N/A: Espero que gostem.


Eu tinha 11 anos quando meu corpo começou a mudar. A textura do meu cabelo ficou estranha, não importava quantas horas minha ficasse com o secador ligado nele, ele nunca alisava, morar em uma cidade onde o clima era de chuva não ajudava. Meus dentes entortaram e meus seios despontaram, não o suficiente para um novo sutiã mas o suficiente para ser visível. Foram mudanças sutis, nada muito agressivo, se você passasse um verão sem me ver ainda me conheceria.

Na escola a história era outra. Jessica Stanley ficava diferente a cada vez que você olhava. O cabelo escovado, as sobrancelhas alinhadas e o sutiã com um número maior do que eu usava na minha calça. Além de tudo tinha a maquiagem, ela e Lauren e Tanya viviam maquiadas, não importava se era um dia chuvoso ou educação física, o delineador estaria ali marcando presença.

Angela Weber era o lado oposto da equação, diferente de mim ela não mudara em nada. Nenhum sinal de que a puberdade estava fazendo nela alguma alteração.

Eu estava nesse meio termo amorfo, não era parecida com a Bella de 10 e pela velocidade das coisas, nem com a Bella de 12.

Os meninos por outro lado continuavam iguais, idiotas, nojentos e imaturos. Tyler Crowley cruzou comigo no corredor uma vez, olhos para os meus seios - quase seios - e proferiu uma maldição que duraria até meu penúltimo ano naquela escola.

"Ei Bella, já vai almoçar ?" Apontando o dedo para minha camiseta.

Eu sem entender e ingênua respondi.

"Não, por quê?"

"E esses amendoinzinhos então hein?!" Piscou e olhou para os meninos que nesse momento se matavam de rir.

Claro que momentos como esse nunca acontece numa sala vazia, ausente de espectadores.

O apelido - e tudo que o envolvia - me acompanhou por anos, até alguns professores deixavam escapar de vez em quando. Foi só no último ano, quando eu comecei a preencher melhor - e descobri a existência do enchimento de espuma - o sutiã que esse apelido caiu em desuso. Se não me engano em alguns anuários devem conter piadinhas - algumas ofensas gratuitas - escritas com o dito amendoim. Aposto dinheiro que deve existir desenhos também, mas nunca os revi.

Como qualquer vítima de bullying, você cria um modus operandi. Eu simplesmente eliminei comidas com amendoim, doces, bolos ou sorvete do meu cardápio. Não importava se tinha muito ou pouco amendoim, eu simplesmente evitava, podia ser importava estava fora de cogitação. Depois de um tempo acho que comecei a falar que era alérgica, não sei se para evitar ser colocada em uma "situação de amendoim" ou se para apelar pela empatia das pessoas, nenhum deles funcionou.

Ocorre que quando você é jovem você acredita em tudo, mesmo que não tenha sentido, coisas que sequer foram lhe contadas. As histórias surgem na sua cabeça e você simplesmente acredita.

Então depois de um dia de convivência com pré adolescentes brutais, eu deitei na cama chorando e imaginei como que seria ser como um menino. Não me pergunte como, mas por algum motivo eu pensei que se eu tivesse muita força de vontade, no meu aniversário de 13 anos eu teria esse "sonho" realizado. Então por dois anos, eu segui firmemente crendo que na manhã de 13 de setembro de 2002 seria um dia diferente. Toda piada, choro e vergonha teriam fim. Eu poderia andar por aí sem camisa, rindo das outras meninas com seus seios gigantes, pois eu seria um menino.

Não que eu quisesse ser um homem, eram os anos 2000 ninguém nem falava abertamente sobre transição de gênero, foi mais uma questão de não aceitação e vontade de sair dos holofotes.

Minha mãe devia ter estranhando o quão animada eu estava para dormir um dia antes, porque ela me olhava com uma cara de desentendida, mas acho que ela deve ter assumido que era pelo meu aniversário e não pelo meu desejo/milagre inexistente.

Quando acordei e nada mudou, a vontade de chorar foi tão forte e dolorosa que não tive oportunidade de esconder. Chorei muito e por tanto tempo que você podia ver o medo no olhar do meu pai, como quem diz " É com isso que vamos ter que lidar? Essa é adolescência?" Eu não posso culpá-lo, vendo de fora eu parecia alguém vivendo em luto de alguém muito querido. O que não deixa de ser já que naquele dia, minha força de vontade deve ter morrido.

Porém o que eu mais me lembro disso foi a lição que minha mãe me ensinou, depois que a humilhação de contar o motivo do choro passou.

"Querida, milagres acontecem o tempo todo mas não somos nós quem os controlamos. Querer não é um poder. Desejar muito alguma coisa e não fazer nada para alcançar não cria esses milagres" dizia enquanto me abraçava durante mais uma rodada de choro. "Não podemos contar com eles, temos que lidar com as coisas como elas são. Boas ou ruins temos que enfrentar, não tem como fugir. Mas se você aguentar firme durante os dias ruins, os dias bons vão durar mais. Nada te impede de fazer novos planos, ter novos sonhos"

Naquele dia eu não fui à escola, o dia eu vivi a minha primeira grande decepção. Pela manhã eu passei assistindo reprise de seriados na tv enquanto meus pais trabalhavam. A tarde foi igual aquela manhã. Naquela noite eu fui dormir exausta, depois de um abraço da minha mãe.

"Isso passa, não há mal que dure para sempre, algum dia você vai olhar para esse momento e não vai sequer lembrar da dor" disse ela após me cobrir e em seguida fechar a porta do quarto.

Hoje o relógio marca 05:23am, parece que durante 5 horas eu vivi 5 dias iguais aquele em cada hora.