Já era tarde da noite naquela rua de um bairro periférico, e embora boa parte das casas estivessem em paz e harmonia com seus moradores, possivelmente aproveitando os prazeres da televisão em um fim de noite para dormirem, em uma daquelas casas, uma que ficava quase ao final da rua das cerejeiras, as luzes estavam completamente acesas. Do lado de fora, estacionado de mal jeito, estava o impala 67' vermelho que tinha em si do lado direito na lataria grandes e chamativos arranhões feitos com força e raiva. Os faróis haviam sidos detonados e havia um trinco no para-brisas.

Do interior do imóvel simples e de custo baixo, mais um grito alto podia ser ouvido enquanto o som de algo estilhaçando-se seguiu-se. Pelo chão, havia tanta coisa quebrada. Os porta-retratos estavam em frangalhos, o papel de parede da sala estava parcialmente rasgado, revelando uma pintura escura por baixo deste. Alguns móveis estavam revirados, louças quebradas e flores no chão.

Parecia mais que um furacão havia passado por ali. O tecido do sofá estava rasgado em alguns pontos, próximo a mesinha de centro, que estava tombada de lado, haviam garrafas; algumas vazias, outras pela metade e derramando pelo carpete da sala. Enfincada contra um dos vidros da porta francesa, que dava para a varanda pequena, havia uma guitarra preta e vermelha, da qual era possível um rasgo de arranhões de fora a fora em sua pintura; bem como as cordas cortadas.

— Eu não fiz nada, caralho! — Berrou, novamente enfurecido, o garoto de cabelos negros compridos para a mulher que estava diante de si. Não teve muito tempo para forçá-la novamente, pois teve que desviar de outro vaso de cerâmica que ela arremessou contra a sua cabeça e esse estilhaçou-se completamente na parede contrária.

— Cínico! — Gritou a garota de cabelos negros-azulados que tinha parte da maquiagem borrada de um choro exagerado. — Pensa que não vi ela se insinuando, se esfregando? E você bem que gostou, não Uchiha?

Ele já se encontrava no seu limite absoluto e, cansado, aproveitou do deslize dela e avançou a contendo. Prensou o corpo pequeno da garota contra a parede e com a mão esquerda imobilizou os braços sobre a cabeça dela. Com a direita, segurou o queixo pequeno e delicado dela a fazendo olhá-lo.

Ambos ofegavam raivosos e intensos demais. Quem acreditasse que todo aquele estrago fora provocado apenas por ela, enganava-se redondamente. Era sempre assim, sempre acabam em brigas idiotas com as mesmas motivações: ciúmes... Sempre os malditos ciúmes possessivos.

Fossem absurdos dele, fantasiosos dela...

Eram ciúmes que beiravam à insanidade e faziam mal a ambos, mas eram incapazes de apenas lidar com aquilo. Estavam juntos desde os quatorze anos quando formaram uma banda de rock. Desde que colocou seus olhos negros no par de pérolas dramáticas que eram os olhos dela, ele a dominou, a reivindicou como sua. E ela não era diferente. A diferença era que ele era um garoto caótico e ela sistemática. A fragilidade e timidez dela o instigava e iluminava ao mesmo. Uma personalidade de calmaria para sua tempestade. Agora, aos vinte, nada havia mudado, embora ele tivesse a arrastado profundamente em seu oceano de conturbações. Como diziam os pais dela? Sim, ele a perverteu. E, talvez por isso, foi fácil arrancá-la da casa deles aos dezessete e morarem juntos. Só havia um problema: a inconstância dele e a insegurança contínua dela. Quando queria impor-se, ela conseguia ser ainda mais mortal que ele; um exemplo claro era a sua guitarra.

— Você é completamente louca. — Ele rosnou contra o rosto dela. O odor do álcool fluía dos lábios dele, tal como o ar quente do hálito que tocava a pele.

— E você é um fodido de merda, Sasuke Uchiha. — Respondeu indignada, beirando ao ódio, mas ambos sabiam que o sentimento contrariava os reais, as intenções que sempre fluíam.

Era sempre a mesma merda: mal entendidos, brigas, ofensas e reconciliação. Um maldito ciclo vicioso que viviam desde que se beijaram pela primeira vez.

Bruscamente, o corpo dele, que era bem mais alto e forte que o dela, colou-se ao de Hinata. O hálito dela chocava no rosto dele por igual e ele conseguia sentir o cheiro de sakê e morango do drink que ela bebeu por último antes de saírem da casa noturna que estavam. Os lábios dele aproximaram-se mais e mais da pele branquinha dela até que roçaram contra os dela. Os olhos brancos e negros não desviavam um do outro. Ele continuou a tocar com leveza os contornos faciais dela à medida que a mão saiu do maxilar e deslizou pela lateral do corpo miúdo em direção à cintura. Ao aproximar a boca do lóbulo da orelha dela, ele mordiscou com grande desejo e excitação que dominava seu corpo por estar tão diretamente ligado ao dela.

— Sasuke... — A voz dela não passava de um sussurro manhoso. Ele conseguia ver os pelos dela eriçarem-se facilmente e acabou sorrindo contra a pele quente dela. Afastou-se ligeiramente, apenas para ver o rosto ficando corado, enquanto ele apertava com certa brusquidão a cintura fina.

— Você é minha, Hinata. Que se foda qualquer pessoa nesse caralho de mundo. Só quero você. — Ela desviou o olhar. Sentia o coração disparado e o misto das emoções ampliadas pelo álcool que corria em seu sangue piorava tudo. — Olha pra mim!

Ela o encarou e ele via o brilho das lágrimas contidas, tão bravamente, por ela.

Encararam-se segundos, minutos talvez, em silêncio, como se pudessem ter a mais acalorada das discussões e buscar seus entendimentos apenas naquela troca de olhares; e, de certo modo, podiam. Conheciam de cor e salteado cada mania, cada verdade e mentira, cada desejo. Os corpos se conheciam como nenhum outro. Buscavam-se e atraíam-se como um inseto para a luz da morte certa.

Ele soltou os pulsos dela e, com a fúria que irradiava seu peito naquele momento, abocanhou os lábios rosados e cheios que ela tinha, os reivindicando para si de forma totalmente furiosa. Um beijo carnívoro, intenso e dolorosamente gostoso. Ela sentia seus lábios reclamarem judiados, ao mesmo tempo que seu corpo se acendia rapidamente, tão rápido que ela nem ao menos conseguia controlar.

Sasuke era como fogo, alastrava-se e destruía tudo em segundos. A língua dele deslizou por seus lábios e exigiu passagem, reivindicando imediatamente a boca dela para si. O toque das línguas fizeram as pernas dela estremecerem-se ainda mais, os olhos fechados deixavam as sensações pela pele ainda mais intensas. O toque dele a provocava de todas as maneiras possíveis e ela sabia que aquilo não parava, nunca parava. Quando começava, ia até o fogo consumir completamente ambos.

As mãos grandes dele apertaram com força a cintura dela enquanto a perna dele encaixou-se no eixo dela, sentindo-a esfregar-se a si, buscando o contato desesperadamente. Ele sentia seu pau latejar, dolorido, dentro das calças, tão duro que incomodava pra valer.

As unhas de Hinata escoram da parede de encontro ao seu pescoço, onde ela arranhou sem dó, enfiando-as ali. Ele, como resposta, a mordeu os lábios, a fazendo gemer com a dor e, embora não os tenha cortado, o gosto leve de sangue misturou-se ao beijo. As mãos duras, grandes e brutas dele agarraram sua bunda a puxando para si, o que a fizera imediatamente enroscar as pernas no quadril dele, sentindo-o imediatamente pressionar sua ereção contra a intimidade dela.

O vestido curto que usava agora estava quase em sua cintura, graças a ele. As mãos do Uchiha buscaram a maciez do par de seios volumosos que ela tinha, enquanto os dedos dela desceram pelo tronco dele, buscando a camisa a puxando e arrancando dele. Sentia os lábios dele pela extensão de seu pescoço, fazendo a saliva umedecer sua pele com a língua dele.

De olhos apertados, ela tombou de lado a cabeça, deixando a pele do pescoço e colo à mercê dele e suas vontades. As mãos pequenas e macias deslizavam pelos músculos dele, arranhando enquanto seu quadril movia em pequenas reboladas, o instigando mais ao buscar contato e alívio para aquela maldita pulsação em sua vulva. Pulsava e formigava, carecendo dele ali.

Arrancando-a da parede, ele urrou como um animal à medida que ela apenas gemia e falava coisas desconexas. Os estalos do som das botas dele sobre o vidro podia ser facilmente ouvido, no entanto completamente ignorado. Alguns passos e estavam dentro do quarto, onde ele a jogara na cama com certa brutalidade natural de si.

Não perdeu tempo algum, quando as mãos desceram velozes ao cinto e cós da calça jeans a abrindo freneticamente como se sua vida dependesse daquilo. Sua respiração estava rápida e entrecortada igual a dela, com o acréscimo de que Hinata ainda estava vermelha. Ela, com a mesma urgência dele, arrancou de si as botas de cano curto e salto, as jogando de lado enquanto puxou o vestido para cima ficando apenas de calcinha.

Dez segundos, foi o tempo que bastou para que ambos se livrarem do que os acorrentava. Sasuke ajoelhou sobre a cama, como um felino grande e perverso, cobriu o corpo dela enquanto as mãos arrancaram dela a calcinha rosa que vestia. Voltou a tomar a sua boca com o mesmo desespero enquanto encaixou-se entre as pernas de Hinata. Para ela, era fácil e desesperador sentir o membro rijo dele, deslizando contra sua boceta molhada a provocando ainda mais, como se não o desejasse já o bastante.

Agarrou os cabelos negros dele o puxando com força, o olhando nos olhos.

— Me fode, Sasu! — Ordenou, fazendo-o dar um belo sorriso sacana. Um maldito puto, totalmente dependente e viciado nela. Completamente louco.

Sem dó ou segundas ordens, ele jogou as pernas dela sobre seus ombros enquanto segurou seu pênis pela base, o encaixando na fenda melada de excitação dela e empurrando de uma só vez.

Enterrou-se nela, fechando os olhos com força e gemendo como um louco. Ela sempre continuava daquele jeito: pequena, apertada, molhada e quente como o inferno. Uma boceta feita sob medida para seu pau, que aclama ela.

Sim... Viciado por completo.

No sexo com ela, nos lábios, no corpo, na voz, no cheiro, na personalidade... Tudo.

Os gritos e gemidos dela aumentavam o seu desejo e prazer de fodê-la cada vez mais com força. Inclinou o corpo feminino tanto... Os sons das suas estocadas tornavam-se cada vez mais altos, igual os gemidos dela.

Fodia-a como se não houvesse um depois, porque aquilo também era como amava-a. Intenso até a última gota.

O suor começou a escorrer pelas peles e o com o seu corpo inclinado sobre o dela, as testas encontram-se, os olhos encaravam-se e ele sentiu a mão dela em seu rosto em um gesto de carinho e afago enquanto ele fechou os olhos. Respirava cada vez mais forte, lançando seu quadril para frente e para trás escorregando mais fundo e mais rápido para o interior dela, que o engolia cada vez mais apertado.

— Amo você... — O sussurro dela saiu quase como um gemidinho baixo e indecifrável quando ela chegou ao limite, gozando finalmente.

Movido pela ânsia, ele tomou os lábios dela, passando a meter com ainda mais força e velocidade; até que pulsou, crescendo dentro dela. Sentiu seus jatos mornos de gozo preenchê-la e quando o impulso acabou, ofegante, ele deixou-se despencar ao lado dela.

Lado a lado na cama, fitavam o teto como se tivesse a coisa mais importante do mundo bem ali. Não havia expressões em nenhum dos rostos, embora os lábios dela tremessem ligeiramente. Ainda pensava em como conseguia odiá-lo e amá-lo nas mesmas intensidades. Em como ardia e consumia-se em ciúmes dele. Em como eles eram a combinação mais perigosa que existia e machucavam-se mutuamente, mas não conseguiam se afastar. Ou, em como ele nunca a dissera um mísero eu te amo.

Nunca.

Aquela briga daquele dia era o reflexo do pior que poderia haver. Nunca chegaram a extremos tão absurdos e fortes e, ainda assim, ela era incapaz de lhe dizer não. Não por ele, mas por ela. Aquela noite foi uma gota no copo que estava prestes a transbordar. Os ciúmes deles eram perigosos demais. Ela queria mesmo conversar, mas a verdade era que ele não estava tão sóbrio assim.

Virou-se de lado na cama que dividiam a alguns anos e encolheu-se um pouco. Seu corpo ardia um tantinho pelos arranhões, chupões e mordidas.

Sasuke olhou para ela nua e de costas para si, virou-se indo de encontro ao corpo dela. A mão deslizou com suavidade pelos quadris largos e pela cintura delgada. Uma pele lisinha e perfeita, então ele esboçou um sorriso miúdo, vendo a tatuagem de leão e lírios que ela tinha no ombro. Aproximou os lábios ali e beijou com uma suavidade extremamente contrária à selvageria de minutos antes e viu o corpo dela reagir e encolher-se.

Porra, como ele amava aquela pequena. Amava tanto que era doente, insano, maluco. Perdia completamente o juízo em coisas tão... pequenas. Ele fazia merda sozinho. Sempre fez... mas com ela? Parecia que triplicava a coisa toda. Virou-se, fitando o teto novamente. Mesmo que o álcool corresse em suas veias, ele se lembrou de alguns dias atrás, quando tivera uma conversa nada amistosa com seu pai. Um ultimato feito por Fugako o exigindo assumir responsabilidades na vida.

Desde aquele dia, ele empurrava com a barriga. As contas não eram problema grave; se viravam, mas a pergunta de seu pai ocasionalmente ecoava em sua mente: que tipo de vida você espera ter e dar pra essa garota?

Bem, se fosse apenas por ela, ele poderia a dar o mundo e ainda assim parece pouco, mas aquela vida que tinha naquele momento era mais que confortável para si. Era cômoda. Se estava bem para ela, estava bem para si. Por um instante, apenas se recordou de Hinata parada frente à vitrine da Desert's sweet com olhos brilhantes diante de anéis de diamante. Ele sabia muito bem o significado daquilo e naquele dia, arrastou-se para mais uma briga entre eles.

Emburrado com a ordem caótica da sua linha de pensamentos, que sempre o levava a considerar-se insuficiente para ela, levantou-se com um pulo da cama e a viu virar-se novamente, olhando com aqueles olhos brancos em nuances lilás claríssimas. O corpo dela nu parecia mais uma compilação do disco mais perfeito do mundo.

Não... Ela lembrava de sua guitarra...

— Sasuke... A gente... Precisa conversar. — Ela usou um tom de voz baixo e calmo, mas irritou-o.

— Ah! Agora quer conversar? Você fodeu a porra da minha guitarra! — Disparou ele, com um sorriso um tanto sádico e nada incomum para ela.

— Quer falar de quem fodeu o que, Sasuke Uchiha? — Bradou ela, com um tom mais alto, embora ainda fosse difícil para ele levá-la completamente a sério naquele momento. O corpo dela estava ligeiramente erguido sobre a cama, apoiado nos cotovelos e os olhos ferozes que, na visão dele, a deixavam fodidamente sexy.

Gargalhou como um alucinado e viciado, avançou sobre ela segurando o queixo miúdo, olhando nos seus olhos.

— Você fode com a minha cabeça, os meus sentidos. Me leva à loucura no bom e no mal sentido, Hinata. Você é a maldita luz que projeta minha sombra. – Soltou-a, a fazendo cair deitada no colchão novamente enquanto ele se colocava de pé.

Seu coração estava rápido demais ao vê-la ainda mais frágil.

— Não me culpe pelo que é. Eu só tento...

Ele passou as mãos pelos cabelos. Embriagado, entorpecido, perdido, confuso demais sobre o efeito de amor e outras drogas qualquer.

Olhou-a com raiva, mas essa era mais voltada para si mesmo. Ele definitivamente era um merda, um lixo que ganhou algo extremamente precioso e não sabia admirar como merecia. Seria exagero colocá-la sobre um altar? Talvez sim... O problema era que Sasuke era um perfeito escroto ao tentar, ao menos, exteriorizar suas emoções e sentimentos. Esses explodiram sempre de forma negativa, por mais que fossem bons e reais.

Ele sempre era o caos.

— Não... — Gargalhou frio. — Eu já era um babaca de merda, você só acentuou isso.

Nu, ele puxou do armário uma toalha. Era possível ver a tatuagem de uma serpente que cruzava todas as suas costas, bem como os punhos ainda sangrando do machucados auto infligidos ao quebrar coisas. Ele pegou um cigarro do maço sobre a cômoda e o acendeu.

Hinata havia ficado estranhamente calada. Então ele virou-se, a fitando. Ela estava imóvel sobre a cama, o braço esquerdo sobre a testa e, no canto dos olhos, ele conseguia claramente ver a trilha fina de lágrimas. Como aquilo, aquele sentimento conseguia ser mais cruel que bom? Machucava como nenhum outro em níveis inimagináveis. As lágrimas dela sempre alimentavam ainda mais seu caos interior de raiva.

—Tsc... A gente é assim. Como fogo e água, Hinata. Eu queimo e destruo, e você apaga e cura... — Gargalhou sem humor, quando os olhos dela finalmente o alcançaram. — Não precisamos de ninguém se metendo nessa merda. A gente vai ficar bem. Sempre é assim. Como sempre...

Suspirou um pouco quando ela deixou seu olhar e voltou a encarar o teto. Lembrou das palavras dela enquanto a amava do seu jeito torto: eu amo você.

E tudo que ele mais queria responder era: eu também amo você, tanto que me enlouquece. Mas tinha medo de deturpar suas próprias palavras, fazendo-a se perder no meio do caminho e machucar a Hyuuga mais.

Às vezes, era melhor ficar calado. Mas como demonstrar algo bom, quando você era tão bom em ser ruim?

Hinata ouviu o som da porta do banheiro bater no final do corredor estreito, com isso sentou-se na cama de uma vez. Limpou os olhos, sentindo o nó formado na garganta. Talvez alguns dos seus amigos tivessem razão no fim. O que era aquela relação senão a mais profunda conturbação? O que eles se ofereciam além de machucados? Ela só queria constância da parte dele.

Sasuke representava seu Norte. Os braços estúpidos que a acolhiam no medo e nas tempestades. O cara que ela prendia em si, o que a fazia rir e chorar, gritar e sangrar. O cara que a daria o mundo e a colocaria sempre em primeiro lugar. Mas tudo que ele sabia fazer, na verdade, era queimar todo o interior dela. Um amor cego que só sabia consumir e consumir, mas ainda assim um amor.

Imaturos...

Ela ouviu o som da ducha do chuveiro indicando que ele demoraria. E talvez num ato impulsivo de si mesmo, de sobriedade sobre seu futuro e próprias emoções conturbadas, ela só queria se achar, só queria… ser a luz que acentuava a sombra dele. Ela o amava, mas talvez precisasse se amar ainda mais.

Impulsionou-se para fora da cama, os olhos ficaram úmidos novamente enquanto ela abriu o armário do quarto. Passou os cabides e arrancou dali um vestido qualquer, roupas íntimas. Sem demora, puxou uma velha mochila sua, jogando-a sobre a cama. O punho correu na face, secando, inútilmente, as lágrimas que não cessavam.

Parou.

O som do chuveiro tornou-se mais forte.

Com um fôlego único que preencheu os seus pulmões, ela pegou as peças de roupa que tinha enfiado na bolsa de qualquer modo. Tinha pressa para fugir. Fugir dela, de si, do sentimento.

As coisas foram carregadas com rapidez e jogadas no banco de trás do impala de qualquer modo. Ainda na sala, ela abaixou-se, pegando uma das molduras de porta-retrato quebradas. A foto ali estava um pouco danificada, mas era uma das suas favoritas. Puxou assim o papel fotográfico ao mesmo tempo que o som do chuveiro cessou. As chaves foram tiradas do porta chaves e ela saiu em direção ao carro, dando partida sem rumo para si ou para a vida que buscava.

A porta do banheiro se abriu e deixou fluir por ela a nuvem de vapor junto do Uchiha, que saiu enrolado pela cintura pela toalha. Os cabelos molhados deixavam gotas grossas de água escoar pelo pescoço, face e torso.

Havia uma forte pressão em seu peito, um latejar constante em sua cabeça. Sentia-se irritantemente pesado. Escoltou o braço contra a parede do corredor e apoiou a testa ali enquanto os lábios torceram um sorriso frustrado. Os olhos fechados e a moral em frangalhos. Sentia o corpo ridiculamente dolorido.

O punho direito latejava tanto, enquanto ele se lembrava do soco que dera em um cara aquela noite pelo simples fato dele cantar sua garota. Definitivamente, a luz dela ressaltava suas sombras simplesmente porque revelava seu lado mais monstruoso e perverso. Mas trazia à tona à mostra de suas conturbadas emoções.

Ele sentiu os olhos arderem um pouco mais e sabia que lutaria inutilmente contra qualquer lágrima que tentasse fluir. Ele era um cara durão e caras durões não fraquejam, não caem, não cedem...

Os olhos espremeram-se mais e as lágrimas rolaram enquanto ele se perdia em mais memórias dela, do sorriso ingênuo, bonito e doce quando seu amor conseguia, de fato, tocá-la.

Suspirou e limpou aquele sinal de fraqueza do seu rosto. Talvez seu pai tivesse razão. Talvez ele devesse dar a ela o que ela realmente merecia. Talvez aquelas noitadas devessem ficar para trás. Talvez devesse dá-lá uma vida, deviam ter uma vida... Talvez a merda do anel que ela tanto ansiava já devesse estar no anelar esquerdo dela. Talvez uma casa decente...

Respirou ao se lembrar do olhar dela que ele deixou para trás, das lágrimas...

A pose durona voltou a guiá-lo quando a mão finalmente encostou na maçaneta da porta do quarto. Mas, quando entrou ali, achou somente o vazio, e esse castigou seu coração como nada nunca fora capaz.

Se era para ficar sozinho na escuridão que ele queria, pelo visto a sua luz o deixou.

10 anos mais tarde.

O apartamento ficava no oitavo andar e ocupava um quarto do espaço, tendo assim um tamanho bastante confortável. Aliás, confortável até demais para um cara solteiro como ele era. Havia exatamente trinta e dois dias que havia se mudado para Suna e tudo isso graças à uma transferência vinda do trabalho.

Ali, ele assumiu a co-chefia de um dos escritórios de engenharia que pertencia ao seu pai, Fugako, e ao sócio dele, Minato Namikaze. Era justamente ali de cima que Sasuke observava agora, através de uma parede de vidro que ficava na sala principal daquele lugar.

Embora de dentro tudo estivesse relativamente silencioso, bastava se atentar ao lado de fora para entender como o caos se instaurava com tantas luzes de carros e movimento de trânsito e pessoas. O sol quase havia desaparecido por completo e a cidade era cada vez mais tomada por suas luzes artificiais.

Usando uma calça de moletom escura e uma camiseta caqui, ele segurava uma caneca de café sem açúcar na mão. Olhar aquele caos, aquelas luzes, o levavam sempre às memórias. Sempre elas. Sempre dela.

Como era de se imaginar, os tempos foram frios e tempestuosos para ele ao ponto de não se relacionar mais. Sempre fora um cara difícil, complicado, amarrado e de se fechar ainda mais fora apenas reflexo. E, por falar em reflexo, a sua morada era exatamente isso: uma exteriorização dele próprio, uma vez que mal se via cores naquele lugar, tudo minimalista. Tons neutros, frios e escuros na grande maioria.

Talvez porque sua luz e suas cores partiram há tantos anos.

Suspirou, virando o último gole do líquido amarronzado, se virando e encarando uma caixa que estava ali no canto, escondidinha. Sim, trinta e dois dias e ele não havia aberto ainda todas as caixas de sua mudança.

Naquela ali, em especial, havia marcado em canetão a palavra "memórias'' e inevitavelmente encarnado o material de cor parda ele deu um sorriso miúdo e melancólico. Malditos dez anos e as sensações ainda era como se fosse no presente.

Ele abaixou-se e puxou o lacre de tape da caixa e a primeira coisa que sua mão tocou, puxando para luz, foi uma pequena bailarina de porcelana bastante frágil e delicada. Um mimo que o lembrava como a Hyuuga tinha olhos intensos e vivos. Aquela peça o lembrava de algumas vezes, quando faziam amor e ela ficava em seus braços longamente. Ela tinha a mania de segurar aquela peça, a olhando como uma garotinha enquanto conversava com ele.

Embora ele fosse quase que todo tempo calado, se compreendiam naquilo. Ele se lembrava perfeitamente das coisas que ela falava, fosse de uma foto de revista que havia visto e empolgava-se, ou fosse de uma música nova... Ela se abria para ele e ele apenas a recebia. Talvez devesse ter se aberto mais, certo?

Sorriu ainda mais melancólico ao repousar a peça sobre o longo móvel da sala.

Destruição não era algo bonito, e disso ele entendia muito bem, afinal, parecia ter o talento para destruir tudo que tocava. Era como uma mão amaldiçoada. Quando o dia que ela partiu finalmente havia amanhecido, não sobrou muito.

Embora orgulhoso demais, Sasuke sabia que o empenho do seu pai fora tudo, bem como as palavras agressivas do patriarca Uchiha quando o arrancou daquele lugar destruído. Completamente machucado, fora sim capaz disso, se machucou ao quebrar ainda mais as coisas ao seu redor, ao ponto dos vizinhos finalmente chamarem a polícia.

"Eu já perdi um filho, não me faça enterrar outro"

Aquilo, aquelas palavras eram de cortar o coração de qualquer um, mas principalmente de Sasuke, uma vez que ele literalmente se culpava pela morte do irmão mais velho.

"você era só um menino". Quantas vezes ele escutou aquela mesma frase?

Mas nada mudava a culpa, afinal, Itachi deu a vida protegendo o irmão idiota, ciumento e impulsivo que só queria ser como ele.

Meninos, skates e motoristas bêbados. Péssima combinação.

Foi um ano para além de conturbado, terapia insuficiente e depressão, até que ela entrou no seu caminho. Sinceramente, olhando agora, como um homem adulto que era, sentia que a garota na verdade seria mais como um dos anjos de Deus, empurrada em sua direção por uma força maior. Fosse qual fosse, essa tal força, ele sentia que deveria ser grato.

Sorriu sufocado. Era daquelas coisas: precisou perdê-la para entender que ela era o seu tudo. Precisou atingir o fundo do poço para reconhecer que ela era a sua escada de volta e ele havia simplesmente a cortado. As palavras de seu pai ainda o faziam praguejar o chamado destino.

"Seja algo melhor por você, por ela também. Se tiver que ser, algum dia o próprio destino se incumbirá desse reencontro. Talvez quando estiverem prontos para lidar com tudo"

Sasuke não era do tipo de ter fé, não mesmo. No início, ele realmente achou possível. Ele se empenhou e então o tempo passou e, embora existisse o fio ingênuo em si que acreditasse e até implorasse ao tal destino, sua vida o mostrou ao longos dos anos que, quando ele perdia, ele era um ótimo perdedor.

O Uchiha voltou a se abaixar em frente à caixa e tirou um atrás do outro porta-retratos, os juntando sobre os braços. Finalmente se levantou e os colocou de qualquer modo sobre o móvel. Arranjaria um modo de organizá-los ali. Ali havia tinha fotos dos seus pais, dele e do irmão, várias de Itachi e algumas outras que o marcavam por igual; fotos dele e uma Hyuuga pequena e linda.

Uma em especial ganhou a atenção dos seus olhos e, enquanto ele tinha o item em mãos, a campainha tocou, aborrecendo-o, simplesmente porque ele sabia que a única pessoa que tinha seu atual endereço, tirando os pais, é claro, era um loiro irritante chamado Naruto Uzumaki Namikaze, seu atual companheiro de trabalho e chefia.

Ele se encaminhou à porta tão aborrecido que mal havia notado que levava consigo a foto em mãos, assim que abriu a porta, inconveniente como sempre era, o loiro adentrou o apartamento.

— Não acredito que ainda está vestido assim?! — Bradou em seu costumeiro tom escandaloso e barulhento demais. Além, é claro, de estar vestido como um playboy, o que fizera o Uchiha revirar os olhos.

— Eu não vou. — Disse simplesmente e então voltou para o móvel, repousando finalmente o porta-retrato ali.

— Oi? Como assim não vai? Ah não, Uchiha filha da puta, nem vem.

— Nunca concordei com isso, Uzumaki idiota. – Rosnou novamente, tentando achar posição para algumas peças e logo Naruto notou elas ali. Deu um meio sorriso, se aproximando e pegando um porta retrato que tinha a foto de Sasuke fazendo uma manobra de skate, com uns doze anos, e seu irmão ao fundo dela.

— Sasuke... É um Avant-Première da revista feminina de maior circulação do país, da qual somos um dos anunciantes. Temos convites e, pelo amor de deus, lá terá modelos, mulheres lindas.

— Tsc...

— Não acha que pegaria mal? São convites vips... Mulheres vips.

— Você não vale nada. — Disse com zanga e tomou o porta-retrato das mãos dele. — Acha que eu me importo com essa droga?

— Qual parte? Do trabalho ou afogar o ganso com uma gostosa? — Disse, com um sorriso ladino e malicioso, o que fizera o moreno estreitar o olhar para o amigo.

Sim, um amigo. Infelizmente ou felizmente, fizeram toda a merda da faculdade juntos e ainda conviviam na empresa fundada pelos pais. Livrar-se do loiro irritante era como tentar se livrar de um joanete; você não conseguia. No final, aprendeu a lidar e até gostar. Ele era o seu oposto e sentia-o como um irmão, mesmo que Itachi nunca tivesse sido tão extrovertido assim. Mas Naruto, de algum modo, ainda o lembrava.

— Sabe que não tenho problemas com trabalho.

— Então o problema são as gostosas? Então você faz o trabalho e eu fico com elas. Por mim, tudo bem.

Ele precisou mesmo revirar os olhos.

— Olha só. — Continuou Naruto, erguendo o relógio de pulso e checando o horário. — Em quarenta minutos lá começa. Você toma um banho, coloca uma roupa legal e vamos encher a cara. Você vai morrer de trabalhar um dia. É só trabalho e trabalho. Tem um mês que está em Suna e nem conhece nada, além da merda da esquina do seu apartamento ou translado casa/trabalho.

— É injusto. Eu conheço um restaurante chinês.

Foi a vez de Naruto revirar os olhos.

— Vamos lá!

— Ok, ok. Mas tô indo só pra você parar de encher o meu saco. Ok?

— Ahhh! Esse é meu Uchiha ranzinza e velho!

— Rwnnn, não me agarra! — Ele colocou a mão na testa do outro, empurrando e evitando o contato físico. — E tem mais, eu vou ficar nessa porcaria de evento exatos cinquenta minutos e nem um segundo a mais.

O loiro fez um bico e cruzou os braços frente ao peito.

— Que seja.

Sasuke então começou a caminhar em direção à parte interna do apartamento e Naruto virou-se de frente ao móvel, vendo as fotos. Como se adivinhasse, Sasuke gritou:

— Não toca em nada!

— Não toca em nada. — Repetiu Naruto, com uma voz afinada e tom de provocação, mas baixinho pegando uma foto em especial, uma coisa rara ali: Sasuke rindo.

Ele notou as feições, então, do casal. Deveriam ter uns quinze ou dezesseis anos e ele tinha que admitir: a garota ali era bem bonita. Os olhos, sem dúvidas, chamariam a atenção à distância.

Já havia visto algumas outras fotos dele com ela e, embora Sasuke nunca se aprofundasse, Naruto imaginava que aquela garota deveria ter sido muito importante na vida dele. Pensou por um instante apenas, se Sasuke seria um cara mais feliz ou mais entrosado se ela ainda estivesse na vida dele.

Por fim, suspirou e repousou ali o objeto.