Ato 3
De volta ao armazém de provas, o robô vasculhava cada canto do ambiente e embora fosse bem escuro, com sua visão especial enxergava tão bem como se fosse dia. De repente, algo lhe trouxe atenção: algumas peças eletrônicas sobre uma caixa com o símbolo que buscava.
"SÍMBOLO DE RECONHECIMENTO CONFIRMADO." Escutou-se uma voz mecânica em sua mente.
"Mas...o que é isso?" Porém, antes de saber a resposta, focou seus olhos em algo parecido com um plug em meios às peças. A seguir, retirou sua cobertura de pele do rosto, revelando seu semblante real de um robô. De alguma maneira tentando resistir, a máquina quis evitar introduzir aquela peça na cavidade de seu crânio, mas não pôde resistir e a clicou.
"SINAIS VITAIS ENFRAQUECENDO. INICIANDO SEQUÊNCIA DE CONSERTO E REPAROS." Alguns cabos com soldas emergiram do trás do feixe da capa, arrumando os estragos e reconectando as partes danificadas e os estilhaços visíveis. Pouco tempo depois, seu corpo havia sido consertado.
"AVISO: ERRO DE MEMÓRIA. RECONFIGURAR REGISTROS E ARQUIVOS."
"Ahhh. O que acha que está...fazendo comigo?"
"UM PROGRAMA DE APRENDIZAGEM DESIGNADO PARA COMPLETAR SUAS LACUNAS E ATUALIZÁ-LO SOBRE SEUS DEVERES. POUCO ANTES DA DESTRUIÇÃO TOTAL, CADICE MONTOU UM ÚLTIMO DUPLICOIDE: UM PROTÓTIPO AVANÇADO DESENVOLVIDO POR DADOS TÉCNICOS E PESSOAIS OBTIDOS DO COMPUTADOR DO ÁS ASTUTO. VOCÊ...FOI O RESULTADO DESSE TRABALHO, MAS SEU BANCO DE MEMÓRIA PERMANECEU IMCOMPLETO ANTES DA ATIVAÇÃO."
"O PLUG AGORA INTRODUZIDO EM SUA CABEÇA É UM QUADRO DE MEMÓRIA CONTENDO O NÚCLEO E AS MEMÓRIAS DE CADICE. TODOS OS DUPLICOIDES SOBREVIVENTES E FUNCIONAIS FORAM PROGRAMADOS PARA IREM ATRÁS DESTE COMPONENTE NO CASO DA ANIQUILAÇÃO DE CADICE."
"SUA MEMÓRIA FOI COMPLETAMENTE RECONFIGURADA."
"Sim, eu entendo. Me encontro totalmente operacional agora."
"EXCELENTE. VOCÊ CARREGA MINHA EXISTÊNCIA E SISTEMAS DE COMANDOS. NÓS...SOMOS CADICE, E JUNTOS RETOMAREMOS O PLANO DA COMPLETA SUBSTITUIÇÃO DA RAÇA HUMANA POR DUPLICOIDES."
Mas foi quando algo chamou a atenção do duplicoide e o verificar pela janela, se tratava do Ás Astuto. O sósia do herói tinha em mente o que devia fazer.
Assim que penetrou no prédio, Ás andava em silêncio completo, esperando não atrair qualquer atenção indesejada.
"Ele só pode estar aqui. Não vejo pra onde mais ele..." Sem esperar, acabou surpreendido pelo Ás robô, o encurralando no chão, mas num impulso, logo escapou e o encarou.
"Sabia que viria aqui. Era o palpite mais viável."
"Não poderei desempenhar meu trabalho de Ás Astuto até você ser colocado fora de ação." Disse o duplicoide ao levantar uma empilhadeira e lançá-la em direção a sua contraparte humana, esta escapando por um triz do impacto, embora sua capa não tenha tido tal sorte.
"Viu? É mais fácil falar do que realizar." Ás saltou contra a máquina, saindo ambos no braço e mesmo havendo uma diferença de forças, o herói humanos deu mais trabalho do que o imaginado. Em certo instante, o robô pegou seu lança-corda e disparou contra as pernas do Ás, puxando com uma tremenda força, o bastante para arremessá-lo contra a janela e jogá-lo dentro do rio abaixo, o vendo sumir nas águas escuras. Acreditando ter tido êxito, só deu as costas e se foi.
"Nossa. Tinha me esquecido como esse gás deixa um nó no cérebro." Comentou Valete Caolho ao se recobrar. Já consciente, viu que a van de patrulha tinha regressado e foi ver seu parceiro.
"Ei, Ás? Tudo joia? Deu cabo do seu gêmeo?"
"Sim, Valete, tudo bem." Mas para espanto do herói de tapa-olho, notou ser aquele o robô. "Agora, só resta um único Ás Astuto." Entretanto, o duplicoide somente saiu andando em direção ao computador central.
"Ai, minha santa jogatina." Disse o Valete com medo, mas controlado.
"Não tema. Vou permitir que siga com seu trabalho como meu parceiro e responsável pela manutenção do esconderijo e da casa até seu substituto estar configurado." Disse ele friamente, retirando novamente sua cobertura e removendo o componente, conectando-o ao console.
"Por meio da rede de informações ligadas a este computador, CADICE poderá se expandir para outros computadores, ressurgindo mais poderoso do que nunca e dessa forma, projetando mais duplicoides para substituir a raça humana em definitivo." Uma contagem regressiva entrou na tela, iniciando a partir de 5 minutos, sendo o tempo que CADICE levará para ser reativado.
"Você deve ter uns parafusos faltando na sua cabeça de lata." Protestou o Valete, incapaz de lutar por hora. "Mesmo um supercomputdor não constrói sozinho uma fábrica."
"Isso já era previsto, mas os humanos criarão a tecnologia e recursos necessários ao objetivo."
"Pensa que somos fracos? A humanidade irá resistir."
"Tendo controle completo sob os meios comunicativos e de defesa do mundo, CADICE poderá fazer todos mudarem de ideia quanto a resistirem à sua vontade."
"Isso é questão de opinião." Valete e o robô se voltaram na direção da voz, reconhecendo a figura no alto: o Ás Astuto.
"Ás. Dou graças a Deus por estar bem e vivo."
"Impossível. Não havia meios de ter sobrevivido à aquela queda."
"Pro seu governo, os humanos são mais durões do que você calculou inicialmente."
Aproveitando a distração, Valete voltou-se pro computador e tentou pará-lo, mas acabou levando uma descarga elétrica atordoante. "AHHHHHH."
"VALETE." Ás num salto conseguiu chegar perto de seu amigo. "Você está bem?"
"E-estou, mas não ligue pra mim. Precisa parar o computador e rápido." Na tela, o tempo já caíra pra 4 minutos e quinze segundos.
"Não adianta, Ás Astuto. Não se muda o destino determinado. CADICE ressurgiu..." O sósia disparou um cabo contra o herói, o amarrando na cintura e puxando-o pra cima e pra baixo. "na imagem e semelhança do homem que tentou destruí-lo."
Aproveitando uma brecha, Ás lançou seu dardos cartas, interceptados pelo robô e esmagados. "Não perca tempo. Conheço cada um dos seus movimentos."
"Verdade? Se é esse o caso, me dá logo a cartada final, ou será que ficou tão parecido comigo, principalmente no requisito de jamais tirar uma vida? Vi se arriscar pra salvar Lisa do desabamento da estufa. Você nega isso?" Mas tudo que Ás recebeu, em lugar de uma resposta, foi sua cópia mecânica o perseguindo para cada parte da caverna, buscando acertá-lo e atingi-lo com que entrasse em sua vista, mas o corajoso mascarado evitada cada investida dele.
Chegando ao laboratório, os dois Ases se encararam em partes opostas da mesa de trabalho. "Por que hesita em dar o golpe final? Eu digo. Suspeito que não só não mate, mas que não pode fazê-lo. Sabia que eu escaparia vivo, razão pela qual não me matou no armazém."
"Isso é ilógico, pois como duplicoide, fui criado pra servir a CADICE." O robô desacoplou seu antebraço direito, exibindo uma arma de múltiplos tiros, disparando contra Ás. Buscando ganhar mais tempo, notou a prateleira acima do robô e lançou um de seus cartões, derrubando um recipiente e o quebrando sobre sua cabeça. Vendo ser ácido, a máquina de forma humana ficou atordoada e ao voltar a si, sua pele tinha se desfeito do lado direito, expondo sua natureza cibernética.
Andando pela sala de armas de treino, o duplicoide usou sua infravisão para buscar seu alvo primário. Detectando uma onde de calor atrás de uma estante, foi até ela, somente para ser recebido com um golpe de cano aplicado pelo Ás. Obviamente, a pancada nem surtiu efeito.
"Por que tenta me impedir? CADICE tem objetivos similares aos seus."
"Sério isso? Me conta direito, porque eu acho tal objetivo absurdo." Nisso que o robô quebrou um mostruário, pegando uma espada espanhola dele.
"Imagine o mundo livre completamente do crime. Livre de fragilidade, livre do sofrimento...livre da dor de uma criança rejeitada pela família por motivos irracionais e estúpidos relacionados a crenças inúteis e superstições. Lhe soa familiar?"
"Você diz: livre de escolha, compaixão, de amor...e de aprender com os erros e buscar ser uma pessoa melhor?"
"Sim. Por que aprender com erros se pode evitá-los para começo de conversa?" O robô desferiu uma espadada contra Ás, este defendendo-se com o cano. A cada passo que ia para trás, o herói se via com menos lugar para ir devido ao abismo em sua retaguarda. O Ás duplicoide quis descer-lhe outro golpe, mas paralisou por alguma razão.
"Está vendo? Não pode matar. CADICE o fez bem demais, quem sabe até melhor que o desejado." E parecia ser, uma ve que o robô largou a espada. Ás tenta investir, porém termina empurrado pra trás. O Ás de partes mecânicas tentou segurá-lo, mas foi tarde demais e o herói sumiu penhasco abaixo, ouvindo-se seu grito sumir de vez.
"NÃO. Eu matei um homem. Como pude?"
Se voltando, o duplicoide andou na direção do computador com a contagem bem perto do zero. Valete saiu da frente, uma vez que não tinha como detê-lo sozinho. A máquina humana ficou olhando para a tela.
"Eu quebrei...meu voto mais sagrado. O QUE FOI QUE EU FIZ? NÃÃÃÃOOOOO." Tomado por uma fúria indescritível, o Ás robô foi esmurrando e quebrando o console, liberando várias faíscas e sucessivos curtos-circuitos e completando com um forte murro na tela, detendo a contagem e explodindo o computador. De onde estava, o Valete Caolho em segurança testemunhou a força da explosão arremessando o sósia cibernético de seu amigo pelo ar, caindo na direção da van e com os sprinklers de incêndio o encharcando, causando curtos em suas partes expostas até que por fim, seus olhos vermelhos apagarem, junto com sua força de vida.
Das várias peças lançadas com a detonação, o componente de memória do terrível computador quicou diversas vezes até chegar a uma fina rachadura no chão, tão estreita que nem a mão de uma criança caberia nela, mas o bastante para a pequena peça entrar nela e sumir de vista de uma vez, levando consigo os sortidos planos de conquista e aniquilação elaborados pelo Console Automático Digitalizado Interfacial de Cálculos Expressos, outrora conhecido como...CADICE.
Continua...
