Ato 1


"Está certo de que tem coisa valiosa aqui, Chandler?"

"Pode confiar, Hawk. Aqui é uma mina de ouro em mercadorias e trecos confiscados pela polícia. Vamos nos encher de grana."

"Tomara que valha a pena, cara." Falou Hank quando abria o portão dos fundos do depósito da polícia de Royal Woods onde armazenava-se contrabandos, provas e afins, todos obtidos de cenas de crimes.

Dentro da estrutura, os três assaltantes foram com cuidado pra não chamarem qualquer atenção, seja visual ou sonora, indo por estantes e prateleiras enormes com caixas e engradados contendo inúmeros produtos confiscados, muitos destes já parados há anos aqui por serem de crimes não-solucionados.

"Caramba. Não falta caixa por aqui. É certeza de que vamos achar bagulhos dos bons aqui?"

"Eu garanto, Hank. Não faltam antiguidades, joias, aparelhos eletrônicos e tecnologia de ponta. Vejam ali, por exemplo." Chandler indicou um caixote retangular bem à frente. Ele e seu bando foram pra mais perto. Chandler soprou a tampa e se animou ao reparar no emblema lembrando um ovo, mas riscado do lado esquerdo em vermelho e à direita com risco azul, incluindo na linha central, lembrando uma junção de C e D. "Eu conheço este símbolo. Trabalhei como estagiário nesta empresa e pude ver como tinha tecnologia de alta ponta. Vai nos render um dinheirão pros compradores corretos."

"Bem, o que estamos esperando? Convite VIP?" Perguntou Hawk de posse de um pé-de-cabra, forçando a tampa. Seus parceiros trataram de ajudar, tirando os pregos com tudo e faltando um pouco pra tábua ceder, sem aviso algum, um punho estilhaçou a madeira, mandando os delinquentes pra longe. Ao se recomporem, viram ser o Ás Astuto se erguendo.

"Essa não. O maldito Ás Astuto. Pra cima dele, Hawk." Mandou Hank, saltando sobre o herói mascarado. Se esperava que dois brutamontes fossem capazes de subjugar alguém com um físico menor, porém o paladino das cartas agarrou ambos e lhes bateu as cabeças com tanta força que causou-lhe uma ferida leve, mas o bastante pra sangrar.

"Cara. Você tá sangrando. Vou desmaiar."

"Hawk. Se você desmaiar, desmaio também." Dito isso, ambos caíram inconscientes.

"Que manés. Estes não jogam mais." Respondeu Ás com certo desprezo. Vendo não ter concluído o assunto, Ás Astuto saiu na perseguição de Chandler, este escondido num canto e com um revólver pronto para disparar.

"Pode vir, desgraçado. Nunca mais vou ouvir seus trocadilhos de cartas." Disse bem nervoso quando escutou os passos se aproximando. Sentindo que estava bem perto, saiu e atirou como louco. "AHÁ. MORRE, SEU NOJENTO. MORRE."

Foram uma bala atrás da outra, alvejando Ás Astuto, mas inexplicavelmente, ele não tombou. Não tendo mais munição, Chandler só observava o homem diante dele e uma visão de deixar o sangue gelado.

"Ahhh. O que é isso? O que é isso? Você...não é humano. VOCÊ NÃO É HUMANO." Chandler recuou ainda mais amedrontado e tentando saber o que o tinha aterrorizado tanto, o herói de Royal Woods viu algo em seu peito que não tinha como explicar.

"Mas...mas, o que é isso?"


Quase uma hora depois em sua casa, Ás Astuto cambaleava pela sala de estar, sem entender o que havia se dado. Vendo a tempestade relampejar pela janela, em certo instante viu no vidro o mesmo símbolo impresso na caixa do armazém em sua mente. Olhando pro lado, voltou-se pra lareira e reparou nas fotos, imagens dele em sua infância com sua família.

"Mamãe, papai...irmãs."

"Quem está aí?" Escutou-se uma voz repreensora ao longe. Ás se virou e com a luz acesa, notou ser seu fiel parceiro, Valete Caolho.

"Ás? Você está aí? Desculpe pelo gesto áspero, mas me assustou. Pensei que ia entrar pela caverna. Você está bem?"

"Eu...eu não sei, Valete, mas..." Balançando sua longa capa, o herói revelou as feridas em seu corpo, o qual se mostrava ser de uma placa peitoral metálica contendo fios arrancados e faíscas saltitando, trazendo horror ao olhos do seu parceiro. "o que está...acontecendo comigo?"

Continua...