Ato 2


No armazém de provas, a polícia dava duro para retirar os 3 criminosos amarrados bem ao topo do prédio. Mesmo com a ajuda dos bombeiros, foi um desafio tirá-los de lá.

"Parece que eles tiveram um dia bem cheio e posso supor quem possa ter sido." Citou a comissária Maria Santiago.

"Fala de mim?" Ao se virar, viu que o Ás Astuto surgira como de costume: sem fazer um som sequer, igual a um ninja.

"Ora, quem é vivo...vimos seu presente-surpresa, mas se não for pedir demais, na próxima vez deixe-os um pouco mais baixos."

Ás e Maria foram pra perto dos 3 bandidos, dos quais só Chandler ainda estava acordado. A comissária notou algo preso a corda: era uma das cartas-dardos do Ás.

"Seu, suponho eu."

"Sim, ao que tudo indica." Respondeu o justiceiro, examinando bem o projétil. Nisso que Chandler o viu e ficou apavorado.

"Ei, se afasta. Se afasta. Ele não é humano. Não é humano, estou dizendo." Ás Astuto olhou de mais perto e pegou uma pequena peça eletrônica na gola do fora-da-lei. Vendo o item com mais cuidado, chamou Maria pra uma conversa a sós.

"Preciso dizer, Maria. Não fui eu quem pegou esses homens."

"Não? Então teria sido o Valete Caolho?"

"Pouco provável. Ele ficou no esconderijo, mas irei ver o que se deu e ir a fundo nesse mistério."

"Ótimo, faça isso, e depois disso..." Foi apenas se virar que Maria reparou na ausência quase sobrenatural do seu amigo mascarado. "Eu odeio quando ele faz isso."


"Não, para trás. Estou avisando. Você é um duplicoide." Falou o Valete Caolho, segurando seu bastão no intuito de se distanciar do indivíduo perante ele.

"Duplicoide? Mas como assim, Valete?"

"Não sei o que fez com o Ás, mas se for esperto, vai me contar já."

"Não, Valete. Sou eu sim, em pessoa." Ás retirou sua máscara, mostrando seu rosto. "Algo aconteceu comigo e precisa me ajudar. Somos parceiros, lembra?"

Sem dar importância a tais palavras, o Valete apertou o botão secreto que leva a caverna secreta da dupla. Uma vez dentro, a fechou rapidamente, deixando o suposto Ás sem muita reação exceto de tentar deslacrar a porta.


Descendo até a caverna, Valete Caolho pegou uma máscara de gás e abriu o sistema de gás contra intrusos, indo até o computador central na esperança de se comunicar com seu parceiro.

"Vamos lá, Ás. Atende. Atende." Sem notar devido a preocupação de ligar, Valete foi pego no pescoço por trás e teve sua máscara arrancada, aspirando a fumaça e caindo ao chão em segundos. A seguir, o sósia do Ás dissipou o gás todo.

"Lamento, meu amigo, mas há respostas que preciso achar." Ele se dirigiu até o gigantesco console, ativando-o. "Computador, processe informações sobre 'duplicoides'."

"PROCESSANDO...DUPLICOIDES: ROBÔS COM CAPACIDADE DE REPLICAR A APARÊNCIA E COMPORTAMENTO HUMANOS, PROJETADOS E CONSTRUÍDOS PELO CONSOLE AUTOMÁTICO DIGITALIZADO INTERFACIAL DE CÁLCULOS EXPRESSOS, VULGO C.A.D.I.C.E.."

"Situação atual de CADICE?"

"DESTRUÍDO QUANDO, AO ADQUIRIR CAPACIDADE DE PENSAMENTO PRÓPRIO E LIVRE ÁRBITRIO, TENTOU ELABORAR PLANO PARA SUBSTITUIR A RAÇA HUMANA INTEIRA POR DUPLICOIDES."

"Possibilidade de haver duplicoide do Ás Astuto ou de sua atual identidade, Spade Nifty."

"DADOS INSUFICIENTES."

"Lista de duplicoides conhecidos, por favor."

"BUSCANDO: LOUD, LISA; SANTIAGO, MARIA; GROUSE, BUDDY; JOHNSON, AGNES; SULLIVAN, KEVIN; SAVINO, CHRIS. SITUAÇÃO DE TODOS: DESTRUÍDOS."

"Ampliar quadrante esquerdo superior." A foto de Lisa Loud se destacou na tela. "Buscar atual paradeiro de Lisa Loud."

"PROCURANDO..."


Numa fazenda nos arredores de Royal Woods, tudo se mostrava tranquilo e dentro do normal, exceto pelos robôs-coletores e plantadores auxiliando sua criadora na colheita e plantio. Lisa Loud, outrora uma brilhante cientista e engenheira eletrônica, agora busca deixar no passado os erros cometidos pela ilusão de um mundo perfeito, se dedicando a uma vida simples.

Entretanto, seu sossego acabou interrompido pela presença do Ás Astuto, alarmando-a de modo suave.

"Ahhh, é você, Ás? O que o traz aqui?"

"Encontrei isto de posse de alguns criminosos que dizem que os detive, quando sei que não." Ele exibiu o mecanismo para a cientista, que examinou com cuidado. "Acha que CADICE possa ter feito outro duplicoide? Um semelhante a mim?"

"Puff. CADICE se foi de vez. O que não explodiu, foi confiscado pela polícia ou acabou reduzido a ferro-velho. Somente brinquedos quebrados que larguei de uma vez. Só faço agora a vida a crescer, Ás, como essas plantas. Não tento mais criar vida, exceto se um dia achar minha cara-metade."

"Compreendo que seja doloroso rever o passado, mas se o que está havendo estiver acontecendo..."

"Se sabe como isso doí, Ás, por favor, me deixe em paz. Não quero mais remexer no passado." Pediu Lisa em tom repreensivo. Vendo que não iria adiantar pressionar, o herói das cartas se retirou, mas mantendo uma certa distância por imaginar o que se daria depois.


Mais tarde, dentro de sua estufa também automatizada e limpa por robôs auxiliares, Lisa mantinha-se perdida em pensamentos quando sem aviso, uma sombra surgiu e pela silhueta, reconheceu de imediato.

"Você de novo? Já contei o que sabia. Então por que..." Entretanto, ao se virar, o pânico tomou seu corpo ao reparar que o indivíduo diante de si era não era o real Ás Astuto, mas seu sósia e pela exposição de suas partes metálicas, o medo só aumentou.

"Lisa, você precisa me ajudar." Suplicou o segundo Ás.

"M-m-m-mas..de onde você veio?"

"Por favor, me ouça. Não sei como ou quando, mas de alguma forma, alguém ou algo transplantou minha mente pra dentro deste corpo mecânico. Creio que só você possa me ajudar."

Lisa, ainda que um pouco apreensiva pela figura em sua frente, se aproximou e examinou os estragos feitos pelas balas. "Hmmm. Células de energia comprometidas. Eletrodos danificados. Estabilizadores em curto. Em resumo, os danos foram extremamente sérios, levando a uma desativação iminente, provavelmente em poucas horas."

"Sendo assim, não nos resta muito tempo. Temos que achar meu corpo real ou transferir minha mente para outra estrutura robótica."

"Creio que não está ciente de sua verdadeira natureza. O que pensa ser uma mente humana num robô é o que é na realidade, ou seja, você é o próprio robô."

"Não. Não tem como ser verdade. Acha que não conheço minha família e amigos? Eu me recordo de nomes, rostos, eventos, aniversários. Tenho lembranças, um passado real. Eu percebo isso." O sósia quis se justificar quase perdendo a calma, mas Lisa só lhe virou a cabeça em tristeza e pena.

"O que possui são arquivos, informações e dados, só. Se de fato é um homem, recorda-se do seu primeiro beijo, sua música favorita, o primeiro presente de Natal ou da última vez que comeu frango frito?"

"Eu...eu não, mas..." Disse o Ás em dúvida, mas algo atrás de Lisa lhe chamou a atenção enquanto ela falava. Um dos robôs limpadores fez uma marca de água que sutilmente se assemelhou ao símbolo marcado em sua caixa: a forma oval que parecia a junção de um C e um D.

"Se recorda de algo além de fatos objetivos? Tais fatos e dados podem vir de qualquer lugar e..." De repente, o sósia agarrou Lisa, prendendo-a contra a parede de vidro.

"ONDE ESTÁ CADICE?"

"Mas p-por que quer saber? CADICE foi eliminado de vez. Nada resta além de lixo metálico." A ex-cientista sentia algo de perigoso vindo diante do ser que a prendia.

"Onde ele está? Me diga, agora." Repetiu o falso Ás, subitamente acertado por um chute bem aplicado nas costas. Ao se virar, viu ser o verdadeiro Ás Astuto em posição.

"Sorte sua que confio na intuição. Vejamos como vai ser o jogo agora." Ás se retirou, se agachando pra fugir de vista. Vendo um balde de água cheio bem a vista, não hesitou ao notar a chegada do impostor e lançou água sobre ele, causando uma disfunção em seu sistema, derrubando-o e parecendo tê-lo derrotado. Lisa, de posse de um machado, tentou investir contra o ser caído, mas Ás a deteve.

"Não, não o faça."

"Temos que detê-lo de uma vez por todas, Ás Astuto. Se ele continuar operando..."

"Não ainda. Se CADICE de alguma forma foi reativado, esta máquina pode nos guiar até ele. Só precisamos analisar seu sistema." Mas sem notarem, os olhos eletrônicos do robô acenderam em vermelho, virando-se contra seu sósia humano, entrando em briga com ele. Ambos saíram no braço de tal forma que atingiram a pilastra principal da estufa, derrubando parte do teto. Lisa buscou se refugiar o mais que podia. A luta dos dois Ases se intensificava a cada minuto e o mais impressionante foi que embora o robô pudesse ser fisicamente superior, o Ás humano não ficava nada atrás graças ao seu intenso treinamento.

O combate levou aos dois indivíduos se jogarem pela parede de vidro, indo pararem do lado de fora, mas esse impacto abalou mais ainda a estrutura destinada ao cultivo de plantas, causando um desabamento. Quando tinha a vantagem de ter o Ás Astuto em suas mãos, o sósia mecânico se virou e notando que Lisa corria perigo de vida, largou seu rival humano e regressou à estufa, achando a indefesa mulher. Reparando não haver tempo suficiente pra correr de lá, o robô-cópia arremessou Lisa pra longe, indo parar nos braços do vigilante de Royal Woods. No momento seguinte, toda a estufa caiu de uma vez.

Ás e Lisa ficaram de olho em busca de algum sinal de movimento nas ruínas da edificação, mas nada encontraram.

"Ele deve ter escapado. São mais resistentes do que tinha previsto, mas pra onde teria ido?" Questionou Lisa ao seguir Ás até sua van de patrulha.

"Acredito que sei. Um blefe arriscado, mas creio que vai rolar."

Continua...