam, não teria maneira alguma de disfarçar toda ação.
-Você sabe o que isso implica, não é? -perguntei, parando na frente da cadeira onde ele estava e cruzando os braços.
-O que implica, doutora Price?
-Mortes.
Nos últimos oito ataques, tivemos uma média impressionante de apenas dez óbitos em todos. A equipe de voluntários trabalhava incansavelmente, sem se importar em virar a noite ou ir dar plantão no dia seguinte sem ter dormido nem trinta minutos.
-É uma ameaça?
Não consegui conter a vontade de revirar os olhos.
-Não. É um fato. O grupo é maior, a clínica não é muito bem equipada, a clínica mais próxima com sala de cirurgia fica no andar 255 e ela conta só com sete salas, a outra Spes equipada para cirurgia é nove andares antes. Você entende que vai ser quase impossível que a gente tenha, levando em consideração o tamanho do grupo, menos de quarenta mortos nesse ataque?
-Acho que você vai ter que se esforçar, doutora.
Desviei o olhar do dele, balançando a cabeça negativamente.
-Mais?
-Eu imagino que o conceito de esforço seja meio diferente para vocês da...
-Chega.
Voltei a encará-lo, a raiva fervendo demais no meu sangue para que eu sentisse qualquer coisa além de irritação quando ele levantou, se elevando os irritantes vinte centímetros além de mim.
-Chega? Eu digo quando chega, Norah Price. Eu e qualquer pessoa que sofre a mais de um século com o que vocês têm feito. Você não pode...
-Eu posso sim. Nos últimos quatro meses eu e as pessoas que você tanto abomina tem cuidado das suas pessoas. Dos seus feridos. Dos seus amigos, familiares, conhecidos ou o que seja. Eu e as pessoas que você odeia somos os responsáveis pelo fato de que ao invés de ter setenta mortos, apenas dez pessoas perderam a vida para uma causa tão importante quanto a sua –falei, me aproximando até que nossos peitos quase se tocassem.
-Isso é uma formiga comparado ao que vocês têm feito pelo último século.
-Monte, quantos anos você acha que eu tenho?
Peguei o homem de surpresa, a julgar por sua expressão.
-Eu tenho trinta e dois anos. A Grande Imersão aconteceu cento e trinta anos atrás, te garanto que eu e nenhuma das pessoas que têm ajudado era nascida. Eu entendo seu ressentimento e raiva, mas eu e nenhum dos voluntários temos nenhuma ação em toda essa merda que você e seu povo tem aguentado no último século.
Silêncio reinou na sala. Monte me encarava seriamente, nada do sarcasmo ou hipocrisia que normalmente estavam em sua expressão. Me recusei a afastar os olhos primeiro, apenas esticando a cabeça quando ele abaixou o rosto até que nossos narizes estavam a um dedo de distância.
-Já te expliquei antes, doutora, vocês fazem isso para o seu próprio benefício. Para não ter um peso aqui –disse enquanto sua mão se estendia até mim, o dedo indicador acompanhando a curvatura do meu pescoço até o ombro. -Vocês não são melhores que aqueles que estão sentados nas cadeiras do parlamento.
Minha coluna enrijeceu, mas não me afastei de seu olhar e apenas sorri sarcasticamente.
-É mesmo? Ou você prefere se convencer disso para não assumir que sua visão de vilão e mocinhos não é tão preto no branco assim? Ou precisa se convencer que, apesar de necessária, nossa ajuda é inútil? Para que você possa se sentir bem o suficiente para colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo com o ressentimento que você guarda há anos aqui. -Deixei que meu dedo encostasse no peito dele, pouco acima da costela.
Continuei o encarando por alguns segundos antes de dar um passo para trás, satisfeita com a falta de resposta do homem.
-Você pode ir agora, Monte. Não se preocupe, no dia do ataque eu e os voluntários do meu tipinho estaremos lá para cuidar dos seus.
{...}
Oitenta e sete pessoas.
Oitenta e sete pessoas mortas.
Era oito da manhã, estava acordada há um dia. Eu e os voluntários tínhamos trabalhado e atendido todos os pacientes o mais rápido possível, mas o volume era grande demais, tudo era demais. A violência era demais, os ferimentos eram extensos demais e as perdas foram grandes demais.
Tinha me fechado em um dos consultórios da clínica do andar 247, onde tinha levado meu paciente para cirurgia. Também morto.
Bryce tinha subido até o 227, também para uma cirurgia. Vi quando ela entrou no attollo com o rosto abatido e ombros baixos, a ruiva nunca tinha se acostumado com a morte, mesmo na profissão eu tinhamos. E oitenta e sete em uma noite... aquilo era demais.
Coloquei o rosto nas mãos, deixando, finalmente, as lágrimas que eu tinha segurado desde o momento que chegamos em quinze mortos e a noite ainda estava no começo, momento que eu percebi que aquilo seria... demais.
Solucei incompreensivelmente, esfregando os olhos enquanto todo meu corpo tremia diante de todo estresse. A imagem de cada um dos mortos parecia estar gravada atrás das minhas pálpebras, e aquilo surgia sempre que eu fechava os olhos. Não conseguia mantê-los abertos para encarar a realidade, mas também estava impossibilitada de fechá-los.
Uma batida soou na porta atrás de mim. Olhei para trás rapidamente, limpando as bochechas enquanto a figura da pessoa que eu menos queria ver entrava.
Suspirei quando voltei a virar, não querendo sentir os olhos julgadores de Monte.
-Agora não, Monte –falei, passando as costas da mão no nariz e fungando levemente.
Se entrássemos em outra discussão, o que aconteceu nos nossos últimos três encontros, eu tinha certeza que não conseguiria ficar em pé na frente dele sem desabar totalmente. Se acontecesse... era algo que, talvez, nunca me recuperaria totalmente.
-Eu preciso de pontos.
Respirei profundamente, engolindo o choro que ainda estava na minha garganta, antes de assentir, levantando da cadeira onde estava sentada.
Monte entrou no consultório, fechando a porta atrás de si, enquanto eu ia até o carrinho, puxando uma bandeja metálica e começando a separar os materiais que eu usaria. Fechei os olhos brevemente quando terminei, prometendo a mim mesma que assim que ele saísse eu voltaria para minha fossa, e virei para encará-lo.
A visão me pegou de surpresa por alguns segundos, Monte estava sujo da cabeça aos pés, tinha sangue para todo lado e vários cortes que pareciam superficiais, mas o que chamava aenção era a enorme mancha de sangue em cima de sua costela.
-O que aconteceu? -questionei, me aproximando, e nem ligando para o fato de que ele poderia muito bem ver pelo meu rosto que eu estava chorando.
-Tiro de raspão.
-Por Deus...
Parei, como da primeira vez meses atrás, entre suas pernas, puxando as luvas nas mãos.
-Tira a camisa, por favor.
Monte desabotoou a camisa imunda, revelando o peito surpreendentemente definido, e tirou um dos braços, mas seu rosto se contorceu em dor quando tentou puxar o do lado machucado. Me adiantei, puxando a peça de roupa delicadamente antes de jogar no lixo mais próximo.
-Te dou um scrubs depois. Você vai acabar infeccionando o corte se vestir aquilo de novo –comentei, respondendo à pergunta em seu rosto.
Ficamos os próximos minutos em silêncio enquanto eu limpava o excesso de sangue ao redor da ferida, observando se algum estilhaço tinha sobrado e assentindo para mim mesma quando vi que a bala tinha feito um caminho limpo. Embebi o cotonete de cabeça grande no líquido escuro, olhando para Monte nos olhos pela primeira vez e sendo pega de surpresa.
Ele já me encarava, mas, ao invés dos olhos julgadores que eu esperava, Monte tinha algo diferente ali. Era... compreensão, em algum nível.
-Isso talvez doa –falei, desviando a atenção para a ferida de novo.
-Ok.
Ficamos em silêncio pelos próximos minutos enquanto eu limpava a lesão. Monte enrijeceu com o contato do antisséptico, mas não disse nada todo processo. Tirei o excesso do líquido escuro com uma gaze antes de voltar a olhar para ele.
-Posso usar anestesia? É local –falei, mostrando a seringa.
-Sim.
Assenti, não comentando minha surpresa, e me apressei em aplicar a anestesia, com o maior cuidado possível para causar menos dor.
-Faz efeito em uns três minutos –comentei, me afastando um passo e começando a descartar as gazes, o cotonete e também as luvas sujas que eu usava, puxando novas logo em seguida.
-Você sabe que não é sua culpa, não é?
-Uhm? -questionei, confusa com a fala aparentemente aleatória dele.
-As mortes.
Silêncio.
Silêncio total.
No consultório, na minha cabeça, no meu corpo, até meu coração parecia ter parado.
E então as cenas.
Dezenas de mortos, tirar os corpos das macas e não os levar para um lugar decente porque tinha muita gente chegando e precisávamos usar o equipamento. Bryce com os ombros baixos e nenhum resquício do sorriso que estava sempre colado no rosto. O médico mais experiente de todos os voluntários sem conseguir segurar as lágrimas após mais uma morte na noite. Fazer massagem cardíaca no attollo apenas para a paciente morrer assim que chegamos no andar que precisávamos. Descer até o 270 de novo com a maca vazia após deixar o corpo da mulher na clínica, apenas o sangue manchando o colchão. Chegar lá e ver o caos que parecia ter piorada. Fazer uma cirurgia de três horas apenas para que o paciente morresse nas minhas mãos.
E se eu tivesse procurado mais voluntários? Nosso grupo já tinha por volta de cento e cinquenta pessoas, mas tínhamos começado com vinte e cinco, não era possível que apenas cento e cinquenta pessoas em todo Bunker estavam dispostos a ajudar, certo? Ou, talvez, se eu tivesse tentado colocar senso na cabeça de Monte ao invés de discutir com ele na última vez que nos encontramos, aquelas oitenta e sete famílias não estariam chorando a morte de seus entes queridos.
-Não são? -questionei, ignorando o quanto minha voz parecia frágil.
-Não.
-Aquelas pessoas eram minha responsabilidade. A saúde delas era minha responsabilidade, Monte. Se eu...
-O "se" agora só serve para se torturar, Norah.
Parei ao lado da cadeira de rodinhas, a mão apoiada no encosto das costas quando arrastei até que estivesse na frente de Monte. Não sentei imediatamente, ainda olhando para ele.
-Há poucos dias atrás você teria concordado comigo.
-Não, não teria –foi o que disse quando sentei na cadeira, gesticulando para que ele deitasse na maca em seguida.
-Você concordar ou não comigo não anula o fato de que eu tenho o sangue de oitenta e sete pessoas nas mãos.
-Norah, o número total de envolvidos na ação de ontem foi trezentos e cinco. Duzentas e quinze pessoas foram atendidas por você e seus voluntários, oitenta e sete morreram, mas cento e vinte oito ainda estão aqui para contar a história. E eles são gratos, Norah, tão gratos que nenhum conseguirá agradecer o suficiente mesmo que vivam um século. Eu nunca conseguiria agradecer mesmo se vivesse um século.
Não tive resposta para aquilo, mas o nó desconfortável no meu peito se soltou.
Fiquei quieta, assim como Monte, enquanto cutucava a pele ao redor da ferida para ver se a anestesia tinha funcionado antes de começar os pontos. Todo processo foi feito em silêncio e, logo, eu colocava o curativo cuidadosamente ali.
Continuei em silêncio enquanto me arrastava ainda na cadeira até mesa que estava antes, puxando a gaveta e tirando o scrubs verde reserva que mantinham lá, jogando para Monte em seguida.
Observei enquanto ele colocava a peça e levantava da maca, mas, ao invés de se afastar, apenas encostou no colchão, olhando de cima. Encostei na cadeira, ignorando aquele sentimento que acendeu dentro de mim quando vi que os olhos de Monte não tinham voltado aquele tom frio e julgador que estava quase me acostumando.
-Você deve estar cansada, vamos, vou te acompanhar até o attollo.
Assenti, decidindo não questionar a súbita bondade dele em ser legal comigo, e levantei da cadeira, sabendo que algo estava errado assim fiquei em pé e a sala pareceu girar ao meu redor. Minha vista ficou preta pelo o que pareceu um segundo, o rosto de Monte se apagando, e em seguida voltei a enxergar.
Pisquei algumas vezes, sentindo quando o sangue pareceu correr do meu rosto. Monte tinha, aparentemente, conseguido me segurar bem a tempo de evitar que eu caísse durante o breve desmaio, e algum lugar na minha mente agradeceu a tecnologia inovadora dos pontos que usávamos que era impressionantemente forte – porque teriam estourado com toda certeza se não fosse.
Ele conseguiu fazer com que mudássemos de lugar, me apoiando precariamente na maca que estava antes, os dois braços me segurando pelos cotovelos.
-O que...
-Há quanto tempo você não come, Price?
O encarei, ainda meio confusa, e levei a mão até a parte de trás da cabeça, onde uma dor começava a aparecer.
-Eu... eu não sei. Acho que ontem de manhã? Passei o dia preparando a clínica do 270.
-Ok, você vem comigo então -ele disse simplesmente, me apoiando ainda pelo cotovelo ao me ajudar a levantar.
-O que? -questionei.
-Só vem.
Nem tive tempo de questionar mais nada antes que ele passasse um dos braços ao redor da minha cintura, quase me arrastando para fora da sala. Andando com uma velocidade impressionante para alguém que arrastava um peso morto, praticamente.
-Pra onde você tá me levando? Os attollos são para o outro lado –falei, fincando os pés no chão com um pouco de dificuldade e fazendo com que ele parasse. Tínhamos alcançado o lado de fora da clínica e ele seguia na direção contrária a que eu esperava.
Monte suspirou e, apesar de seu braço ter sumido da minha cintura, ele ainda parecia estar próximo o suficiente para me pegar se mais um breve desmaio acontecesse.
-Para comer, Norah. Talvez dormir um pouco ou tomar um banho antes de subir as centenas de andares até sua casa, você realmente precisa questionar tudo? Não confia em mim?
-Eu tenho que responder essa pergunta?
Ele bufou, mas continuou esperando que eu concordasse. Revirei os olhos, fazendo um gesto na frente do corpo para que que mostrasse o caminho. Monte fez exatamente isso, mantendo a proximidade desconcertante enquanto nos embrenhávamos entre as ruas estreitas.
Logo estávamos em uma rua com várias casinhas pequenas, algumas parecendo mais malcuidadas do que outras. Andamos quase até o final antes que parássemos na frente de uma delas. A fachada da casa era parecida com as outras, mas aquela tinha algumas flores e plantas que pareciam ser muito bem tratadas decorando a frente.
-Nunca pensei em você como um cara de flores, Harris -não consegui impedir a provocação, contendo a vontade de sorrir quando vi o revirar de olhos dele.
-Eu não sou, mas minha mãe e minha filha são -respondeu.
Desviei o olhar para ele, agora verdadeiramente chocada.
-Você tem uma filha? Quantos anos?
Monte não ouviu, ou simplesmente não quis responder, e entrou na casa, acenando para que eu fosse atrás.
Hesitei um pouco, mas fiz o que foi pedido, olhando ao redor da sala que entramos e vendo a decoração simples, mas muito bonita. Segui Monte pelo corredor estreito até que ele parou repentinamente na frente da segunda porta, empurrando aberta e exibindo um quarto pequeno com uma cama de solteiro encostada na parede contrária. Ele gesticulou para que eu esperasse antes de entrar e ir até o guarda-roupa, puxando uma toalha que algum dia foi azul escuro.
-Aqui, o banheiro é ali do outro lado –disse, apontando para a porta atrás de mim do outro lado do corredor.
-Ok, obrigada –respondi, olhando brevemente na direção que apontou. -Você tem algum saco para eu colocar esse scrubs? Tá cheio de sangue e não pode ser jogada em lixo comum.
-Sim, sim. Vou deixar na maçaneta, chama se você se sentir mal, ok? Não vai cair e morrer lá dentro.
Revirei os olhos, mas agradeci ao pegar a toalha e entrar no banheiro.
Não demorei a tirar as roupas nojentas, encostando a orelha na porta para ouvir se Monte estava do outro lado, antes de abrir a porta rapidamente e pegar a sacola que estava apoiada na maçaneta. Enfiei o scrubs lá dentro, amarrando firmemente e me enfiando embaixo do chuveiro em seguida.
Meu banho foi rápido, mas me senti outra pessoa quando finalmente interrompi o fluxo de água. Me enrolei na toalha, me xingando quando percebi que não tinha pensado em pedir roupas emprestadas. Enrolei minha boca em uma linha fina, olhando a sacola com as roupas sujas, mas o mero pensamento de colocar aquilo de novo fazia meu estômago virar.
Apertei a toalha mais firmemente ao meu redor, me preparando para abrir a porta o banheiro e pular para dentro do quarto para procurar qualquer coisa dentro daquele guarda-roupa que tinha visto Monte abrir naquela hora.
Nem pensei em tentar escutar os barulhos do outro lado da porta quando abri e disparei para fora, a sacola das roupas na mão, mal vendo o que estava na minha frente e com total objetivo de entrar no quarto.
Mas, então, colidi com um corpo mais alto que o meu.
Tropecei para trás, sacola caindo no chão e eu quase seguindo o mesmo caminho, se não fosse as mãos que me agarraram pelos ombros ainda úmidos.
Olhei para cima, os olhos arregalados encontrando os de Monte. Por dois segundos ele parecia que iria me perguntar se eu estava bem, mas então vi quando sua atenção desviou para o meu pescoço. Minha respiração desacelerou quando vi os olhos dele seguindo a pele nua da minha clavícula e descendo até as pernas que eu sabia estarem nuas demais em consequência da toalha.
Arrepios correram meu corpo desde o começo da coluna até as pontas dos dedos dos meus pés. Conti como pude a vontade incontrolável de me aproximar, o que parecia uma missão muito mais impossível do que qualquer outra coisa que eu tenha enfrentado na vida.
Ergui o queixo, o encarando de volta assim que sua atenção voltou para o meu rosto. A mão em meu ombro subiu até alcançar minha nuca, os dedos apertando a base com a pressão certa para que eu, finalmente, desistisse da minha tentativa de parar com a minha própria vontade.
Monte bateu os lábios contra os meus com uma fome tão grande quanto a minha. Seu corpo me empurrou contra a parede atrás de mim, parecendo não ligar em ficar molhado quando a outra mão desceu até minha perna, puxando para cima e deixando clara sua vontade.
Não me fiz de rogada, rapidamente tomando impulso e zerando de vez nossa diferença de altura quando cruzei os tornozelos atrás das costas dele. Abracei seus ombros com um dos braços, a outra mão indo parar na parte de trás da cabeça dele quando intensifiquei ainda mais o beijo, choramingando contra a boca dele assim que Monte pressionou todo o corpo pelo meu.
Fui eu quem se afastou primeiro, o ar sumindo dos meus pulmões muito rapidamente, mas ele não tirou os lábios da minha pele, apenas descendo o beijo pela lateral do meu pescoço.
Meus olhos caíram fechados ao mesmo tempo que a toalha que eu ainda usava, finalmente, cedeu à pressão, abrindo na altura do meu peito. Monte não desperdiçou a oportunidade e, repentinamente, a ponta de seus dedos estavam apertando e torcendo o mamilo. Arfei, fazendo um som entre um suspiro e um gemido, quando a dor misturada ao prazer tomou todo meu corpo.
Aquele som foi minha ruína.
Monte pareceu voltar a si quando ouviu aquilo, se afastando de mim quase como se eu estivesse pegando fogo. Não fui parar no chão por muito pouco, encostando totalmente na parede assim como Monte fazia do outro lado do corredor.
Voltei a toalha para o lugar apressadamente, tentando acalmar minha respiração enquanto o juízo parecia voltar para minha cabeça e eu encarava meus atos.
Por Deus, o que eu tinha acabado de fazer?
{...}
Apenas um dia tinha passado desde meu lapso de julgamento e eu ainda não tinha conseguido tirar aquela cena da cabeça.
Depois daquele... momento, Monte me emprestou roupas, de sua mãe segundo ele, e insistiu que eu comesse antes de ir embora. Nós dois comemos em um silêncio tenso, nenhum disposto a citar o que tínhamos acabado de fazer, e eu com medo demais de que, se olhasse para ele por muito tempo, iria querer repetir.
Subi as centenas de andares com aquilo tocando na mente. Cheguei em casa e coloquei minhas roupas com aquilo na mente. Fui dormir achando que esqueceria por algumas horas, mas sonhei com aquilo e... mais um pouco. Acordei lembrando, me arrumei para o plantão no hospital da meso lembrando e saia de casa lembrando.
Mas então dei as costas para a porta do meu apartamento e minha mente ficou vazia.
Quatro magistratus concilii estavam parados na frente da minha casa. Eles vestiam os uniformes pretos e muito bem equipados com armas que eu já tinha visto, mas não sabia os nomes. O símbolo do Bunker, um tipo de estrela de quatro pontas, estava exibido nos braços deles.
Os magistratus concilii eram a segurança e as pessoas que mantinham a ordem para o parlamento. Eram silenciosos, eficientes e, bem, mortais. Pouquíssimas vezes eu tinha interagido de alguma maneira com eles, mas aquela era a primeira vez que estavam parados na porta da minha casa.
E aquilo não era um bom sinal.
-Senhores –cumprimentei hesitantemente, virando totalmente para encará-los.
-Doutora Price –o da frente me cumprimentou de volta, acenando com a cabeça rapidamente. -Sua presença é solicitada no parlamento.
Assenti, sabendo que não conseguiria evitar de maneira alguma aquilo, e deixei que me cercassem ao me seguir até o elevador do meu prédio.
Descemos os poucos andares sem encontrar ninguém, mas, assim que cheguei na recepção, vi o cabelo ruivo que poderia reconhecer a quilômetros.
Bryce, minha vizinha de porta que por pouco não viu os homens parados em nosso corredor, olhou na minha direção com os olhos arregalados, parecendo que voltava do mercado a julgar pelo scrubs e os fios presos no rabo de cavalo que sempre usava tanto no plantão no hospital da meso como na clínica para trabalhar.
Inclinei a cabeça para baixo levemente, dizendo em silêncio "Monte", feliz quando ela pareceu entender, assentindo discretamente, que eu queria que ela descesse e procurasse o homem para avisar dos últimos desenvolvimentos.
Voltei a encarar a parte de trás das cabeças dos homens na minha frente, ficando em silêncio e apenas seguindo-os até o attollo que nos levaria ao primeiro andar e ao parlamento.
Fiquei a curta viagem pensando o que um dos parlamentares iria querer comigo e lembrando da última vez que estive ali, para defender o projeto da Spes pro Omniums. Meu estômago estava girando como se eu estivesse dentro de uma máquina de lavar, e meu café da manhã parecia querer fazer uma aparição.
Nem vi quando fui parar no prédio do parlamento, muito menos quando entrei no elevador com eles. Minha mente parecia estar a quilômetros de distância do meu corpo e nervosismo puro corria nas minhas veias.
As portas do elevador abriram e os dois magistratus concilii abriram espaço para que eu descesse. Sozinha.
Entrei na sala, vendo quando a mulher sentada na mesa levantou e, sem dizer nada, apertou um botão que abriu as portas metálicas que eu apostava ser de alta segurança antes de gesticular para que eu entrasse.
Cruzei o caminho de elevador até ela, dando um passo para dentro e, logo em seguida, escutando quando as portas fecharam com um baque. Mas não foi aquilo que me assustou. Também não foi a escultura bizarra ou a mesa enorme que tinha apenas um computador em cima.
Não, o que me assustou foi quem estava sentado atrás da mesa.
Harry Williams estava ali.
-Olá doutora Price, que grande prazer a conhecer.
O Caput Concilio tinha me trazido até seu escritório e eu duvidava que ele quisesse ter apenas uma conversa amigável.
Espero que tinham gostado! Daqui uns dias volto com mais Norah e Monte na segunda (e última) parte de Titanium!
