Disclaymer: Essa fic se passa no universo de Curse of Strahd. Seus personagens e locais citados são de propriedade da Wizards of the Coast ou dos jogadores que estão participando dessa campanha. Escrita sem fins lucrativos.

Cenário: Curse of Strahd

Série: Andarilhos da Névoa

Personagens: Lysander & Agarwen

Sinópse: Após visitarem a Torre do Mago, o grupo viaja para Vallaki e monta acampamento para passar a noite. É a vez de Lysander e Agarwen fazerem vigília, no entanto, eles estão distraídos demais pela beleza um do outro. O que acontece quando um Meio-vampiro Bruxo da Lâmina Maldita se apaixona por uma clériga Shadar-Kai da Rainha Corvo?

PS.: Essa fic descreve um romance entre meu personagem Lysander e o da minha amiga Wan, Agarwen. E foi baseada num momento de roleplay in-game. Estou contando aqui o ocorrido sob o ponto de vista de Lysander.

O grupo é formado por Lysander Von Aegir (Dampiro Bruxo da Lâminha Maldita), Agarwen (Shadar-kai Clériga da Rainha Corvo) Kana'in (Humana Paladina Fanática), V (Dampira ladina assassina), Adriel (Caída Feiticeira da Alma Favorecida) e Flecha Veloce (Tiefling Patrulheira).

A BELEZA DE SEUS OLHOS SOMBRIOS

O grupo acabou de sair da Torre do Mago em direção a Vallaki. Há 9 dias estavam presos naquela terra amaldiçoada por um vampiro tirânico chamado Strahd. Na saída da torre, despediram-se de uma companheira, V, que acompanharia Ezmerelda de volta a Krezk enquanto o resto do grupo seguia em frente.

Os dias estavam cada vez mais confusos e caóticos para eles. Sentiam-se como se novas ameaças os cercassem o tempo todo. Seus sonhos eram visitados por criaturas desconhecidas e após o episódio de Adriel, a feiticeira do grupo, Lysander se sentia tenso.

Mas ao menos, a companhia de Agarwen era bem-vinda. Há muito tempo, o meio-vampiro viveu uma vida violenta de crimes e sangue. Havia se convencido de que era um monstro e viveu como tal. Nunca confiou em ninguém além de si próprio e com isso, passou a vida sozinho.

O temido Coração de Rubi, rei do crime de Vilnore, agora sentia o peso de suas escolhas, sentindo-se náufrago em uma ilha perdida. O único alento em seu coração duro era Agarwen.

A shadar-kai foi a primeira companheira que conheceu nesta viagem, antes de chegarem a Barovia. A imagem de seu primeiro encontro ainda permeava seus pensamentos toda vez que encontrava-se divagando sobre sua situação ali. A mulher tinha uma beleza etérea, sombria que o cativava desde o primeiro instante que a vira.

A princípio, pensou se tratar de um elfo, mas havia algo a mais nela. Sua pele era pálida, mas suas formas pareciam atrair as sombras. Ela era alta e esguia. Seus cabelos eram longos e de um lindo vermelho intenso como sangue. Isso por si só já fazia o meio-vampiro salivar. Seus olhos eram completamente escurecidos, de escleras negras e apenas a luz da fogueira revelava a íris cinzenta. O rosto era afinado com as maçãs proeminentes.

Suas vestes pareciam as mais exóticas possível, completamente diferentes das donzelas que Lysander estava acostumado a seduzir nos bailes da alta sociedade que frequentava. Vestia uma couraça de escamas, que emolduravam seu corpo muito bem, com uma saia e botas longas cheias de cintos e fivelas. O nariz e os lábios eram adornados por brincos similares aos que adornavam as orelhas.

Sua aparência era tão exótica e, ao mesmo tempo, tão enigmática que sua curiosidade foi atiçada.

E sim, Lysander já havia flertado várias vezes com Adriel, a tão bela e angelical feiticeira. Houve uma vez em que ele acreditou estar apaixonado por uma mulher que conheceu antes de seu pacto, antes de Barovia. Mas agora, ele estava certo de que nunca desejou mulher alguma em sua vida como Agarwen.

E depois do conflito com o Abade em Krezk e do evento com Adriel na Torre, Lysander ainda recebeu outra visita de "Olhos Roxos", a entidade que atormentava o grupo durante suas horas de sono.

Naquela noite, a criatura o atormentou com uma imagem daquela mulher se jogando para sua morte. Por mais que Lysander soubesse que era algum tipo de sonho, por um instante, ele sentiu um arrepio em sua espinha. Arrepio, logo intensificado pela voz sedutora de Olhos Roxos.

Mais uma vez, oferecendo acordos, troca de favores. Lysander conhecia uma coisa ou outra sobre pactos com entidades que visitam os sonhos de mortais. Conhecia o suficiente para saber que, com exceção de sua senhora, Silmeria, não eram nada confiáveis.

Quando Adriel e Kana'in o acordaram, ele estava tenso, suando apesar do frio constante das terras de Barovia.

Agarwen já estava sentada à beira da fogueira se aquecendo. Ele lembrou-se de que ela concordou em fazer a vigília ao seu lado pelo restante da noite.

A breve conversa que teve com ela ao saírem da torre, revelou uma Agarwen mais estoica e triste do que o normal. Ou pelo menos era a impressão que teve. Ela parecia a mais abalada com a partida de V entre todas as outras.

Lysander sequer percebeu o quanto as duas talvez tenham se tornado unidas ao longo desta semana em que se conheceram. A ladina deixou para ela seu dado viciado, que aparentemente, possuía um valor sentimental enorme.

Caminhando sobre a grama fria, o meio-vampiro sentou-se ao lado da Fey sombria. Ela estava linda, sendo iluminada pela claridade da fogueira. A dança das chamas faziam imagens se moverem por seu belo rosto e seus belos lábios.

Lysander sabia que precisava dizer algo sobre a visita de Olhos Roxos, no entanto, Agarwen era tudo que ocupava sua mente naquele momento. Não conseguia sequer concentrar na vigília, pois Agarwen estava ao seu lado e mexia com seus sentidos de maneira que simplesmente mulher alguma já foi capaz de fazer.

- Sente-se tão preocupado quanto eu, Lysander? - A mulher quebrou o silêncio chamando a atenção do meio-vampiro.

- Com certeza, minha querida. Eu me sinto como um rato num labirinto. Uma peça num tabuleiro, desde que chegamos aqui. E não gosto disso.

- Estranho. Pensei que estivesse acostumado a esse tipo de ambiente, vindo de onde veio. Por tudo que já me disse de Vilnore.

- Sim, mas lá, eu sou um jogador, minha querida. E um excelente jogador, diga-se de passagem. Eu sabia quem estava endividado, quem estava falido, quem tinha amantes, quais mãos eu deveria apertar pra alcançar meus objetivos. Eu nunca fui a peça do tabuleiro e isso… me assusta.

A clériga pareceu ponderar sobre as palavras dele, por um tempo antes de responder:

- Eu também estou assustada e fico feliz que seja meu aliado, Lysander.

Ela referia-se obviamente ao acordo que fizeram quando se conheceram, de que ajudariam um ao outro a permanecerem vivos, fosse qual fosse a adversidade que se colocasse no seu caminho.

Lysander ainda tinha receio de que ela se afastasse dele, devido ao seu medo de vampiros. Agarwen já foi prisioneira de um vampiro que a torturou e isso fazia seu ódio arder. Queria atravessar o coração do maldito com sua espada e ofertar sua cabeça a Agarwen como um prêmio, mas não antes de colocá-lo de joelhos diante dela, implorando por perdão.

- Ainda têm medo de mim? - Ele perguntou instintivamente, temendo a resposta.

A lembrança do pavor no rosto dela, quando pediu ajuda a ela para saciar sua sede, ainda assombrava seus pensamentos. Lysander não fazia ideia, naquele momento, de que ela tinha tanto pavor da ideia de ser mordida.

Tolo. Ela havia dito a ele que um vampiro a torturou e roubou suas memórias… o que ele esperava? Ele ainda presenciara a mágoa no olhar dela quando descobriu o que ele era e que ele tinha escondido isso dela o tempo todo.

No entanto, que escolha teria? Nenhuma das outras aceitariam doar seu sangue para ele. E no fundo, ele não queria o sangue de ninguém além do dela.

Destino cruel. O sabor dela deveria ser delicioso.

E apesar de ter dito a ela que ela tinha a liberdade de dizer não, sentiu seu coração rasgar um pouco quando ela se recusou.

- Não, Lysander. Eu não tenho medo de você.

- Eu nunca quis magoá-la por esconder minha verdadeira natureza, minha querida.

- Está tudo bem, Lysander. Eu não o culpo. E eu entendo porque teve de fazê-lo.

- Nada de bom vem de revelar minha verdadeira natureza. - Lysander pronunciou com pesar.

- Eu imagino… desde que você me disse o que houve com você.

Ela não tinha medo dele. Era um alívio saber.

- Lembra-se da minha despedida de V?

- Sim. Confesso que foi a conversa mais estranha e desconexa que já ouvi.

Ela sorriu. Algo raro de se ver. Mas que Lysander esperava ver mais vezes.

- Aquilo chama-se "gíria de ladrão". É uma espécie de dialeto, usado por criminosos para se comunicarem em segurança entre as pessoas normais.

- E onde você aprendeu?

- Lembra-se do que eu falei, quando minha mãe morreu?

- Eu me lembro. Você era muito jovem, não é?

- Sim. Uma criança. E como uma criança vivendo sozinho eu tive de fazer o que foi necessário para sobreviver, eu imagino que possa entender.

Ele pausou seu discurso por um momento, pensando em como contaria para ela o que estava prestes a revelar.

- Sabe, eu não me lembro do meu verdadeiro sobrenome. Eu criei o nome Von Aegir para me misturar à elite de Vilnore. Mas meu passado antes daqui não é bonito, Agarwen. O nome Von Aegir era pronunciado com admiração pela elite de Vilnore, mas para a escória de Vilnore, eu era "Coração de Rubi". O maior líder de uma guilda de criminosos da cidade. Foi como eu fiz minha fortuna.

Ele parecia ter chamado a atenção dela. Seu coração palpitava imaginando o que ela pensaria dele se soubesse, mas seu instinto dizia que ela precisava saber de tudo. E naquele momento, ele sentiu que precisava ser honesto com ela. Não podia mais ter segredos e se esperava que ela confiasse nele, precisava que ela soubesse exatamente que tipo de pessoa ele era..

- E qual é o porquê desse nome? - Ela perguntou, aparentemente, não abalada por saber de seu passado sombrio, mas mais intrigada por sua alcunha como senhor do crime.

- Foi o nome que me deram. Diziam que meu coração era vermelho como o de qualquer um, mas duro como um Rubi.

- Vampiros gostam de uma pompa aparentemente. - Ela brincou.

- E teatralidade. - Lysander respondeu admirando o sorriso dela.

- E drama.

Lysander riu um pouco mais alto do que vinha sorrindo desde então. Mas não alto o suficiente para acordar as outras. Ele estava apreciando demais a companhia de Agarwen e não queria ser interrompido.

- Ainda confia em mim, minha querida?

- Você nunca me deu motivos para não confiar.

- Fico feliz em saber que você não tem medo de mim, minha querida. Eu prometo que jamais farei com você o que aquele maldito fez. E eu prometo que ajudarei você a recuperar suas memórias… nem que tenha de destruir o maldito vampiro que a aprisionou.

- E se esse vampiro for Strahd?

- Eu o destruirei também.

- Ele é poderoso demais, Lysander. Muito mais do que nós.

- Ele é. Mas ele não é mais poderoso do que nossas senhoras.

- Eu espero que esteja certo, Lysander. Eu não fui capaz de subjugar o vampiro da primeira vez.

- Eu vou protegê-la daquele desgraçado. Embora eu tenha dificuldade em ver você precisando de minha ajuda.

- Bem, você sabe o que eu precisei fazer para me livrar dele da primeira vez, não sabe?

Sim, ele sabia. E isso só fazia seu sangue esquentar mais, com ódio pelo desgraçado que ousou fazê-la sofrer. Seu maxilar tensionou para segurar a vontade de rosnar de ódio. Seu lado vampírico era um lado animalesco e territorial às vezes.

Naquele momento, ele levou o braço ao redor dos ombros de Agarwen, cobrindo-a com sua capa e sentou-se mais perto dela.

Se ela teve qualquer reação à aproximação dele, não demonstrou, mas logo depois, ela olhou para ele com toda a intensidade daqueles olhos sombrios como a vastidão do cosmo, completamente desprovido de brilho de estrelas, mas ainda assim, os olhos mais cativantes que Lysander já viu.

Combinava com a escuridão dentro dele, Lysander pensou.

- Eu nunca vou traí-la, Agarwen.

- Obrigada, Lysander.

De repente, os olhos de Lysander brilharam, suas pupilas adquiriram um tom avermelhado que Agarwen só viu uma vez. No dia em que ele pediu para beber seu sangue. Lysander sabia o que ela via naquele momento, ele pensou ter notado uma expressão exasperada em seu belo rosto.

- O que foi?

- É a primeira vez que reparo tão de perto em seus olhos, minha querida.

- E o que tem os meus olhos?

- São belos.

- Normalmente, as pessoas acham meus olhos intimidantes...

- Eu os acho cativantes.

Ela ficou muda, encarando-o por um breve momento, sem responder. Ele tremeu, pensando que ela se afastaria dele, até que ela disse:

- Não sei como responder a isso…

- Nunca foi cortejada antes, minha querida?

- Não seria capaz de me lembrar…

Lysander também emudeceu por um instante, tomado por um imenso instinto protetor e uma quase incontrolável vontade de estraçalhar o maldito vampiro.

- É um crime imperdoável tirar tais lembranças de uma mulher. Mas espero que você nunca se esqueça deste momento.

Lysander se inclinou e a beijou de repente. Ela não pareceu resistir, mas foi tomada de súbito pelo inesperado ato. Levou alguns segundos para que retribuísse o beijo do meio-vampiro e levasse a mão ao rosto dele, antes de finalmente separar seus lábios.

Ele segurou sua mão que tocava seu rosto, olhando-a nos olhos e exercendo todo seu autocontrole para não beijá-la novamente. Esperando que ela o afastasse ainda. Mas ela simplesmente perguntou:

- Desde quando…?

- Desde que a vi pela primeira vez.

Agarwen suspirou e admirou o rosto dele por alguns segundos antes de responder:

- Sem os dentes.

E jogou-se sobre ele, num beijo avassalador. Lysander caiu de costas sobre a grama fria, envolvendo-a em sua capa, à medida em que ela subia sobre seu corpo, com as mãos no seu rosto.

As mãos dele desceram de suas costas para sua cintura e o beijo se prolongou por uma eternidade.

Instintivamente, eles rolaram na grama e Lysander levou os lábios ao pescoço dela. Isso foi o suficiente para fazê-la arrepiar mais do que o ar frio de Barovia era capaz. Que vontade insana ele tinha de cravar as presas nela, bem ali, no pescoço sinuoso e mostrar a ela o quão prazeroso era o verdadeiro beijo do vampiro.

Mas ela disse claramente: "Sem os dentes". E ele prometeu que jamais a machucaria ou trairia sua confiança novamente. A amava demais para isso e no fim, apenas a acariciou com os lábios, arrancando suspiros intensos da Fey sombria.

- Gostaria de tirar suas roupas agora, minha querida.

- Tenha paciência, Lysander… em Vallaki finalmente poderemos nos acomodar em uma taverna…

Sim, paciência era uma virtude agora. A mais difícil de se exercitar, mas necessária. Embora não fosse dado a pudores, Lysander não queria fazer amor com Agarwen ali, onde uma das outras poderia acordar e pegá-los no ato. A visão do corpo dessa mulher, a partir de hoje deveria ser sua e sua apenas.

- Pediremos um quarto só para nós, minha querida… Com uma cama de casal…

- Oh, sim…

Por dias, o grupo inteiro sonhou com o conforto de uma taverna onde pudessem beber descontraídos e dormir aconchegantemente. Mesmo após o Burgomestre de Krezk ceder-lhes uma casa e a família que eles salvaram no vinhedo ter lhes cedido um barril de vinho como pagamento, nada parecia ser mais atraente do que o calor de uma taverna.

E agora, Lysander tinha mais um motivo para ansiar por uma taverna do que tinha antes: Agarwen.

- Vamos aproveitar o pouco tempo que temos antes do amanhecer, então. Logo Flecha e as outras acordarão.

A resposta de Agarwen foi puxá-lo para mais um beijo.

Fim…